ILHA DE MOÇAMBIQUE - ENCRUZILHADA DE CIVILIZAÇÕES
A Ilha de Moçambique é um lugar ímpar, dotado de uma atmosfera e de um encanto muito próprios, que envolve o visitante desde o primeiro instante. Encruzilhada e ponto de encontro entre as civilizações do Índico, muito antes da chegada dos portugueses, que ali aportam com Vasco da Gama, numa escala da sua demanda do caminho marítimo para a Índia.
Texto e fotos: Alexandre Coutinho
Quando Vasco da Gama e os primeiros navegadores portugueses ali chegaram, em 1498, era senhor da ilha um sheik árabe, de nome «Mussa Ben Mbiki» ou «Mussal A'l Bik», que acabaria por ver o seu nome atribuído à ilha colocada sob a dependência do vice-rei da Índia. Os portugueses fixaram-se na ilha de Moçambique, em 1507, que viria a dar o nome a toda uma província ultramarina, da qual foi capital de Moçambique até 1898. Já na segunda metade deste século, ganhou a sua independência, dando origem a um novo país africano de expressão portuguesa.
A Ilha de Moçambique é um marco histórico de 500 anos de presença portuguesa, mas a influência islâmica está bem mais enraizada na vida quotidiana dos moçambicanos que a habitam (a população é, maioritariamente muçulmana), nos seus usos e costumes, no chamamento ao fim da tarde para as mesquitas e, até, no velame triangular dos barcos que sulcam as suas águas.
Infelizmente, a Ilha de Moçambique encontra-se muito degradada e sobrepovoada, com cerca de dez mil pessoas a viver em condições precárias no antigo «musseque». À entrada da Fortaleza de S. Sebastião, o guia improvisado começa por mostrar-nos a maqueta semi-destruída do monumento indicando as principais dependências daquela que foi uma das praças fortes portuguesas do Índico, a partir de 1583. Conservada pelos portugueses até à data da independência de Moçambique, a fortaleza transformou-se numa verdadeira ruína, situação que se agravou com a passagem de um ciclone, há quatro anos.
O mato cresce por todo o lado, algumas salas e paredes ameaçam ruir e os canhões das muralhas jazem caídos e abandonados. Outros acumulam-se numa pilha de ferro velho, junto com os carris e as vagonetes de transporte de munições.
Apenas uma das cisternas de água potável se encontra operacional e são muitas as mulheres que ali se deslocam para lavar a roupa de toda a família. A capela de Nossa Senhora do Baluarte, construída em 1522 e considerada o edifício colonial mais antigo de toda a costa do Índico, foi restaurada em 1996 com fundos da Comissão Nacional para os Descobrimentos, mas é uma gota de água na imensa fortaleza e em toda a Ilha de Moçambique. Dignos de restauro foram, ainda o Hospital Real de S. João de Deus, o Palácio de S. Paulo (onde, hoje, está aberto o museu) e a Igreja da Senhora da Saúde.
Apesar do estado avançado de degradação do património histórico da Ilha de Moçambique, as maiores carências situam-se no plano da assistência médica, sobretudo pela falta de um hospital e de uma equipa médica em permanência.
Também, a ponte de 3,5 quilómetros que liga a ilha ao continente carece de obras de reparação, tendo já sido interdita à circulação de camiões. As escolas que funcionam na ilha encontram-se, igualmente, degradadas, com destaque para a escola primária, onde não resta uma janela em boas condições. A outrora célebre Rua dos Arcos é um fantasma do passado.
A grande maioria dos estabelecimentos está encerrada, muitos ameaçam ruir e os poucos comerciantes ainda em actividade sobrevivem da venda de alguns bens essenciais à população pobre que habita a ilha. São, na sua maioria, pescadores, que todos os dias se fazem ao mar em frágeis pirogas ou barcos de madeira com as ancestrais velas triangulares herdadas dos marinheiros árabes («dhow» ou «dau», consoante a língua predominante).
As garoupas, sargos, peixe espada, polvos e outros peixes e crustáceos são vendidos para o continente ou constituem a base da alimentação da família.
Outros, dedicam-se à apanha das curiosas «missangas do mar». Reza a lenda que os portugueses afundaram um barco árabe carregado de missangas que passava ao largo da fortaleza. Missangas essas que as ondas do mar trazem incessantemente para a praia e que os míudos apanham na maré baixa para fazer colares e pulseiras.
Depois da abertura do porto de Nacala, em 1970, a Ilha de Moçambique perdeu a sua importância estratégica e comercial. A ausência de um cais de desembarque para navios de grande calado obrigava ao transbordo de todas as mercadorias para pequenos batelões que acostavam no pequeno pontão, hoje completamente em ruínas. Este é, ainda hoje, um dos seus maiores «handicaps», que a impede de acolher os inúmeros cruzeiros turísticos que, anualmente, molham âncora naquelas paragens, mas se vêem obrigados a seguir viagem para outro porto de abrigo.
No apogeu da sua actividade portuária e comercial, havia trabalho para toda a gente. Hoje, sem comércio, sem indústria e sem «machambas» para cultivar, os naturais da ilha viram-se para o mar, enquanto sonham com os turistas que, um dia, desembarcarão. Há três restaurantes (Café Âncora d' Ouro, o Bar Escondidinho e o Restaurante das Piscinas), mas a única pousada existente está, presentemente, fechada. O melhor contacto para os visitantes é a Associação dos Amigos da Ilha de Moçambique (AMOZ), que poderá providenciar um alojamento conveniente.
Fonte: http://www.janelanaweb.com/viagens/mocambique.html
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8 de maio de 2009
Ilha de Moçambique: Encruzilhada de civilizações
ILHA DE MOÇAMBIQUE - ENCRUZILHADA DE CIVILIZAÇÕES
A Ilha de Moçambique é um lugar ímpar, dotado de uma atmosfera e de um encanto muito próprios, que envolve o visitante desde o primeiro instante. Encruzilhada e ponto de encontro entre as civilizações do Índico, muito antes da chegada dos portugueses, que ali aportam com Vasco da Gama, numa escala da sua demanda do caminho marítimo para a Índia.
Texto e fotos: Alexandre Coutinho
Quando Vasco da Gama e os primeiros navegadores portugueses ali chegaram, em 1498, era senhor da ilha um sheik árabe, de nome «Mussa Ben Mbiki» ou «Mussal A'l Bik», que acabaria por ver o seu nome atribuído à ilha colocada sob a dependência do vice-rei da Índia. Os portugueses fixaram-se na ilha de Moçambique, em 1507, que viria a dar o nome a toda uma província ultramarina, da qual foi capital de Moçambique até 1898. Já na segunda metade deste século, ganhou a sua independência, dando origem a um novo país africano de expressão portuguesa.
A Ilha de Moçambique é um marco histórico de 500 anos de presença portuguesa, mas a influência islâmica está bem mais enraizada na vida quotidiana dos moçambicanos que a habitam (a população é, maioritariamente muçulmana), nos seus usos e costumes, no chamamento ao fim da tarde para as mesquitas e, até, no velame triangular dos barcos que sulcam as suas águas.
Infelizmente, a Ilha de Moçambique encontra-se muito degradada e sobrepovoada, com cerca de dez mil pessoas a viver em condições precárias no antigo «musseque». À entrada da Fortaleza de S. Sebastião, o guia improvisado começa por mostrar-nos a maqueta semi-destruída do monumento indicando as principais dependências daquela que foi uma das praças fortes portuguesas do Índico, a partir de 1583. Conservada pelos portugueses até à data da independência de Moçambique, a fortaleza transformou-se numa verdadeira ruína, situação que se agravou com a passagem de um ciclone, há quatro anos.
O mato cresce por todo o lado, algumas salas e paredes ameaçam ruir e os canhões das muralhas jazem caídos e abandonados. Outros acumulam-se numa pilha de ferro velho, junto com os carris e as vagonetes de transporte de munições.
Apenas uma das cisternas de água potável se encontra operacional e são muitas as mulheres que ali se deslocam para lavar a roupa de toda a família. A capela de Nossa Senhora do Baluarte, construída em 1522 e considerada o edifício colonial mais antigo de toda a costa do Índico, foi restaurada em 1996 com fundos da Comissão Nacional para os Descobrimentos, mas é uma gota de água na imensa fortaleza e em toda a Ilha de Moçambique. Dignos de restauro foram, ainda o Hospital Real de S. João de Deus, o Palácio de S. Paulo (onde, hoje, está aberto o museu) e a Igreja da Senhora da Saúde.
Apesar do estado avançado de degradação do património histórico da Ilha de Moçambique, as maiores carências situam-se no plano da assistência médica, sobretudo pela falta de um hospital e de uma equipa médica em permanência.
Também, a ponte de 3,5 quilómetros que liga a ilha ao continente carece de obras de reparação, tendo já sido interdita à circulação de camiões. As escolas que funcionam na ilha encontram-se, igualmente, degradadas, com destaque para a escola primária, onde não resta uma janela em boas condições. A outrora célebre Rua dos Arcos é um fantasma do passado.
A grande maioria dos estabelecimentos está encerrada, muitos ameaçam ruir e os poucos comerciantes ainda em actividade sobrevivem da venda de alguns bens essenciais à população pobre que habita a ilha. São, na sua maioria, pescadores, que todos os dias se fazem ao mar em frágeis pirogas ou barcos de madeira com as ancestrais velas triangulares herdadas dos marinheiros árabes («dhow» ou «dau», consoante a língua predominante).
As garoupas, sargos, peixe espada, polvos e outros peixes e crustáceos são vendidos para o continente ou constituem a base da alimentação da família.
Outros, dedicam-se à apanha das curiosas «missangas do mar». Reza a lenda que os portugueses afundaram um barco árabe carregado de missangas que passava ao largo da fortaleza. Missangas essas que as ondas do mar trazem incessantemente para a praia e que os míudos apanham na maré baixa para fazer colares e pulseiras.
Depois da abertura do porto de Nacala, em 1970, a Ilha de Moçambique perdeu a sua importância estratégica e comercial. A ausência de um cais de desembarque para navios de grande calado obrigava ao transbordo de todas as mercadorias para pequenos batelões que acostavam no pequeno pontão, hoje completamente em ruínas. Este é, ainda hoje, um dos seus maiores «handicaps», que a impede de acolher os inúmeros cruzeiros turísticos que, anualmente, molham âncora naquelas paragens, mas se vêem obrigados a seguir viagem para outro porto de abrigo.
No apogeu da sua actividade portuária e comercial, havia trabalho para toda a gente. Hoje, sem comércio, sem indústria e sem «machambas» para cultivar, os naturais da ilha viram-se para o mar, enquanto sonham com os turistas que, um dia, desembarcarão. Há três restaurantes (Café Âncora d' Ouro, o Bar Escondidinho e o Restaurante das Piscinas), mas a única pousada existente está, presentemente, fechada. O melhor contacto para os visitantes é a Associação dos Amigos da Ilha de Moçambique (AMOZ), que poderá providenciar um alojamento conveniente.
Fonte: http://www.janelanaweb.com/viagens/mocambique.html
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26 de abril de 2009
Cabo Verde: Campo de Tarrafal vai-se transformar num património cultural
Simpósio
Cabo Verde: Campo de Tarrafal vai-se transformar num património cultural
Luanda – A ministra da Cultura, Rosa Cruz e Silva, anunciou hoje, em Luanda, que o Campo de Concentração de Tarrafal, em Cabo Verde, vai se transformar num espaço cultural e histórico, para perpetuar a memória de todos quantos por aquele local passaram.
Rosa Cruz e Silva fez este anúncio à Angop no Aeroporto Internacional “4 de Fevereiro” minutos antes da sua partida para aquele país africano, a frente de uma delegação angolana que participará de 29 do corrente mês a 2 de Maio no Simpósio Internacional sobre o Campo de Concentração de Tarrafal,
A governante referiu que durante o encontro, um grupo de historiadores angolanos que integram a comitiva governamental vai fazer estudos sobre a temática do evento, nomeadamente, o registo do património e a sua defesa, razão pela qual as autoridades cabo-verdianas pretendem transformá-lo num centro cultural.
Com a realização do simpósio, pretende-se valorizar aquele que já é considerado um monumento histórico, pela sua simbologia e que representa um dos patrimónios emblemáticos da história da luta comum dos povos de Angola, Cabo Verde, Portugal e Guiné-Bissau.
Angola vai participar no encontro com 48 delegados, 24 dos quais estiveram no Campo de Tarrafal durante a luta de libertação nacional. O evento é organizado pela Fundação Amílcar Cabral, em colaboração com os Ministérios da Cultura de Angola e Cabo Verde.
O vice-ministro da Comunicação Social, Manuel Miguel de Carvalho “Wadijimbi”, faz parte da delegação angolana ao certame, para além de outros especialistas.
O Campo de Concentração do Tarrafal foi instituído pelo regime fascista português, pela primeira vez, em Abril de 1936, sob o nome de Colónia Penal do Tarrafal/Campo de Trabalho de Chão Bom.
A Colónia Penal do Tarrafal ou “campo de morte lenta”, nome por que ficou conhecido por aqueles que lá estiveram, visava aniquilar física e psicologicamente os opositores portugueses ao regime fascista de Salazar, colocando-os longe dos olhares do Mundo, em condições desumanas de cativeiro, maus tratos e insalubridade.
Durante os cerca de 18 anos em que funcionou, estiveram no campo 340 presos políticos, muitos dos quais ali morreram.
AngolaPress, 26 de Abril de 2009
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23 de abril de 2009
Geoparque de Arouca reconhecido pela UNESCO como património geológico da Humanidade
Geoparque de Arouca reconhecido pela UNESCO como património geológico da Humanidade
O Geoparque de Arouca integra desde hoje a Rede Europeia de Geoparques que, sob a tutela da UNESCO - Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, reúne todos os territórios considerados património geológico da Humanidade.
Inaugurado a 5 de Dezembro de 2007, o Geoparque de Arouca envolve uma área de 327 quilómetros quadrados e abrange um total de 41 geo-sítios - termo técnico para os "sítios com interesse geológico" que, segundo a UNESCO, têm "particular importância pelo seu carácter científico, raridade, encanto estético ou valor educacional".
No património de Arouca destacam-se as pistas fósseis dos quartzitos do vale do Paiva, e, sobretudo, duas ocorrências geológicas apontadas pelos especialistas como únicas no mundo: as trilobites e as pedras parideiras.
Em causa está "um território de excepção", como observa o paleontólogo Artur Sá, coordenador científico do Geoparque de Arouca e docente do Departamento de Geologia da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro.
"Com a integração na Rede Europeia de Geoparques", refere o paleontólogo, "Arouca passa a ter um selo de garantia da UNESCO, uma prova de que reconhecem internacionalmente as qualidades do nosso território e das nossas valências".
O funcionamento em rede deverá agora "permitir o desenvolvimento de conhecimentos científicos e educativos que promovam, para além das fronteiras de cada país, os territórios de excepção que há na Europa e no mundo".
Artur Sá acredita, aliás, que a adesão do Geoparque de Arouca à Rede Global de Geoparques depende agora "de um mero pro forma".
O principal já foi feito. "Tivemos muito trabalho a nível da inventariação do território e do levantamento das suas ocorrências geológicas, mas o projecto contou desde a primeira hora com o apoio das pessoas que estão no terreno e das forças políticas do concelho de Arouca".
Esse envolvimento deve-se ao facto de que "em causa não está um parque nacional nem um parque natural, mas um território que coincide com todo o município de Arouca e que é feito por pessoas, para as pessoas".
Os geoparques da rede da UNESCO têm, afinal, que obedecer a uma estratégia de desenvolvimento sustentável que justifica que o seu património geológico funcione "como uma base agregadora das sinergias da região".
"Geologia, gastronomia, cultura, indústria - tudo cabe no geoparque", afirma Artur Sá. "Queremos um despertar pleno desta região para as pessoas que nos visitam".
A integração do Geoparque de Arouca na rede da UNESCO já foi aprovada há algumas semanas, mas a escolha do dia 22 de Abril para divulgação do facto "não foi ao acaso". Segundo o coordenador científico do projecto, "esta fica a ser a data oficial da integração, para coincidir com o Dia Mundial da Terra e o Dia Nacional do Património Geológico".
O Geoparque de Arouca torna-se assim, acrescenta o paleontólogo, "a 34.ª estrela no mapa da Rede Europeia de Geoparques".
O processo foi iniciado em Agosto de 2008 e a avaliação do território pelos peritos da UNESCO foi feita em Fevereiro de 2009.
O Geoparque de Arouca é o segundo projecto do género em Portugal, a seguir ao Geopark Naturtejo da Meseta Meridional, que também integra a rede da UNESCO, desde Julho de 2006.
Lusa, 22 de Abril de 2009
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20 de abril de 2009
Moçambique: Dia Mundial dos Monumentos e Sítios celebrado em Vilankulo
Dia dos Monumentos celebrado em Vilankulo
O Distrito de Vilankulo, na província de Inhambane, acolhe as celebrações do Dia Mundial dos Monumentos e Sítios, assinalado no dia 18 deste mês sob o lema “Património e Ciência”. Naquele ponto do país, quadros do Ministério da Educação e Cultura e académicos e investigadores afins na matéria farão uma reflexão em torno da matéria, avaliando o desenvolvimento e os constrangimentos observados neste exercício.
No evento de celebração da data participaram ainda a Universidade Eduardo Mondlane, através da Escola de Hotelaria e Turismo de Inhambane, o Instituto de Formação de Professores de Vilankulo e a Representação da UNESCO em Moçambique.
Para além desta realização, o programa comemorativo irá decorrer em todo o país ao longo do mês de Abril, com acções que envolveram o Estado moçambicano e outras que partirão da sociedade civil.
Por outro lado, será realizado um seminário sobre “Património e Ciência” a ter lugar na Universidade Politécnica, em Maputo, a 28 deste mês, bem como a apresentação de diversos temas sobre a matéria nas Jornadas Científicas em diferentes instituições de Ensino Superior no país.
O lema “Património e Ciência” surgiu de uma escolha feita pelo Conselho Internacional dos Monumentos e Sítios (ICOMOS), em Complemento à Declaração, pelas Nações Unidas, de que 2009 é Ano Internacional da Astronomia.
O tópico “Património e Ciência” tem como objectivo proporcionar uma oportunidade para reflexão e reconhecimento do papel da ciência e tecnologia no património cultural, e pretende, ainda, incentivar a discussão sobre os potenciais benefícios e ameaças da ciência no futuro, mas isto tocante à salvaguarda e à conservação do Património.
A ICOMOS, através da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) refere que, a relação da ciência com o património pode ser encarada sob dois pontos de vista: por um lado, o papel da ciência (e do progresso científico) na criação do património, considerando que a formação do Património tangível é o resultado histórico da aplicação de conhecimentos técnico-científicos, e, por outro lado, o contributo da ciência e da tecnologia na conservação, estudo e na compreensão do património, revelando, deste modo, a pluridisciplinaridade e a diversidade de áreas científicas actualmente envolvidas nos trabalhos de preservação do património e os rápidos avanços científicos e tecnológicos das últimas décadas.
O Dia Internacional de Monumentos e Sítios foi criado a 18 de Abril de 1982, pela ICOMOS e em 1983 foi aprovado pela Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), na sua 22ª conferência geral. Este dia oferece uma oportunidade especial para elevar a consciência pública relativa à diversidade do património mundial e os esforços que são exigidos para proteger e conservá-la, como também chamar atenção à sua vulnerabilidade.
Entre 25 e 31 de Maio de 1964, na cidade histórica-cultural de Veneza, Itália, realizou-se um encontro sobre o tema. Desse encontro saíram várias resoluções das quais duas viriam a ter um impacto particular ao marcar uma nova era no domínio da conservação e restauro dos monumentos sítios: o documento é conhecido por Carta de Veneza e a sua consequente criação do Conselho Internacional dos Monumentos e Sítios (ICOMOS).
Maputo, Segunda-Feira, 20 de Abril de 2009:: Notícias
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4 de março de 2009
Ilha de Moçambique (Teresa Cotrim)
Ilha de Moçambique
Ao atravessar de carro a enorme e velha ponte da alfândega, que dá acesso à ilha de Moçambique, fica-se com a impressão de se estar a ver uma fotografia antiga; daquelas que eram a preto e branco e posteriormente a pedido dos interessados o fotógrafo coloria-a com cores pastel. Se olhar para o lado esquerdo verá as casas baixinhas todas alinhadas ao longo da praia.
Parece que foram assim construídas para observaram as embarcações que chegam, partem ou ficam a dormir ao sabor das ondas. Parece um postal, é lindo. Mas o automóvel aproxima-se e esta imagem ganha uma forma diferente. A ilha está suja, cheira mal e deixa na alma um certo desalento. Sobrelotada, nela vivem 13 000 habitantes, dos quais 11 000 ficam na cidade de makuti (nome dado ao tipo de cobertura em telhas de coqueiro). A horas de expediente vê-se um amoantoado de pessoas nas ruas, principalmente jovens deitados no chão, na praia... A população vive essencialmente da pesca e as condições de vida são más: não há, por exemplo, aterros sanitários. O Governo Moçambicano está a resolver esta questão.
Mas, apesar disto, a ilha tem um encanto. É bonita e nela poderá ler 500 anos de história em que Portugal aparece como um dos principais escritores. Vale a pena visitar. Na verdade como refere António Sopa, historiador moçambicano o interesse pela ilha vem do seu património edificado, que até bastante tarde se manteve bem conservado, já que ali esteve instalada a capital até 1898, passando depois para Lourenço Marques.
O mesmo autor diz ainda que a ilha sobreviveu, por ser ali que residiam os altos funcionários, grandes negociantes, ricas casas com sucursais na Zambézia e estabelecimentos na Índia. Esta fixação secular permitiu a existência de um grupo étnico – o swahili – com caraterísticas culturais que lhe são próprias. Segundo António Sopa o povoamento da ilha está relatado na crónica de Quiloa, baseada na história recolhida pelos portugueses no século XVI. Assim, o xeicado de Moçambique teria sido fundado por Moussa e Hassan, ambos naturais de Kilwa, que se teriam inicialmente instalado no Zanzibar devido à instabilidade vivida na sua cidade natal. Será com a projecção de Kilwa, metrópole situada numa pequena ilha da costa sul da Tânzania, nos séculos XIV e XV, e do domínio político que se estabelecerá na costa moçambicana, visando o controlo das rotas comerciais que a ilha de Moçambique ganhará alguma notoriedade. Antes de a chegada de os portugueses, mais propriamente de Vasco de Gama, em 1498, já os portugueses sabiam da sua existência, pois a viagem do achamento do caminho marítimo para a Índia foi habilmente preparada pelo Infante D. Henrique, que desde 1460 mandava Diogo Gomes à Indía por mar. A realidade é que a chegada dos portugueses destabilizou o equílibrio comercial da região.
Os xeicados da costa, sob a suserania do sultunato de Kilwa, concertaram posições com a finalidade de correrem com estes novos hospedeiros, que procuravam policiar os mercadores muçulmanos, ao mesmo tempo que começavam a construir as infra-estruturas necessárias à sua sobrevivência, actividade e protecção. Esta "incomodidade", por parte da comunidade muçulmana, levou à transferência do xeque e principais dignatários que residiam na ilha para Sancul, em 1507, e, mais tarde, os portugueses acabarão por destruir a povoação muçulmana, isto em 1570. O centro dessa povoação deveria ter-se localizado, segundo António Sopa, na actual cidade de pedra e cal, perto da ponte-cais. Era relativamente pobre, onde haviam apenas dois edifícios de pedra: a residência do xeque e a mesquita. Todo o resto seriam construções semelhantes às palhotas actuais.
Os portugueses, pelo contrário, ergueram a sua povoação no lado ocidental, virada para a baía, mais abrigada dos ventos, ao redor da primitiva torre e feitoria, construída a partir de 1507. A fortaleza de São Sebastião estava já planificada desde 1545, mas no decorrer do cerco dos holandeses de 1607 ainda não estava concluída, tendo sido finalizada em 1620. Na primeira metade do Século XVII a ilha estava já dividida em duas povoações distintas: a zona de pedra e cal e a área de makuti. Ainda se mantém.
A cidade de pedra e cal continua a expandir-se durante os séculos XVIII e XIX, com o dinheiro do tráfico de escravos e, a partir de 1870, o comércio das oleaginosas obrigou à construção de grandes armazéns. Até ao Século XIX a zona de cimento estendia-se até à igreja da Saúde e do hospital, começando a partir daí o bairro de Missanga, zonda de gente pobre. Entre 1878 e 1885, com a expansão da cidade, este é demolido, passando os seus habitantes a viver na Marangonha, local até aquele momento desabitado e onde se executavam publicamente os presos civis. Em 1878 nesse local foram construídos, o hospital, mercado e dois parques. Depois, a ilha entrou num processo rápido de decadência, após a passagem da capital para Lourenço Marques no fi nal do Século XIX e, posteriormente, após a mudança da sede do distrito para Nampula e a abertura da navegação do porto de Nacala, situado a cerca de 100 km da ilha de Moçambique, em 1951. Como refere António Sopa este último empreendimento virá a liquidar as aspirações da ilha, apesar da oposição tenaz dos naturais. A partir de 1975, após a independência a ilha é deixada ao abandono e foi por esta altura que a degradação dos edifícios colónias começou.
O grande problema está na educação cívica. A maioria dos seus habitantes são refugiados, que após o fi m da guerra foram atraídos pela vida da cidade, encontrando abrigo nestas casas. São na sua maioria pessoas vindas dos campos, sem cultura urbana. Muitos contribuiram para a destruição pois aproveitaram as vigas, tiraram as arquitraves das portas e janelas para se aquecerem ou para restaurarem os barcos. Mas há outras razões para a sua deteorização.
Uma delas relaciona-se com a falta de investimento, sendo que a entrada de capital estrangeiro para a sua recuperação está vetada e as empresas moçambicanas não têm encaixe financeiro para recuperar a velha ilha; outra explicação é de ordem natural: foi atacada pelo furação Nadia, que deteriou alguns edifícios. A isto junte as enormes plantas que com as suas raízes vão dissiminado muros e paredes das relíquias coloniais, abrindo rachas e deixando a porta aberta para as chuvas torrenciais. Em 1993 foi declarada Património Nacional da Humanidade, dez anos após ter sido inscrita no programa da Unesco. Mas, apesar disto, continua abandonada e poucos foram os esforços para lhe devolver a aura de outros tempos áureos.
Texto e fotos: Teresa Cotrim
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Moçambique: Ilha do Ibo
Iha do Ibo
Esta pequena ilha, de 10 km de comprimento e cinco de largura, é uma réplica da de Moçambique. É uma das mais antigas relíquias coloniais. Pertence ao arquipélago das Quirimbas, situa-se no Oceano Indíco a cerca de 10 km da Costa e a 80 km a Norte da cidade de Porto Amélia, actual Pemba. Antes de a chegada dos portugueses no século XV foi habitada por árabes. A sua presença é reportada ao século VIII da era cristã, tendo deixado marcas bem visíveis na estrutura social, política e económica dos seus habitantes. Aliás, é uma das explicações para que a população seja mestiça e na sua maioria muçulmana.
Os portugueses estabeleceram-se no Ibo a partir de 1522 com D. Pedro de Castro. Franceses e holandeses tentaram tirar a hegemonia lusa, devido à sua localização estratégica que permitia controlar o comércio arábe nesta região, mas em vão.
Em 1765 o governador Baltazar Pereira do Lago, que ficou no poder durante 14 anos, começa a colonização. Apesar das várias tentativas para desenvolver a agricultura e o comércio nas ilhas das Quirimbas a verdade é que estas foram principalmente um meio de tráfico de escravos.
Em 1752 foi integrada no governo de cabo Delgado e, por portaria régia de 9 de Maio de 176, a povoação do Ibo foi elevada a categoria de vila, pelo governador Pedro Saldanha de Albuquerque, sendo então já a capital de cabo Delgado. Por esta data, os portugueses controlavam-na a partir da sede do seu império do oriente: Goa. A alfândega foi criada em 1787.
De 1808 a 1817 resistiu a vários ataques das gentes oriundas de Madagascar, os chamados "esclaves". Alguns monumentos foram destruídos e parte da população foi levada como escrava. Por volta de 1878, a ilha de Ibo é novamente atacada, deste vez pelos povos Zulus vindos do Niassa. Por esta data já estava em declíneo e, segundo um documento da época, em 1902, a sede de governo de cabo Delgado passaria para Porto Amélia, cuja confirmação como capital distrito sede efectuou em 1929, quando da reintegração dos territórios da companhia do Niassa na administração do Estado.
Actualmente, a população vive da pesca e da agricultura de subsistência, sendo o café de origem silvestre, o chamado café ya Ibo um dos seus cartões de visita. Outro é a ourivesaria. Dá gosto ver os ourives a trabalhar, apesar de o fazerem a muito custo – os materiais são difíceis de encontrar, a prata por exemplo é obtida através de moedas antigas compradas no continente ou às gentes do campo e depois trabalhada de uma forma artesanal. Para nos mostrarem a sua arte tivémos de esperar uma manhã, pois não tinham carvão para acender o lume. Mas valeu a pena. A delicadeza com que fabricam os objectos de adorno é uma verdadeira delícia. Encantam qualquer espírito feminino. Poderá comprar colares, pulseiras e brincos de um rendilhado fino e delicado. As formas são de inspiração arábe e indiana. O preço é bastante acessível.
Para ver os ourives a trabalhar dirija-se à Fortaleza de São João Baptista, pois esta é uma profissão com forte tradição no Ibo: no passado cabia aos maridos adquirirem vários objectos para os oferecer de presente às suas mulheres. Segundo o texto uma experiência de desenvolvimento comunitário na ilha do Ibo, a falta de cumprimento desta obrigação, culturalmente estabelecida, podia constituir um passo decisivo para a concretização do divórcio. Uma boa norma, não considera? Que tal aplicar esta tradição ao Ocidente?
Uma das figuras mais emblemáticas da ilha é João Baptista de 82 anos. Pela sua mão passaram já 82 Governadores e de todos tem memória. Sobreviveu a quase tudo.
Dohws embarcação tipicamente arábica com que os homens saem para o mar.
Peneirar os homens moem uma espécie de arroz e as mulheres peneiram.
Ourives uma das mais antigas profissões do Ibo. Aqui os ourives derretem a prata que encontram nas moedas antigas mas neste momento está a escassear, por isso compram-na na África do Sul.
Para visitar:
Igreja São João Baptista
Fortaleza de São João Baptista
Fortim de São José
Fortim Sto. António
Cemitério Hindu de 1905 a Norte da Ilha
Alfândega
Palácio do Governador
Mesquita Central do Ibo
Mercado Municipal José Vilela
Texto: Teresa Cotrim
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Moçambique: Pemba
Pemba
O que mais alicia neste local é estar perante a terceira maior baía do mundo com um porto que apresenta condições de navegação exemplares. Aliás, um dos melhores que os portugueses possuíram no tempo da colonização. Antes de 1975 Pemba era conhecida como Porto Amélia. Situada a 2500 km de Maputo os seus 82 000 habitantes sofrem de algum isolamento mas quem chega não o sente. Este paraíso oferece de bandeja uma paleta de azuis esverdeados de incomparável beleza. As suas praias, das mais limpas do mundo, são quase desérticas. A água quente juntamente com a areia que parece seda, devido à sua fina textura, fazem esquecer quaisquer limites. Ali nem o céu é o limite.
Ao percorrer a Costa com um todo-o-terreno poderá contactar com o povo Maconde. No seu rosto têm sempre espelhado um sorriso aberto mas são os mais reservados e mais orgulhosos e independentes. Ao longo da praia poderá observar crianças e mulheres a plantar algas, apanhar amêijoas e magajoso, uma espécie de minhoca do mar com proporções ainda significativas.
Quem adora este alimento são os chineses. Alguns homens nas suas barcolas esbranquiçadas pela salmoura dedicam-se ao arrasto do camarão. Muitos apenas falam maconde, sendo, por isso, difícil a comunicação. Mas nada como o gesto para quebrar barreiras.
Muitas mulheres ainda pintam o rosto com uma máscara branca, o musiro sinónimo de que atingiram a maioridade. Também aqui se pode assistir a cerimónias e rituais, muitas vezes realizados por dançarinos mascarados, os mapicos, e acompanhados por um grande número de tambores ou instrumentos metálicos.
Ao assistir a esta dança, os jovens explicaram-me que vão um mês para o bosque para aprender a enfrentar o medo; identificar os sons dos animais, entre outros ensinamentos. Depois alguns são circuncizados. A última etapa desta prova enfrentar o mapico. Outra forma de expressão cultural dos macondes é a tatuagem e os dentes afiados, com fins estéticos e de identificação.
A vila mais moderna foi construída em 1904 como centro administrativo da Companhia Comercial de Niassa, sendo o bairro mais conhecido o paquitequete. Este povo tem um talento natural para a escultura em madeira e marfim. Aqui vale a pena comprar objectos de pau preto; são de qualidade e têm obras admiráveis. Mas não se esqueça de um pormenor: este povo é o guerreiro por excelência. Aliás, são conhecidos pela sua coragem.
Texto: Teresa Cotrim
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20 de novembro de 2008
Casa de José Craveirinha para património da cidade de Maputo
Casa de José Craveirinha para património da cidade
A Casa-Museu do poeta-maior José Craveirinha, da Mafalala, vai ser transformada em museu e património cultural da cidade de Maputo. Esta acção surge na sequência de uma proposta do Plano de Actividades e Orçamento para 2009, apresentado ontem pelo Presidente do Conselho Municipal da Cidade de Maputo, Eneas Comiche, no decurso da XXV sessão ordinária da Assembleia Municipal.
A residência onde viveu o maior poeta moçambicano foi transformado em casa-museu em 2005, e em meados do presente ano, o Chefe do Estado, Armando Guebuza, descerrou uma lápide com os indicativos da Casa-Museu. É uma acção que decorreu no ano em que se o poeta fosse vivo completaria, em 28 de Maio, 85 anos.
Armando Guebuza exaltou a coragem e determinação do homem que “soube fazer da literatura uma arma para a libertação dos moçambicanos”.
OS feitos de José Craveirinha, falecido a 6 De Fevereiro de 2003, em muito se identificam com as mais nobres causas que os moçambicanos abraçaram ao longo do tempo. Um homem de cultura e desporto, passando pelo jornalismo, constitui um importante factor de exaltação e celebração da moçambicanidade.
A casa-museu contém um vasto espólio de trabalhos já divulgados e outros inéditos do poeta, que constituem um rico legado para a memória cultural e histórica de Moçambique.
Dentre muitas obras de arte e de literatura existentes na casa do poeta-maior consta uma representativa colecção de obras de arte, com trabalhos de artistas como António Bronze, Malangatana, Samate Mulungo, João Júlio, Chichorro, óleos de Bertina Lopes, desenhos de Idasse Tembe, Zeca Craveirinha. Encontram-se ainda esculturas de arte makonde, cerâmicas, máscaras, reproduções de telas de Gauguin, Cézzane e de Pablo Picasso, para além de uma colecção da indumentária do poeta.
Estão ainda na casa do poeta discos de grandes artistas do jazz como são os casos de Duke Ellingtin, Lady in Saty, Billy Holiday, Count Basie, Charlie Parker, John Coltrone, Jazz Naturaly, Johnny Hartman e Mahalia Jackson. Está ainda uma boa colecção de Fanny Mpfumo.
Na biblioteca consta um espólio de mais de três títulos, bem como um manancial de caixas de outros locais onde estão guardados materiais inéditos.
Consta ainda uma infinidade de medalhas, certificados de méritos e diplomas de honra que o poeta arrecadou, bem como as insígnias e os prémios com que o poeta foi distinguido, um dos quais é o Prémio Camões, em 1991, que é a maior distinção literária da Língua Portuguesa.
CRAVEIRINHA HERÓI NACIONAL
Um dos mais importantes poetas de África e dos países oficiais de Língua Portuguesa, José Craveirinha – o poeta dos vatícinios infalíveis e pai do nacionalismo moçambicano – foi uma figura de intervenção social, política e cultural, e perdeu a vida a 6 de Fevereiro de 2003, numa das clínicas da África do Sul onde se encontrava a receber cuidados médicos.
Devidos aos seus feitos heróicos e em reconhecimento da sua dimensão multifacetada e da sua vida e obras, a após a sua morte, Craveirinha foi elevado à categoria de Herói Nacional.
Com o seu desaparecimento físico decretou-se Luto Nacional, e o Povo, sobretudo, os habitantes da Mafalala, saiu à rua para testemunhar a passagem do cortejo fúnebre rumo ao momento dedicado aos Heróis Moçambicanos.
Na ocasião, o então Presidente da República, Joaquim Chissano, disse que a única consolação para Moçambique e o seu Povo era a semente que o poeta-mor deixava e que a sua obra permanecerá para todo o sempre, porque intemporal.
Um guerrilheiro da palavra e militante político, Craveirinha esteve preso durante quatro anos (1965-1969) na Cadeia Central, pela Polícia Colonial Portuguesa (PIDE).
Sendo auto-didacta, José Craveirinha exerceu a profissão de jornalista, tendo usado vários pseudónimos, designadamente José Manchangane, Mário Vieira, J.C., Jesuíno Cravo, Abílio Cossa e António Sousa.
Iniciou a sua profissão como jornalista no O Brado Africano e posteriormente trabalhou e colaborou, respectivamente, no Notícias, Notícias da Tarde, A Tribuna, A Voz de Moçambique, Notícias da Beira, Voz Africana, O Cooperador, Revista Nova e Revista Tempo.
Foi funcionário público, desportista, associativista, ensaísta e folclorista.
Na década de 50 desempenhou um papel de relevo na Associação Africana, chegando a ser presidente desta agremiação no início dos anos 60.
Dentre os vários livros publicados ainda vivo e outros em edição póstuma contam-se “Xigubo”, “Karingana ua Karingana”, “Cela-1”, “Hamina e Outros Contos”, “Babalaze das Hienas”, “Obra Poética”, “Cantico a une dia de catrame”, “Poemas da Prisão”.
Três meses após a sua morte, a Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO) anunciou a criação do Prémio Literário José Craveirinha, com um valor pecuniário de cinco mil dólares americanos com patrocínio da Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB) e que tem por objectivos valorizar a literatura moçambicana, associando-o a um grande nome da cultura moçambicana.
Com a independência, em 25 de Junho de 1975, José Craveirinha não se eximiu de abraçar novas causas, como a da construção da nação, ao que contribuiu continuando a produzir importantes trabalhos literários. Foi durante vários anos vice-presidente do Fundo Bibliográfico da Língua Portuguesa (FBLB), cargo que ocupou até à sua morte, ocorrida a 6 de Fevereiro de 2003 na África do Sul vítima de sucessivas complicações de saúde.
PRÉMIOS
Prémio Cidade de Lourenço Marques 1959
Prémio Reinaldo Ferreira, Centro de Arte e Cultura da Beira, 1961
Prémio de Ensaio, Centro de Arte e Cultura da Beira, 1961
Prémio Alexandre Dáskalos, Casa dos Estudantes do Império, Lisboa, Portugal, 1962
Prémio Nacional de Poesia de Itália, 1975
Prémio Lotus, Associação dos Escritores Afro-Asiáticos, 1983
Medalha de Nachingwea do Governo de Moçambique, 1985
Medalha de Mérito, Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, Brasil, 1987
Prémio Camões, 1991
Prémio Voice of Africa, da Ordfront Publishing House, Suécia, em 2002
Maputo, Quarta-Feira, 19 de Novembro de 2008:: Notícias
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2 de outubro de 2008
História do Palácio da Ponta Vermelha (Maputo)
HISTÓRIA DO PALÁCIO DA PONTA VERMELHA
A designação da Ponta Vermelha ao promontório de cor avermelhada, 63 metros acima do nível médio das águas do mar, onde desaguam os rios Tembe, Umbeluzi, Matola e Maputo para formarem a imensa Baía de Maputo, deve ser reminiscência remota do período da ocupação holandesa (1720-1730).
Com efeito, sob a designação de «Roode Hoek», ela aparece pela primeira vez na célebre carta da Baía de Lourenço Marques levantada em 1726 pelo engenheiro holandês Konick. Mais tarde a designação aparece repetida pelos ingleses que a traduzem para «Reuben Point», daí, talvez, o vir a chamar-se Ponta Vermelha pelos cartógrafos portugueses como tradução da expressão inglesa, originária por sua vez da designação holandesa. É porém curioso notar que na carta da Baía de Lourenço Marques, datada de 1872 submetida ao julgamento arbitral de Mac-Mahon, ela aparece indicada sob duas designações: «Ponta alta de Mafumo» e «Ponta Vermelha».
Ainda hoje, quem contornar observando com atenção os penhascos salientes que do alto da reentrância parece ameaçarem a estrada marginal, notará a razão de ser da designação que conserva.
A Ponta Vermelha constituía, ainda na última década do século XIX, uma vila à parte de Lourenço Marques. Foi integrada na cidade e entregue à Câmara Municipal em 27 de Agosto de 1896, por decreto provincial do Comissário Régio António Enes.
Presume-se que os primeiros edifícios que se situavam onde hoje se encontra o Palácio da Ponta Vermelha tenham sido erguidos por volta de 1883-1884 por uma concessionária norte-americana designada Mac Murdo, que estava envolvida nas obras de construção da linha dos Caminhos de Ferro Lourenço Marques–Transvaal.
Num contrato rubricado a 14 de Dezembro de 1883 com o Governo português, a concessionária obrigava-se a construir, para além da linha férrea, todas as dependências necessárias para residência do pessoal e armazenamento de material. Daí terá resultado a construção de alguns barracões na zona da Ponta Vermelha.
O Palácio começou por ser um pavilhão de madeira e ferro. Era uma construção sem carácter de longa duração, portanto estaria lá enquanto durassem os trabalhos da construção da linha férrea.
A 25 de Junho de 1889, por quebra de contrato e desobediência à autoridade portuguesa por parte da concessionária, o Governo colonial determinou a apreensão da linha do caminho de ferro, incluindo as dependências de qualquer natureza que pertencessem à Mac Murdo.
O pavilhão de madeira e ferro passou à posse do Estado, o seu primeiro ocupante famoso foi o Comissário Régio António Enes, quando chegou a Lourenço Marques, em Janeiro de 1895.
"À noite" - escreveu ele – "fui instalar-me na pequena casa da Ponta Vermelha, antiga propriedade da empresa concessionária do caminho de ferro, em que os Governadores do distrito já haviam estabelecido residência, e que eu ia promover a Paço do Governo e quartel-general, embora a sua modéstia arquitectónica lhe proibisse prosápias, e a sua varanda alpendrada, sobranceira à vastidão da baía e toda afestoada de trepadeiras floridas, lhe desse ares de moradia romântica de alguma Julieta".
A partir dessa data, mas sem carácter permanente, os Governadores do Distrito de Lourenço Marques passaram a estabelecer-se na Residência da Ponta Vermelha, uma vez que a sua residência oficial tinha deficiências na sua construção.Em 1891, para além das habitações já construídas na Ponta Vermelha, é iniciada a instalação de quartéis militares. É ainda com António Enes que em 1895, Ponta Vermelha passa a ser a residência oficial do Governador Geral, que até aí tinha o seu palácio na Ilha de Moçambique, capital da colónia. Essa mudança esteve intimamente relacionada com as campanhas de ocupação no sul, nomeadamente contra Ngungunhana.
Outro hóspede que a Residência da Ponta Vermelha teve foi de Mouzinho de Albuquerque, que sucedeu a António Enes como Comissário Régio, em 1896. Quando ali se instalou com sua esposa, D. Maria José Gaivão, tudo continuava faltando, quer em mobiliário quer em conforto.
Foi então que sobre os ombros da senhora D. Maria José caiu a tremenda responsabilidade de preparar decentemente a Residência para receber o almirante inglês Rawson, que, com a sua esquadra estacionada no Cabo, visitaria oficialmente Lourenço Marques em 1897.
A visita do almirante Rawson, numa altura em que os ingleses ainda pensavam em «comprar» ao Governo Português a cidade e o porto de Lourenço Marques, parece que tinha outros fins que não de simples cortesia. O autor Montague George Jessett, escreve no seu livro «The Key to South África: Delagoa Bay», que «foi verdadeiramente a visita do esquadrão britânico a Delagoa Bay, em 1897, que atraiu pela primeira vez as atenções do Mundo para este "maravilhoso porto".
Cerca de 1905-1906, sob a direcção técnica do empreiteiro italiano Francesco Masci fizeram-se as primeiras obras mais importantes de que urgentemente carecia a Residência, para sua ampliação e modificação.
Masci pôs na execução do trabalho que lhe foi confiado, toda a sua boa vontade e entusiasmo, resultando aquilo que um jornal da época chamou, depois, de «uma verdadeira obra-prima».
O italiano que fora empreiteiro também da construção do edifício dos Correios de Moçambique, na hoje Av. 25 de Setembro, retirou-se para a Itália em Outubro de 1906.
Devido às modificações introduzidas por Masci, Ponta Vermelha ficou em condições de receber os Príncipes de Connaught, em 1906. Foi essa a primeira vez nos anais da história, que a cidade que Lourenço Marques recebeu uma visita régia, pois o Duque era membro da Casa Real Inglesa.
Os Connaughts e a filha, Princesa Vitória Patrícia (que chegou a ser indigitada para noiva do Rei D. Manuel II), chegaram a Lourenço Marques em visita oficial em fins de Fevereiro de 1906 e ficaram instalados na Residência da Ponta Vermelha, posta à sua disposição pelo Governador-Geral João de Azevedo Coutinho. Em 1 de Março de 1906, pelas 15.30 horas da tarde realizou-se na Residência, em honra do Duque, que era Inspector-Geral dos Exércitos da Grã-Bretanha e irmão do Rei Eduardo VII, sua esposa e filha, uma recepção oficial que ficou memorável, pois decorreu com o maior brilhantismo possível.
O primeiro príncipe português que habitou a Residência foi D. Luís Filipe, Duque de Bragança, que seria o futuro Rei de Portugal se não tivesse sido assassinado em Lisboa, a 1 de Fevereiro de 1908. Chegou a Lourenço Marques a 29 de Julho de 1907, a bordo do paquete «África». À chegada à Residência, D. Luís Filipe dirigiu-se para os seus aposentos particulares, que tinham sido preparados no andar superior do Palácio do Governador-Geral. Após pequena demora, desceu para o salão principal, onde se efectuou a recepção. Era Governador-Geral o conselheiro Freire de Andrade.
Ao Governador-Geral, Dr. Alfredo de Magalhães (1911-1912) se ficou devendo a ampliação mais importante do Palácio da Ponta Vermelha. Primitivamente, só a parte central do edifício tinha primeiro andar, servindo pela escada interior. Ali se reunia o Conselho Legislativo. Verificada a necessidade de novas instalações pelo desenvolvimento de todos os serviços públicos, surgiu a conveniência imperiosa de o ampliar, elevando os corpos laterais. Desta forma, o edifício se tornou mais amplo, pois além da Sala do Conselho do Governo ficou com mais duas grandes salas, sendo uma destinada à biblioteca e outra à reunião de vários conselhos e comissões, como era objectivo do Dr. Alfredo de Magalhães.
Ponta Vermelha voltou a conhecer obras de reabilitação em Fevereiro de 1939 e foi preparada convenientemente para a visita do Presidente Óscar Carmona, primeiro Chefe do Estado que a habitou.
Por essa ocasião, ampliou-se a Sala da Índia, cuja área foi duplicada. Essa sala evocava, pela designação que lhe fora atribuída, o período áureo da gesta da expansão ultramarina e as afinidades que ligaram Moçambique aos Vice-Reis e ao Governo de Gôa, sob cuja administração esteve a província até Abril de 1752, tendo-se desligado dessa administração durante o vice-reinado de Marquês de Távora.
Em 1956, a Residência beneficiou de outros melhoramentos e principalmente da construção do vasto salão preparado para a visita oficial do Chefe do Estado, Marechal Craveiro Lopes. Por essa altura o mestre Frederico Ayres executou um gigantesco painel que decora o salão e foi colocado em ambiente próprio, no Jardim, o conjunto alegórico em bronze, representando a famosa carga de cavalaria de Macontene, conduzida por Mouzinho, em 1897.
Ao longo dos anos, Ponta Vermelha foi sofrendo várias obras de beneficiações, mas sempre mantendo o seu traçado primitivo que o confere uma certa beleza e estética.
Com a conquista da Independência Nacional, em Junho de 1975, o Palácio da Ponta Vermelha foi declarado residência oficial do Presidente da República.
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