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22 de janeiro de 2014

Uma burla criminosa (José Goulão)


Quem escutar os dirigentes políticos europeus e os seus megafones mediáticos há-de julgar que a crise é passado e o futuro promete ser brilhante com base num presente de alívio em que finalmente os indicadores económicos, essas bulas emitidas pelos sacerdotes do mercado, dão sinais de que todos vamos pelo bom caminho.

A mensagem dos indicadores económicos resume-se numa penada: a economia da União Europeia, mesmo dos países sob protectorado, começou a recuperar, o desemprego tende a diminuir, afinal a austeridade tardou mas começou a dar resultados, não estava errada como até alguns dos seus executores disseram. A propaganda amplia os registos com trombetas histéricas, uma bíblia das publicações financeiras do espaço europeu ousa até falar em “milagre económico” e logo no caso de Portugal, imagine-se. Alguém deveria ter alertado o escriba de que a mesma expressão foi usada no caso do Chile de Pinochet para saudar a devastação económica e social assente em dezenas de milhares de mortos, muitos mais presos políticos, pragas de miséria e desemprego, extinção da segurança social – caos de que o país não recuperou passados 40 anos.

O mundo tem uma larga experiência de que os indicadores económicos não dão emprego nem de comer a ninguém, estão nas tintas para as desigualdades sociais, borrifam na substituição de empregos estáveis por trabalho precário, podem até ser tanto mais fantásticos quanto maior o número de cidadãos que se aproximam da condição de escravos. Os tão prometedores indicadores económicos que todos os dias são apregoados pelos arautos da propaganda assentam em estruturas económicas arrasadas, em direitos laborais e sociais esmigalhados, em direitos humanos extintos. Os indicadores sobem, a tragédia humana continua a ampliar-se. Os indicadores evoluem, a sociedade apodrece sem recuperação no horizonte.

Olhemos de relance para a União Europeia: 26 milhões de desempregados, quase seis milhões de jovens sem trabalho, milhões na miséria ou à beira da pobreza e da exclusão social, quase um terço das crianças pobres e socialmente excluídas, mais de nove por cento dos cidadãos europeus submetidos a uma situação de privação material severa, quase um milhão de pessoas sem abrigo, enquanto continua a crescer o número de famílias que perdem a habitação para os bancos.

Este é o retrato real da Europa, aquele que as pessoas sentem em carne viva enquanto o regime canta indicadores como quem anuncia prémios de lotaria viciada onde a taluda continua a sair aos milionários, cada vez mais numerosos – e também generosos e gratos para com os carrascos que aplicam a austeridade.

Atente-se no caso de Durão Barroso, o foragido primeiro-ministro de Portugal que se transformou em presidente da Comissão Europeia depois de ter contribuído para lançar uma guerra assassina que devastou o Iraque e que agora deixa a União Europeia neste estado. Acaba de receber o prémio Carlos V, destinado aos que se distinguiram “no desenvolvimento da Europa” e que lhe vai nutrir a conta bancária em mais 45 mil euros.

A União Europeia é uma criminosa burla a descoberto.

Jornal de Angola, 21 de Janeiro de 2014

9 de janeiro de 2014

A arte suprema de Eusébio e as Bucólicas de Virgílio (Artur Queiroz)


Os partidos portugueses representados na Assembleia da República acordaram, por unanimidade, que Eusébio vai para o Panteão Nacional. As elites corruptas e ignorantes não se conformam. Um futebolista que viajou de Moçambique para Portugal no ano em que começou a guerra colonial, não pode subir tão alto.

Porque veio da Mafalala, como Mantorras um dia chegou a Lisboa com a trouxa feita no Cazenga. Ou indo mais atrás, Peyroteo, Matateu, Vicente, Coluna, Santana, Costa Pereira, Yauca, Hilário, Dinis, Inguila e tantos outros.

Mário Soares faz parte das elites portuguesas. Nunca foi consensual e é-o cada vez menos. Nunca chegará ao Panteão Nacional como vai chegar o grande Eusébio. As elites portuguesas corruptas e ignorantes têm um traço em comum: a inveja. Soares sabe que pelas más companhias e por ele próprio nunca passará de um político medíocre que ganhou algum brilho por se apresentar em comícios com François Miterrand. Aprendeu a explorar as pausas, gerar expectativas, mas fez sempre tudo isso de uma forma requentada e sem imaginação.

O que ele disse de Eusébio da Silva Ferreira no dia da morte do Pantera Negra deixou-me siderado. Do alto da sua soberba disse que o “rei” era pouco culto. Mário Soares perdeu o juízo! Nada o autoriza a fazer semelhante afirmação. Nem sequer o paternalismo insultuoso que sempre usa quando se refere a alguém oriundo das antigas colónias portuguesas. Ou dos seus políticos e instituições. A cultura do amigo de Savimbi e outros bandidos internacionais, nunca passou o degrau do paleio balofo. Defende posições que o remetem para uma mediocridade cultural confrangedora. Não basta ter amigos e correligionários cultos. É preciso amar a cultura. E ele em Portugal nunca foi amigo da Cultura nem dos agentes culturais. As suas políticas como chefe de vários governos estão aí para o comprovar.

Eusébio era um homem muito culto. Sabia tudo da Mafalala e do seu povo. Falava a língua mãe, falava português, falava inglês. Artistas e intelectuais de todo o mundo veneravam-no como expoente máximo da arte do futebol. A sua cultura desportiva era superlativa.

Se Mário Soares atingisse na política o nível que Eusébio alcançou no desporto, podia ombrear com Agostinho Neto, Amílcar Cabral, Mondlane, Samora Machel, António Macedo, Álvaro Cunhal, Miterrand e outros “reis” da política mundial. Mas não. Será sempre um político medíocre que foi elevado aos píncaros pela mão da CIA, do ELP, de Spínola e os restos do regime colonial-fascista.

Eusébio era o expoente máximo da cultura desportiva de dois povos: o moçambicano e o português. Mário Soares é a expressão mínima de um político oportunista que meteu o socialismo na gaveta e entregou a democracia aos ditames do poder económico. Marcou golos na própria baliza e enganou de uma forma atroz o Povo Português. Eusébio passeou a sua classe de desportista de eleição por todo o mundo. Era amado e respeitado. Pela sua infinita classe e inigualável cultura desportiva.

Mário Soares disse com ar compungido que Eusébio bebia uísque de manhã e à tarde. Uma alusão digna de um verdadeiro patife. Ernesto Lara Filho bebia Castelvinho de manhã, à tarde e à noite. Mas foi o maior repórter da sua geração, um poeta universal e um dos maiores cronistas de sempre de língua portuguesa. Eu bebi litros de catembe enquanto ouvia relatos dos jogos do Benfica de Eusébio e traduzia do latim para português as Bucólicas de Virgílio. Enquanto lia emocionado as desditas de Dido, ululando de dor pelos corredores do seu palácio, inconformada com a partida de Eneias, ouvia Nuno Brás, Amadeu José de Freitas ou Artur Agostinho gritar os golos de Eusébio. O genial futebolista era tão culto que inspirou artistas e intelectuais de várias gerações.
Soares disse que Eusébio bebia de manhã e à tarde, para de uma forma subliminar dizer aos portugueses que era um estroina. E sendo assim, não podia ser o Rei. E muito menos estar anos luz acima de um político que é de esquerda quando lhe dá jeito e fecha os olhos às fogueiras da Jamba para estar de bem com os próceres do apartheid. O Eusébio está acima dos mesquinhos interesses das elites portuguesas corruptas e ignorantes.

Vou fazer uma confissão. O meu ídolo do futebol é o grande Benje, o único guarda-redes que ganhou mais fama e glória do que todos os avançados. Um dia o Benfica veio jogar a Luanda contra uma selecção angolana. Benje era o dono da Baliza. Eu disse ao meu irmão Amado: o pior resultado que podemos fazer é zero a zero. O Benje vai fechar a baliza!

Saltámos o muro dos Coqueiros e fomos apoiar o Benje, atrás da baliza. Nas bancadas só se gritava: Eusébio! Eusébio! Eusébio! E nós cá em baixo respondíamos: Benje! Benje! Benje! Começou o jogo e o Eusébio roubou uma bola no meio campo do Benfica, arrancou em força e quando saiu do grande círculo levantou a cabeça, logo de seguida curvou-se em arco para a frente, puxou a perna direita atrás e rematou. Eu e o Amado só vimos a bola no fundo da baliza. O Benje nem reagiu. A bancada explodiu: Eusébio! Eusébio! Eusébio!

O Benje encaixou mais uns golos mas continuou a ser o meu ídolo no futebol. Quanto ao Eusébio destronou de uma assentada Homero, Virgílio, Salústio e um irlandês chamado James Joyce, a quem Louis-Ferndinand Céline chamava bêbado mas escreveu o Ulisses, um romance quase tão grandioso como o futebol do Eusébio.

Mário Soares neste universo é apenas o ajudante de cozinheiro de Júlio César na campanha da Gália, que só existe porque Brecht o imortalizou num poema. O antigo Presidente da República de Portugal devia ler as mensagens que o Presidente José Eduardo dos Santos enviou a Armando Gebuza e Cavaco Silva sobre a morte do Rei Eusébio. Não para aprender, porque como dizia a minha avó, burro velho não toma andadura. Mas para aplaudir. Se a inveja o deixar.

Jornal de Angola, 9 de Janeiro, 2014

7 de janeiro de 2014

Tudo dentro do consenso (José Goulão)



A palavra “consenso”, nas suas múltiplas traduções, arrisca-se a ser a mais utilizada em 2014 no espaço da União Europeia, de acordo com o exercício de propaganda iniciado em 2013

Continuado nas conversas em família dos chefes nacionais em exercício por ocasião do Natal e do Ano Novo, imposto, sem alternativa, para substituir a palavra “crise”.

Não se arriscando nenhum alto dirigente a dizer que a crise acabou, dão como certo que a economia “está a recuperar” e para que tudo assim continue no bom caminho há que aplicar agora o consenso, a concordância a que nenhum cidadão pode fugir sob pena de ser um extremista, um marginal, um militante da crise – sujeitando-se às respectivas consequências. Em ano de eleições europeias, não há que pensar noutra coisa: consenso sobre a salvação do euro à moda da Alemanha, sobre a austeridade como solução para acabar de vez com a crise, sobre a supressão de direitos humanos e sociais para que os mercados e a alta finança possam respirar e confiscar em liberdade, sobre a amputação de salários, reformas e pensões.

No espaço europeu, o consenso económico foi estabelecido e funciona a todo o vapor: é o processo de transferir o dinheiro de todos para os bolsos de meia dúzia, de prosseguir a domesticação e aniquilação dos aparelhos de Estado até que fiquem reduzidos a muletas dos bancos predadores, das grandes indústrias, incluindo a da morte, dos casinos bolsistas, dos paquidermes químicos e farmacêuticos, dos monstros da actividade seguradora, das trituradoras que distribuem o trabalho temporário, dos formadores de carne para canhão, de preferência com a benesse do cheque ensino.

Este processo tem o seu correspondente político em fase de afinação prática e ideológica: o consenso. O consenso governou Portugal entre 1926 e Abril de 1974. O consenso governa o directório europeu – na Alemanha através da comunhão entre a direita e os sociais democratas, em França pelas mãos de Hollande que poderia chamar-se Sarkozy e vice-versa. Em Espanha não faltam consensos na camada que se instituiu como governante, em Inglaterra Blair poderia chamar-se Thatcher da mesma maneira que Cameron se vê ao espelho como Brown. Tudo uma grande família governante e consensual, com as suas questiúnculas como em qualquer grande família, sobretudo em matéria de interesses - pessoais ou de casta.

Em Portugal o consenso não estará tão afinado como desejariam Cavaco, Coelho e Portas, como recomendam Costa que governa o Banco de Portugal, ou Ulrich e Salgado, dos bancos do Portugal que dizem ser deles. O consenso existe, chama-se arco da governação, o problema a resolver é conseguir que ele funcione sem turbulência mesmo quando há eleições – chama-se “estabilidade política” – e de preferência a longo prazo, seja sob o comando do Coelho, do Seguro, do Sr. X ou Y – ao verdadeiro poder isso é o que menos interessa.

Quem prega o consenso, como Cavaco, invoca também a democracia e até o 25 de Abril, imaginem, dia em que os militares e o povo português e os das antigas colónias romperam com um longo tempo de consenso. Democracia, claro, para os que se submetem ao consenso porque aos outros, os que teimam em ter ideias, insistem em pensar pela própria cabeça, não desistem de propôr alternativas ao consenso, esses são perigosos inimigos desta democracia.A história oficial, e ficcionada, da União Europeia explica que tudo se iniciou na luta pela liberdade contra o sistema de partido único.

Sabemos que as verdadeiras razões eram bem outras, mas para o demonstrar nem é preciso procurar argumentos nos meandros do processo histórico. A União Europeia renega a própria origem oficial quando, como suporte de uma prática económica única, tendencialmente esclavagista, impõe um sistema político a que tanto faz chamar de consenso como de partido único.

Jornal de Angola, 7 de Janeiro de 2014

17 de dezembro de 2013

A guerra suja do dinheiro (Álvaro Domingos)


O sistema financeiro mata mais que uma guerra de destruição maciça. O fosso entre ricos e pobres é cada vez maior. No meio ficam os guetos. Os muito ricos estão a lançar para os campos de concentração do neo-liberalismo milhões de seres humanos, ultrapassando em desumanidade o regime nazi. Os mercados submetem países que ainda ontem eram potências. Reduziram a França, Espanha e Itália à sua expressão mais ínfima.

Os líderes destes países estão de joelhos ante o capital financeiro que é cego e não vê a pobreza extrema que está a semear no mundo. Não sabe que está na origem de todos os conflitos mais ou menos violentos. Em África há milhares de seres humanos acossados por senhores da guerra, “drones” e bombas da OTAN. Vivem na miserável condição de refugiados em países onde os nacionais também não têm o mínimo para viver. É gasolina atirada para a fogueira.

No Médio Oriente a situação é idêntica. O mundo continua a tolerar que milhões de palestinos nasçam, vivam e morram em campos de refugiados. Na Síria está em palco uma tragédia sem precedentes na História da Humanidade. Grandes potências que mexem os cordelinhos dos “mercados” querem dominar a rota da energia e não hesitam em lançar irmãos contra irmãos. A Al Qaeda é inimiga das potências ocidentais no Afeganistão, no Paquistão ou no Magrebe. Mas é o braço armado dessas potências na Síria. A ONU convive com estas iniquidades políticas sem pestanejar. Ban Ki-moon exige que os responsáveis pelo uso de armas químicas na Síria sejam punidos. Tem que procurar os responsáveis em Riade, Ancara, Paris, Londres ou Washington. Mas nesses santuários da OTAN ninguém se atreve a tocar. E a Arábia Saudita tem tanto petróleo que até pode fazer figura da ditadura mais retrógrada do mundo.

O sistema financeiro está a criar condições para colocar ao seu serviço a Ucrânia. O que se passa naquele país mete pena. A soberania do Estado é posta em causa por governantes estrangeiros que vão conviver com os manifestantes do “Inverno Duro” com que a Alemanha quer derrubar o governo legítimo e o Presidente eleito. A “Primavera Árabe” não foi tão longe. Nenhum membro de governos estrangeiros se atreveu a ir às praças do Cairo apoiar os manifestantes. Em Kiev é o que se vê.

Durão Barroso, em nome da União Europeia, uma espécie de polícia de luxo dos “mercados”, exige que o Governo de Kiev respeite os manifestantes. Reprova à cabeça qualquer intervenção policial. No país dele, em Lisboa, umas dezenas de jovens tentaram subir a escadaria do Parlamento. Foram selvaticamente agredidos pela polícia, que os perseguiu pelas ruas limítrofes. Quanto a isso nada disse. Em Kiev os manifestantes ocuparam sedes de ministérios, vandalizaram equipamentos públicos, mas Durão Barroso diz que se a polícia impuser a ordem, comete um crime.

Um senador americano, John Mcain, foi visitar os manifestantes às praças de Kiev. Como se na Ucrânia não haja soberania e ninguém mande. Aquele país fornece mão-de-obra qualificada mas quase gratuita às grandes fábricas da Alemanha e de outros países europeus.

Um dia destes é apenas uma feitoria. O Presidente da República recusou fazer um contrato de associação com a União Europeia e o poder caiu na rua. Está a ser pressionado para não aceitar o bloco regional que está a criar uma União Aduaneira. Os “mercados” estão sedentos de consumidores e de escravos do trabalho. Querem regressar aos tempos do feudalismo porque acreditam que assim vão conseguir fazer frente ao poderio económico da China.

Os cidadãos livres do mundo assistem a estes jogos de poder e não reagem. Estão demasiado entorpecidos com o entretenimento, o lixo mediático e o consumismo desenfreado. Milhões de seres humanos entregam-se voluntariamente à morte nesta guerra do sistema financeiro. Mal vai o mundo quando o Papa Francisco, chefe de uma Igreja, é obrigado a dizer aos seres humanos que estão a ser vítimas da guerra do dinheiro e estão prisioneiros dos mercados.

De um Papa esperamos outros serviços à Humanidade, muito importantes. Mas o holocausto que o sistema financeiro tem em marcha sobre os seres humanos mais frágeis obrigou-o a ser um líder político na tentativa de salvar da derrota um exército de pobres e oprimidos que engrossa todos os dias, mas tem cada vez menos força para fugir da dominação e da escravatura.

A Ucrânia vai acabar tão mal como o Egipto, a Tunísia ou a Líbia. Pode mesmo entrar no caminho da Síria. O sistema financeiro é implacável e não se vislumbra força humana que trave o desastre que ameaça a Humanidade com a mais terrível ditadura de sempre: o dinheiro.

Jornal de Angola, 16 de Dezembro, 2013

4 de julho de 2013

O dedo pobre de Bruxelas (José Goulão)


Há três anos que não acontecia nada.

Atropelada pelas suas divergências internas, entretida com as urgências da crise e a expoliação sistemática de rendimentos e direitos das populações, a União Europeia quase se esquecera dos esforços de adesão da Turquia.

Agora aconteceu. Bruxelas “fez um gesto” ou “deu um passo” em direcção à Turquia, como se diz nas andanças diplomáticas, e decidiu retomar no próximo Outono as negociações com o imenso e estratégico país euro-asiático para um dia vir a integrar o clube que, com a entrada da Croácia neste 1 de Julho, passa a ter 28 Estados membros.

Que se passou para que Bruxelas tenha mexido num processo inerte há quase 1.500 longos dias?

A Turquia fez progressos na democratização da sociedade, no respeito pelos direitos cívicos e humanos, tomou alguma atitude que leve a pensar na possibilidade de um dia vir a desocupar o Norte de Chipre, estará disposta a admitir de uma vez que a minoria curda tem direitos culturais e nacionais próprios?

Foi quase assim... Mas ao contrário.

21 de agosto de 2012

Os extremos sempre se tocaram (Valdemar Parreira)


Há notícias que, apesar de tudo, me fazem alguma confusão. Antes, em tempos em que o heroísmo e carácter, dignificavam quem o tinha, sempre se disse que deserção e troca de valores, eram um acto condenável fosse em que parte do globo ele fosse praticado.

Hoje é o contrário, e então assistimos às notícias da deserção do primeiro-ministro sírio e a uma meia-cambalhota de Otelo, como se de actos dignos se tratassem. Um diz que foge dos criminosos do regime, como se ele nunca tivesse sido o chefe desse governo, o outro diz que Portugal precisa de um novo Salazar poupadinho.

Os nossos “jornalistas” à falta de defenderem valores maiores, já vão endeusando estas personagens, enquanto Clara Ferreira Alves diria, que só lhe merecem comentários pessoas maiores e cultas, e que um dia não me admirarei de ver, na reforma, Louçã a defender as virtudes de uma qualquer marca que bem poderá ser Salazar.

Afinal, os extremos sempre se tocaram e nunca, mas nunca, se electrocutaram!
Valdemar Pereira

OCrime, 9 de Agosto de 2012

17 de julho de 2012

História da Carochinha (Fernanda Cachão)



O chamado ‘caso Relvas’ - não esse, o outro, o da questão das habilitações literárias – trouxe a um convívio noticioso mais estreito a figura de Duarte Marques. Nascido em Maio de 1981, licenciado em Relações Internacionais e mestrado incompleto em Relações Internacionais/Assuntos Europeus, Duarte Marques é consultor e é, sobretudo, deputado e líder da JSD.

Através de Duarte Marques ficámos a saber que Miguel Relvas sempre foi transparente acerca das suas habilitações literárias e até "chateia a cabeça às pessoas com alguma veemência para não cometerem o erro que ele cometeu". Ou seja e convém explicar – o de amarem primeiro a política sobre todas as coisas, nomeadamente os estudos.

Através do jovem deputado ficámos também a saber que a culpa deste caso é do ex-ministro Mariano Gago, pois "é preciso pedir explicações a quem aprovou esta lei [de equivalências]". O dirigente da JSD interroga-se até sobre os reais objectivos da lei e por que não foram previstos casos como o do actual ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares.

Isto é o que se chama contar a história da Carochinha pela perspectiva do caldeirão.

Correio da Manhã, 17 de Julho de 2012

Anedotas (João Pereira Coutinho)



Nos últimos dias, é impossível frequentar a internet: a quantidade de anedotas sobre a ‘licenciatura’ de Miguel Relvas é tão elevada que uma pessoa nem consegue trabalhar com o riso.

Só por isto o ministro Relvas merecia uma medalha: por animar um país em depressão com a sua ‘procura do conhecimento permanente e da verdade.’ Claro que, para lá das pilhérias (‘Dá licença?’ ‘Está licenciado.’), existe um problema político sério. Não para Relvas, que obviamente não vê problema algum; mas para o primeiro-ministro.

Por razões que a razão desconhece, Passos Coelho até pode ‘segurar’ o nosso doutor. Mas Relvas será, até ao fim, a anedota permanente deste governo e, pior, a lembrança viva de que a conversa dos ‘sacrifícios’ é um insulto aos portugueses. Sobretudo quando o governo tem na equipa um ministro que pairou acima de qualquer sacrifício para sacar uma reles licenciatura. Para ‘segurar’ Relvas, Passos arrisca-se a perder definitivamente o país.

Correio da Manhã, 15 de Julho de 2012

Por um canudo (João Pereira Coutinho)



Uma pessoa consulta alguns cursos e fica abismada. Animação Turística? Publicidade e Marketing? Restauração e Catering? Longe de mim duvidar da qualidade dos produtos.

Mas se estas coisas existem, por que não um canudo em Carreirismo Partidário, destinado a premiar os anos em que o político nativo rasteja pelas ‘jotas’, ascende aos órgãos directivos e chega a deputado/secretário/ministro? Por acaso os portugueses pensam que isto não dá trabalho?

Uma licenciatura em Carreirismo Partidário seria composta por disciplinas como: Técnicas de Colagem de Cartazes; Introdução ao Megafone; Oratória em Congressos; Jantares de Desagravo; e ‘Uma Lembrancinha para o Sr. Dr.’: Teoria e Prática. Num país decente, nenhum político carreirista teria que andar a mendigar licenciaturas fora da sua área de interesse. Por exemplos presentes e passados, uma universidade só para a espécie devia ser prioridade do dr. Crato.

Correio da Manhã, 13 de Julho de 2012

24 de março de 2012

Aulas de Salazar (Domingos Chipilica Eduardo)



Benguela - As lições do passado que os angolanos sofreram, perseguições, torturas, assassinatos e prisões animam a minha alma. As cadeias de Tarrafal, São Nicolau e outras foram verdadeiros centros de concentrações de homens destemidos e solidários para a conquista da liberdade e opressão colonial.

Os pedacinhos de história que ainda nutro, permite-me afirmar que os meus nacionalistas eram tratados cruelmente pelo inimigo da independência. Os lutadores eram indígenas e não cidadãos. Pois somente possuíam deveres. A celebre frase de Salazar “fazer um cidadão dura séculos” navegou e comandou o regime.

Indaguei alguns amigos se naquela altura da luta de libertação nacional, o direito a imagem, bom nome, reputação, injuria, … Eram respeitados por parte dos indígenas? Parece que foram unânimes em responder: o objectivo era apenas Livrarem-se do tormento e não se olhava a “dor das palavras”. Diziam-se palavrões a Salazar e os seus sequazes, ladrões, assassinos, corruptos… E os supostamente ofendidos mandavam os seus homens massacrar, prender … Cumprindo cabalmente os planos satânicos do colono.

Actualmente o mundo é banhado por ondas libertadoras de manifestações sangrentas, mortíferas e pacíficas. Motivadas por fins egoísticos, pessoais e raramente colectivos. Enquanto o apego ao poder e a sua perpetuação não permitem comunhão. Resultado, a herança colonial! Como afirmou o Chefe” herdamos a pobreza e os problemas”. E nós acrescemos, As perseguições, agressões, “as sentenças que não são sentenças”, “negócios de amigos” e as ordens superiores que são verdadeiras leis! Cópia fiel!

As violações do Direito por parte de muitos não devem continuar impunes. Todavia sabemos que um sistema judicial forte sem pressão tornaria a cadeia um lugar da elite. Entretanto o vazio institucional para liberdade de expressão, satisfação das necessidades colectivas, respeitando e posicionando o cidadão como prioridade são prejuízos a Nação. Quem sempre crítica ou contraria com fundamentos e sugestões aos argumentos do chefe, nas reuniões, nos partidos, nas ONG´s , nas igrejas, nas Escolas enfim invés de criar-se um clima harmonioso e cordial habitualmente surge o afastamento, a exclusão …Cada um de nós deve fortalecer a democracia sob pena de construirmos um espaço de medrosos .

Fracamente sentir-me-ia felicíssimo, Se eu estivesse como vítima nos massacres de 4 de Janeiro, 4 de Fevereiro, sentir-me-ia felicíssimo se eu passasse nas cadeias da Pide, por acreditar numa Angola livre. Sentir-me-ia grato, se o meu nome constasse, no processo 50, no 15 de Março, 11 de Novembro e em todos os acontecimentos históricos despidos da carga excessiva partidária mas sim patriótica. Aí se o nome constasse! Já me sinto feliz em saber que me registaram nos serviços.

Fonte: Club-k.net (18 Março 2012)

4 de março de 2012

Imaginem...

IMAGINEM...

Imaginem que eu, Mário Crespo, não aceitava logo no dia a seguir às eleições um lugar que já estava prometido, para N.York, onde gosto de estar, como prémio de tão "duro" que fui antes...

Imaginem que os Loureiros, Varas, Limas... deste país são julgados e obrigados a repor o que roubaram...

Imaginem que se conseguia com esta camarilha pagar todos os empréstimos que andam por aí e se relançava o aparelho produtivo...

Imaginem que havia justiça e mão pesada para os prevaricadores e não se faziam leis para os momentos e personagens que vão passando pelo poleiro...

Imaginem que todos os gestores públicos das setenta e sete empresas do Estado decidiam voluntariamente baixar os seus vencimentos e prémios em dez por cento. Imaginem que decidiam fazer isso independentemente dos resultados.

Se os resultados fossem bons as reduções contribuíam para a produtividade. Se fossem maus ajudavam em muito na recuperação.

13 de fevereiro de 2012

País de solidão (Francisco Moita Flores)


País de solidão

Fosse outra a cultura cívica e era sobre este problema quea atenção estaria centrada. Mas isso pouco importa.

Há um país dentro de nós que muito raramente chega às notícias e é irrelevante para o alegre debate que cruza a agenda do dia. Esta semana, o tema foi saber se o primeiro-ministro chamou ou não piegas aos portugueses ou se o ministro das Finanças estava ou não de cócoras na conversa com o homólogo alemão. O ruído foi de Carnaval, e fez bem Passos Coelho em não dar tolerância de ponto porque para foliões já basta o dia-a-dia destes casos levados ao clímax de tão ridículos e patéticos.

Só a inutilidade se dedica tão intensamente a este concerto de coisinhas que em nada condicionam ou nos libertam deste apertado nó que a vida impôs. Deixámos de ver e ouvir. Passámos a ser um eco daquilo que se quis ouvir e desejou ver. Pouco interessa a realidade. Vale apenas a gritaria. Ouvi o primeiro-ministro dizer o que disse mesmo. Vi e ouvi o ministro das Finanças a falar com o ministro alemão. Nada tem a ver com as grandes tiradas que se seguiram, solenes e decadentes, meras extrapolações sem sentido, vazias, sem consciência do país em que vivemos este Carnaval contínuo que não é folião e é pesadelo. Nada há de mais natural do que um primeiro-ministro procurar mobilizar pessoas, recusando que seja a lamúria, a pieguice, o lamento a saída do buraco.

Como é natural o ministro das Finanças sublinhar que Portugal está a cumprir os acordos internacionais e que, caso exista um embaraço, espera ajuda. Para que o país não morra de fome de pão. Pois que de linguaradas, queixumes e melodramas vai saciando a fome da decadência. E de repente, como se fosse uma banalidade, surge a notícia de que no Portugal interior cresce assustadoramente o número de idosos que vivem sozinhos. Ficámos a saber que 780 mil casas são habitadas por um ou dois idosos. Que em 400 mil vive um idoso. E que esta realidade cresceu 29% nos últimos anos. Interessa isto à propaganda política? De que vale este intenso drama comparado com aquilo que este ou aquele disse? Fosse outra a cultura cívica de quem se diz comprometido com a política e era sobre este problema que a atenção estaria centrada. Sobre como parar a desertificação. Como reorganizar a malha social e económica para que a onda de solidão não traga os desequilíbrios, assimetrias e tristezas que está a produzir. Além do sofrimento. Mas isso pouco importa. Não dá para o folclore. E faz pensar.

Francisco Moita Flores
Correio da Manhã, 13 de Fevereiro de 2012

11 de dezembro de 2011

Pobreza dos tristes (Francisco Moita Flores)


Pobreza dos tristes

Em todas estas cimeiras e encontros não se escuta uma só palavra sobre produção

Cada hora que passa, cada dia que vivemos, cada mês já vivido reforça este sabor amargo e de amargura que nos chega do futuro breve que vamos viver. Já sem olharmos para os recursos do país, já sem grande esperança, para não dizer conformados com a nossa ruína. A Cimeira que iria resolver os nossos pesadelos – e a nossa fome – terminou, mais uma vez, adensando as probabilidades de caminharmos para o desmembramento da União Europeia e, ainda que adiando mais um pouco, para o confronto quase inevitável com a nossa própria bancarrota.

Não existe especialista em finanças que não se canse de sublinhar as virtualidades do euro e de como a disciplina orçamental imposta pela Alemanha é benéfica para a nossa saúde financeira. De como as novas regras de sanções para aqueles que não cumprirem o rigor do défice são fundamentais para disciplinar os Estados. É uma arenga que, no meu entender, persiste em recusar a ver a floresta, tomando a árvore pelo todo. Em todas estas cimeiras, encontros de ministros, presidentes, especialistas em finanças, especialistas em fiscalidade e outras criaturas divinas, não se escuta uma única só palavra sobre produção. Sobre trabalho para produzirmos. Sobre condições de viabilização das economias, particularmente da nossa economia, para que produzamos mais. Nesta Europa dos especuladores e dos agiotas, dominada pela crueldade do dinheiro como mito maior da riqueza, não existe uma decisão concertada que olhe os campos e as fábricas, os mares e as florestas para produzir a verdadeira riqueza, que se resume na elementar capacidade de comer duas refeições por dia, sem pedirmos emprestada uma carcaça ou uma alface.

Não há hipóteses de não sermos confrontados com a tragédia. É, neste momento, uma questão de prazo. E de prazo curto. E só depois da casa completamente roubada pelos tenebrosos e invisíveis mercados iremos tratar de arranjar sólidas trancas. Ou seja, à função que nos garantiu a diferenciação como seres humanos: pôr os nossos campos e os nossos mares a parir o sustento e a promover o trabalho e a riqueza. Até lá, vamos comendo pargo do Congo, sardinha da Galiza, tomates de Marrocos e discutindo, coisa em que somos peritos, a forma de salvar o euro.

Francisco Moita Flores
Correio da Manhã, 11 de Dezembro de 2011

4 de dezembro de 2011

Feriados (João Pereira Coutinho)


Feriados

A Igreja cedeu dois feriados religiosos e o governo propôs os seus para abate: o 5 de Outubro e o 1º de Dezembro. Um ultraje, como se escreveu por aí? Duvidoso.

A beleza dos nossos feriados ‘históricos’ é que o país podia passar bem sem eles. Sim, o 25 de Abril marca o fim de uma ditadura; infelizmente, marca também o início de um período de loucura revolucionária que destruiu a economia e ameaçou a liberdade dos portugueses. Sim, Camões é o poeta da língua; mas o 10 de Junho é uma criação artificial que serviu a propaganda republicana, continuou a servir o Estado Novo – e sobreviveu misteriosamente em democracia. Do 5 de Outubro, nem vale a pena falar: pessoas sérias não festejam regimes de violência e terror. E sobre a Restauração, para quê celebrar a independência a 1 de Dezembro quando a pátria está novamente disponível para trocá-la por um cheque alemão?

Os nossos feriados ‘históricos’ oscilam entre o anacronismo, a ambiguidade e a farsa. Não fazem grande falta.

João Pereira Coutinho
Correio da Manhã, 04 de Dezembro de 2011

19 de novembro de 2011

Vou só ali ao Brasil matar alguém e volto já (João Miguel Tavares)


O Cronista Indelicado

Vou só ali ao Brasil matar alguém e volto já

Deixem-me cá ver se eu percebo. Todos os juristas escutados a propósito do caso Duarte Lima afirmaram que mesmo que o ex-deputado venha a ser condenado à revelia pelo assassinato de Rosalina Ribeiro dificilmente será extraditado para o Brasil – porque não se extraditam cidadãos nacionais – e dificilmente será preso em Portugal – devido a falhas de legislação na transmissão de sentenças entre os dois países.

Seguindo este extraordinário raciocínio, se o caro leitor estiver indisposto com alguém, tiver um vizinho irritante ou se a sua esposa deixar demasiadas vezes queimar o arroz ao jantar, tem agora uma forma simples de solucionar o seu problema. Basta-lhe comprar duas viagens para o Brasil, afogar o motivo de incómodo numa cachoeira ou baleá-lo à beira da estrada, e raspar-se de lá o quanto antes. Nem sequer precisa de se dar ao trabalho de cometer o crime perfeito: apenas assegurar que foge a tempo para Portugal. A partir daí, tem de ter cuidado nas visitas a Badajoz, por causa da Interpol, mas pode gozar um justo repouso aqui na piolheira. Seja Duarte Lima culpado ou não, qualquer pessoa que tenha acompanhado a investigação sabe que o caso fede – e não é pouco. As provas são fortíssimas, as contradições assustadoras, e é óbvio que Duarte Lima tem de responder à justiça. E no entanto, acontece esta coisa espantosa: a única entidade que parece minimamente empenhada em deslindar o alegado assassinato de uma cidadã portuguesa por um cidadão português é a polícia brasileira. Portugal, esse, limita-se ao seu papel de offshore da justiça: quem tem dinheiro consegue sempre escapar.

Por João Miguel Tavares
Correio da Manhã 04 Novembro 2011

16 de novembro de 2011

Colonialismo (Francisco Moita Flores)

Colonialismo

O escândalo que rebentou com o saco negro das dívidas da Madeira não passa de um ruído que os madeirenses atirarão para trás das costas, entregando a Alberto João Jardim nova maioria absoluta nas próximas eleições.

Passos Coelho escapou-se habilmente remetendo a censura para o acto eleitoral. Sabe que não vai haver censura alguma. A haver essa censura seria dos eleitores do continente, que pagam a factura hoje, como pagaram ontem. Quem conhece, ou já viveu dinâmicas eleitorais, sabe que o povo chamado às urnas não quer saber de notícias nem de opiniões.

Vota por afecto, vota por conveniência e, na Madeira, não existe figura mais conveniente do que João Jardim. Transformou o arquipélago, deu-lhe modernidade e qualidade de vida, fez crescer a riqueza, trabalho, mobilidade. Ao pé de Trás-os-Montes ou do Alentejo, é um paraíso. Foram precisos milhões para essa transformação, e para tanto Jardim percebeu desde cedo que a chantagem, o insulto, a ameaça independentista, o enxovalho (quem não se recorda dos ataques ao senhor Silva, as humilhações a Marques Mendes, a arrogância contra Passos Coelho) aos inimigos do continente – desde os ‘cubanos’, aos colonialistas, aos comunistas, à maçonaria, inimigos inventados, ainda por cima folclóricos – dão tempo de antena e visibilidade ao homem. E foi esmifrando o que podia e não podia.

Os líderes do PSD temiam-no, os primeiros-ministros, por mais discursos rígidos que fizessem, soçobravam, a chicana de Jardim pô-los todos em sentido. E de cócoras. Por esta atitude agressiva, insultuosa, os comentadores desvalorizavam o chorrilho de palavras e com este andar guerrilheiro, e trautileiro, construiu um dos cantos mais bonitos do país. É verdade que a sua dívida é mais do dobro da dívida das autarquias todas juntas e os autarcas são o saco de boxe de governos sucessivos.

A verdade é que se vivesse na Madeira votava em Jardim. Ele é a história e o progresso daquela região. É o único dirigente que, num Estado sem rumo, sabe sacar para aqueles que governa aquilo que entende. É o verdadeiro colonialista a sugar a colónia continental. E para que haja justiça mínima, só encontro uma solução: dar-lhe maioria absoluta e tornarmo--nos independentes. Há muito que não passamos de uma colónia da Madeira.

Francisco Moita Flores
Correio da Manhã, 11 de Setembro de 2011

9 de setembro de 2011

A gordura do Estado (Francisco Moita Flores)


A gordura do Estado

Sugar o tutano até à pobreza radical a milhões de contribuintes é um filme gasto e pouco credível.

Não sei quem inventou a expressão mas ela entrou nas narrativas políticas como mel. É capaz de ser, neste momento, a fórmula mais usada para identificar os gastos excessivos do Estado. Retirar a gordura do Estado é uma obsessão do governo. Corre o risco de ter de criar um ministério nutricionista que faça a gestão da coisa. Porém, o diagnóstico é velho. Nos últimos vinte anos, o discurso repete-se com outras variações. Emagrecer o Estado foi outra expressão que, em tempos, se converteu em lugar-comum. Ao fim e ao cabo, quer dizer o mesmo. Precisamos de um Estado esbelto, de curvas bem delineadas, sensual. Porém, as receitas para chegarmos a esse patamar superior da beleza política, escorraçando gorduras, com dietas rigorosas de vegetais, onde pão, carne e peixe são coisa para ricos, têm sempre a mesma fórmula. Começa-se por sugar o sangue aos contribuintes, e as gorduras, alegremente, lá ficam tornando o doente mais doente.

Isto é, o governo precisa de dar com urgência um sinal ao País sobre o corte das adiposidades crónicas. E até agora não o deu. Sugar o tutano até à pobreza radical a milhões de contribuintes é um filme tão gasto e tão pouco credível que só o aceitamos se percebermos que a estrutura do Estado entra em verdadeira dieta severa. Ou seja, que avançam reformas severas na esfera administrativa, na mobilidade de pessoal, na reconversão dos torresmos e toucinhos que se abrigam nos corredores do poder. Dou um exemplo: para aprovar um Plano de Pormenor urbano, são necessários pareceres de vinte e oito (!) instituições do Estado. Coisa que leva, em média, quatro anos a realizar. Conheço uma parte deste labirinto de poderzinhos que habita nos alvéolos mais gordurosos de vários ministérios. Com honrosas excepções, a incompetência domina e a arrogância impera. Consiga o governo reduzir a catorze entidades e tenha a coragem de pôr na rua quem não trabalha e parasita o Estado e pode cantar vitórias dietéticas daqui por mais dois anos. É que é o trabalho fundamental para perder gordura: acabar com a preguiça e correr com preguiçosos. Sem esta coragem, o governo só nos trará mais do mesmo: um Estado mais gordo e flatulento. E a fome do outro lado desta falta de imaginação.

Francisco Moita Flores
Correio da Manhã, 08 de Setembro de 2011

26 de julho de 2011

Rei da Carqueja (Francisco Moita Flores)


Rei da Carqueja (Francisco Moita Flores)

A si próprio se intitulava Rei Ghob. Construiu um Castelo retorcido, decorado com todo o mau gosto que existe no mundo, para os lados da Lourinhã, proclamava-se em vídeos distribuídos pela Internet rei-profeta anunciador de mil desgraças e de finais apocalípticos. Na vizinhaça todos os julgavam bom rapaz, embora com "coisas esquisitas". Nada com que não se convivesse. Era rei de gnomos, o nome dos servos desta seita tão artesanal e de mau gosto quanto o seu castelo. Uma construção irreal e patética que mais parecia uma história de crianças. E, de repente, a trágica realidade. Os "gnomos" desapareciam. Provocando ilusões nas famílias, com a ajuda de telemóveis, garantia que estavam no estrangeiro, aliás coisa que se confirmava pelas mensagens que enviavam aos pais. Que não sabia nada deles. Que estavam bem e longe. Quando as preocupações se avolumaram devido à ausência e ao cansaço dos truques, a Polícia Judiciária meteu mãos à obra e surgiu o pesadelo. O Rei Ghob, fantoche de si próprio, era responsável pelo assassinato de quatro, agora suspeita-se que são seis, os jovens que morreram às suas mãos. Convenceu-se que se escondese os cadáveres ninguém o apanharia. Porém, a estupidez do homem falou mais alto. As provas abundantes que deixou por todo o lado não só permitiram reconstituir os crimes como prendê-lo. O Ministério Público acaba de acusá-lo e não tenho dúvidas que vai ser severamente punido. Não é a primeira vez, devo até dizer que já foram dezenas de casos de homicídios julgados sem a presença/descoberta do cadáver. Essa ideia peregrina que se não apareceu o cadáver não existe prova, faz parte de mentalidades ancestrais, anteriores à criação da Polícia Científica. É apenas crueldade. Este tipo de assassinos não se limita a matar. Prooca ainda mais sofrimento ao não permitir que as famílias realizem o luto a partir dos rituais simbólicos de separação, onde o funeral tem um papel importante. É crueldade em cima de crueldade. Nada mais. O Rei Ghob extenguiu-se tal como se sumiram as suas profecias. Está preso um indivíduo sem escrúpulos que espera agora a mão da Justiça. Espero que a Justiça tenha por ele a mesma compaixão que ele teve sobre as suas vítimas e as suas famílias.

Francisco Moita Flores - Criminologista
in TV Guia Nº 1696 de 2011/07/25