13 de janeiro de 2010

Mussulo também quer ser Património Mundial da Humanidade



Mussulo também quer ser Património Mundial da Humanidade

Mussulo, a ilha a sul de Luanda, capital Angola também quer ser Património Mundial da Humanidade e tal como aconteceu no ano passado com a Cidade Velha, em Cabo Verde, pretende ser integrada na “Rota dos Escravos”, traçado que a UNESCO quer preservar. Leia aqui a por que é que o Mussulo quer ser Património Mundial da Humanidade, um artigo que reproduzimos aqui e retirado do Jornal de Angola.

“A tentativa de se implementar um verdadeiro e significativo projecto de turismo de memória, em Angola, tal como se verifica nos últimos anos, ligado ao mais longo período da história de Angola, no sentido heleno, o da escravatura, é deveras gratificante para a Nação. A propósito, o tema “Mussulo: uma península esclavagista”, apresentado na transição do ano 2009 para 2010, em “Noites do Novo Decénio”, realizada no Triângulo Turístico e Histórico – Cultural Kanawa Mussulo, em Luanda, vem, é claro, dar ênfase à abordagem sobre o aproveitamento das ilhas em frontispício da parte setentrional do “cárcere” - cidade de São Paulo de Loanda, na concentração, armazenamento e embarque de mulheres, homens e crianças, cativos, congos, ngolas, matambas, mundongos, imbangalas e cassanjes, para o Golfo de Guiné, à Península Ibérica e ao Novo Mundo (América).


Antes de eu ter abordado a substância desta questão, tive que salientar que, além da importância, durante mais de três séculos, do “Slavery Business”, do pequeno conjunto ilhéu sul-loandense no embarque da mão-de-obra “mwangole”, que esta zona insular teve, irrevogavelmente, nas relações com a parte continental.

Esta parte onde estamos, precisamente, neste momento, deu o grande marco cronológico do período proto-histórico de Angola, a datação ao carbono 14, da vivência neste local de populações bantu, no século II da nossa era, de acordo com os trabalhos de Santos Júnior e Carlos Erverdosa apresentados no seu famoso artigo intitulado “A Estação Arqueológica de Benfica”, publicado em Luanda, em 1970.

Esta zona, a poucos quilómetros em direcção ao sul, das estações arqueológicas, que denominamos, partindo dos pertinentes topónimos locais, Kitala e Kambangas, dará uma outra referência cronológica essencial para a história do nosso país, sempre pelo procedimento ao carbono 14, a data do século IX, suposta por alguns historiadores africanos como o início da organização do vasto conjunto federal Kongo. Este mega Estado, que foi um dos seus aliados, o Ndongo, ocupado nos meados do século XVI, parcial e definitivamente, por Portugal.

Esta potência mercantilista organizara, aí, a famosa colónia de Angola, com a sua temível cidade esclavagista de São Paulo de Loanda, fundada a 25 de Janeiro de 1575. Importante placa giratória do negócio de madeiras de ébano, este espaço continental de quintalões de escravos terá várias zonas de embarque para a viagem sem regresso para as Américas e Caraíbas.

E, uma dessas zonas situada ao sul desta cidade que tinha a oportuna vantagem de estar perto da foz do rio Kwanza – que é navegável a partir do Dondo, centro de trânsito e transbordo por excelência – foi aproveitada e é das mais afamadas caravanas de escravos, sobre 193 km até a embocadura. Esta via fluvial foi muito utilizada por desembocar a apenas uns cinquenta quilómetros da capital da colónia de Angola, centro de controlo administrativo das movimentações de carregamento de escravos.

Vários sítios do litoral prolongado à Barra do Kwanza serviam de pontes de apoio logístico para o “Captive Passage” dos angolanos. Directa ou indirectamente, o quarteto ilhéu terá sido utilizado para o embarque de escravos nos navios atracados no alto-mar. O vai e vem dos barquitos era feito através as referidas ilhotas.

As oportunas ilhas junto do Mussulo, São João da Cazanga, dos Pássaros e do Desterro, cárceres naturais, foram mais empregues para os referidos efeitos, sobretudo durante o terrível período da trata clandestina, na segunda metade do século XIX. Esta fase, de crueldade extrema, que será reforçada ao longo de toda a costa da África ocidental, dos animalizantes “barracones”, no intuito de desviar a atenção da frota da marinha de guerra inglesa, posicionada para fazer cumprir os inconsolados negociantes negreiros loandenses, marcou os vários tratados internacionais de proibição do tráfico negreiro transatlântico.

A obrigatoriedade de conversão dos cativos, ditado por várias bulas papais, antes do seu embarque para além Atlântico, e o relativo e substancial povoamento das duas principais ilhas, “Mussulo” e “Cazanga”, ditou a construção da paróquia de São João Baptista. Este centro religioso serviu para o período do tráfico negreiro, mas igualmente para a fase da neo-escravatura, com a conversão de serviçais e contratados, que continuarão a ser instalados, até, incrivelmente, 1958, nas ilhas de São Tomé e Príncipe.

O conjunto insular servia de sub-feitoria, lugar de primeiras trocas de escravos e outros produtos, tais como o marfim, contra toda a farfalhada vinda da Europa (tecidos, aguardente, armas de fogo, etc.). Transitaram, invariavelmente, da segunda metade do século XVI à segunda metade do século XIX, no Mussulo e nas suas ilhas adjacentes, milhares de constrangidos para terras tão longínquas como as de São João dos Angolares, em São Tomé, Lagos, em Portugal, Sevilha, na Espanha, nos bairros dos Mundongos, em Buenos Aires ou o de Congo a Ngungu, na vizinha Montevideu, no Uruguai, na Baixa Fluminense, no Brasil, em Barlavento, na Venezuela, em São Basílio de Palenque, na Colômbia, San Juan de Porto Rico, na Villa Mella, a alguns quilómetros de Santo Domingo, na República Dominicana, em Matanzas, em Cuba, em Zacatecas, no México, ou em Nova Amesterdão, nos Estados Unidos da América.

País com a extensão litoral largamente dominada, logo na segunda metade do século XVI, por Portugal, potência marítima por excelência nesta época, e com uma parte do “Hinterland” ocupado pela colónia de Angola, as terras da rainha Nzinga pagaram o tributo mais pesado no tráfico negreiro transatlântico. Com efeito, o quadrilátero ostenta, hoje, uma das maiores costas nacionais, a mais extensa da África ocidental, com os seus respeitáveis 1.600 quilómetros.

Maiores transportadores de “nigers” para o Novo Mundo, os negociantes portugueses instalaram, durante mais de três séculos, no Golfe de Guiné, na Península Ibérica, nas Américas e Caraíbas assim como na Ásia, mais de 10 milhões de “mwangoles”. Deve-se, a esta cifra, fazer corresponder um número igual de mortes ocorridas em todas as etapas do processo de escravidão.

A península do Mussulo, como as ilhas de Cabo Verde, Gorée, no Senegal, e São Tome e Príncipe, deve ser considerada, doravante, como um alto lugar de memória esclavagista. Como Gorée ou a Cidade Velha cabo-verdiana, Mussulo merece a sua classificação como Património Cultural da Humanidade. É neste âmbito que se propõe ao Comité Científico Internacional do Projecto “A Rota do Escravo”, da UNESCO, a inclusão do Triangulo Turístico e Cultural Kanawa Mussulo ao “Projecto da Rota do Escravo”. E a este respeito, felicitamos à directora geral deste organismo do Sistema das Nações Unidas, a professora Irina Bokova, pela especial atenção que acorda a este projecto de revalorização de uma vertente pouco conhecida da história do Atlântico.”

Sapo AO, 11 Janeiro 2010