28 de julho de 2013

Alteração nos hábitos de alimentação (Roger Godwin)


Alguns países africanos, vítimas de todo um novo estilo de vida que desde há muito vem afectando o ocidente, estão a sentir por parte das suas populações toda uma série de alteração nos hábitos e métodos de alimentação, o que se traduz no aumento de casos de saúde pública, como a obesidade e os diabetes.

Na região Austral de África, a Zâmbia tem sido dos países que mais tem sentido na papel os efeitos do crescente recurso a hábitos de alimentação importados de outros continentes graças ao êxito que as grandes cadeias de supermercados locais estão a ter com a exploração do confeccionamento de comida que depois vendem a preços sedutoramente reduzidos.

Até há pouco tempo essas grandes cadeias de supermercados vendiam os seus produtos a grosso a pequenos revendedores que depois os comercializavam e obtinham uma pequena margem de lucro.

Actualmente, o grande negócio dessas grandes redes consiste em aproveitar os seus próprios produtos, sobretudo carne e galinha, para os confeccionar nas suas instalações e vendê-los a preços praticamente imbatíveis.


Essas grandes redes de supermercados possuem, tanto na África do Sul como na Zâmbia (e antes no Zimbabwe), propriedades onde produzem e criam uma parte significativa daquilo que depois vendiam aos retalhistas. Eram estes que depois os comercializavam com os restaurantes e hotéis onde eram consumidos.

Segundo dados do Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), em 2009 o continente africano era aquele que menos carne consumia, logo atrás do sudoeste asiático e da China, numa lista que era então liderada pelos Estados Unidos da América. Neste momento, o continente africano já consome mais carne do que o sudoeste asiático e aproxima-se da China.

Embora a Organização Mundial de Saúde (OMS) ainda não se tenha pronunciado com rigor em relação a esta situação, existe uma convicção popular quase generalizada de que o recente aumento dos índices de morte súbita em África está directamente relacionado com a alteração que se tem registado nos hábitos alimentares da população.


Este tema não tem merecido a devida atenção por parte de alguns governos que se sentem mais confortados com as receitas que arrecadam dos impostos pagos pelos gigantes da indústria de alimentos, menosprezando o impacto que essa atitude tem na saúde das suas populações.

O sistema de assistência médica no continente africano, salvo honrosas excepções, ainda é afectado por algumas debilidades, pese o facto de, em quase todos os países, se ter vindo a registar um aumento em termos de número de anos de esperança de vida.

Uma possibilidade que está a ser estudada por países como o Gana e o Quénia, prende-se com a aprovação de uma medida que obrigue as redes de supermercados a confeccionar comida mais saudável, alargando a sua oferta que agora se restringe, quase só, a hambúrgueres, galinha frita, batatas fritas e muitos molhos que muitas vezes são usados para disfarçar o aspecto final desses pratos.

As fazendas onde são criados os animais também possuem produtos hortícolas e frutas que quase sempre ficam de fora desses cardápios, para já não se falar no pão que é de má qualidade e feito com o que de pior a farinha tem.


Na Nigéria, que representa um apetecível mercado de 167 milhões de pessoas, existem planos para um repentino alargamento do número de redes subsidiárias dos grandes supermercados, cuja maioria estão sediados na África do Sul e mostram-se relutantes em aceitar parcerias com empresários dos países onde se instalam.

Mas nem tudo é negativo neste novo tipo de negócio, já que ele tem contribuído para um aumento muito significativo do número de postos de trabalho, sobretudo na Zâmbia, onde um só supermercado, em escassos três anos, o número de empregados subiu de 60 para cinco mil.

A oferta de empregos tem sido um dos principais argumentos utilizados pelos donos das grandes cadeias de supermercados nas campanhas publicitárias, onde surgem jovens, com aspecto saudável, a comer aquilo que outros jovens sorridentes lhes estão a oferecer.

Não é por um mero acaso que são precisamente os jovens aqueles que mais consomem um tipo de comida rápida que os especialistas consideram relativamente pouco saudável. Esses novos hábitos são adquiridos por via da publicidade e de um modismo impiedoso que não se compadece com os sistemáticos conselhos de apelo aos bons hábitos alimentares para que se possa ter uma boa saúde.


Por isso mesmo seria útil que fossem revistos em África alguns códigos de publicidade, de modo a evitarem-se situações nas quais os especialistas estão impotentes para impor aquilo que levaram anos a aprender face a ardis do marketing que apenas procuram a conquista de mercados consumistas.

Tem que haver a sensibilidade necessária para se ver que com estas práticas alimentares se está a comprometer o futuro de milhões de pessoas, com ou sem recursos, que não olham a modas quando se trata da hora de confortar o estômago.

Jornal de Angola, 26 de Julho, 2013