12 de abril de 2009

África do Sul: Os novos artistas devem exaltar africanidade (Hugh Masekela)

(Hugh Masekela)
Os novos artistas devem exaltar africanidade O conceituado artista sul-africano, Hugh Masekela, reiterou a necessidade de a nova geração de artistas em todo o continente exaltar a africanidade na música, retratando diversidade de realidades africanas ainda não descobertas, ao invés de se limitar a imitar mal os sons do Ocidente. Masekela, figura lendária do jazz sul-africano, destacou esta necessidade, sexta-feira, em Maputo, na conferência de imprensa que antecedeu o primeiro dia de exibições de várias estrelas na II Edição do Moçambique Jazz Festival, um autêntico convívio e desfile de artistas. Segundo o astro sul-africano, com vários anos de careira e cerca de 30 discos já editados, os aspirantes ou músicos africanos emergentes limitam-se a imitar os sons importados de países ocidentais, aspecto que não só lhes retira o brio e respeito como artistas, bem como contribui para a perda de identidade artística africana. “Passei muitos anos fora do continente africano a estudar, assim como em digressões por esse mundo fora, e confesso que aprendi coisas interessantes dos artistas com quem pude interagir nesses países, em relação a exaltação e valorização da sua cultura”, explicou o ícone da música sul-africana. Masekela, 70 anos de idade, apontou, a título de exemplo, a cultura do povo indiano que em todo o planeta é conhecida pelo sari na indumentária, a pausa característica dos temas artístico-musicais e outras formas de manifestação de identidade que nunca faltam nas composições dos seus fazedores da arte musical. Os Estados Unidos da América (EUA), por exemplo, são mais conhecidos, no panorama artístico, pela mistura de sons que espelham a confluência de diversas culturas que para lá se foram fixar após o época dos descobrimentos, altura em que se destacaram os grandes navegadores, bem como a escravatura que também levou novas culturas para aquele país. Africa, continua saciada de realidades que podem, muito bem, ser exploradas pelos novos astros da música, não só para se afirmarem, assim como melhor identificar o continente e, acima de tudo, granjear o respeito dos povos que ainda desconhecem a face artística. Questionado, desta feita, sobre as realidades que as suas composições musicais procuram retratar, Masekela apontou a imensidão de realidades negativas que ainda atormentam o continente, entre elas a fome e a miséria, o sofrimento dos povos, as guerras e conflitos violentos, as vezes entre povos irmãos, amor e paz, bem como a ignorância. A ignorância, segundo Masekela, é a mãe de todas as formas de sofrimento em a Africa continua mergulhada e, enquanto ela continuar altamente presente, as manifestações de dor, ódio, falta de amor ao próximo entre outras qualidades malignas continuarão a segregar os povos. O artista, apontou, a título exemplificativo, o caso de uma criança com apenas cinco meses de vida que foi sexualmente violada por um indivíduo adulto, porque acreditava que desta forma livrar-se-ia do vírus HIV responsável pela SIDA. “Só um indivíduo ignorante pode acreditar que esta terapia poderá resultar, porque todos nós sabemos que isso não pode ser verdade”, disse Masekela. As suas composições, segundo afirma, são bastas vezes fruto de uma inspiração espiritual que ele próprio desconhece a sua proveniência. Mas sempre tal coisa acontece, ele trata de compor o tema e muitas vezes os que ouvem perguntam quando é que ele fez o trabalho ao que responde: “silêncio, porque o espírito está ainda a interiorizar em mim o novo tema”. Entre os seus trabalhos discográficos mais famosos destaca-se “Trumpet Africaine Mercury Records”, editado em 1960; “Home Is Where the Music Is Chisa Records”, editado em 1972; “Masekela: Introducing Hedzoleh Soundz” em 1973; “I Am Not Afraid Chisa Records” em 1974; “The Emancipation of Hugh Masekela Chisa Records” o mais recente entre vários outros. In: O País,12 Abril 2009