10 de julho de 2013

Cavaco Silva fez estudo matemático sobre a primeira travessia aérea do Atlântico


Cavaco Silva fez estudo matemático sobre a primeira travessia aérea do Atlântico

por Manuela Ferreira

Cavaco Silva, enquanto sócio da Sociedade de Geografia, fez e apresentou ali “um estudo matemático muito exacto sobre o voo de Gago Coutinho”, revelou ao Lusomonitor o secretário perpétuo da organização, João Pereira Neto. Agora, como Chefe de Estado e certamente com pouco tempo para a investigação, o estadista é, por inerência, Presidente de Honra e Protector da associação, que funciona sem qualquer apoio do Estado.

Fundada em 1875, a Sociedade de Geografia mantém ainda hoje os traços gerais que levaram à sua fundação, visando “promover e auxiliar o estudo e progresso das ciências geográficas e correlativas”, num contexto que acabaria dominado pelas Conferências de Bruxelas e de Berlim.

74 médicos, diplomatas, oficiais, engenheiros, jornalistas, professores e até o director do Banco de Portugal requereram ao rei D. Luís a criação da Sociedade.

Na lista dos seus fundadores, destacam-se nomes como Teixeira de Vasconcelos, António Enes, Luciano Cordeiro, Teófilo Braga, Sousa Martins, Brito Capelo…

Três anos depois da sua fundação, a Sociedade de Geografia já pedia ao governo a criação de um Instituto de Estudos Coloniais para preparar os funcionários públicos de além-mar mas a ideia só se concretizou em 1906, com a Escola Colonial, hoje Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas.

Ao olharmos para a velha fotografia de 1897, quando o rei D. Carlos inaugurou, na Sala Portugal, com 50 metros de comprimento, as novas instalações da Sociedade de Geografia, exceptuando a cor e o vestuário, não há muitas diferenças em relação às fotos que os jovens advogados tiraram, há algumas semanas, quando o bastonário Marinho Pinto lhes entregou ali as suas cédulas profissionais.

31 secções e comissões especializadas, totalmente independentes, debruçam-se, na Sociedade de Geografia, sobre temas tão diferentes como a História da Medicina, Geografia dos Oceanos, Agricultura, Artes e Literaturas, Estudos Árabes, Indústria, Etnografia, Administração Pública, Emigração, Instrução Publica…

A mais antiga é a Comissão Africana, a Secção de Solidariedade e Política Social dá agora os primeiros passos.

As conferências e comunicações continuam a ser uma constante. A 19 de Julho, o sociólogo angolano, Paulo de Carvalho, dissertará sobre “Desenvolvimento Humano e Cooperação em Angola”. Cinco dias depois, começa o Congresso Internacional “A Ordem de Cristo e a Expansão”, com uma invejável plêiade de oradores e comunicações, e com o apoio de várias universidades.

Situada em plena Baixa lisboeta, à Rua das Portas de Santo Antão, a “velha” inquilina do Coliseu dos Recreios, acolhe frequentemente lançamentos de livros para rentabilizar o seu espaço e pagar as rendas em tempos de austeridade. Um bispo da IURD vendeu ali em quatro horas cinco mil livros mas Miguel Sousa Tavares ou o jornalista António Caeiro já optaram também pelo espaço. O estilista Manuel Gonçalves escolheu, no ano passado, a Sociedade de Geografia para apresentar o seu desfile de moda.

Visitar o edifício de quatro andares onde a Sociedade está instalada é regressar a um tempo de requinte e bom gosto, em que as pessoas tinham prazer em usufruir do que as rodeava: vitrais, ferros forjados, escadas, móveis trabalhados com minúcia e esmero, estátuas. Os sócios podem mesmo almoçar ali por dez euros e os não-sócios por 12 euros.

Logo à entrada, surge o quadro de Veloso Salgado, “Vasco da Gama perante o Samorim”, que pretende retratar a chegada do navegador a Calecute e que já foi apreciado, nos últimos dez anos, em Berlim, Brasil e Bruxelas, por dois milhões de pessoas.

Outras preciosidades saciam os espíritos curiosos como a Biblioteca, cujo documento mais antigo remonta ao ano de 1.300, centenas de atlas, padrões dos descobrimentos, estátuas quiocas, cadeiras africanas.

A Sociedade de Geografia é hoje proprietária da segunda melhor colecção de arte africana na Europa, logo depois do Museu de Berlim.

Há ali um exemplar do nº1 da revista “National Geographic” . Fazendo jus à sede de novos conhecimentos , ao longo da sua existência, a Sociedade adquiriu mais de 600 títulos de revistas diferentes, para além de ainda hoje trocar boletins com outras 111 instituições.

Actualmente, faz um estudo, com várias universidades, incluindo a do Cairo, sobre os sarcófagos oferecidos a Portugal quando da inauguração do Canal do Suez – acontecimento descrito numa reportagem assinada por Eça de Queiroz, para o “Diário de Notícias.

Uma exposição sobre a recuperação das fortalezas da Abissínia e da Eritreia, em que a Sociedade teve papel importante através da sua documentação, corre actualmente vários países.

Sendo o observador mais antigo da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), a associação vira-se agora para Leste, mantendo relações com o Cazaquistão e preparando-se para assinar um protocolo com a Federação das Repúblicas Russas, embora não deixando as suas tradicionais zonas de investigação, sejam elas Angola, Macau, China ou Timor.

Mas, provavelmente, o melhor espólio da Sociedade de Geografia são os seus 1.300 sócios, alguns associados há mais de 50 anos, alguns ex-ministros de Portugal ou dos PALOP – mas todos investigadores em regime de voluntariado.

Lusomonitor, 9 de Julho de 2013