16 de julho de 2011

Portugal: Oito mil? (Francisco Moita Flores)


Portugal: Oito mil?

A notícia mete medo. Chegou a semana passada através dos jornais e televisões. Temos mais de oito mil velhos abandonados em hospitais portugueses. Para ser nais preciso, oito mil e trezentos. Uma multidão! De gente que construiu e produziu vidas, que terão sido pais e mães pacientes e atentos, que terão sonhado vidas, construído as suas, ajudado a construir as dos seus filhos e da sua comunidade. Gente que cometeu um único pecado para merecer a sorte do abandono: ter envelhecido. Deixar de ser produtivo, esgotadas as energias, vencidas as forças para continuar outros combates. Tornaram-se velhos e transformaram-nos em trapos que se deitam para o canto do hospital mais próximo. Surgirão, por certo, milhares de argumentos. Os filhos não podem, o custo de vida, o preço dos lares, etc. ... São argumentos cínicos, mas fundamentam razões. Mas não existe uma única razão que fundamente o abandono, que dê explicações a solidão, que legitime a marginalização para um pedaço de afecto. Mete medo, na verdade, esta comunidade que estamos a produzir. Que trata a velhice como desperdício e as memórias como arquivo dispensável. Mete medo pensar que a construção dos afectos, a verdadeira e única determinação que nos reencontra com o sentido da existência é tratada como se nada tivesse valido a pena e que uma enxerga num hospital asséptico resolve sem piedade nem compaixão. Uma legião de velhos abandonados. Milhares que se associam a outros milhares por aí esquecidos, a mulheres violentadas e brutalizadas, a crianças excluídas sem direito à esperança. É preciso olhar para trás. Parar para pensar neste mar de indiferença, egoísmo, alarvidade que está a contaminar os nossos dias e a transformar crises financeiras em crises morais. É preciso parar para pensar para onde mandamos os nossos putos, os nossos adultos e os nossos velhotes. Para que a vida faça sentido e para que as crises não devorem apenas as carnes, roubando-nos tamém a alma.

Francisco Moita Flores
TV Guia, Nº 1694, 11 de Julho de 2011