4 de julho de 2013

O dedo pobre de Bruxelas (José Goulão)


Há três anos que não acontecia nada.

Atropelada pelas suas divergências internas, entretida com as urgências da crise e a expoliação sistemática de rendimentos e direitos das populações, a União Europeia quase se esquecera dos esforços de adesão da Turquia.

Agora aconteceu. Bruxelas “fez um gesto” ou “deu um passo” em direcção à Turquia, como se diz nas andanças diplomáticas, e decidiu retomar no próximo Outono as negociações com o imenso e estratégico país euro-asiático para um dia vir a integrar o clube que, com a entrada da Croácia neste 1 de Julho, passa a ter 28 Estados membros.

Que se passou para que Bruxelas tenha mexido num processo inerte há quase 1.500 longos dias?

A Turquia fez progressos na democratização da sociedade, no respeito pelos direitos cívicos e humanos, tomou alguma atitude que leve a pensar na possibilidade de um dia vir a desocupar o Norte de Chipre, estará disposta a admitir de uma vez que a minoria curda tem direitos culturais e nacionais próprios?

Foi quase assim... Mas ao contrário.

Nas últimas semanas, milhões de turcos dizem o que sentem em relação ao governo islamita e autocrático do primeiro-ministro Erdogan, cuja circunstância de ter chegado ao poder por eleições não lhe deveria permitir confundir democracia com o que pensa e crê o chefe do governo.

Os turcos revoltaram-se contra o excesso de autoridade, contra as limitações de direitos na vida pública, contra a progressiva e insidiosa confessionalização da sociedade num país que se habituou a viver em regime laico.

A islamização forçada da sociedade turca, como a imposição dos princípios de qualquer religião sobre qualquer comunidade plural, significa autoritarismo, intolerância, deturpação de direitos, segregacionismo, enfim, um conjunto de manipulações da vida comum que nada têm a ver com a democracia e com a liberdade individual e colectiva. Foi o momento em que a Turquia explodiu aos olhos do mundo, exibindo doenças até agora mais ou menos escondidas, que a União Europeia escolheu para se aproximar do contestado regime religioso turco. Foi a hora em que o primeiro-ministro Erdogan mandou a polícia e corpos de gendarmes do exército carregar sobre as populações, prender a eito e matar, se necessário, para travar o protesto popular, que Durão Barroso, Ângela Merkel e demais chefes de governo da União Europeia decidiram retomar as negociações para integração da Turquia. Esta Turquia que continua a reprimir a minoria curda, que continua a ocupar militarmente e a colonizar ilegalmente o Norte de Chipre, que submete gradualmente a democracia à religião e que reprime em sangue os protestos cívicos.

Bruxelas, com os seus repetidos e muitas vezes autoritários discursos sobre democracia, liberdades e direitos humanos, tem um dedo podre que escolhe momentos e ocasiões para anunciar decisões em que estes princípios são violados.

Comparem-se os comportamentos benevolentes da União em relação à Turquia com o tratamento assustador e cruel que está a dar ao povo de Chipre, um Estado membro, como se já não lhe bastasse ser uma vítima da própria Turquia.

Olhando com objectividade, nada disto surpreende.

O dedo pobre que se agitou como sinal de apoio a Erdogan na repressão do seu povo é o mesmo que escolheu a Turquia contra uma base de assalto contra o povo da Síria, afogando-o numa guerra civil onde avulta a desumanidade absoluta dos que a alimentam.

É o mesmo dedo podre que, guiado por circunstâncias conjunturais, oportunistas e materiais, alimenta confrontações entre as comunidades islâmicas sunita e xiita mundiais que podem vir a assumir dimensões catastróficas. Um dedo podre mas que dispara, sob a bandeira imperial da OTAN.

Jornal de Angola, 2 de Julho