13 de novembro de 2011

O dia que Moçambique perdeu um dos maiores trovadores (03/11/1987)


3 de Novembro de 1987: O dia que Moçambique perdeu um dos maiores trovadores

Três de Novembro de 1987, morre aos 70 anos, algures em Maputo, Fany Pfumu. Passam hoje, dia 3 de Novembro, 24 anos. O Clube dos Entas recorda a vida e a obra de um dos maiores músicos da nossa terra.

Pelos anos 50 do século passado, um jovem ronga de pequena estatura é visto a trabalhar numa mina de ouro perto da cidade de Joanesburgo. Village Mine Reef Limited assim se chamava a mina e o miúdo ali confinado não escapou à alcunha condizente com a sua extrema juventude, quase adolescente: Fanyana. Exactamente isso: Miúdo! Na verdade, o rapaz saíra de Lourenço Marques com o nome de registo de António Marriva Pfumu, Mubangu entre os seus. Entretanto, Fanyana não se fica apenas pelo sobe-e-desce da mina. Cedo começa a revelar outras habilidades. Tinha uma grande paixão pelo boxe, mas a estatura e a massa muscular não o ajudavam muito, embora todos lhe reconhecessem mobilidade e rapidez de execução fantásticas. Cantava e dançava como poucos. O reportório comportava, fundamentalmente, temas do cancioneiro popular aprendidos nos subúrbios laurentinos, mais particularmente da Mafalala e da Munhuana. Mas também de Wuloluane, hoje Beleluane, na zona da MOZAL, donde é originário. E depois começou a cantar o kwela e o Jive sul-africanos, muito em voga por aqueles anos. Toca bem a guitarra acústica mas, ao tornar-se amigo de Alexandre Jafete, um matswa de Homoíne, Inhambane, o Antoninho aprende rapidamente a tocar o Bandolim. Gravam disco atrás de disco, sendo dessa época a famosa canção Moda Xicavalo, na qual se destaca a voz de Francisco Mahecuane, que aliás nos dá a saber, ao longo do seu recital, a fonte primária do cognome de Fany: Fanyane pfumu.

Provavelmente em 1955, Fany Pfumu celebra um contrato com a companhia discográfica Troubador, conhecida por apenas gravar artistas negros, desligando-se assim da Village Mine Reef Limited. Vai também com ele Alexandre Jafete e Ben Massinga, um outro guitarrista, mas que trabalhava numa empresa de processamento de ouro situada a poucos quilómetros da Village Mine. Ainda que formalmente desvinculados da mina, Fanyane e Jafete continuam a passar as noites no dormitório da Village Mine Reef Limited, para isso pagando uma avença ao principal induna nocturno da companhia. Mas a pernoita no dormitório da mina tinha outros interesses. Os dois músicos, rezam alguns registos da memória que conseguimos recolher, não só ganhavam dinheiro com os royalties resultantes das gravações que faziam na Troubador, como também angariavam alguns fundos promovendo espectáculos no interior do dormitório. Depois de lavarem e adornarem uma das casas de banho, Jafete e Fany subiam para cima de um palco improvisado com as suas guitarras empunhadas, enquanto alguém cobrava, à entrada, a módica quantia de um shelling. Como não era permitida a entrada de mulheres, alguns dos participantes do baile vestiam-se a preceito: sapato alto, lábios pintados, brincos, soutiens e tudo o mais para dançarem com os pagantes. Na nossa opinião, pode ter sido desse ambiente bizarro que nasceu a canção mais enigmática de Fany Pfumu: A Va Sati Valomu. Alguém ainda terá de explicar um dia de que mulheres e, sobretudo, de que miudezas temperadas com amendoim Fany Pfumu nos fala nesta bela canção.

Um outro tema com o mesmo sentido chama-se Wo Tshimbela N’Kakana. Uma marrabenta na sua forma mais clássica, autêntica raridade de Fany Pfumu, onde, chamamos a atenção do leitor, regista-se a proverbial troca de mimos entre Fany Pfumu e Diloni Ngingi, cada um reivindicando o epíteto de Rei da Marrabenta: “Esta é que é a autêntica marrabenta, a marrabenta do Pfumu, e não aquela que tu tocas, Diloni; esta não é aquela marrabenta em que se dança às pressas, em que se dança a correr. Quando quiseres ganhar algum dinheiro, toca assim a marrabenta, Diloni. Cuidado, rapaz!”.

Entretanto, a fama de Fany Pfumu sai da fronteira mineira e atinge toda a região Austral, tornando-se num dos artistas mais profícuos da Troubador. Com a abertura da Hora Nativa, que haveria de evoluir para a Voz de Moçambique, um canal destinado às populações nativas de Moçambique e transmitido através do Rádio Clube, Fany Pfumu transforma-se, rapidamente, na principal estrela da música ligeira moçambicana. Moda Xi Cavalo, tema já aqui rodado, é até utilizado pela Voz de Moçambique como sinal de abertura da estação. Só que a fama, para os artistas, e não só, é também fonte de problemas. Não propriamente a fama, mas a sua gestão. A bebida, as mulheres e o vício estão sempre à mão de semear. Alexandre Jafete aparece morto à facada por causa de disputas passionais, e Fany Pfumu vai-se escapulindo ou gerindo melhor os perigos que lhe espreitam a todo o momento. Envolve-se em ambientes de violência e chega mesmo a matar, ainda que em legítima defesa, fazendo fé àquilo que nos dizem alguns contemporâneos do cantor e guitarrista. Acabou sendo preso e condenado à reclusão, saindo alguns anos depois por bom comportamento.

Sobre a vida atribulada do cantor, escreve a revista Tempo, no seu número 105, de 17 de Setembro de 1972: “A história de Fany Pfumu é longa (...). Sobre a sua vida, dir-se-á apenas que tem sido sempre uma vida difícil e complicada. É dessa vida sofrida ao longo de 25 anos que as suas canções nos falam e, se as soubermos escutar, muito aprenderemos sobre ela.”

Fany Mpfumu cria, provavelmente em 1958, um conjunto de canções que dão corpo a esse período conturbado da sua vida e da sua carreira, talvez antevendo o mesmo destino trágico que tivera o seu amigo Alexandre Jafete. O exemplo mais bem conseguido pode ser ouvido na canção A Swilunganga.

Fany Mpfumu também expressou as suas reivindicações face à situação colonial prevalecente em Moçambique. Artista que era, Fany Pfumu disfarçou as reivindicações na poesia popular dos seus versos. Passaram durante algum tempo nas antenas da Voz de Moçambique, mas os censores da PIDE – a polícia secreta portuguesa, detectaram-lhe as inquietações e interditaram alguns dos seus temas. Em Tindjombo, Fanny canta “Sorte têm aqueles que casam na África do Sul/Vivem sossegados com as suas esposas/O céu dos Pfumu está a ribombar/O relampejar está próximo/Está para acontecer/E só derrotando Fany Pfumu e os leões poderão ficar com a terra dos Pfumu.”

Só que a censura, em muitos casos, é uma faca de dois gumes. Reprime e silencia durante algum tempo, mas a maior parte das vezes tem um efeito inverso. No caso de Fany Pfumu, a fama sobe em espiral. Os empresários do campo do espectáculo apercebem-se e tentam tirar partido disso, embora conscientes de que dificilmente teriam Fany Pfumu em Moçambique para espectáculos e gravação de discos. Só que muitas vezes a ambição não tem limites.

De facto, em meados de Fevereiro de 1972, é anunciado em parangonas, nos jornais, o regresso a Moçambique de Fany Pfumu. Os spots pubilicitários incluem trechos musicais que convencem a tudo e todos sobre a identidade de quem aí vinha. Ninguém se atreveria a desmentir tudo quanto parecia evidente: Fany Pfumu estava a caminho. Venderam-se bilhetes a rodos para um pavilhão do Sporting que haveria de encher que nem um ovo.

Só que o homem que nos aparece pela frente tem toda a aparência de um burguês, traje fino e fluente quer em português, quer em inglês, nada de comum com um Fany Pfumu conhecido pelos mais velhos. Mas havia algo de comum com Fany Pfumu: o homem falava fluentemente o ronga. E depois saberíamos, através da revista Tempo, que afinal o individuo nada tinha a ver com o verdadeiro Fany Pfumu, o Fanyani Pfumu. A revista Tempo identifica-nos o charlatão como Joaquim Saúde, que se radicara na África do Sul desde 1932 trabalhando para a polícia sul-africana como censor da correspondência em português e por cujos serviços recebeu do Apartheid um diploma de mérito. Realizaram-se alguns espectáculos. O público ficou com um sabor agridoce e Joaquim Saúde e os promotores ganharam dinheiro. Tudo à custa de um Fany Pfumu que não era. Um dos temas que o tal Joaquim Saúde interpretou dá pelo título de Nipfumala Ta ku Teka N’sati.
No entanto, sete meses depois, alguém consegue trazer a Lourenço Marques o verdadeiro Fany Pfumu, enchendo, literalmente, o pavilhão do Sporting, hoje Maxaquene. O espectáculo foi pobre em termos de som, mas todos saíram satisfeitos por terem visto o seu ídolo, o qual, e contrariamente ao impostor de há 7 meses, pouco balbuciava uma palavra em língua portuguesa. E o apogeu é atingido quando Fany Pfumu interpreta Georgina e Avasati Va Lomu, temas que já aqui rodámos. Mas também quando soaram os acordes de clássicos como Hodi e Famba Ha Hombe Ka Polana.

Mas o regresso de Fany Pfumu estava ainda adiado, embora prometido com entusiasmo a jornalistas. Fany Pfumu retornou a África do Sul e lá ficou por mais 3 anos, regressando a Moçambique pouco antes da Independência. Voltou a explodir e, para marcar o seu regresso triunfal à terra que o viu nascer, grava uma canção cuja letra não passa de um apelo para que o povo exulte porque “Agora é de vez, o careca voltou, o feiticeiro regressou para nunca mais sair, trouxe novas canções.”

E já depois da Independência, Fany Pfumu participa de algumas digressões do Grupo RM, na qualidade de convidado de cartaz, como o eram também músicos como Astra Harris ou Billy Cooker. Algumas das suas criações mais importantes fê-las com Alexandre Langa, com quem, aliás, trabalhara na África do Sul. Foi numa dessas digressões, nomeadamente para Inhambane, que tivemos a honra de privar com Fany Pfumu e de constatar, para nossa tristeza, que a sua carreira já se encontrava em declínio, embora intactos todos os seus predicados. Já entrou embriagado no autocarro da ROMOS, bebeu toda a viagem e à chegada a Inhambane era um farrapo. Dormiu como chegou, recusando, terminantemente, a ensaiar o reportório alinhado para o espectáculo do dia seguinte. Fany Pfumu sempre dizia, em ronga, dirigindo-se a Alexandre Langa, a única pessoa que tinha autoridade sobre ele: “Alexandre, tu sabes que eu não preciso de ensaiar!”.

Todos nos convencemos de que Fany Pfumu não estava em condições de actuar no dia seguinte, accionando-se, inclusivamente, uma espécie de plano B. À hora do espectáculo, porém, Fany pareceu visivelmente recuperado, recuperando-se, desse modo, o alinhamento inicial. A música que iria abrir a actuação de Fany começava exactamente com a sua voz e os instrumentos musicais seguir-lhe-iam. Cambaleante, Fany subiu ao palco e, de microfone em punho, começou a circular de um canto para o outro do palco, como quem procurava alguém a quem se dirigir. A plateia ficou expectante, enquanto os responsáveis da Rádio Moçambique receavam o pior. Fany Pfumu parou defronte da primeira-dama da província, o mesmo que dizer da esposa do governador provincial, e gritou: Leswi Wene Unga Bola.

Três de Novembro de 1987, morre Fany Pfumu, o ícone da música ligeira moçambicana. O Clube dos Entas quis assim dar um contributo para a preservação da memória colectiva, para que os mais novos tenham em mente que houve aqueles que desbravaram o terreno, em condições muito difíceis, para que a moçambicanidade fosse também possível em termos musicais.

Antes de concluirmos, um enaltecer sincero àqueles que em algum momento se recordaram de Fany Pfumu ou quiseram perpetuar a sua memória, quer antes, quer depois da sua morte. A Rádio Moçambique, que ergueu e doou uma casa às duas filhas do Rei, o Hortêncio Langa, que muito se empenhou para a evocação dos dez anos da morte de Fany Pfumu. Enfim, todos aqueles músicos que lhe perpetuam a obra criando as mais variadas e ricas versões de temas que, apesar do percurso de mais de 60 anos, fazem deles coisas de hoje.

NB - Título da nossa autoria

www.rm.co.mz
Luís Loforte
Maputo, Quarta-Feira, 9 de Novembro de 2011:: Notícias