6 de outubro de 2008

Mãe (José Craveirinha)

Mãe Minha Mãe: Trago a resina das velhas árvores da floresta nas minhas veias. E a sina de nascença no meio das baladas à volta da fogueira tu sabes como é sempre uma dor nova sabes ou não sabes, minha Mãe? Sabes ou não sabes o mistério de olhos inflamados de macho que um dia encontraste no teu caminho de tombasana de pés descalços? Sabes ou não sabes, Mãe a resina das velhas árvores plantadas pelos espíritos as blasfémias dos mortos salgando as raízes virgens e as grandes luas de ansiedade esticando as peles dos tambores enraivecidos e dando às folhas das palmeiras o brilho incandescente das catanas nuas? E no sabor do encantamento, Mãe dos nossos desenfeitiçados feitiços ancestrais o exorcismo ingénuo das tuas missangas o maravilhoso mecheu das tuas canções e o segredo do teu corpo possuído mas de materno sangue inviolável donde a minha sina nasceu. No espaço da tua sepultura de negra sabes ou não sabes a verdade agora sabes ou não sabes minha Mãe? José Craveirinha