26 de fevereiro de 2010

Ex-adida cultural portuguesa em Cabo Verde recebe prémio literário


Ex-adida cultural portuguesa em Cabo Verde recebe prémio literário

Maria Velho da Costa, adida cultural portuguesa em Cabo Verde, entre 1988 e 1991, recebeu o Prémio Literário Casino da Póvoa, o único prémio de cariz internacional que, em Portugal, ultrapassa as fronteiras da Língua Portuguesa. Costa ganhou esse prémio no valor de 20 mil euros graças à sua obra "Myra". Segundo o Metronews, "Myra é uma rapariga russa que deambula pelas paisagens tristes do Portugal contemporâneo, em fuga rumo ao Sul, mas com esperanças de voltar ao Leste de onde emigrou. Durante a longa jornada iniciática, sempre com um Pitbull Terrier por perto, ela revela um extraordinário instinto de sobrevivência, feito de manha e força”. Conforme as circunstâncias, ora cita Camões, ora fala como a “lerdinha” que não é. E assim vai avançando por entre “criaturas íngremes”, através dos vários círculos do Mal, num mundo cheio de “dor e dano”.

A primeira parte do romance é composta por uma sucessão de encontros on the road: com um camionista alemão, amante de uma pintora desbocada que faz lembrar Paula Rego; com um padre, heterodoxo ao ponto de dizer que “a castidade é porca” (enquanto transporta na sua carrinha uma mulher a morrer de SIDA); com um marinheiro cego e maneta chamado Alonso (como o herói do Quixote); entre outras personagens menores.

Isto até descobrir Orlando/Rolando - a personagem é de origem cabo-verdiana - um “rapaz pardo” que lhe aparece todo vestido de branco junto a um Land Rover também branco, “parado como um dócil corcel expectante”. A partir daqui, a história como que estaca na esfera deste cabo-verdiano, a quem Myra se entrega num idílio amoroso, cortado por uma cena de carjacking que precipita de vez a acção no mais sórdido sub-mundo do crime.

Maria Velho da Costa é licenciada em Filologia Germânica, foi professora no ensino secundário e membro da direcção da Associação Portuguesa de Escritores. Tem o curso de Grupo-Análise da Sociedade Portuguesa de Neurologia e Psiquiatria e foi membro da Direcção e Presidente da Associação Portuguesa de Escritores, de 1973 a 1978.

Foi leitora do Departamento de Português e Brasileiro do King’s College, Universidade de Londres, entre 1980 e 1987. Tem sido incumbida pelo Estado português de funções de carácter cultural: foi Adjunta do Secretário de Estado da Cultura em 1979 e, finalmente, Adida Cultural em Cabo Verde de 1988 a 1991. Desempenhou ainda funções na Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses e trabalha actualmente no Instituto Camões.

Consagrada, já em 1969, com o romance Maina Mendes, tornou-se mais conhecida depois da polémica em torno das Novas Cartas Portuguesas (1971), obra em que se manifesta uma aberta oposição aos valores femininos tradicionais. Esta publicação claramente anti-fascista e altamente provocatória para o regime, levou as suas três autoras a tribunal, tendo o 25 de Abril interrompido as sanções a que estavam sujeitas as denominadas 3 Marias: Maria Velho da Costa, Maria Teresa Horta e Maria Isabel Barreno.

Às teses de reivindicação feminina já enunciadas em “Novas Cartas Portuguesas”, acrescenta-se, na sua obra, um inconformismo quanto aos cânones narrativos, inconformismo esse que se pode verificar também na sua obra de ensaio.

A Semana, 26 Fevereiro 2010