14 de dezembro de 2008

Projecção Internacional da Comunidade de Sant'Egídio no Mundo (Madalena Moita)

PROJECÇÃO INTERNACIONAL DA COMUNIDADE DE SANT'EGÍDIO NO MUNDO Madalena Moita A enorme estrutura que sustenta a Igreja Católica permitiu-lhe ocupar um lugar privilegiado na promoção da paz, nomeadamente, quando esta é entendida não como a mera ausência da violência, mas quando se associa a um desenvolvimento social, económico e cultural dos indivíduos. Nos anos 60, a figura do Papa João XXIII, promotor do Concílio do Vaticano II e autor da encíclica Pacem in Terris, e do seu sucessor Paulo VI acentuaram o compromisso da Igreja com a paz. O Concílio, que se realizou entre 1962 e 1965, assinalou a grande viragem na relação da Igreja Católica com o mundo, estabelecendo novas linhas de acção assentes, fundamentalmente, na igualdade de todos os homens, na solidariedade com os mais necessitados e na primazia da Palavra de Deus. Das decisões do Concílio derivaram vários instrumentos importantes para a promoção da paz, designadamente, a criação de Comissões de Justiça e Paz, com o objectivo de “estimular a comunidade católica para promover o desenvolvimento dos países pobres e a justiça social internacional” (1).
Na Cúria Romana foi assim integrado o Conselho Pontifício Justiça e Paz, que ainda hoje organiza programas sobre o controlo de armas ligeiras, a abolição de minas anti-pessoal ou o perdão da dívida aos países do Terceiro Mundo. Muitas figuras da hierarquia católica aproveitaram também a sua visibilidade internacional para exercerem o que se chama de “diplomacia de consciência”. Um bom exemplo é o do Papa João Paulo II, que fez questão em insistir na internacionalização do Papado, com viagens frequentes a Estados fragilizados no quadro geopolítico. Mas é também o caso de Dom Samuel Ruiz de Chiapas, que chamou a atenção para os direitos dos indígenas, sendo mais tarde chamado a mediar as negociações entre zapatistas e o governo mexicano; do bispo Ximenes Belo, que atraiu o mundo para a causa maubere, tendo sido galardoado com o Prémio Nobel da Paz juntamente com Ramos Horta; ou dos bispos guatemaltecos, que desempenharam um papel essencial de incentivo às negociações internas e de defesa dos direitos humanos. Habituados ao contacto com as populações, os homens da Igreja são, muitas vezes, persistentes e criativos, com uma enorme capacidade de resolverem problemas, mesmo com poucos recursos. A Igreja Católica goza de uma forte estrutura e de um enorme apoio internacional assente na sua autoridade moral, factores que favorecem a sua proximidade e trabalho com os mais desfavorecidos, ao contrário das instituições civis, que muitas vezes não têm capacidade financeira ou logística, ou estão dependentes de interesses políticos e económicos de quem as sustenta, pelo que não têm tanta liberdade de acção. Pela capacidade de criar redes de solidariedade entre comunidades, de ajudar na construção de instituições locais, como escolas e hospitais, a Igreja é mais eficaz na construção da paz, pelo combate às causas estruturais dos conflitos, mas menos útil na resolução directa das contendas. Ainda assim, pequenos grupos ligados à Igreja conseguem assegurar um lugar privilegiado naquilo que se designa como multi-trackdiplomacy, acompanhando a diplomacia tradicional com soluções criativas e informais pela maior proximidade com as populações. A Comunidade de Sant’Egídio escreveu a história de um desses casos em que membros da Igreja Católica foram bem sucedidos na resolução de um conflito. A Comunidade de Sant’Egídio Em 1968, num ano muito peculiar de forte mobilização estudantil, um grupo de alunos do Liceo Virgílio di Roma decide fundar uma organização cristã voluntária de solidariedade, onde pudessem partilhar, mas também pôr em prática o Evangelho, pelo combate à miséria. A liderar o grupo, o jovem Andrea Riccardi, incentivado pela abertura da Igreja na década de 60 e inspirado no exemplo e percurso de São Francisco de Assis, acredita na oração como momento de comunhão e diálogo entre todos os homens. Destas influências nascem as raízes da vontade de proximidade com os mais desprotegidos, e de convivência com outros povos e religiões. Sant’Egídio assume assim a sua essência romana, sendo Roma a capital da Igreja Católica, mas também centro privilegiado de encontro com outras confissões; assim como a sua veia mediterrânea, que a aproxima igualmente de outros povos e credos. De início, o grupo de estudantes visita os bairros populares de Roma, onde começa por dar apoio escolar às crianças mais necessitadas. Com o desígnio de ajudar os desfavorecidos, a Comunidade de Sant’Egídio deixa-se adoptar por Trastevere, o bairro popular romano do lado de lá do rio, do lado de lá da Roma capital da Itália próspera. Trastevere, historicamente bairro de judeus e estrangeiros, alberga ainda hoje significativos grupos marginais da sociedade: pobres, ciganos, toxicodependentes, sem abrigo. Todos se habituaram a ser bem recebidos na Basílica de Santa Maria in Trastevere e no antigo convento carmelita que lhe é vizinho, onde se fixou a sede da Comunidade. O pároco da Basílica é Don Matteo Zuppi: desde 1971 membro da Comunidade, também ele antigo aluno do Liceo, ocupa um dos lugares de maior relevância no seio de Sant’Egídio. A devoção religiosa e a vontade de trabalho levou, nos anos 80, a Comunidade a partir mundo fora: hoje tem mais de 40.000 membros e 300 grupos locais espalhados por toda a Itália, mas que se alargaram aos vários continentes, de Moçambique a Nova Iorque, de Salvador à Indonésia. Da Comunidade depende uma ONG que tem projectos de cooperação e desenvolvimento com os países africanos e latino-americanos – Amigos no Mundo (Amici nel Mondo); e uma Fundação pela Paz, que coordena os esforços no domínio da resolução de conflitos. Sant’Egídio no mundo O ecumenismo foi um dos pontos de partida do trabalho internacional da Comunidade, cuja primeira consecução foi o encontro entre o Patriarca católico grego Maximos V. Hakim e o líder druzo (uma das facções muçulmanas) Walid Jumblatt do Líbano. Membros de Sant’Egídio conseguiram reunir estes dois líderes religiosos libaneses para discutir a importância dos últimos pontos de convívio entre as duas religiões no Líbano, as aldeias cristãs do Chouf. Em África, o apelo humanitário levou a Comunidade a estender o seu compromisso com os mais pobres a outros continentes, facilitando as necessidades mais básicas a povos da Namíbia, da Etiópia, da Eritreia ou do Sul do Sudão. É por via deste envolvimento voluntário com a pobreza extrema em África que a Comunidade se apercebe de que todo o trabalho é vão onde a guerra está presente. Em Moçambique, Sant’Egídio via o seu trabalho diário ser travado por um conflito político que afectava transversalmente toda a sociedade, impedindo qualquer esforço de melhoria das condições de vida da população moçambicana. A guerra civil fragilizava um país já de si depauperado por anos de guerra colonial e por acidentes naturais que teimavam em destruir as expectativas dos moçambicanos. As crianças trocavam os livros por armas, os homens desaprendiam os seus ofícios para se dedicarem ao conflito, toda a economia girava em torno da guerra. A morte, no terreno, de dois dos seus membros terá acentuado a vontade da Comunidade de mudar o rumo da guerra civil que arrasava o país. A profunda integração no terreno e o contacto directo com os envolvidos permitiu a Sant’Egídio desenvolver laços de confiança com ambas as partes em conflito, primeiro passo essencial para o diálogo que entre elas conseguiu estabelecer. O caso bem sucedido da mediação do processo de paz em Moçambique marcou definitivamente o lugar da Comunidade no campo da diplomacia não convencional, dando-lhe uma imensa visibilidade internacional. (Ver texto sobre o caso particular da mediação da paz em Moçambique). Findo o caso moçambicano – com a assinatura do Acordo de Paz entre a RENAMO e a FRELIMO, em 1992 – durante o encontro inter-religioso em Assis, foi pedido à Comunidade de Sant’Egídio auxílio na crise política argelina. A Comunidade chega à Argélia com a certeza da necessidade de reconhecer e estabelecer contacto com os dois antagonistas em conflito: o governo e os grupos extremistas islâmicos. Era urgente voltar a circunscrever o confronto ao campo político e fazer as partes largar as armas e retomar o diálogo. A 13 de Janeiro de 1995 é assinada a Plataforma de Roma, resultado da reunião de membros da Frente de Libertação Nacional (FLN) com vários elementos da oposição argelina, como a Frente Islâmica de Salvação (FIS) e a Frente das Forças Socialistas (FFS), mas também partidos políticos menores e diversas personalidades argelinas. O conflito na Argélia não está terminado; o governo não aceitou a Plataforma e até foi o FIS quem mais se comprometeu com a via política, declarando o cessar-fogo unilateral. No entanto, a Plataforma de Roma é, ainda hoje, o documento mais avançado no caminho da paz, servindo de base fundamental para um futuro consenso político. A presença da Comunidade na América Latina trouxe também bons frutos, nomeadamente, com a ajuda no processo de paz da Guatemala. A mediação entre o governo e a União Revolucionária Nacional da Guatemala (URNG) estava nas mãos das Nações Unidas. Contudo, o processo tinha bloqueado na definição de prioridades e estava parado havia mais de um ano. A Comunidade de Sant’Egídio promoveu em São Salvador encontros secretos e informais entre as duas partes em conflito, limitando-se a criar um ambiente de confiança, propício ao diálogo entre ambas. Estes encontros tornaram possível retomar as negociações oficiais sob os auspícios da ONU e, em Dezembro de 1996, assinar o Acordo de Paz na Cidade do México. Também na Europa, onde os confrontos inter-religiosos vieram perturbar a tranquilidade do Velho Continente, a contribuição de Sant’Egídio para a resolução pacífica de conflitos foi precisa. Ao fim de um ano de trabalho, a Comunidade conseguiu juntar o líder dos albaneses do Kosovo, Dr. Ibrahim Rugova, e o presidente jugoslavo, Slobodan Milosevic, para a assinatura do acordo, em Março de 1998, que permitiu a reabertura das escolas e universidades às crianças e adolescentes de origem albanesa, depois de cinco anos de marginalização. Mas a guerra, em 1999, deitou por terra os esforços de pacificação entre as duas comunidades. Contudo, este esforço pela normalização do sistema educativo veio consumar a já proveitosa presença da Comunidade nos Balcãs, onde garantia, como ainda hoje, condições sociais mínimas às populações, facilitando a convivência das diferentes comunidades étnicas. Estes são apenas – ficando por referir muitos outros – alguns dos exemplos que comprovam o êxito do compromisso de Sant’Egídio com as causas humanitárias e com a não-violência na resolução de conflitos. A extraordinária tolerância e o empenho na promoção do diálogo garantiram à Comunidade um papel político, ainda que o propósito inicial passasse meramente pela preocupação com os que mais sofrem e a vontade de os servir. Por maior que seja o empenho nas questões da paz, a Comunidade conhece as suas limitações e soube desde cedo pedir reforços a instituições de cariz diferente que pudessem complementar o seu trabalho nas áreas em que é menos eficaz. Sant’Egídio gosta, assim, de promover uma sinergia de esforços entre os meios informais de diplomacia de que dispõe – que possibilitam maior proximidade e confiança com as partes em conflito – com os meios tradicionais, capazes de assegurar garantias políticas, financeiras, de segurança ou logísticas que a comunidade já não pode afiançar. A capacidade de apelar ao auxílio de outras entidades é, com efeito, um dos segredos do êxito da Comunidade italiana. As “Nações Unidas de Trastevere”, como ficou conhecida a Comunidade de Sant’Egídio, ganhou vários prémios de reconhecimento pelo enorme esforço pela paz e pela ajuda humanitária, dos quais devemos sublinhar o Prémio da Paz Félix Houphouët-Boigny, da UNESCO, atribuído, em 1999, à Comunidade; a Medalha Gandhi, também da UNESCO, entregue a Andrea Riccardi e a Vincenzo Paglia no mesmo ano; e a candidatura ao Prémio Nobel da Paz feita pelo Parlamento Italiano em 2002. _______ (1) Concilio Vaticano II Gaudium et Spes n.º 90.