28 de julho de 2013

A mentalidade colonial (José Goulão)


Há quem fique chocado com a qualificação de “protectorado” atribuída à situação em que vivem Portugal, Grécia, Irlanda, Chipre, países submetidos ao poder dos credores exercido por intermédio da troika – aliança austeritária constituída pela Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional.

As mentes mais sensíveis consideram que protectorado é outra coisa, é o exercício da soberania política directa, como se não soubéssemos todos muito bem que, neste caso na União Europeia, a política não passa hoje de um instrumento manipulado pelos grandes interesses financeiros e económicos. Por isso também há quem defina o regime como uma “ditadura dos mercados”, nova seta capaz de ferir as tais almas delicadas.

Deixemos então o campo de batalha dos argumentos, coisa académica quando estamos perante a tragédia do sofrimento de milhões de pessoas, e passemos à prática, vamos a factos crus. É verdade que a notícia não caiu como uma bomba nas redacções, porque também estas são envolvidas por escudos protectores incensados de pudores censórios, mas não deixou de chegar. Discretamente, mansamente mas verdadeira, obscenamente autêntica.

Diz-nos essa notícia que o governo grego de fachada, o que é formado pelo embrião de partido único que é o “bloco central” de direita e socialistas, decidiu gratificar os agentes da troika residentes no país com generosas isenções fiscais. Isto é, os estrangeiros instalados em Atenas ao serviço das instituições que constituem a troika podem comprar, por exemplo, vivendas, automóveis e barcos de luxo sem necessitarem de os declarar perante a administração fiscal. Milhões e milhões de gregos sofrem as agonias de uma carga fiscal cruel, a mortalidade no país cresce de maneira exponencial, os nascimentos diminuíram radicalmente, 2.500 professores foram despedidos esta semana por telefone, mesmo antes de haver leis para isso, o serviço público de rádio e televisão continua silenciado 900 horas depois da decisão do Supremo Tribunal Administrativo que ordenou o seu regresso à actividade, a Orquestra Sinfónica da Grécia deu o seu último concerto e os agentes da troika estabelecem lustrosas isenções fiscais para si mesmos.

Como os compreendemos bem! A Grécia é um paraíso mediterrânico, a invasão estrangeira, de matriz alemã, deixou a economia do país de pantanas, existem, de certeza, oportunidades únicas para deitar as mãos ao luxo saldado a preço de lixo. E quando as isenções fiscais arrasam o que ainda possa existir de concorrência no saque, este torna-se perfeito, fácil, escorreito. Os invasores chegaram, instalaram-se e definem as leis e as práticas para servirem os seus amos, recebendo as respectivas compensações pelo desempenho das fatigantes comissões de serviço.

Através da linguagem fria e técnica de um Código Fiscal, permite-se um assalto colonial, liberta-se o caminho para que o protectorado adquira todas as suas valências, da repressão, à humilhação do povo subjugado, ao roubo dos seus direitos humanos, valores culturais e riquezas naturais.

Deixemo-nos de rodeios, a troika não é um mero instrumento para a defesa de interesses de invisíveis credores. É um exército colonial, um bando que saqueia e rapina povos e países, aviltando com práticas fascistas valores nobres como é, por exemplo, o da democracia.

Jornal de Angola, 26 de Julho de 2013