24 de abril de 2009

“ALUPEC está a dividir Barlavento e Sotavento” (Tito Paris)

“ALUPEC está a dividir Barlavento e Sotavento” Tito Paris é, sem dúvida, uma das mais destacadas figuras da cultura Cabo-verdiana, quer no país, quer internacionalmente. Por isso, não é de admirar todas as expectativas criadas à volta dos concertos dados pelo artista no Mindelo (São Vicente) e na Praia, acompanhado da Orquestra Metropolitana de Lisboa (Portugal). Também não é de admirar que lhe tenha sido proposto criar a Orquestra Nacional. Nesta conversa com o Jornal A NAÇÃO, Tito Paris - igual a si próprio -, diz que Manuel Veiga é um homem “simpático”, mas que não concorda com a sua Política Cultural, fala da nova geração de músicos cabo-verdianos e deixa a receita para o sucesso: amor à música trabalho, disciplina e mais trabalho. E alerta: “ALUPEC está a dividir o Barlavento e o Sotavento”. A NAÇÃO - Tito Paris acompanhado pela Orquestra Metropolitana de Lisboa(OML). É a realização de um sonho? Tito Paris - Antes de mais, esta não é a OML. É uma Orquestra! É um sonho de há muito, muito tempo. Como sabe, em Cabo Verde temos um problema grave: tudo aquilo que é bom, nós desprezamos. Hoje, muita gente deve estar arrependida por não terem apoiado este projecto. Este é um projecto sério, de música de Cabo Verde com outra sonoridade, com outros arranjos, com outra dimensão. É sem dúvida um sonho realizado. Fiz em S. Vicente dois grandes concertos, totalmente lotados. Infelizmente na Praia vai ser apenas um concerto. Tem pena não poder dar um concerto ao ar livre na Praia, como deu no Mindelo? Muita pena. Muita pena mesmo, porque há pessoas que querem e podem comprar um bilhete de dois ou três mil escudos mas não podem ir porque o concerto é privado e os lugares já estão lotados. Mas eu hei de voltar com esta orquestra para Santiago, pois é uma ilha que tenho no meu coração, e pela qual tenho um grande amor, onde tenho grades amigos e onde me sinto em casa. Por isso, gostaria de fazer um concerto aberto para todo o público ter acesso a esse projecto inovador. Como Músico, porque é que insistiu tanto na ideia de trazer uma orquestra? O que é que a música cabo-verdiana ganha tocada por uma orquestra? A música cabo-verdiana em si já tem vertentes de música clássica. Temos os nossos clássicos na morna, morna sambado, na coladeira, no funaná. A música cabo-verdiana acasala perfeitamente com os clássicos ocidentais. Este entrosamento pode ser visto no resultado deste projecto, que tem mais de vinte anos. Espero que projectos do género de outros artistas se possam também concretizar. PROJECTOS EM CARTEIRA Para o futuro, que projectos tem, e com que artistas gostaria trabalhar? Com vários artistas. Nós temos grandes artistas aqui nas ilhas e pelo mundo fora. Não vou citar nomes, porque temos muitos jovens talentosos. Mas, tenho projectos que nunca mais acabam. Como músico que vive no exterior, como vê a música de Cabo Verde? A nova geração de artistas, Princesito, Vadu, Tcheka… Estão a fazer um bom trabalho. Gosto muito de Princesito, escreve muito bem, sabe o que quer, é extremamente inteligente, conhece muito bem o seu povo…não só o de Santiago mas de todo Cabo Verde e somos grandes amigos. Vadu, gosto do trabalho dele, quase na mesma linha do que o Princesito mas noutra escala. Tcheka já é totalmente diferente. Tem uma linguagem musical completamente diferente e única. Gosto muito… …de Hernâni Almeida? É um excelente músico, é um dos maiores guitarristas de Cabo Verde. Esta é a minha opinião. E na guitarra temos ainda o Voginha, o Bau, o Kim Alves, o Caco, o Paulino Vieira que é um exímio guitarrista…estamos muito bem servidos… “É TEMPO DE DIZER UM BASTA!” O que Cabo Verde pode fazer para homenagear, devidamente, um músico como Paulino Vieira? Cabo Verde tem de ter mais cuidado, mais atenção com os seus artistas, é como uma mãe que olha pelos seus filhos… e isso não pode continuar. Digo isso com todo o respeito que tenho pelo nosso Ministério da Cultura, pelo ministro Manuel Veiga, com quem tive já várias oportunidades de conversar. O Dr. Manuel Veiga é um senhor muito simpático, mas, para ser franco, não gosto muito da Política Cultural dele. Com todo o respeito! É melhor cuidar daquilo que nós temos visível e que dá muita alegrias ao país, em vez de tratarmos daquilo que é impossível. É impossível o ALUPEC… vai ser impossível, num certo sentido, porque esta questão está, de certo modo, a dividir o Barlavento e o Sotavento. Devíamos parar com esta questão, o senhor Primeiro-Ministro deveria pensar nisso, tanto o Presidente da Assembleia Nacional, como o Presidente da República, deveriam intervir para dizer basta. O Povo cabo-verdiano já tem a sua própria Cultura, sua própria identidade que é a música e a criatividade. Barlavento tem a sua Cultura, Sotavento tem a sua Cultura, e é disso que o Ministério deveria cuidar. Cidade Velha é uma boa aposta, deve ser uma prioridade na Política Cultural do Governo e do Ministério, eu apoio. O ALUPEC não; não o apoio. Há pouco menos de um mês, aconteceu na Praia, o Kriol Jazz. Como vê o nascimento de um Festival de Jazz em Cabo Verde? No futuro, é possível ver o Tito Paris entre os artistas convidados? Sim…acho que sim. Não toco jazz, mas não quer dizer que a minha música não tenha um lugar no Kriol Jazz. Já participei no festival de Jazz em Montreal, que é um festival mundialmente conhecido, estive num festival de jazz na Suissa, em Amesterdão na Holanda, enfim, acredito que aqui também possa ter lugar…a não ser que acreditem que eu não tenha certas linguagens na guitarra para integrar um projectos desses. Mas gostaria. É bom que exista um projecto tão bom para Cabo Verde, pena que só agora, mas mais vale tarde do que nunca. CIDADE VELHA ESPALHA ENERGIA Percorreu a Cidade Velha nesta sua estada em Cabo Verde. Que significado, que carga simbólica tem essa visita para si? Cidade Velha tem uma grande energia para qualquer cabo-verdiano, uma energia positiva. Cabo Verde nasceu ali. Tenho orgulho que seja a primeira cidade lusófona a nascer em África e fora de Portugal. É uma grande inspiração…é o mesmo significado que tem para um católico uma ida a Fátima. Não é uma cidade especial apenas para os Santiagueses, é uma cidade especial para todos os cabo-verdianos. Não é qualquer artista que consegue o feito de ter uma Orquestra a acompanhá-lo. Que conselhos, dicas, dá aos artistas cabo-verdianos para chegar ao seu nível, para ter tanta credibilidade e a carreira de sucesso que tem tido? O que eu digo aos meus queridos colegas e amigos da música é, em primeiro lugar, que é importante a disciplina e o trabalho contínuo e árduo. Já estou há quase dois meses a ensaiar com a orquestra. O nosso ensaio começa às dez da manhã e vai até à uma da tarde. Um descanso para almoçar e recomeçamos às duas horas e meia par continuar até às sete da noite. Uma rotina contínua, sem falhas, todos os dias durante dois meses. Aqui em Cabo Verde quando um artista vem sozinho, sem a banda, combina com músicos para ensaiar, e se marcar um ensaio para as três da tarde todos dizem que é muito cedo, imagina se for às dez da manhã. Em Cabo Verde já marquei ensaios em que não apareceu ninguém. É triste. Tudo isso para dizer que quem escolher a música como a sua vida tem que se dedicar a ela com seriedade, tem que fazer música com responsabilidade e empenho. Disciplina acima de tudo. Um músico nunca diz: “não posso ensaiar agora porque tenho outra coisa para fazer”. Nunca. Então não toque, não faça música. Deixe o seu lugar para outra pessoa, assim dá-se a prioridade de tocar a outra pessoa. A minha vida é só música. Passo a vida a ensaiar, com concertos marcados ou sem concerto. Em Lisboa, eu e a minha banda, ensaiamos logo após o almoço. Ensaiamos três vezes por semana. Isso é importante para a qualidade da música que se faz.
Abraão Vicente Jornal a Nação, 24 de Abril de 2009