19 de outubro de 2013

Cemitério da cidade do Uíge está transformado num grande matagal (Joaquim Júnior)


 
As campas no cemitério municipal da cidade do Uíge estão cobertas de capim. Os arruamentos estão transformados em matagais e lixeiras. Pessoas e animais invadem o “campo santo” e fazem do espaço uma latrina pública. Os vivos perderam o respeito pelos seus mortos.

É notária a degradação e falta de limpeza no cemitério municipal da cidade do Uíge. Durante o dia é invadido por dezenas de pessoas que vivem nas imediações. Vão buscar água ao chafariz instalado no seu interior e que por milagre ainda funciona. À noite os marginais tomam conta do espaço. Passa a ser um covil de bandidos.


A reportagem do Jornal de Angola encontrou no cemitério pessoas munidas de baldes, bacias e bidões. Abasteciam-se de água no único chafariz das redondezas. Muitos riam e falavam alto. Outros sentavam-se em cima das campas enquanto esperavam a sua vez. As crianças corriam de um lado para o outro em grande algazarra. A água do cemitério serve para tudo, menos para a limpeza e higiene do “campo santo”.

O Cemitério Municipal do Uíge tem milhares de campas. As famílias da cidade têm lá sepultado um ente querido. Mas todos estão mais preocupados com os vivos do que com os mortos. O abandono é chocante. O matagal em que se transformou o cemitério é uma vergonha para aqueles que têm a responsabilidade de zelar pela sua manutenção e limpeza.

“A nossa missão é difícil. Trabalhamos muito e ganhamos mal. Ser coveiro é um grande risco. Trabalhamos aqui desde 2005 em regime de contrato. Os 14.250 kwanzas que recebemos de ordenado não são suficientes para cobrir as nossas necessidades”, disse Eduardo Marques, responsável da brigada de coveiros do cemitério. Ele pede que o trabalho dos coveiros seja dignificado e considerado.

“São oito pessoas que trabalham no Cemitério Municipal do Uíge e enfrentamos muitas dificuldades. A sujidade que o recinto apresenta tem a ver com o facto de sermos poucos e haver muito trabalho para fazer, apesar de os salários não serem compatíveis com o esforço que fazemos”, referiu.

Os trabalhadores fazem o trabalho de acordo com a remuneração: limpam apenas as áreas que mais dão nas vistas, como a entrada do cemitério, deixando centenas de campas cobertas de capim.

Muitas vezes só são limpas pelos familiares no dia dedicado aos defuntos, em Novembro. Costuma dizer-se que pouco dinheiro, pouco trabalho.

Desculpas da Administração

O administrador municipal do Uíge, Altamiro Benjamim, admitiu que o estado actual do cemitério “é preocupante”, mas assegurou que está a fazer esforços com vista a melhorar a situação. “A Administração Municipal não tem verbas suficientes para assumir a recuperação do cemitério”, disse. Mas não explicou o que tem feito para conseguir essas verbas. “Dada a necessidade de dar uma nova imagem ao local, estamos a e seleccionar uma empresa que seja capaz de realizar melhor os trabalhos de manutenção do cemitério”, disse Altamiro Benjamim. Acrescentou que Governo Provincial aposta na recuperação total do cemitério, desde as campas, aos acessos. E também está nos planos do governo do Uíge, pagar melhores salários aos coveiros. Enquanto os “planos” não são executados, o Cemitério Municipal do Uíge está num estado que envergonha tudo e todos.

Desolação do padre

O padre Correia Hilário já celebrou missas fúnebres no Cemitério Municipal do Uíge. Manifestou à nossa reportagem a sua desolação com o estado em que o campo santo se encontra.

O padre Hilário lembrou que o cemitério nunca foi um lugar para comercialização ou diversão. “A nossa tradição reza que depois de assistirmos ao enterro de alguém, no regresso lavamos as mãos. Mas o que estamos a verificar hoje revela na verdade a falta de consciência cívica e moral das pessoas. É importante referir que a cidadania passa também por estas coisas, o respeito pelos lugares que considerados sagrados”, disse.

O sacerdote explicou que “a cruz na Igreja chama a atenção da necessidade do Homem procurar o Senhor enquanto está vivo”.

No cemitério, acrescentou, “a cruz é o sinal de que Jesus morreu para a salvação da humanidade”. E no hospital, “a cruz alerta para uma realidade: a vida pode terminar a qualquer momento”.

O padre Hilário lembrou que “todos somos futuros mortos. E se temos esta consciência, temos de respeitar o lugar onde já repousam os nossos entes queridos. É uma pena ver o cemitério da cidade muito mal conservado. Isso deixa muito a desejar”, afirmou. E mostra incompetência de quem tem a responsabilidade de gerir e assegurar a manutenção do campo santo.

Responsabilidade é de todos

Para o sacerdote, também é preciso educar a população para o respeito pelos lugares sagrados: “essa tarefa não deve ser apenas da responsabilidade da Igreja, mas também das famílias e das autoridades, transmitindo mensagens educativas sobre a necessidade de ser respeitado o cemitério como um lugar sagrado, onde não se pode fazer uso de bebidas alcoólicas, gritarias, ou destruir as campas.

“O cemitério deve ser visto como um lugar de silêncio e os vivos devem cuidar do lugar onde são depositados os restos mortais dos seus entes queridos”, concluiu o padre Correia Hilário.

Jornal de Angola, 16 de Outubro, 2013