15 de julho de 2013

Um caminho sem excessos (José Ribeiro)


O consumo de álcool está a deixar em Angola um rasto de destruição, dor e luto. É uma autêntica guerra civil que não poupa ninguém e incide muito particularmente nos jovens. O álcool mata nas estradas quase tanto como a malária. Mais de 90 por cento dos acidentes de viação são causados pelo álcool ao volante e excesso de velocidade. Mas quem conduz a altas velocidades, normalmente ingeriu demasiado álcool.

As famílias angolanas sentem dentro das suas portas o peso terrível do álcool. Todos sabemos que a violência doméstica é filha do alcoolismo. Todos os dias milhares de mulheres são agredidas. Os agressores, regra geral, consomem álcool em excesso. Milhares de crianças sofrem na pele a negligência, a violência e toda a espécie de abusos dentro do lar. O álcool é responsável directo ou indirecto por esta tragédia que está a roubar o futuro às nossas crianças e aos nossos jovens.

O álcool é responsável pela perda de milhões de horas de trabalho por dia. O absentismo nas empresas públicas e privadas tem como principal causa o consumo excessivo de álcool. A negligência e a irresponsabilidade são consequências directas do álcool.

Angola tem um problema grave de produtividade devido ao consumo excessivo de álcool de muitos trabalhadores. A praga começa a chegar também às escolas superiores onde os estudantes que apresentam maus resultados têm hábitos acentuados de consumo de álcool. Nas grandes cidades, o problema tem uma vertente “escondida” que não pode continuar a ser ignorada. Existem muitos postos de venda de bebidas de fabrico caseiro que causam a embriaguês rapidamente e são devastadoras para a saúde. Quem ingere estas bebidas corre o sério riscos de doenças mentais.

O consumo excessivo de álcool em público é um problema grave de saúde pública que exige uma resposta rápida e eficaz da sociedade em bloco. O alcoolismo não se resolve com leis ou com repressão policial. É obra de todos e em bloco. É preciso acabar com as bebidas de “pacote” que se vendem nas ruas das grandes cidades a toda a gente, mesmo a crianças e adolescentes. É preciso acabar com o fabrico de bebidas caseiras e a sua venda nos quintais ou à janela das casas. É preciso proibir a publicidade directa ou indirecta ao álcool, nas ruas ou nos órgãos de comunicação social.

Não há da minha parte qualquer intenção de moralismo. Cada um tem os seus vícios. Mas se o tabaco destrói a saúde individual, o álcool destrói a vida em sociedade, o emprego, a família. Tomo esta posição porque estou preocupado com pessoas que por causa do álcool perdem a dignidade e muito especialmente a capacidade profissional. Dói muito ver pessoas com talento, que podem dar muito a Angola, atiradas para a degradação do alcoolismo, sem respeito por elas próprias, pelos familiares ou colegas de profissão. O Sindicato de Jornalistas lançou há anos uma boa campanha contra o alcoolismo. Ninguém pegou no testemunho e prosseguiu.

O que me faz correr é isto: que todos os profissionais em Angola presos nas malhas do álcool deixem de consumir e regressem ao convívio da família, dos amigos e colegas, inteiros, dignos e responsáveis. Recordo aqui aquele que na sua época foi considerado o príncipe do jornalismo angolano, José de Fontes Pereira. Ele esteve ligado aos grandes jornais do último quartel do século XIX em Luanda. Do alto do seu prestígio, passou os melhores anos da sua vida combatendo o alcoolismo, missão que desempenhou até à morte. Na época, nas ruas de Luanda era frequente ver homens e mulheres, completamente embriagados, com bebidas de fabrico caseiro. José de Fontes Pereira criou equipas de voluntários que acompanhavam essas pessoas a casa e depois as convenciam a abandonar o consumo de álcool. Com isso, salvou milhares de pessoas. Na mesma altura, aquele grande jornalista desencadeou uma campanha para que todos andassem calçados. Na época, morria muita gente com tétano por andar descalça.

Hoje os cuidados de saúde são outros. Mas há muita gente que se perde nos labirintos do álcool e é preocupante quando isso acontece com jovens e raparigas. É uma tragédia que ganha contornos graves, porque nove em cada dez acidentes na estrada se devem ao consumo excessivo de álcool, os acidentes de trabalho têm quase sempre origem no álcool, a violência doméstica, os maus-tratos às crianças, muitas faltas ao trabalho têm origem no consumo excessivo de álcool.

Como somos inteligentes e responsáveis, renovo o apelo de José Fontes Pereira: abandonemos o caminho do álcool! Os que não forem capazes de deixar o álcool voluntariamente devem ser ajudados pelos especialistas e pelos familiares. Mas primeiro, é ganhar consciência do problema. Fingir que está tudo bem, apenas agrava o problema. Vamos lá, mãos à obra!

Jornal de Angola, 14 de Julho de 2013