18 de setembro de 2012

Suicídio da Esperança (Francisco Moita Flores)



O verdadeiro drama desta crise não está nos números. Está nos homens que os tratam como meros utensílios.

Esta crise, que se tornou num inverno de descontentamento, de angústias e de incertezas, tem sido uma lição sobre as (des)virtudes do economês. Dessa linguagem cifrada, pretensamente científica, especulativa e aleatória que se diz e contradiz em cada medida, em cada protesto, em cada concordância. E digo pretensamente científica porque, ao longo destes três anos de brasa, rebobinando tudo aquilo que se comentou sobre as derivas e soluções para sair da crise, tem revelado uma de duas coisas. Ou economistas que atiram com soluções conforme a ocasião ou uma angustiante incompetência da racionalidade economicista e financeira para encontrar um caminho que nos abra uma luz neste túnel cinzento e frio por onde caminhamos.

No balanço da comunicação do primeiro-ministro sobre mais austeridade, escutámos de tudo e o seu contrário, ou seja, espremido, para o cidadão comum, não ficou uma réstia de esperança nem de incerteza. Apenas a multiplicação da confusão e da contradição. Julgo que o verdadeiro drama desta crise e deste sabe em crise tão profunda não está nos números. Está nos homens que os tratam como meros utensílios. Como se a vida fossem números e nada mais do que algarismos sem alma, sem emoção, sem dignidade.

A secura do número é amada por este saber pobre e frustrante que nem a dimensão simbólica dos algarismos consegue apreender. E por isso, prefiro olhar e resistir a esta crise com a ajuda de outros números cuja carga simbólica trazem dentro de si Vida e Morte. Soubemos que, em 2009, seis portugueses por dia autodeterminaram a morte. Que a linha SOS Voz Amiga (destinada à prevenção do suicídio) recebe milhares de telefonemas suplicando ajuda de gente na brutalidade da solidão, do desemprego, da ruína familiar, da violência doméstica.

Ficámos a saber também que sobem acima de 30 mil os casos de violência doméstica, sempre em crescendo conforme se agudiza a crise, com maior cadência de mulheres assassinadas. Podíamos continuar a fornecer números sobre esta morte da esperança. Talvez se gritasse menos, se houvesse um saber com alma que compreendesse a dimensão trágica do número, acrescentando soluções que tivessem a ver com a dignidade de quem sofre, coisa que não se mede em percentagens do PIB, nem de inflação.

Francisco Moita Flores
Correio da Manhã, 09 Setembro 2012