22 de março de 2012

Toda a mentira (Pedro Santos Guerreiro)



Portugal apruma-se como bom aluno. Não somos muito marrões, mas ficámos com respeitinho e até um pouco graxistas. Quando apanhamos um estrangeiro, fazemos carinha de anjo e portamo-nos como um urso de peluche que repete quando se lhe aperta a barriga: "Portugal não é a Grécia".

Portugal apruma-se como bom aluno. Não somos muito marrões, mas ficámos com respeitinho e até um pouco graxistas. Quando apanhamos um estrangeiro, fazemos carinha de anjo e portamo-nos como um urso de peluche que repete quando se lhe aperta a barriga: "Portugal não é a Grécia". Porque cumprimos. Porque não mentimos. Mas aqui para nós: não descobrimos nós mentiras todos os dias? Como agora, com as autarquias?

"Portugal não é a Grécia" é uma saudação inteira à Pátria. E sim, senhores credores, senhores mercadores, senhores e senhoras da troika, da Alemanha, da Holanda, dos países nórdicos, estamos a cumprir. Não ignoramos como a Grécia, não desafiamos como Espanha. Escolhemos executar a sermos executados.

Já privatizámos empresas, já despedimos nos transportes, já cortámos custos, já reformámos a lei laboral e a lei das rendas, já estamos a consolidar, a mexer os défices, já estamos a desalavancar. E a Grécia não fez nada disto, nem um quilómetro de ferrovia reduziu.

Mas aqui que ninguém nos ouve, a mentira grassa e ainda não pagou os seus impostos. Nada é comparável à falsificação grega mas esta verdade conveniente de que omitir não é mentir é o mata-borrão da nossa década. Porque em cada armário há esqueletos a rir às gargalhadas nas nossas caras.

Como escreveu Pedro Mexia este fim-de-semana no "Expresso", mentir é uma escolha moral e "uma mentira em geral exige outras mentiras, exige que se 'viva uma mentira', e nesse crescendo destrói-se a confiança, que é o bem mais importante na vida em sociedade". Em 2009 Portugal reportou uma dívida pública de 76% do PIB, em 2011 ela passou para 107% do PIB. Trinta e um pontos em dois anos?! Não, em muitos anos, estavam escondidos. Em parte, por esquemas generosamente providenciados pela banca. Noutros, pelos fornecedores.

Nas empresas públicas, o valor era conhecido mas era dívida pública desorçamentada. Como nas PPP. O Governo Regional da Madeira mentiu nas suas contas. No BPN há uma pegada crescente de transferências do Estado, que estão por assumir. Nos hospitais, há financiamento à custa de fornecedores. Ainda ontem a execução orçamental do último mês mostrou novo crescimento das dívidas a fornecedores. É dinheiro que o Estado não paga às empresas, condenando-as às falências privadas. E o que ainda falta, como alertava ontem o BPI (reconheça-se, tem sido sempre o BPI): faltam os custos das renegociações dos contratos das PPP e da capitalização dos próprios bancos, prontos para extrair maus créditos das empresas de construção, imobiliário, turismo.

As dívidas das autarquias eram mais um segredo de polichinelo. São seis mil milhões, como juravam? Nove mil milhões, como agora admitem? 12 mil milhões, como insinua o Governo? É mais uma brutalidade que estava fora de balanço, aninhada nas empresas municipais onde se empregaram mais administrações, se contrataram fornecedores, se teceram negociatas sob as nossas barbas.

Não, nós não mentimos, as regras contabilísticas é que mudaram. E, diz-se, se toda a gente fazia o mesmo, não há mal. Agora, queixam-se de uma lei de enquadramento orçamental que é estúpida porque não é olho-vivo, é cega. Mas quando há uns dez anos, o Governo quis dominar o desmando centralizando nas Finanças o controlo de toda a tesouraria, no dia seguinte abriram excepções para toda a gente.

Não, nós não mentimos. Só os gregos. Os autarcas não mentiram, a Madeira não mentiu, as empresas públicas não mentiram, o Governo não mentiu. Esta grande mentira em que vivemos foi de geração espontânea. Agora querem criminalizar as falsas declarações no IRS, o que não vai acontecer mas soa bem, os portugueses aplaudem. Mesmo que tenhamos durante anos comprado casas sem pagar Sisa que se visse. Mesmo que hoje faltem mais de cem mil filhos nas declarações de IRS. Mas não, não mentimos.

Sim, mentimos. Entre a verdade ou consequência, escolhemos sempre a consequência. Mentimos sobretudo a nós próprios. Aceitamos o relativismo. Porque há mil mentiras mas não há um só mentiroso.

É isto, a Primavera? É este o fim? Perdemos tudo na autópsia das verdades? Na escatologia das mentiras? Será "mentira" o que nos define, consome e traduz, a nossa última palavra?

Jornal de Negócios, 20 de Março de 2012