30 de junho de 2013

O que faz correr Barroso (José Goulão)



Durão Barroso não pára, o seu motor da ambição parece movido a energias renováveis, daquelas que ele tanto despreza para os outros. Para Barroso, a Comissão Europeia já era, a crise ficou para trás, quem vier a seguir que se amanhe porque ele entrou noutra.

Barroso está sempre pelo menos um passo à frente das instituições a que continua vinculado. Assim foi, como estão lembrados, quando ainda era primeiro-ministro de Portugal e ele, pessoalmente, já se via presidente da Comissão Europeia. E que bela herança nos deixou, à nossa escala tão catastrófica como aquela em que se prepara para deixar a União Europeia.

E no entanto ele corre, trepa mesmo que para isso não precise de ser mais do que ser um emplastro em fotos e na TV ao lado das figuras que mandam no mundo, estratégia que lhe rendeu dividendos quando a usou na cimeira das Lajes onde se apuraram as mentiras para desencadear a invasão do Iraque.

Barroso é um prestador de altos serviços. Está por escrever a história aprofundada da equipa de agentes provocadores que minaram o 25 de Abril em Portugal invocando o maoismo, de que ele fez parte. Como primeiro-ministro de Portugal, não chegou a acabar o trabalho de destruir a economia do seu país porque entretanto foi chamado para institucionalizar o autoritarismo neoliberal na União Europeia à cabeça da Comissão Europeia. Agora a sua cabeça já navega por céus mais elevados.

O presidente da Comissão Europeia tem mais de um ano de mandato, mas isso já é passado para ele. Nos últimos meses começou a incarnar a figura do cavaleiro que vai pelo menos desbravar o caminho do acordo de comércio livre entre a Europa e os Estados Unidos num contexto em que as vantagens maiores vão para os impérios económicos norte-americanos, como os próprios reconhecem. Por isso Barroso não pára, quer mostrar serviço, compromete os interesses dos europeus num gigantesco negócio de mil milhões de dólares por ano, para isso mente, insulta, prejudica ainda mais os próprios europeus. Que o digam os cineastas da Europa que se entrevistaram com ele em Estrasburgo. Que os digam os franceses, apelidados de “reaccionários” por contestarem a sua estratégia, não hesitando Barroso em recorrer à velha prática “maoista” e hoje neoliberal de insultar como retrógrados os que pensam de maneira diferente da sua e dos seus amos.

A submissão de uma Europa em cacos aos Estados Unidos para ajudar a restaurar o ameaçado império económico é o maoismo de novo tipo de Barroso, a sua nova cimeira das Lajes, a sua ainda Comissão Europeia. É um trampolim, o salto para uma recompensa mais elevada, apropriada a um serviçal de luxo.

Barroso dá dois lugares à escolha como paga para os seus esforços, como se sabe à boca cheia: ou secretário-geral da ONU, ou secretário-geral da NATO. A atribuição desses lugares está hoje, mais do que nunca, nas mãos dos círculos económicos, militares, políticos e de espionagem dos EUA. Barroso está, portanto, em boas mãos. Se for para o palácio de vidro de Nova Iorque fica confirmado, como se isso ainda fosse preciso observando o comportamento de Ban-kim Moon, que o lugar está hoje reservado aos afilhados de Washington. Se for para executivo principal do exército imperial ficaremos com a certeza, como se isso ainda fosse preciso, de quem são os verdadeiros patrões de Barroso.

No mundo tal como está formatado, a ambição recompensada de um indivíduo como Barroso é uma preciosa lição de história sobre as estratégias imperiais das últimas décadas.

Jornal de Angola, 26 de Junho, 2013