2 de outubro de 2008

Bungavílias para a menina de Benguela (Orlando Albuquerque)

BUNGAVÍLIAS PARA A MENINA DE BENGUELA (para a sua esposa, Alda Lara) Trago em meus braços ramadas de buganvílias vermelhas para a última morada da que foi a Menina de Benguela e se está tornando a Menina de Angola. Bem sei que os ramos de buganvílias têm espinhos, que laceram a carne fundo. Mas nem por isso, ou talvez por isso mesmo, poderei deixar de trazer estas buganvílias vermelhas, de que tanto gostavas... Vermelhas como o sangue que os nossos corações têm chorado... Vermelhas como o sangue que a inveja (até depois da morte a inveja não te deixa) está fazendo brotar da nossa tristeza... Menina de Benguela toda sonho e ternura... Sonho que uma manhã tropical cortou cerce, como uma flor arrancada violentamente de uma haste... Aceita estas buganvílias vermelhas, que te trago num momento de desespero e de revolta. Revolta contra o destino... Revolta contra a vida... Revolta contra a inveja... Não mais poderei estar ausente, quando a tua lembrança clamar por uma presença nas primeiras linhas... Seria cobardia fugir. E eu não quero ser cobarde. Aqui estou, pois, com este ramo de buganvílias e de coração sangrado pelos espinhos. Mas estou! E o que é preciso é estar. Que as buganvílias se tornem no símbolo do teu querer e do teu sonho... Que os espinhos me lacerem, quanto mais as aperto contra o peito. Mas que importa?... Que importa o desespero, a raiva, se somos?... Se trazemos até ti este punhado de buganvílias, de que tu tanto gostavas? E eu aqui estou... Que nesta noite de tristura o vivo das flores seja uma nota de coragem. Agora, mais do que nunca, a coragem é necessária. A coragem de sermos... A coragem de estarmos... A coragem de trazermos nos braços, rasgados pelos espinhos, um braçado de buganvílias... Buganvílias para ti... Buganvílias para a Menina de Benguela, para a Menina de Angola, toda sonho, coragem e ternura... Aqui te deixo a Esperança nas flores que te trago... A Esperança que nunca faltou no teu coração... Adeus, Menina de Benguela... Menina de Angola... Adeus... Até sempre!... Orlando de Albuquerque