17 de fevereiro de 2013

A África do Sul conhece agora outro Oscar Pistorius: o vilão

Quatro tiros transformaram radicalmente a imagem de Oscar Pistorius. Antes da morte da modelo Reeva Steenkamp, a sua namorada, na madrugada de quinta-feira - um crime que ainda não foi esclarecido -, o velocista de 26 anos era o grande herói da África do Sul pós-Apartheid. Desiludidos com a política desde a aposentadoria do ícone Nelson Mandela, os sul-africanos recorreram ao desporto para encontrar um rosto que simbolizasse o país perante o resto do mundo. Considerado um exemplo de coragem e perseverança, o primeiro atleta com dupla amputação a participar numa prova olímpica foi a grande personalidade sul-africana dos últimos anos. A notícia de que a bela Reeva, de 29 anos, tinha sido morta a tiros na casa do atleta, em Pretória, foi inicialmente tratada como trágico acidente - Pistorius teria confundido a namorada com um ladrão. Horas depois, com a revelação pela polícia de que o caso era investigado como homicídio, os traços menos conhecidos do perfil de Pistorius enfim começavam a ganhar espaço na imprensa local.


"Os homens admiravam-no, as mulheres o adoravam. As crianças portadoras de deficiência se inspiravam nele. Pistorius era um brilhante exemplo de como dar o melhor de si e superar qualquer obstáculo", diz uma reportagem publicada nesta sexta pelo jornal The Times. "Descobrir que Pistorius é acusado de assassinato é como ficar a saber que o arcebispo Desmond Tutu foi apanhado a roubar." A publicação revela que Pistorius coleccionava namoradas - todas loiras, assim como Reeva - e sempre discutia muito com as parceiras. Também afirma que o atleta tem um temperamento infantil e paranoico. A imprensa sul-africana também destacou o facto de Pistorius ser um amante de armas de fogo - e ter uma excelente precisão nos tiros. O corredor chegou a ensinar um repórter do jornal The New York Times a atirar. Um correspondente do jornal britânico Daily Mail ficou surpreendido ao encontrar na casa de Pistorius "bastões de críquete e de beisebol atrás da porta, uma pistola perto da cama e uma metralhadora automática ao lado de uma janela".

A sua preocupação com a criminalidade urbana também era conhecida das pessoas mais próximas. Ele morava num condomínio fechado eleito em 2009 o "bairro mais seguro da África do Sul". O jornal africâner Beeld, o primeiro a dar a notícia da prisão de Pistorius, listou polêmicas anteriores envolvendo o atleta. Em 2009, estava acompanhado de um amigo que atropelou e matou um pedestre. O corredor tentou impedir que a imprensa fotografasse o acidente. Os jornalistas quiseram saber por que eles não deveriam registar as imagens. "Porque eu sou Oscar Pistorius", respondeu ele. Outra informação revelada pelo Beeld foi o histórico de problemas domésticos na casa do atleta. A polícia já tinha recebido queixas sobre discussões na residência. Vizinhos ouviram gritos inclusive na noite do crime. Depois dessa primeira queixa, a polícia recebeu uma segunda ligação, desta vez relatando o som dos disparos. De acordo com um vigia, o corpo da modelo foi encontrado na casa de banho.

Pistorius, que nesta sexta foi a um tribunal e ouviu o promotor do caso a acusação de “homicídio premeditado”, pode pegar prisão perpétua se for considerado culpado. Há trés anos, numa entrevista, ele lamentava o facto de a pena de morte ter sido abolida na África do Sul em 1995. Enquanto o atleta espera a sua próxima audiência no tribunal, marcada para terça-feira, a família da modelo espera a entrega do corpo para o funeral. Além das notícias sobre as suspeitas em torno de Pistorius, a imprensa sul-africana também publicou extensas reportagens sobre a vítima. O jornal Mail & Guardian, por exemplo, relata que Reeva Steenkamp foi a uma loja de Pretória na quarta para comprar papel de embrulho para o presente que daria a Pistorius no Dia dos Namorados (comemorado em 14 de fevereiro em muitos países). "o meu namorado gosta muito desta data", teria dito a modelo à vendedora. Uma das últimas mensagens de Reeva no Twitter foi pedido de apoio a uma campanha: "Vistam-se de preto nesta sexta feira para apoiar o movimento contra a violência contra as mulheres".

17 de Fevereiro de 2013 00:27

Rádio Moçambique/Com agência France-Presse