27 de novembro de 2011

Mortas e humilhadas (Francisco Moita Flores)


Mortas e humilhadas

Este é um combate sem tréguas. Para que a cidadania não seja apenas privilégio de alguns.

Esta semana evocaram-se as vítimas de todas as formas de violência doméstica e reafirmou-se um pouco por todo o mundo declarações de combate contra esta traiçoeira forma de agressão, como lhe chamou o ministro Miguel Relvas. E sublinho a condição de ministro e o facto de ser homem, porque, nestes momentos de ritualidade cívica em defesa da dignidade das mulheres, o poder, vulgarmente, gosta de falar no feminino. É importante que Miguel Relvas enquanto ministro dê a cara por este combate. Compromete a política e o poder com a necessidade de devolver dignidade de cidadania a quem a vê comprometida pela brutalidade masculina. Nos últimos cinco anos foram assassinadas quase duas centenas de mulheres pelos maridos ou companheiros. Os números impressionam e dizem muito sobre aquilo que ignorámos na caminhada para uma sociedade mais culta e, por isso mesmo, com maior sentido de alteridade.

É certo que tem poucas décadas a denúncia militante contra a violência em ambiente familiar. Violência física, violência psicológica, conceitos que durante séculos não existiam no quadro parental. "Ele bate no que é seu", "quanto mais me bates, mais gosto de ti", "entre marido e mulher não se mete a colher" são lugares comuns vindo do tempo da barbárie que recusavam a um ser humano, só por diferença de sexo, outra condição que não fosse a de propriedade. E bem se sabe, numa sociedade com os vários poderes marcados pela misoginia, pela arrogância do macho com o mundo centrado no seu umbigo, como é difícil romper as malhas do silêncio e dar um murro na mesa que imponha respeito aos murros imundos que persistem entre os bárbaros dos nossos tempos. Tornar crime público os actos de violência doméstica foi uma decisão histórica. A mais importante desde a Constituição de 76. Mas outras se lhe seguiram. Sobretudo nas polícias, com a criação de unidades efectivas de tratamento destes crimes. Porém, são grandes as manchas de silêncio que encobrem a barbárie. Continuo sem perceber, vinte anos depois dos primeiros grandes actos contra a violência doméstica, o papel passivo da Escola na matéria. Não percebo a indiferença. Este é um combate sem tréguas. Para que a cidadania não seja apenas privilégio de alguns.

Por: Francisco Moita Flores, Professor Universitário
Correio da Manhã, 27 de Novembro de 2011