7 de outubro de 2012

República insultada (Francisco Moita Flores)


A bandeira de todos nós, que se agita nas ruas, nas honras do Estado, era transformada em trapo.

Aquilo que se passou nas comemorações do 5 de Outubro é um retrato confrangedor, humilhante, diria mesmo insultuoso, daquilo que são os valores essenciais inscritos na utopia republicana. Inscreve valores superiores. A luta pela paz, pela liberdade, pela igualdade e pela fraternidade. A luta pela dignidade do Estado e dos cidadãos, pela afirmação da identidade da Pátria, tendo como símbolos maiores desta universalidade de princípios fundamentais o poder do povo expresso no voto universal, o hino nacional, a bandeira nacional. Comemorar significa comungar o mesmo tempo de memória. Partilhar a recordação de forma evocativa, actualizando esses valores principais, utilizando-os como cimento social que potencia a confiança no futuro.

Aquilo a que assistimos ontem não teve nada disto. Foi um acontecimento pífio que mais pareceu as Cortes de Lisboa, cercadas por militares e polícias, onde esteve o clero partidário, a nobreza dos políticos, e o povo representado pelo alcaide formado nas hostes da nobreza mais atávica. O verdadeiro povo passava para lá das grades ou, pura e simplesmente, ignorava o evento para o qual não foi convidado a partilhar. As Cortes falaram das tricas do costume que preocupam os altos dignitários, e a República nem sabe o que foi dito. Porque já fora insultada previamente quando hastearam um dos símbolos supremos da alma republicana. A bandeira de todos nós, que se agita nas ruas, nos campos de futebol, nos comícios, nas honras do Estado, era transformada em trapo subindo ao mastro maior da Câmara de Lisboa. Pode ter sido um lapso. Mas aquela varanda estava cheia de bispos da política e de marqueses do poder e é espantoso como ninguém, absolutamente ninguém, percebeu que no dia da República, na varanda onde foi proclamada há 102 anos, se humilhava a ideia que se procurava comemorar, ou melhor, evocar.

Num outro canto da cidade, outra galeria dos mesmos actores gritava pela unidade das esquerdas, valha isto o que valer, desnorteados, esquecidos do povo porque são aristocratas da mesma cepa, exactamente iguais aos que se reuniram nas Cortes, convencidos de que são povo. Esse que morre de fome e de esperança e no silêncio das suas amarguras é insultado, como a sua República, por homens que já perderam o norte da Pátria e do País.

Francisco Moita Flores, Professor Universitário
Correio da Manhã, 07 de Outubro de 2012