23 de outubro de 2011

Festejámos a tua morte, Samora! (Lázaro Mabunda)


Festejámos a tua morte, Samora!

Querido camarada Samora! Sou estranho para ti. Com razão. Quando morreste, eu ainda estava nas matas do posto administrativo de Nalaze, distrito de Guijá. Tinha apenas 10 anos e poucos meses. Mas isso não interessa. O que interessa é o que te quero confidenciar. Ora, o que te quero transmitir é que, anteontem, festejámos efusivamente a tua morte. São 25 anos. Cantámos, dançámos, comemos e bebemos. Tínhamos convidados de luxo: Keneth Kaunda, Seretse Iam Khama, Robert Mugabe, Dilma Rousseff, Jacob Zuma, entre outros. As principais cadeias televisivas transmitiram a mega-festa da tua morte em directo. E mais: no passado dia 29 de Setembro, organizámos uma grande festa do teu aniversário. Eram 78 anos de vida que completavas. Festas do teu aniversário e da tua morte são coisas ímpares. Os teus camaradas demonstram o quão te amam. Não é fácil celebrar aniversário dum morto. Daqui a dois anos, prepararemos uma mega-cerimónia, quando completares 80 anos.

O que me entristece é que, anualmente, as festas da tua morte são celebradas com os mesmos discursos: “os que mataram Samora serão encontrados” ou “devemos viver dos ideais de Samora”. Acontece que os que deviam explicar a tua morte estão a morrer um por um, sem deixar as pistas que nos possam levar a seguir os tais criminosos. Os arquivos da tua morte estão a ser queimados pelo tempo, estão a expirar o prazo. Dentro de duas décadas, ficaremos sem nenhuma pista. Isto leva-me a crer que a tua morte foi organizada interna e externamente.

Quando são questionados sobre as circunstâncias da tua morte, respondem que a tua morte é um enigma. É igual a de Kennedy, de Olof Palm e a de outras grandes figuras. Por seres uma grande figura, não se pode esclarecer as circunstâncias da tua morte nem revelar os que te mataram. É o que pude subentender.

Ficámos a saber, agora, que, no dia da tua morte, os aviões caças, que te deviam receber à entrada do país, não levantaram voo. Ninguém consegue explicar porquê. Dizem que deve ter havido negligência de pilotos, mas o que sabemos é que os pilotos obedecem a um comando. Não levantam o voo sem uma voz que os ordene. Ficámos a saber que houve um problema que não se consegue explicar com o homem da torre de controlo do Aeroporto de Maputo. Essa pessoa existe, porém, não se diz onde ela mora. Está algures. E nunca ouvimos que foi ouvido pela Comissão de Inquérito. Passam 25 anos. Igualmente, nunca ouvimos que os pilotos de caças foram ouvidos para explicar por que razão não levantaram o voo e quem os terá ordenado para que não o fizesse. Sabemos também que o teu governo não estava na tua delegação. Baldou. Pura coincidência.

Excelência, os teus camaradas imortalizaram-te em estátuas e dizem que devemos viver dos teus ideais. No entanto, eles não dão exemplo. Aqueles teus conselhos - "queremos chamar atenção ainda sobre um aspecto fundamental: a necessidade de os dirigentes viverem de acordo com a política da Frelimo, a exigência de, no seu comportamento, representarem os sacrifícios consentidos pelas massas” e “o poder, as facilidades que rodeiam os governantes podem corromper o homem mais firme” - caíram em saco roto. Por isso, não querem viver modestamente com o povo, fazem da tarefa recebida um privilégio e um meio de acumular bens ou distribuir favores. O sistema de vida que estavas a destruir – corrupção material, moral e ideológica, o suborno, a busca do conforto, as cunhas, o nepotismo, isto é, os favores na base de amizade e, em particular, dar preferência nos empregos aos seus familiares, amigos ou a gente da sua região – foi reconstruído.

Os teus camaradas ex-socialistas, além dos salários chorudos por serem dirigentes, são proprietários de quase todas as empresas, são administradores, PCA das empresas públicas e simultaneamente deputados, têm direito a um carro protocolar, um carro de afectação e um carro para levar a família (filhos para escola e mulher para o mercado). São capitalistas puros.

O teu lema segundo o qual “os dirigentes devem ser os primeiros no sacrifício e os últimos no benefício” foi invertido. Agora é: “Os dirigentes devem ser os primeiros nos benefícios e os últimos no sacrifício”.

Tem razão a tua filha quando diz que, se ressuscitasses, morrias no minuto seguinte. É que Moçambique é como uma casa com apenas a base – fundação – e o tecto, sem paredes e vigas para suportar a estrutura toda. Quer dizer, está constituído por um grupinho de ricos, no topo (tecto) e de uma maioria pobre (na base). Não temos uma classe média que possa servir de elo e de intermediação nos conflitos entre o topo e a base – ricos e pobres. As tais paredes e vigas. Podemos falar de estabilidade?

Até Setembro e Outubro do próximo ano, quando festejarmos mais um ano da tua vida e da tua morte, respectivamente.

Lázaro Mabunda
O País, 21 Outubro 2011