Mostrar mensagens com a etiqueta Paulina Chiziane. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Paulina Chiziane. Mostrar todas as mensagens

31 de dezembro de 2012

O feminismo negro de Paulina Chiziane (Adelto Gonçalves)



- Para João Craveirinha, pela amizade e pelos subsídios fornecidos para este ensaio

Se a literatura escrita por mulheres já é um mundo diferente, abordado por ângulos que romancistas e contistas homens dificilmente vêem, imaginemos, então, o que pode ser o mundo visto por uma mulher africana, moçambicana, ainda mais se é governado por costumes e tradições que nos soam estranhos. Esse estranho e mágico mundo é o que oferece em seus livros Paulina Chiziane (1955), a primeira romancista negra de Moçambique.

Diz-se aqui primeira romancista negra porque não seria correcto chamá-la de primeira escritora moçambicana, pois Lília Momplê (1935), nascida na Ilha de Moçambique, autora de livros de contos e de uma biografia, professora, funcionária da UNESCO e ex-secretária-geral da Associação dos Escritores Moçambicanos, apareceu antes dela, já à época pós-Independência. E é provável que haja outras moçambicanas autoras de livros. Acontece que Lília Momplê, descendente de macua, é mestiça, carregando sangue europeu nas veias. E, se o critério for o de uma suposta africanidade, Paulina seria a primeira negra escritora de Moçambique, mas definitivamente não é a primeira moçambicana escritora.

É claro que estes "divisionismos cromáticos" não levam a nada, até porque ninguém seria mais ou menos moçambicano por causa da cor da pele. Seja como for, o que se sabe é que na sociedade moçambicana destes dias há duas versões para esta questão: uma para consumo interno (que nem todos são tão escuros) e outra para consumo externo (mais abrangente).

Isto sem contar certos "paternalismos colonialistas" que levam escritores de Moçambique e Angola, com raízes mais europeias do que afrobanto, a encontrar melhor recepção na indústria editorial, além de maior divulgação pelos meios de comunicação da antiga metrópole e do Brasil. Ou será que é só por falta de informação ou coincidência que na universidade brasileira, durante encontros sobre literatura africana de expressão portuguesa, só se fala em Mia Couto (1955), José Eduardo Agualusa (1960) e Pepetela (1941)?

1 de abril de 2009

Quem manda aqui? (Paulina Chiziane - In “As Andorinhas”)

Quem manda aqui?*
(concl) O sol surge, dourado, do ventre-mãe da nascente. Está tudo organizado. Zelosamente. Meticulosamente. As estratégias refinadas cuidadosamente. Os rapazes farão as fisgadas. As raparigas farão a colecta de andorinhas presas ou mortas. As mulheres irão tecer as redes e armadilhas caso seja necessário. Os guerreiros farão a protecção contra as feras. Mobilizam-se famílias inteiras: pais, mães, filhos e até mesmo avós. Ninguém fica. O imperador manda soltar as fanfarras para celebrar a partida dos guerreiros. Enche os ouvidos dos homens com palavras de ordem, mesmo sabendo que não se tratava de missão nenhuma. Era simples teatro. Diversão. Gozando dos poderes que tem, pondo gente em movimento, por actividade nenhuma. Os guerreiros, apesar de contrariados, reconhecem no líder louco inegáveis talentos. Bom estratega. Cérebro astuto, que o conduziu, de vitória em vitória, à construção do Império de Gaza. Aquela farsa era para privar os guerreiros da gordura e preguiça, sabiam. Era para mantê-los ocupados e não perder habilidades de guerra, há muito que não havia combates. O imperador repara que Nguyuza mobilizou os melhores guerreiros, mas não se rala. Tratava-se de uma caçada de pássaros, no final da tarde estariam de regresso e o império não ficaria privado de segurança. - Nobres guerreiros do império, desejo-vos sorte no cumprimento da vossa missão – grita o imperador. - Sim, alteza. As mentes ainda sonolentas dos guerreiros resmungam. De tanto poder, o imperador já não sabia o que fazia. Por isso respondem aos gritos e sem a menor excitação, dizendo o que ele gostava de ouvir. De resto não iam matar. Nem morrer. Iam dar um passeio pelos campos, regressar ao leito e dormir. - Quero ver todas as andorinhas de castigo e em silêncio – repete o imperador. - Sim, alteza! - Na vossa missão, aproveitem a ocasião para ngungunhar os chopes, esses infelizes. - Porquê os chopes, agora alteza? – questiona Nguyuza – eles andam bem quietinhos e já não provocam os habituais distúrbios. - Os chopes? Só eles podem enviar-me as andorinhas para provocar. Só eles. Estão interessados no meu desassossego. Os infelizes confiam nas suas flechas e nos seus arcos, porque não querem reconhecer que é a mim que o poder pertence. - Acha, então, que a andorinha que cagou no seu olho é mágica, majestade? - Não acho, tenho a certeza. Os chopes, esses insubmissos, têm o dom do feitiço, e só eles podem fazer-me essas afrontas! - Usando cocó de andorinha para derrubar um império? - Ah, vê-se mesmo que não conhecem os poderes maléficos desses infelizes! Parem de fazer perguntas e cumpram as minhas ordens! - Sim, majestade! O sentimento do imperador é de temor e respeito pelos chopes, esse rebeldes machos de arco de flecha que o desafiavam continuamente. Era o único povo a quem não conseguiria ainda subverter. Por isso os humilha sempre que pode. - Agora repeti o grito de guerra, que os chopes devem escutar – ordena o imperador. - Submetei-vos, chopes malditos, - gritam os guerreiros – submetei-vos ao nobre imperador e sereis salvos. Ele venceu os infiéis. Invadiu a pátria dos Khambane e matou o poderoso Mbinguana. Invadiu a terra dos N’wanati e construiu a capital do grande império. Quem não crê nele, morrerá! - Dizei-me, bravos guerreiros – incita o imperador – que tratamento se deve dar a esses chopes, esses bastardos? - Transformá-los em fêmeas. Vavar-lhes as orelhas e enfiar-lhes brincos de mulher. - Para quê – questiona divertido o gordo imperador – para quê? - Para que a grandeza do império se reconheça à distância. Para que os bastardos exibam no corpo a falta de virilidade. - E se encontrarem os nobres trabalhando nos campos? - Saudá-lo-emos de joelhos. Colocar-lhe-emos com o m’boti, a coroa negra, destinada aos iluminados do império. Paulina Chiziane - In “As Andorinhas” Maputo, Quarta-Feira, 1 de Abril de 2009:: Notícias

26 de março de 2009

Quem manda aqui? (Paulina Chiziane, in: "As Andorinhas")

Quem manda aqui?
1. Depois do pasto de xima branca, branquíssima, silada no alguidar, acompanhado de nhewe cozido, leite coalhado e carne grelhada, sente muito calor, o imperador! Não era da comida, não. O calor vinha do sol e das banhas daquele corpo de elefante. O imperador era moderado e muito requintado no prato. Ao pequeno-almoço tomava leite coalhado ou leite fresquinho que saída quentinho da vaca. Gostava de carne grelhada, mal passada, e xima azeda. Tomava o seu copo de aguardente, mas pouco. A natureza faz por vezes isto: tamanho grande, feito de pouca comida. Era de boa raça, o imperador! Desloca o grande corpo para o repouso predilecto, debaixo da sombra da grande phama. Deita-se de papo para o ar, ao lado da sua dama preferida. Poisa os olhos no horizonte criador. Descobre que são seus os espaços terrestres e o infinito celeste. Que são suas as estrelas que à noite brilham e as árvores que transportam a brisa do entardecer. Contempla a sua obra e suspira de orgulho – fui eu quem transformou tudo isto em vida. Coloquei luz nos olhos dessa gentalha. Quando aqui cheguei, a terra era selvagem e era macho. Domestiquei-a. Tornei-a fêmea, é toda minha, faço o que quero. Dá-me bons frutos, cereais, gado. Dá-me sol e chuva. Nesta terra fêmea, os homens me servem de joelhos, porque já não são homens. Sou o único macho na superfície da terra. Uma andorinha canta alegrias no espaço. De pança também cheia, baila. Liberta os intestinos e a caganita balança na cloaca. Cede à gravidade e cai no olho do imperador. O corpo gordo se ergue como uma mola, movido pela fúria. Dos olhos túrgidos, solta-se o dragão que dorme por dentro. O imperador podia resistir a tudo menos àquele ultraje: cocó de pássaro? Não, não podia suportar. Ele que venceu todas as batalhas, que transformou a vida, que vavou as orelhas dos cativos, que fecundou todas as mulheres da terra, que ngungunhou tudo à sua medida, não podia ser abusado por um simples pássaro. Desvairado, chama pelos seus guerreiros. Hoje ele é dragão, ele é leão. Ele ruge. - Nguyuza? Lumbulule? Marivate? Khumalo? Sithole? O grito que solta corta a respiração de quem o escuta. Os homens vieram correndo. Ajoelhados diante do soberano, recitam em uníssono. - Às ordens, alteza. - Quem manda debaixo do sol? - Deus – respondem de novo em uníssono. - Deus? – a raiva do imperador cresce. - Sim. - Quem é Deus aqui? O Nguyuza é o primeiro a falar. É o chefe. A ele cabe a primeira palavra e ao imperador a última. - O imperador é Deus. É o Mambo dos Mambos, o Nukulunkulu! Eles respondem a mesma ladainha de sempre, com tremor acrescido naquelas vozes de guerreiros. Pressentem que nada de bom virá daquele chamamento. - Ordenei o silêncio – barafusta o gordo imperador. - A aldeia inteira está em silêncio – responde Lumbulule – nem uma mulher a pilar. Nem uma criança a chorar. O silêncio é total. - E aquele pássaro? - Que pássaro? – pergunta Khumalo. Poisados no tecto do céu, os olhos dos homens iniciam a busca. Descobrem. O calor da hora recolheu os pássaros ao aconchego dos seus ninhos. Na sombra da grande phama elas balançam, elas bailam. Trazem nos bicos pios alegres que chovem aos ouvidos como a frescura da brisa. - São vozes das andorinhas, majestade – responde Marivate. - Foram enviados pelos espíritos para cantar louvores à sua majestade, embalar o seu repouso, Hosi! - acrescenta Lumbulule. - São vozes divinas prenunciando a paz – diz o filosófico Sithole, sem convicção nenhuma. – No magnífico canto afirmam que é o mais potente dos homens e fecundará todas as mulheres do mundo. Dizem também que as vacas ficarão prenhes e as galinhas terão mais ovos. Prenunciam que os celeiros abarrotarão de grão, na próxima colheita. - Conhece a linguagem dos pássaros, Sithole? – questiona o imperador. - Não conheço, mas entendo. - Não conheces e nem entendes, seu cabeça de galinha, cala-te! - Eles dizem que o nosso imperador é o eterno Deus, o rei sobre todos os reis – acrescenta Khumalo atiçando a fúria de Sua Majestade. - Estúpidos, silenciem todas as andorinhas – ordena – apanhem-nas. Tragam-nas aqui ao castigo, para que todas as aves do mundo saibam quem manda aqui! Os homens esquecem as ladainhas habituais de “sim, alteza, viva, alteza”, por tudo e por nada. Treinados para a guerra, são cegos cumpridores das ordens, mas hoje questionam em silêncio: - Estará o imperador no uso da razão? - Terá bebido um copo a mais? - Terá fumado daquelas ervas que crescem livres nos campos? Na mente do imperador, a loucura e a lucidez bailam no mesmo compasso. Parece que a demência começa a marcar presença. Subtilmente. - Silenciar as andorinhas, majestade? – Pergunta Nguyuza. - Não ouviste? Perdeste os ouvidos? - Perdão, majestade. A pergunta é meramente técnica. Só queria confirmar a ordem para melhor estruturar as regas, depurar o método, refinar a estratégia desta missão. - Nguyuza, quero silêncio, muito silêncio. Que a natureza à volta se cale na hora do meu repouso. - Sim, alteza. Poder invisível armadura que eleva o espírito humano aos píncaros do absurdo. Pelo poder os guerreiros sangram a terra e castram a virilidade dos homens. De tanto poder, o imperador sente-se no pico das montanhas de Zulwine, esquecendo o pormenor mais importante: no topo da pirâmide o seu corpo de elefante não tem equilíbrio. Cairá. - Ordem está dada – remata o imperador. - Estamos aqui para obedecer-lhe, alteza – completa Nguyuza – as ordens serão cumpridas a rigor. De resto, as andorinhas, são aves inúteis que nem servem para comer. Não respeitam o nosso imperador nem o nosso império. Vamos castigá-las. - Quero uma solução rápida, de qualidade! - Sim, alteza. Só preciso de algum tempo para organizar uma expedição forte para dar lição a esses insubmissos. - Assim se fala, General, assim é que gosto – sorria o imperador acariciando o ventre reluzente dos bons manjares. - A estratégia será infalível, alteza – assegurou Nguyuza – a vitória será retumbante. Traremos esses passarinhos ao magno julgamento, juramos. Serão castigados e aprenderão na dor quem manda nos raios do sol e na direcção dos ventos. Todas as andorinhas do mundo saberão, de uma só vez, quem ordena as tempestades e as trovoadas medonhas que ngungunham o mundo! - Concede-vos apenas esta noite para se preparem. - Sim, alteza. - Agora, desapareçam da minha frente. Todos baixam a cabeça e batem as palmas em sinal de total submissão. Eles sabem que cada palavra do imperador é um escarro sobre a vida. Ali mata-se. Ali morre-se. Para perder o sopro basta apenas pisar o mais ínfimo risco. - É para já, alteza! – responde Marivate. - Longa vida, alteza! – diz Lumbulule com voz de mulher. Com a alma empanturrada pela grandeza, o imperador regressa ao seu repouso e ronca, sereno. Era ele Mudungazi, o Nungunhana! Que ngungunha homens e mulheres, por isso o mundo lhe pertence! 2. Nguyuza sente calor e frio. O estômago se comprime numa náusea profunda e o vómito vem a caminho. Os intestinos também se rebelam e ele corre para a moita. Defeca e vomita fel, muito fel. Já livre do desconforto procura repouso na sombra predilecta. A purga traz-lhe clareza da mente. Pensa nas ordens acabadas de receber. As palavras do gordo imperador são o prenúncio da dança de sangue à volta do fogo. Com a história das andorinhas, o imperador busca o pretexto para uma nova sangria, as suas ordens são mais mortíferas do que as balas dos portugueses. Seria mais fácil receber ordens para matar um homem. Mas um pássaro? Na capital do império o luto ainda enjoa as pobres viúvas. Na semana finda, guerreiros valentes foram atirados à vala comum, como gatos mortos. Tudo porque o gordo imperador mandou silenciar uma manada de hipopótamos que se refrescava no lago, em pleno sol. Organizou uma expedição e os homens fizeram-se ao desafio. Hipopótamos e humanos não lutam com as mesmas armas. Enquanto os guerreiros nadavam e tentavam desferir golpes com as frágeis lanças de ferro, os hipopótamos, numa só dentada, quebravam o guerreiro pela coluna e atiravam o corpo para dar de comer aos peixes! Cem guerreiros mortos é o balanço. Outros cinquenta e tal ganharam graves mutilações. Perderam os braços, perderam as pernas, perderam a cabeça. Agora é a guerra aos pássaros. Quantos se irão perder desta vez? Na diarreia acabada de ter, a expressão de medo. Naquele vómito, o espelho do pânico. Nguyuza começa então a falar sozinho como um louco. De revolta. Faz um exame do seu percurso e conclui: a vaidade deste gordo eu é que sustento. Consumi a minha vida de batalha em batalha, de conquista em conquista, somando vitórias só para sustentar a grandeza que o enlouquece. O pôr-do-sol vem e dialoga com a sua imagem que se reflecte nos últimos raios de sol. Espelha-se. Renega-se. Não, não é minha aquela imagem de sanguinário estampada no sol que parte, correndo atrás do imperador, na conquista do nada, não, não posso ser eu. De onde me veio esta cegueira, a ponto de me deixar montar como um cavalo louco, correndo ao gosto do imperador, aperfeiçoando a arte de matar para sobreviver? Que poder é este, que destrói, que derruba, que elimina? Eu preciso de ser outro. Gostaria tanto de nascer outra vez, para ser outro e não este! Outras andorinhas dançam na copa da mafurreira. Nguyuza levanta os olhos e observa atentamente. Tenta identificar a que logrou a maior proeza da história. Sorri. Cagar no olho do imperador? Bravo macho é essa andorinha! Ousou desafiar a virilidade do mais alto do império, o Ngungunhana, que ngungunha todos os homens e todas as mulheres do planeta. Ah! O riso traz nova inspiração. Irá, sabiamente, preparar a melhor estratégia militar para abrilhantar a carreira dos bravos guerreiros com uma caçada de pássaros só para aplcacar a ira do soberano. Irão todos armados de escudo e lança. Com que armas se vão defender as pobres andorinhas? Uma brisa repentina arrebata-lhe para o outro lado da vida, num sono de magia e os deuses se revelam. No curto sonho vê primaveras e flores. Vê muito espaço azul e muita nuvem branca. Descobriu que estava no céu. Os seus olhos machos procuram um encanto celeste, uma estrela, uma anja, um pedaço de céu, para guardar na memória e recordar. Foi então que viu uma andorinha fêmea de penas sedosas, reflectindo cores de diamante. Atraído por tanta beleza, transformou-se em pássaro, voou em direcção a ela. Esta, mais veloz, eclipsou-se entre as nuvens. Ele foi voando, voando, procurando desesperadamente aquela imagem deslumbrante. Acabou entrando na fortaleza do reino das andorinhas. Ficou morto de espanto. A fortaleza não tinha paredes, nem tecto, nem armas. No meio dela viu um palácio de pérola e cristal, sem guardas nem generais, completamente adornado de estrelas e protegido de correntes de ar puro. Na entrada do palácio estava um velhinho simpático, dormindo a sesta. - Bom velho, não viu por aqui passar a andorinha mais bela do mundo? - Ah – respondeu o velho – ela te espera no horizonte do sonho. - É tão bela! Eu a amo tanto! Onde fica o horizonte do sonho? - Dentro de ti. - Como a encontrar? - Encontrá-la-ás. Mas é muito caprichosa e só abre o coração aos seres livres. - Eu sou um homem livre. - És um general! 3. Depois do mágico sono, o doce despertar. Nguyuza corre à da sacerdotisa, para decifrar o enigma. Respira fundo e diz tudo num só fôlego. - Tive um sonho. Eu flutuava como um pássaro, no mais alto dos céus. - Sonho bonito – confirma a sacerdotisa – és um homem de sorte. - Sorte? - Sim. Só as almas abençoadas vencem o peso, voam no alto e alcançam a sagrada dimensão! Nos olhos da sacerdotisa o mar de ternura se reflecte. Nguyuza mergulha na imensidão desse mar e se perde. Sorve todas as ondas de frescura e se engasga. O coração navega em sentimentos novos. Suspira. Meu Deus, como ela é bela, como é pura! - Decifra o meu sonho – implora o general. - É a chave do teu destino. - Destino? Que destino posso esperar na loucura do imperador? - A lucidez e a loucura são filhas do mesmo parto. Quando se fundem no mesmo ponto, o destino se revela. Nguyuza sorri. - Fala-me então das cores do destino. - No Zulwine, o reino das andorinhas te aguarda. - Eu? Lograrei conhecer esse lugar maravilhoso, com estes olhos que a terra há-de comer? – pergunta Nguyuza, inspirado. - Já lá estiveste. - Eu? - De lá todos partimos. - Marchei a vida inteira e nem cheguei perto desse lugar. - É o útero da vida, sem o qual nenhum ser existiria. Regressar é a sorte de poucos. - Onde fica? - Zulwine é o princípio. É o fim. É aqui ou qualquer lugar. - Chegarei? - Escolhe. Entre a lucidez e a loucura. A via longa ou a via curta. Qual dos caminhos prefere? - Ah, sacerdotisa bela! Sou um simples guerreiro, não se decifrar os enigmas do destino. Vem comigo, e ensina-me o caminho. - Oh, grande honra! – diz ela emocionada – como posso recusar o pedido do mais poderoso dos generais? Envolvem-se num abraço com sabor a mel. A sacerdotisa se transforma na andorinha do sonho, e Nguyuza num homem livre. De braços dados, voam no azul em direcção ao horizonte. No silêncio do general, a inspiração, a poesia: eu te admiro, sacerdotisa, eu te amo. Os teus olhos de mar incendeiam o meu corpo. O teu sorriso massaja-me o peito num fogo cálido, ah, sacerdotisa! Ele e ela ardem de desejo, mas não se beijam. Ela é uma eleita pelos deuses, é celibatária, é virgem como todas as freiras. Freiras na versão bantu, evidentemente. Se nguyuza ousar Se Nguyuza ousar possui-la, mesmo por amor, sofrerá o supremo castigo: a impotência. E ela será repudiada pelos espíritos. Ficará cega, surda e coberta de pústulas. - Partiremos antes do nascer do sol, prepara-te, doce sacerdotisa. Como uma criança no despontar da aurora, Nuguyuza ganha leveza na alma. Caçar andorinhas? Um encanto. Que melhor diversão podia ter um velho general cansado de guerras? Na voz do general, o lamento do tempo perdido. Meu pobre imperador: a geração que vem buscará a nossa grandeza em monumentos de pedra, sem perceber que nós, antepassados, escrevemos a nossa história em monumentos de sangue. Os nossos descendentes rir-se-ão das nossas crenças, das nossas rezas, comerão peixe e todos os insectos marinhos, sem se importarem com a nossa realeza feita de penas de pavão, tudo muda, ah, meu gordo imperador! 4. O sol surge, dourado, do ventre-mãe da nascente. Está tudo organizado. Zelosamente. Meticulosamente. As estratégias refinadas cuidadosamente. Os rapazes farão as fisgadas. As raparigas farão a colecta de andorinhas presas ou mortas. As mulheres irão tecer as redes e armadilhas caso seja necessário. Os guerreiros farão a protecção contra as feras. Mobilizam-se famílias inteiras: pais, mães, filhos e até mesmo avós. Ninguém fica. O imperador manda soltar as fanfarras para celebrar a partida dos guerreiros. Enche os ouvidos dos homens com palavras de ordem, mesmo sabendo que não se tratava de missão nenhuma. Era simples teatro. Diversão. Gozando dos poderes que tem, pondo gente em movimento, por actividade nenhuma. Os guerreiros, apesar de contrariados, reconhecem no líder louco inegáveis talentos. Bom estratega. Cérebro astuto, que o conduziu, de vitória em vitória, à construção do Império de Gaza. Aquela farsa era para privar os guerreiros da gordura e preguiça, sabiam. Era para mantê-los ocupados e não perder habilidades de guerra, há muito que não havia combates. O imperador repara que Nguyuza mobilizou os melhores guerreiros, mas não se rala. Tratava-se de uma caçada de pássaros, no final da tarde estariam de regresso e o império não ficaria privado de segurança. - Nobres guerreiros do império, desejo-vos sorte no cumprimento da vossa missão – grita o imperador. - Sim, alteza. As mentes ainda sonolentas dos guerreiros resmungam. De tanto poder, o imperador já não sabia o que fazia. Por isso respondem aos gritos e sem a menor excitação, dizendo o que ele gostava de ouvir. De resto não iam matar. Nem morrer. Iam dar um passeio pelos campos, regressar ao leito e dormir. - Quero ver todas as andorinhas de castigo e em silêncio – repete o imperador. - Sim, alteza! - Na vossa missão, aproveitem a ocasião para ngungunhar os chopes, esses infelizes. - Porquê os chopes, agora alteza? – questiona Nguyuza – eles andam bem quietinhos e já não provocam os habituais distúrbios. - Os chopes? Só eles podem enviar-me as andorinhas para provocar. Só eles. Estão interessados no meu desassossego. Os infelizes confiam nas suas flechas e nos seus arcos, porque não querem reconhecer que é a mim que o poder pertence. - Acha, então, que a andorinha que cagou no seu olho é mágica, majestade? - Não acho, tenho a certeza. Os chopes, esses insubmissos, têm o dom do feitiço, e só eles podem fazer-me essas afrontas! - Usando cocó de andorinha para derrubar um império? - Ah, vê-se mesmo que não conhecem os poderes maléficos desses infelizes! Parem de fazer perguntas e cumpram as minhas ordens! - Sim, majestade! O sentimento do imperador é de temor e respeito pelos chopes, esse rebeldes machos de arco de flecha que o desafiavam continuamente. Era o único povo a quem não conseguiria ainda subverter. Por isso os humilha sempre que pode. - Agora repeti o grito de guerra, que os chopes devem escutar – ordena o imperador. - Submetei-vos, chopes malditos, - gritam os guerreiros – submetei-vos ao nobre imperador e sereis salvos. Ele venceu os infiéis. Invadiu a pátria dos Khambane e matou o poderoso Mbinguana. Invadiu a terra dos N’wanati e construiu a capital do grande império. Quem não crê nele, morrerá! - Dizei-me, bravos guerreiros – incita o imperador – que tratamento se deve dar a esses chopes, esses bastardos? - Transformá-los em fêmeas. Vavar-lhes as orelhas e enfiar-lhes brincos de mulher. - Para quê – questiona divertido o gordo imperador – para quê? - Para que a grandeza do império se reconheça à distância. Para que os bastardos exibam no corpo a falta de virilidade. - E se encontrarem os nobres trabalhando nos campos? - Saudá-lo-emos de joelhos. Colocar-lhe-emos com o m’boti, a coroa negra, destinada aos iluminados do império. PAULINA CHIZIANE - In: “As Andorinhas” Maputo, Quarta-Feira, 25 de Março de 2009:: Notícias

11 de fevereiro de 2009

Paulina Chiziane apresenta "Andorinhas" em Correntes d’Escritas na Póvoa de Varzim, Portugal

Paulina Chiziane apresenta andorinhas em Correntes d’Escritas Cento e vinte escritores de 15 países, entre eles a moçambicana Paulina Chiziane, reúnem-se a partir de hoje na Póvoa de Varzim, Portugal, para falar de literatura, na 10ª edição das Correntes d'Escritas, encontro literário de expressão ibérica. Ao longo de quatro dias, os temas em debate são retomados de anos anteriores, numa espécie de "edição comemorativa" dos 10 anos de vida, e está previsto o lançamento de 35 livros. Juan José Millás (Espanha), Alvaro Uribe (México), Andrea Blanqué (Uruguai), Antonio Orlando Rodríguez (Cuba), Amílcar Bettega (Brasil), Bruno Serrano (Chile), Héctor Abad Faciolince (Colômbia) e António Mega Ferreira são alguns dos autores estreantes nas Correntes e que vêm apresentar novas obras. Também a participar pela primeira vez, estarão Lêdo Ivo (Brasil), Américo Appiano (Chile), Victor Andresco (Espanha), Joaquim Arena (Cabo Verde), Jorge Arrimar (Angola), Laura Antillano (Venezuela) e os portugueses Alice Vieira, Eugénio Lisboa e Rui Cardoso Martins. Na lista dos "repetentes" encontram-se os portugueses Eduardo Lourenço, Hélder Macedo, Gonçalo M. Tavares, valter hugo mãe, José Luís Peixoto, Nuno Júdice, Maria do Rosário Pedreira e Teolinda Gersão (Portugal), Luís Fernando Veríssimo e Moacyr Scliar (Brasil), Germano Almeida (Cabo Verde), António Sarabia (México) e Santiago Gamboa (Colômbia) são alguns dos escritores estrangeiros participantes em edições anteriores, bem como Ondjaki, Ana Paula Tavares e Manuel Rui (Angola), Carlos Quiroga e José Manuel Fajardo (Espanha), Karla Suarez (Cuba) e o português Onésimo Teotónio Almeida, que estão "acorrentados" há mais tempo, como costumam dizer. Até sábado, estes e outros autores falarão sobre "O Desafio da Folha em Branco", "É Literatura Tudo o que Não é Evidente", "A Rua Faz o Livro" e "A Literatura é o Sentido Último das Coisas", entre outros temas. Na sessão de abertura oficial, esta manhã, serão anunciados os vencedores dos Prémios Casino da Póvoa, Correntes d'Escritas/Papelaria Locus e Conto Infantil Ilustrado Correntes d'Escritas/Porto Editora, que lhes serão entregues no último dia, na sessão de encerramento. À tarde está prevista uma conferência de abertura. Lançadas em 2000 pela Câmara da Póvoa de Varzim e já com uma identidade própria - e este ano com uma imagem renovada pelo atelier Henrique Cayatte - as Correntes promovem visitas dos escritores a escolas básicas e secundárias da Póvoa de Varzim, a terra onde nasceu o célebre escritor Eça de Queirós. Além do lançamento de 35 livros - três dos quais de fotografias tiradas nas nove edições passadas - haverá ainda a apresentação do oitavo número da revista Correntes d'Escritas, inteiramente dedicado ao 10.º aniversário do encontro, e uma Feira do Livro, até sábado. Maputo, Quarta-Feira, 11 de Fevereiro de 2009:: Notícias

29 de janeiro de 2009

Escritora moçambicana Paulina Chiziane, lança hoje em Maputo o seu mais recente livro, "As Andorinhas"

Paulina Chiziane voa com “As Andorinhas” A escritora Paulina Chiziane lança hoje em Maputo o seu mais recente livro, “As Andorinhas”, uma trilogia de três contos em que evoca o percurso de Ngungunhane, Eduardo Mondlane e Lurdes Mutola, relevando o seu papel inspirador para a actual e futuras gerações dos moçambicanos. A obra, chancelada pela Índico, é a sexta desta autora, que é a mulher moçambicana que mais livros publicou. Paulina Chiziane casou algumas lendas e a história de vida destas três personalidades para “ajudar a compreender o Moçambique de hoje, em parte por influência do que aconteceu no passado”. Paulina Chiziane escreveu os contos que agora publica em “As Andorinhas” há vários meses, depois de reler um dos livros que ela considera “um dos mais marcantes” da literatura moçambicana: “Chitlango, o Filho do Chefe”, de Eduardo Mondlane. Também inspirou-se em lendas à volta da figura do último rei do Estado de Gaza, contadas no seio dos chopes, etnia de que faz parte. “É conhecida a aversão que Ngungunhane tinha aos chopes. Pertenço a este grupo e fui ouvindo no meu meio muitas histórias à volta dele. O seu poderio era por todos conhecido e respeitado. Conta-se que uma certa vez ele ordenou silêncio e umas pequenas criaturas, as andorinhas, perturbaram, do cimo de uma árvore, o seu descanso. Uma delas defecou lá de cima para a cabeça do rei. Na fúria que lhe era característico, o imperador chamou os seus homens e ordenou-os que caçassem todas as andorinhas. E o resultado dessa determinação é que eles saíram à caça das andorinhas, porque o rei as queria vivas junto de si para as castigar e pelo caminho acabaram por confrontar-se com os portugueses. O fim é o que todos já sabemos: o império chegou ao fim, o imperador foi preso e o seu poder acabou, por causa de uma andorinha”, explicou, em recente entrevista ao “Notícias”, esta escritora que se considera “contadora de histórias”. O conto inspirado na vida e postura de Ngungunhane, ironicamente intitulado “Quem Manda Aqui?”, precede àquela que parece ser a estória central do novo livro de Paulina Chiziane. Eduardo Mondlane é para esta escritora um herói cuja importância ultrapassa os limites da luta pela autodeterminação dos moçambicanos. “Eduardo Mondlane carrega em si uma postura que devia servir de inspiração para todos nós, porque a sua importância ultrapassa também o que os nossos manuais de História dizem. Os moçambicanos devem olhar para ele e para aqueles que o educaram. A mim impressiona muito a sua simplicidade, que infelizmente não é característica de muitos de nós”, conta a escritora. “Mondlane é uma pessoa poderosa, mas simples, ensinadora e cativante. Para além disso, as pessoas que o rodearam, nomeadamente as duas mulheres que o educaram (mãe viúva e avó) também são de grande mérito, porque, pobres, fizeram de uma criança também pobre um grande homem. Um homem que inspirou um povo num momento particular da nossa caminhada, mas em quem todos se deviam inspirar nos dias que correm. As mulheres que o educaram também são pessoas em quem nós devíamos olhar para educarmos os nossos filhos”. O conto em Paulina Chiziane viaja em torno de Mondlane intitula-se “Maundlane, o Criador” e prenuncia um outro, “Mutola, a Ungida”, sobre aquela que os moçambicanos têm como a menina de ouro. “Ela é muito mais do que uma mulher dourada. A história dela faz lembrar a de Eduardo Mondlane, é uma história de luta, de humildade, de contágio, que faz um povo jubilar. É assim que eu a vejo”. Ao publicar este conjunto de textos Paulina Chiziane pretende-nos chamar para aquilo a que ela chama “uma necessidade urgente” no nosso país: “há muito que nós não produzimos personalidades fortes, do tamanho e envergadura de um Eduardo Mondlane, por exemplo. Sinceramente, a única que nós produzimos foi precisamente a Lurdes. Onde mais, para além da geração da luta de libertação nacional irão os nossos jovens e crianças buscar inspiração?”. Maputo, Quinta-Feira, 29 de Janeiro de 2009:: Notícias