24 de abril de 2009

Cabo Verde: "Ter duas línguas oficiais é demasiado para pequeno país", defende Ondina Ferreira

"Ter duas línguas oficiais é demasiado para pequeno país", defende Ondina Ferreira Cidade da Praia, 24 Abr (Lusa) - A escritora e professora cabo-verdiana Ondina Ferreira considera que pode ser "demasiado" para Cabo Verde ter duas línguas oficiais, o Português e o Cabo-Verdiano", um dos temas polémicos da revisão constitucional marcada para este ano. Ondina Ferreira falava, quarta-feira, durante uma conferência realizada pelo Grupo Parlamentar do Movimento para a Democracia (MpD, oposição) em preparação da revisão da Constituição da República, cuja discussão, prevista para Maio próximo, vai ser adiada para Julho ou Agosto. "Eu tenho dúvidas sobre se não será demasiado para um pequeno país como o nosso ter duas línguas oficiais. Acho que num país com graves carências, como Cabo Verde, passar, por força de lei, a haver duas línguas oficiais pode ser demasiado", explicou. Afirmando que não é contra a oficialização do crioulo, a escritora, que já foi ministra da Cultura e tutela da Comunicação Social durante o governo do MpD (1991/2001) e vice-presidente da Assembleia Nacional, explicou que caso seja tomada a decisão de oficializar, terá de haver "critérios rígidos" no ensino das duas línguas. "Pode ser que, quando tivermos as duas línguas oficiais, possa haver um prejuízo do ensino do Português. Acho que pode haver um exagero em ter duas línguas oficiais. A Nigéria tem apenas uma língua escrita, que é o Inglês, e o Senegal apenas o Francês apesar das várias línguas faladas", exemplificou Ondina Ferreira. Outro conferencista presente, o reitor da Universidade Jean Piaget de Cabo Verde, Jorge Brito, afirmou que a maior dificuldade em ter duas línguas oficiais prende-se com a questão da escrita com base no Alfabeto Unificado para a Escrita da Língua Cabo-verdiana (ALUPEC), projecto que tem já alguns anos e que é ainda alvo de acesa polémica no arquipélago. "Todos os estudos foram feitos de forma unilateral. O problema que se põe é, havendo bilinguismo, ambas as línguas terão de ter um tratamento equitativo. Alfabetizar uma criança em simultâneo com um alfabeto fonológico e outro etimológico só vai aumentar a intromissão de uma língua para outra, porque vão aprender a escrever com dois critérios", explicou. Como exemplo, Jorge Brito afirmou a que a palavra "crioulo" escreve-se com C em Português, mas já pelo alfabeto ALUPEC é escrito com "K". "Aliás, a letra C não existe no ALUPEC", destacou. A língua cabo-verdiana foi tema de uma conferência realizada pelo Grupo Parlamentar do MpD, tendo como pano de fundo a discussão da questão na Assembleia Nacional (AN). Segundo o MpD, pretende-se verificar até que ponto foram criadas as condições necessárias para a oficialização da língua cabo-verdiana, conforme o estabelecido na Constituição da República aquando da sua revisão ordinária de 1999. O que o Grupo Parlamentar do MpD quer concretamente é ouvir a opinião dos especialistas e do público em geral acerca da oficialização da língua materna e suas implicações, antes de se posicionar sobre a oficialização do Cabo-Verdiano. Por VNN Staff / Lusa Publicado Friday, April 24, 2009