23 de outubro de 2011

E se Samora fosse vivo? (Júlio Muthísse)



E se Samora fosse vivo?

Mais do que admirar as estátuas que o vêm imortalizar, o país precisa de conhecer Samora Machel, apropriar-se do seu legado para servir de alicerce na construção da cidadania e como catalisador na busca constante do bem-estar de todos nós.

Quando a 19 de Outubro de 1986 o avião que transportava Samora Machel e sua comitiva despenhou em Mbuzini, Moçambique prostrou-se e chorou o desaparecimento físico de um líder, um símbolo, um guia. Foi há 25 anos. São 25 anos de espera pela verdade sobre quem e por que foi morto esse grande filho desta nação. Continuamos na esperança que justiça seja feita, tal como têm prometido os sucessivos governos de Moçambique.

Passam 25 anos com muitos “ses”. 25 anos de mistificação da figura de Machel. Os ventos de mudança no rumo que o país tomaria já se anunciavam mesmo antes de 1986. A viagem de Samora aos EUA, os contactos com as instituições financeiras internacionais etc. já prenunciavam uma viragem de rumo e de orientação estratégica do Estado.

A derrocada da URSS e, com ela, do bloco socialista e do próprio socialismo que já vinha em crise antes da morte de Machel é outro dado que podemos chamar à análise. Dos países comunistas da época restam hoje a China, que experimentou mudanças profundas, a Coreia do Norte, que se arrasta como país, e Cuba, que parece iniciar um processo de reformas, apesar do fardo constituído pelas sanções impostas pelos EUA.

Neste contexto, passados 25 anos, não podemos pensar que as coisas teriam permanecido na mesma. As coisas boas de que nos lembramos da governação de Samora Machel tiveram o seu contexto e nem o país, nem a região muito menos Samora Machel se poderiam constituir como uma ilha, completamente, alheia às dinâmicas internas e externas.

E se Samora fosse vivo? De certeza que teríamos a mesma clarividência adaptada aos desafios e às transformações que vão ocorrendo não só na sociedade moçambicana mas, também, a nível global. Teríamos Samora Machel no contexto de hoje século XXI, assumindo os desafios desta era marcada pela globalização, mercados comuns, HIV/Sida, crise internacional, pobreza, emprestando seu carisma, saber e determinação como catalisador nas várias batalhas que o Estado tem que travar rumo ao tão almejado bem estar.

Se considerarmos que com a abertura ao Ocidente e suas instituições, iniciada antes de 19 de Outubro de 1986, a pretensão era buscar parcerias para o fortalecimento/financiamento do Estado face à crise do bloco socialista, então teremos que concluir que Samora Machel se teria adaptado aos programas de reabilitação económica implementados em Moçambique e, inclusive, à abertura económica que instituições do género preconizam, com consequente adopção para mais ou menos das medidas adoptadas com a CRM de 1990, abrindo espaço para o aumento da competição entre os indivíduos que traria, necessariamente, novos desafios em matérias governativas. Considerando este factor, não é de estranhar que Samora tivesse que enfrentar, nos dias de hoje, maior criminalidade e corrupção, fenómenos que, a meu ver, independem da sua personalidade e perfil, tendo, isso sim, a ver com o relaxamento da pressão colectivista da sociedade e mais incentivos à iniciativa e promoção do indivíduo. Tem a ver com a eliminação dos controlos que um dia tivemos com os chefes das 10 casas, chefes de quarteirão, milicianos e outros agentes omnipresentes no modelo de ontem. A abertura/viragem que se experimentou desde uma determinada altura (mesmo antes da morte de Machel conforme referido acima) teve muitas vantagens económicas e sociais. Desde logo, a circulação mais livre de pessoas, maior oferta de bens e serviços no mercado, maior crescimento económico, maior abertura ao debate de ideias, etc., com as consequências que advém daí. A conjuntura impunha mudanças.

Podem ter sido gloriosos os tempos de governação samoriana, mas o país, a região, o mundo, tudo mudou. Até os blocos de então se esfumaram. Sem embargo das crenças igualitaristas de alguns, o país avançou por um processo de liberalização económica que, sendo contrário ao modelo anterior, libertou a iniciativa empreendedora das pessoas. E nisto, o país não está a inventar nenhuma roda. Foi deste mesmo modo que foram construídas as economias de sucesso que hoje admiramos como Suécia, Canadá, Dinamarca, Noruega, Estados Unidos da América, Espanha, França, em cujos fundamentos pôs-se claramente de lado qualquer veleidade igualitarista. Pelo contrário, os sistemas colectivistas sucumbiram e esfarelaram-se todos. Resta a Coreia do Norte para exemplo!

Samora vive! As manifestações que assistimos por estes dias mostram o quão querido era este filho da Nação moçambicana cuja vida foi interrompida quando ainda tinha muito a dar por este país. A romaria a Mbuzini no dia 19, o movimento popular em Maputo do dia 19, o memorial construído em Mbuzini, a presença de líderes da região e do mundo parecem-me indicativas de uma dimensão de Samora que ultrapassa as fronteiras de Moçambique.

Mais do que admirar as estátuas que o vêm imortalizar, o país precisa de conhecer Samora Machel, apropriar-se do seu legado para servir de alicerce na construção da cidadania e como catalisador na busca constante do bem-estar de todos nós. Vamos imortalizar Samora Machel “operacionalizando o seu pensamento e transformá-lo em instrumento de acção quotidiana para a mudança radical da vida do povo moçambicano para o almejado bem-estar material, social e cultural” como escreve Salomão Moyana no “Magazine” de 19 de Outubro de 2011, mas adaptando esse pensamento ao contexto de hoje.

Júlio Muthísse
O País, 22 de Outubro de 2011