25 de maio de 2013

O monstro sem paralelo (José Goulão)


As instituições europeias criaram um monstro, um instrumento ditatorial ao serviço do neoliberalismo, a polícia da sociedade para zelar pela anarquia financeira: o Banco Central Europeu.

O BCE já existia, como banco central da Zona Euro, à imagem da Reserva Federal norte-americana, herdeiro da estrita política monetária imposta pelo Banco Central Alemão na fase neoliberal da Alemanha do marco.

Agora as instituições europeias dotaram-no com novos poderes, o de supervisão da união bancária dentro da Zona Euro, fiscal dos comportamentos bancários em prol dos interesses privados, quanto mais poderosos melhor.

Temos assim o BCE dono e senhor da política monetária dos 17 países da Zona Euro, supervisor da actividade bancária nesses mesmos países e ainda membro da troika para fazer cumprir, através do artifício do combate às dívidas soberanas, a liquidação da soberania das nações com maiores dificuldades e menor influência no espaço da moeda única.

Não é preciso ter formação económica ou conhecimento profundo dos meandros dos mercados para perceber que este BCE é o epicentro de graves conflitos de interesses.

Basta o senso comum para entender que desenvolver todas as actividades enunciadas, principalmente as de supervisão bancária e definição da política monetária, é mais ou menos a mesma coisa que deixar o lobo a tomar conta do galinheiro.

A famosa “independência” do banco central transforma-se assim num escandaloso posicionamento ao serviço dos mercados e contra os cidadãos, monstruoso e inquestionável instrumento para alimentar o poder absoluto do dinheiro.

Porquê inquestionável? Porque no espaço europeu que tanto se reclama paladino da democracia, uma instituição com estas funções e poderes não passa por eleições nem tem qualquer controlo democrático. Ainda recentemente Vítor Constâncio, ex-secretário geral do PS português e vice-governador do BCE, explicou no Parlamento Europeu que o Parlamento Europeu não tem nada a ver com as actividades do BCE.

Mais disse Constâncio ao responder que as questões de moral “não são para aqui chamadas” quando lhe pediram opinião sobre a ética dos lucros insultuosos do banco obtidos à custa da austeridade imposta, com danos trágicos, aos mais pobres dos países mais pobres.

Este é o monstro que as instituições europeias, sob as ordens de Merkel e a aceitação de Hollande, o presidente socialista francês, acabam de criar e que, com tais funções e poderes, não tem paralelo em parte alguma do mundo, nem mesmo no coração do império financeiro, os Estados Unidos da América.

É do conhecimento comum que a famosa “independência” do BCE, que o impede de emprestar dinheiro aos Estados membros da Zona Euro, lhe permite conceder empréstimos a bancos privados a juros ridículos de 0,5 por cento.

Bancos privados que depois emprestam aos Estados a juros que podem ir muito para lá dos cinco por cento, tanto mais altos quanto maiores forem as dificuldades de quem precisa do dinheiro.

O que as instituições europeias criaram, no tão apregoado espaço democrático da União Europeia, foi um férreo poder ditatorial.

Os cidadãos podem eleger os seus parlamentos e os seus governos. Por cima de tudo isso, porém, o BCE ditará, ao serviço dos mercados, a política económica, monetária e bancária única a que todas as outras políticas e decisões se submetem.

Jornal de Angola, 24 de Maio, 2013