1 de abril de 2009

Quem manda aqui? (Paulina Chiziane - In “As Andorinhas”)

Quem manda aqui?*
(concl) O sol surge, dourado, do ventre-mãe da nascente. Está tudo organizado. Zelosamente. Meticulosamente. As estratégias refinadas cuidadosamente. Os rapazes farão as fisgadas. As raparigas farão a colecta de andorinhas presas ou mortas. As mulheres irão tecer as redes e armadilhas caso seja necessário. Os guerreiros farão a protecção contra as feras. Mobilizam-se famílias inteiras: pais, mães, filhos e até mesmo avós. Ninguém fica. O imperador manda soltar as fanfarras para celebrar a partida dos guerreiros. Enche os ouvidos dos homens com palavras de ordem, mesmo sabendo que não se tratava de missão nenhuma. Era simples teatro. Diversão. Gozando dos poderes que tem, pondo gente em movimento, por actividade nenhuma. Os guerreiros, apesar de contrariados, reconhecem no líder louco inegáveis talentos. Bom estratega. Cérebro astuto, que o conduziu, de vitória em vitória, à construção do Império de Gaza. Aquela farsa era para privar os guerreiros da gordura e preguiça, sabiam. Era para mantê-los ocupados e não perder habilidades de guerra, há muito que não havia combates. O imperador repara que Nguyuza mobilizou os melhores guerreiros, mas não se rala. Tratava-se de uma caçada de pássaros, no final da tarde estariam de regresso e o império não ficaria privado de segurança. - Nobres guerreiros do império, desejo-vos sorte no cumprimento da vossa missão – grita o imperador. - Sim, alteza. As mentes ainda sonolentas dos guerreiros resmungam. De tanto poder, o imperador já não sabia o que fazia. Por isso respondem aos gritos e sem a menor excitação, dizendo o que ele gostava de ouvir. De resto não iam matar. Nem morrer. Iam dar um passeio pelos campos, regressar ao leito e dormir. - Quero ver todas as andorinhas de castigo e em silêncio – repete o imperador. - Sim, alteza! - Na vossa missão, aproveitem a ocasião para ngungunhar os chopes, esses infelizes. - Porquê os chopes, agora alteza? – questiona Nguyuza – eles andam bem quietinhos e já não provocam os habituais distúrbios. - Os chopes? Só eles podem enviar-me as andorinhas para provocar. Só eles. Estão interessados no meu desassossego. Os infelizes confiam nas suas flechas e nos seus arcos, porque não querem reconhecer que é a mim que o poder pertence. - Acha, então, que a andorinha que cagou no seu olho é mágica, majestade? - Não acho, tenho a certeza. Os chopes, esses insubmissos, têm o dom do feitiço, e só eles podem fazer-me essas afrontas! - Usando cocó de andorinha para derrubar um império? - Ah, vê-se mesmo que não conhecem os poderes maléficos desses infelizes! Parem de fazer perguntas e cumpram as minhas ordens! - Sim, majestade! O sentimento do imperador é de temor e respeito pelos chopes, esse rebeldes machos de arco de flecha que o desafiavam continuamente. Era o único povo a quem não conseguiria ainda subverter. Por isso os humilha sempre que pode. - Agora repeti o grito de guerra, que os chopes devem escutar – ordena o imperador. - Submetei-vos, chopes malditos, - gritam os guerreiros – submetei-vos ao nobre imperador e sereis salvos. Ele venceu os infiéis. Invadiu a pátria dos Khambane e matou o poderoso Mbinguana. Invadiu a terra dos N’wanati e construiu a capital do grande império. Quem não crê nele, morrerá! - Dizei-me, bravos guerreiros – incita o imperador – que tratamento se deve dar a esses chopes, esses bastardos? - Transformá-los em fêmeas. Vavar-lhes as orelhas e enfiar-lhes brincos de mulher. - Para quê – questiona divertido o gordo imperador – para quê? - Para que a grandeza do império se reconheça à distância. Para que os bastardos exibam no corpo a falta de virilidade. - E se encontrarem os nobres trabalhando nos campos? - Saudá-lo-emos de joelhos. Colocar-lhe-emos com o m’boti, a coroa negra, destinada aos iluminados do império. Paulina Chiziane - In “As Andorinhas” Maputo, Quarta-Feira, 1 de Abril de 2009:: Notícias