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3 de maio de 2013

No tempo da minha infância (Por Ismael Gaião)


No tempo da minha infância


(Por Ismael Gaião)


No tempo da minha infância

Nossa vida era normal

Nunca me foi proibido

Comer muito açúcar ou sal

Hoje tudo é diferente

Sempre alguém ensina a gente

Que comer tudo faz mal


Bebi leite ao natural

Da minha vaca Quitéria

E nunca fiquei de cama

Com uma doença séria

As crianças de hoje em dia

Não bebem como eu bebia

Pra não pegar bactéria


A barriga da miséria

Tirei com tranquilidade

Do pão com manteiga e queijo

Hoje só resta a saudade

A vida ficou sem graça

Não se pode comer massa

Por causa da obesidade

19 de fevereiro de 2012

Por Culpa da Sociedade (Manuel João Cardoso, Dezembro 1999)


Por Culpa da Sociedade

Todo o homem ao nascer

não vem de livre vontade

ninguém o pode reter

é empurrado para viver

nesta triste sociedade


já caiu no esquecimento

o maior valor e mais profundo

que é amar com sentimento

toda a ternura e encanto

dum homem a vir ao mundo


já não há sensibilidade

a humanidade vive alterada

no mundo impera a maldade

às vezes sem necessidade

tem-se uma vida depravada


vejo tanta juventude

sem caminho p'ra correr

se não houver quem ajude

faltará ao mundo saúde

esta sociedade irá morrer


por culpa desta sociedade

há muita má união

andram ladrões em liberdade

que até tiram a vontade

a quem quer ganhar o pão


por culpa da sociedade

os ricos sobem na vida

mas a irónica realidade

é que alguns com a vaidade

dão a queda na subida

por culpa da sociedade

a pobreza está crescendo

há ricos só por vaidade

enquanto os pobres na verdade

para sobreviver estão lutando


está crescendo o egoísmo

nesta humanidade pervertida

não há amor nem altruísmo

está sendo enorme o abismo

em que a sociedade está metida.

Manuel João Cardoso (Dezembro 1999)

Estendi o Olhar (Manuel João Cardoso, Dezembro 1999)


Estendi o Olhar


Neste mundo em mudança

dia após dia vão nascendo

vai morrendo em mim a esperança

de ver os homens se amando

e cada vez mais o ódio avança


vejo os homens em disputa

todos querem ter poder

é tão grande a sua luta

que a razão já ninguém escuta

vejo inocentes morrer


há altos senhores resolvidos

a impor à história o seu nome

e há também os desprotegidos

que vêem seus sonhos perdidos

e são tragados pela fome


vejo a sede do poder

envolta em hipocrisia

vejo as armas a crescer

vejo este mundo a morrer

por lhe fartar a harmonia


veria o mundo diferente

se meia dúzia de senhores

pudessem encher a mente

com sabedoria diferente

e deixassem de ser actores


vejo meu tempo perdido

sinto em mim impotência

estou cada vez mais convencido

que neste sistema onde lido

está imperando a demência


Manuel João Cardoso (Dezembro 1999)

30 de janeiro de 2012

Escrito por uma criança africana....


Escrito por uma criança africana....


Pensamento surpreendente!!!

Quando eu nasci, era Preto;
Quando cresci, era Preto;
Quando pego sol, fico Preto
Quando sinto frio, continuo Preto
Quando estou assustado, também fico Preto.
Quando estou doente, Preto;
E, quando eu morrer, continuarei preto!

E você, cara Branco,
Quando nasce, você é rosa;
Quando cresce, você é Branco;
Quando você pega sol, fica Vermelho;
Quando sente frio, você fica roxo;
Quando você se assusta fica Amarelo;
Quando está doente, fica verde;
Quando você morrer, você ficará cinzento.

E você vem me chamar de Homem de Cor??!!

Fonte: Net

1 de março de 2010

Canção do exílio

Canção do exílio

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

O Moleque

O Moleque

«Traz bazuca para mim...
dois eme, Manica, tanto faz,
preto ou branco, não interessa.»
“Minha Motiana, corta o capim,
trata machamba – a vida dela é essa!
Para mim, a cidade, é que me satisfaz.”

“Moana, não me chateia, para chorar.
Lá na Terra, mãe é que tem problema;
Dela, é que é esse cuidado...
Aqui, na Cidade, eu trabalho, estou a adorar.
Chapa ganha, chapa gasta, é o meu lema...
Para servir mozungo, eu sou criado.”

9 de março de 2009

Amarildo Valeriano relança "Falas Impossíveis” em Maputo

Amarildo Valeriano relança "Falas Impossíveis” em Maputo “Não se trata do lançamento do meu livro mas sim de um relançamento”, esclareceu ao SAPO MZ o jovem poeta Amarildo Valeriano, a propósito do encontro ocorrido esta sexta-feira, ao final da tarde, no bar Gil Vicente, em Maputo. Efectivamente, “Falas Impossíveis”, assim se chama a estreia literária de Amarildo, havia tido o seu lançamento oficial no passado dia 19 de Dezembro, mas a proximidade do Natal, o auge do período de férias em Moçambique, fez com que muitos admiradores e amigos não pudessem estar presentes “pelo que resolvi relançar o livro”, explica o autor. Pelo meio, o jovem Amarildo, de 28 anos, foi a Itália – o livro é bilingue (Português/Italiano) – e apresentou a obra em três cidades diferentes: Turim, Roma e Milão. “O surgimento do italiano deve-se ao facto de eu ter participado num intercâmbio que envolvia estudantes moçambicanos e italianos, aqui em Moçambique. Estou também a fazer o curso livre de italiano na Universidade Eduardo Mondlane. Em “Falas Impossíveis” cada poema é dedicado a uma personalidade, instituição ou a valores. Deste modo há poemas em honra de Samora Machel, José Craveirinha, Noémia de Sousa, Martim Luther King – a sua grande referência –, Madre Teresa de Calcutá, Luís Vaz de Camões, à Liberdade, ao Amor, etc. Amarildo não pretende fazer uma literatura exclusivamente lírica, que aborde só as questões românticas, mas sim uma literatura de intervenção, porque “como disse o poeta americano Ezra Pound, os poetas são as antenas da sociedade, porque captam transformações, tendências, denunciam perigos, alertam. Quanto mais a sociedade marginaliza a poesia, mais precisa dela. Marginaliza porque não quer pôr em discussão a sua organização injusta, as suas leis rígidas e mecânicas, onde só a economia, o mercado contam e decidem os parâmetros e as possibilidades de vida de milhões de pessoas”, revela Amarildo. E acrescenta: “É esse o papel que eu quero desempenhar como poeta, quero dar esse contributo à sociedade.” Amarildo não tem dúvida que nesta altura o país necessita de uma poesia de intervenção. “As minhas maiores referências na poesia moçambicana vão para nomes como Noémia de Sousa e José Craveirinha que atacaram o colonialismo, contribuindo muito para a independência do país. No plano internacional, as minhas referências são o Vladimir Mayakovski e o Edgar Allen Poe que foram igualmente poetas revolucionários. Precisamos de uma literatura que passe valores, princípios, interpretações e incentivos para a tomada de certas atitudes”, concluiu o autor de “Falas Impossíveis.” João Vaz de Almeida Sapo MZ, 09 de Março de 2009

12 de fevereiro de 2009

Batuque d'África (Jonas Savimbi)

BATUQUE D'AFRICA Batuque velho, envelhecido no tempo Batuque envelhecido no tempo velho É o batuque que foi sempre no tempo ido Quando negro nasce na floresta virgem A alegria da aldeia no ar atinge Com batuque velho que anunciou a nova É no tam-tam que se reúnem os velhos Tocou assim batuque velho de sempre Tocou assim quando velhos nasceram sempre Tocou sempre assim nos acontecimentos de sempre Tocou assim na floresta virgem da Àfrica misteriosa Batuque velho no tempo envelhecido Batuque velho na Àfrica negra misteriosa Batuque do pensamento velho na tradição velha Batuque da velha cultura no pensamento velho Criança adulta entra na sociedade adulta Circuncisão velha na tradição da cultura velha Batuque velho acompanha natalidade e maturidade A dor! Batuque velho abafa! É crescimento Mancebo constitui família e avança Avança na sociedade e no tempo È o velho batuque envelhecido no tempo Saúda mais uma família e se reúnem os velhos Quando tempo envelhecer o homem no tempo É o tam-tam que lhe descobre a doença É o velho batuque que afasta a moléstia Num tam-tam frenético que supera o tempo Jonas Savimbi Cuando Cubango, 1977

23 de janeiro de 2009

Quando a Pátria é Nossa (Armando Artur)

QUANDO A PÁTRIA É NOSSA É assim esgravatada e repilhada Até aos limites do seu interior Por gente nossa e despudorada Quando a pátria que é nossa É assim regateada ao preço da gula E ganância, por gente que jurou Defendê-la com bravura e valentia Quando a pátria que é nossa É assim extorquida e ameaçada Por gente sem dó e auto-esconjurada Que não olha a meios senão a fins Quando a pátria que é nossa É assim leiloada em praças obscuras À taxa diária do sangue, suor e lágrimas De milhões de braços, e uma só força Por gente ilustre e de colarinho branco Quando a pátria que é nossa É assim assaltada pelos flancos da sua Beleza e contornos da sua geografia Por gente forasteira de si própria Quando a pátria que é nossa É assim deixada à deriva e ao relento E à mercê dos párias do nosso maior Descontentamento colectivo Quando a pátria que é nossa É assim atraiçoada por essa gente sem Nome, que se aliança com mercadores De insónias e arautos do caos e do mal Em troca do fútil e do asco Todo silêncio e todo exílio serão Sempre iguais a pátria que é nossa! Armando Artur

16 de janeiro de 2009

Karingana Ua Karingana (José Craveirinha)

Karingana Ua Karingana Este jeito de contar as nossas coisas à maneira simples das profecias - Karingana ua Karingana! - é que faz o poeta sentir-se gente E nem de outra forma se inventa o que é propriedade dos poetas nem em plena vida se transforma a visão do que parece impossível em sonho do que vai ser. - Karingana! José Craveirinha

Poema da Infância Distante (Noémia de Sousa)

Poema da Infância Distante A Rui Guerra Quando eu nasci na grande casa à beira-mar, era meio-dia e o sol brilhava sobre o Índico. Gaivotas pairavam, brancas, doidas de azul. Os barcos dos pescadores indianos não tinham regressado ainda arrastando as redes pejadas. Na ponte, os gritos dos negros dos botes chamando as mamanas amolecidas de calor, de trouxas à cabeça e garotos ranhosos às costas soavam com um ar longínquo, longínquo e suspenso na neblina do silêncio. E nos degraus escaldantes, mendigo Mufasini dormitava, rodeado de moscas. Quando eu nasci... – Eu sei que o ar estava calmo, repousado (disseram-me) e o sol brilhava sobre o mar. No meio desta calma fui lançada ao mundo, já com meu estigma. E chorei e gritei – nem sei porquê. Ah, mas pela vida fora, minhas lágrimas secaram ao lume da revolta. E o Sol nunca mais brilhou como nos dias primeiros da minha existência, embora o cenário brilhante e marítimo da minha infância, constantemente calmo como um pântano, tenha sido quem guiou meus passos adolescentes, - meu estigma também. Mais, mais ainda: meus heterogéneos companheiros de infância. Meus companheiros de pescarias por debaixo da ponte, com anzol de alfinete e linha de guita, meus amigos esfarrapados de ventres redondos como cabaças, companheiros de brincadeiras e correrias pelos matos e praias da Catembe unidos todos na maravilhosa descoberta de um ninho de tutas, na construção de uma armadilha com nembo, na caça aos gala-galas e beija-flores, nas perseguições aos xitambelas sob um sol quente de Verão... – Figuras inesquecíveis da minha infância arrapazada, solta e feliz: meninos negros e mulatos, brancos e indianos, filhos da mainata, do padeiro, do negro do bote, do carpinteiro, vindos da miséria do Guachene ou das casas de madeira dos pescadores, Meninos mimados do posto, meninos frescalhotes dos guardas-fiscais da Esquadrilha – irmanados todos na aventura sempre nova dos assaltos aos cajueiros das machambas, no segredo das maçalas mais doces, companheiros na inquieta sensação do mistério da “Ilha dos navios perdidos” – onde nenhum brado fica sem eco. Ah, meus companheiros acocorados na roda maravilhada e boquiaberta de “Karingana wa karingana” das histórias da cocuana do Maputo, em crepúsculos negros e terríveis de tempestades (o vento uivando no telhado de zinco, o mar ameaçando derrubar as escadas de madeira da varanda e casuarinas, gemendo, gemendo, oh inconsolavelmente gemendo, acordando medos estranhos, inexplicáveis das nossas almas cheias de xituculumucumbas desdentadas e reis Massingas virados jibóias...) Ah, meus companheiros me semearam esta insatisfação dia a dia mais insatisfeita. Eles me encheram a infância do sol que brilhou no dia em que nasci. Com a sua camaradagem luminosa, impensada, sua alegria radiante, seu entusiasmo explosivo diante de qualquer papagaio de papel feito asa no céu de um azul tecnicolor, sua lealdade sem código, sempre pronta, – eles encheram minha infância arrapazada de felicidade e aventuras inesquecíveis. Se hoje o sol não brilha como do dia em que nasci, na grande casa, à beira do Índico, não me deixo adormecer na escuridão. Meus companheiros me são seguros guias na minha rota através da vida. Eles me provaram que “fraternidade” não é mera palavra bonita escrita a negro no dicionário da estante: ensinaram-me que “fraternidade” é um sentimento belo, e possível, mesmo quando as epidermes e a paisagem circundante são tão diferentes. Por isso eu CREIO que um dia o sol voltará a brilhar, calmo, sobre o Índico. Gaivotas pairarão, brancas, doidas de azul e os pescadores voltarão cantando, navegando sobre a tarde ténue. E este veneno de lua que a dor me injectou nas veias em noite de tambor e batuque deixará para sempre de me inquietar. Um dia, o sol iluminará a vida. E será como uma nova infância raiando para todos. Noémia de Sousa 29 de Abril de 1950

A Montanha (Roberto Carlos)

A MONTANHA Eu vou seguir uma luz lá no alto eu vou ouvir Uma voz que me chama eu vou subir A montanha e ficar bem mais perto de Deus e rezar Eu vou gritar para o mundo me ouvir e acompanhar Toda minha escalada e ajudar A mostrar como é o meu grito de amor e de fé Eu vou pedir que as estrelas não parem de brilhar E as crianças não deixem de sorrir E que os homens jamais se esqueçam de agradecer Por isso eu digo: Obrigado Senhor por mais um dia Obrigado senhor que eu posso ver Que seria de mim sem a fé que eu tenho em Você Por mais que eu sofra, Obrigado Senhor mesmo que eu chore Obrigado Senhor por eu saber Que tudo isso me mostra o caminho que leva a Você Mais uma vez Obrigado Senhor por outro dia Obrigado Senhor que o sol nasceu Obrigado Senhor agradeço Obrigado Senhor Por isso eu digo: Obrigado Senhor pelas estrelas Obrigado Senhor pelo sorriso Obrigado Senhor agradeço Obrigado Senhor Mais uma vez Obrigado Senhor por um novo dia Obrigado Senhor pela esperança Obrigado Senhor agradeço Obrigado Senhor Por isso eu digo: Obrigado Senhor pelo sorriso Obrigado Senhor pelo perdão Obrigado Senhor agradeço Obrigado Senhor Roberto Carlos

9 de janeiro de 2009

Ilha do Meu alento, Moçambique

Ilha do meu alento, de Moçambique Sei de cor, Cada curva do teu corpo, Os passos dos teus caminhos, As sombras das tuas árvores e casario. Sei de cor, Cada dança das tuas ondas, As carícias das teu vento, Os cheiros da tua maresia. Sei de cor, Cada tom da cor do teu mar, O calor e brilho do sol dos teus dias, O luar e as estrelas das tuas noites. Sei de cor, Cada limite do teu horizonte, A voz das tuas gentes, A brandura das tuas horas, Sei de cor, A imagem do mau tempo Neste meu exílio terreno Onde tomei tamanho de gente. Sei de cor, Cada lágrima do teu rosto, As angústias do teu olhar, Os silêncios do tua voz, A imagem de outro tempo! E o que não sei de cor Adivinho a sonhar. Se me disserem que sou louca, Logo minha voz com firmeza desmente. Mas se for, tanto melhor! Autor/a Desconhecido/a

11 de dezembro de 2008

A todos um Bom Natal (Lúcia Carvalho)

A Todos Um Bom Natal Refrão A todos um Bom Natal A todos um Bom Natal Que seja um Bom Natal, para todos vós Que seja um Bom Natal, para todos vós No Natal pela manhã Ouvem-se os sinos tocar E há uma grande alegria, no ar Refrão A todos um Bom Natal A todos um Bom Natal Que seja um Bom Natal, para todos vós Que seja um Bom Natal, para todos vós Nesta manhã de Natal Há em todos os países Muitos milhões de meninos, felizes Refrão A todos um Bom Natal A todos um Bom Natal Que seja um Bom Natal, para todos vós Que seja um Bom Natal, para todos vós Vão aos saltos pela casa Descalças ou com chinelos Procurar suas prendas, tão belas Refrão A todos um Bom Natal A todos um Bom Natal Que seja um Bom Natal, para todos vós Que seja um Bom Natal, para todos vós Depois há danças de roda As crianças dão as mãos No Natal todos se sentem irmãos Refrão A todos um Bom Natal A todos um Bom Natal Que seja um Bom Natal, para todos vós Que seja um Bom Natal, para todos vós Se isto fosse verdade Para todos os Meninos Era bom ouvir os sinos tocar. Refrão A todos um Bom Natal A todos um Bom Natal Que seja um Bom Natal, para todos vós Que seja um Bom Natal, para todos vós Lúcia Carvalho

7 de dezembro de 2008

Elegia na morte de Samora Moisés Machel (Carlos Domingos)

ELEGIA NA MORTE DE SAMORA MOISÉS MACHEL (Poema inscrito no livro de condolências da Embaixada da República Popular de Moçambique) Não venho trazer-te flores, mas um grito. No teu sangue derramado lateja a minha dor e a minha raiva. Dentro de mim estremeceu o mundo e o mar ferveu, os sorrisos voaram em estilhaços e desmoronou-se a torre em construção. Agora estamos nus sob os escombros e a tua ausência é um vento frio soprando por dentro. Mas nada poderá deter-te, nem a morte! De súbito, surgiste ao nosso lado, sentimos a tua mão de confiança, continuas de pé, jovem, invencível, com a vitória a sorrir-te nos lábios. Nada poderá deter-nos, Samora Machel. As nossas mãos, a nossa voz, as nossas armas velarão a tua memória e arrancarão os frutos renitentes à terra ainda em flor. Carlos Domingos (22 de Outubro de 1986)

Batuque d'África (Jonas Savimbi)

BATUQUE D'ÁFRICA Batuque velho, envelhecido no tempo Batuque envelhecido no tempo velho É o batuque que foi sempre no tempo ido Quando negro nasce na floresta virgem A alegria da aldeia no ar atinge Com batuque velho que anunciou a nova É no tam-tam que se reúnem os velhos Tocou assim batuque velho de sempre Tocou assim quando velhos nasceram sempre Tocou sempre assim nos acontecimentos de sempre Tocou assim na floresta virgem da África misteriosa Batuque velho no tempo envelhecido Batuque velho na África negra misteriosa Batuque do pensamento velho na tradição velha Batuque da velha cultura no pensamento velho Criança adulta entra na sociedade adulta Circuncisão velha na tradição da cultura velha Batuque velho acompanha natalidade e maturidade A dor! Batuque velho abafa! É crescimento Mancebo constitui família e avança Avança na sociedade e no tempo È o velho batuque envelhecido no tempo Saúda mais uma família e se reúnem os velhos Quando tempo envelhecer o homem no tempo É o tam-tam que lhe descobre a doença É o velho batuque que afasta a moléstia Num tam-tam frenético que supera o tempo Jonas Savimbi Cuando Cubango, 1977

27 de novembro de 2008

Oh! Liberdade! (Xanana Gusmão)

OH! LIBERDADE! Se eu pudesse pelas frias manhãs acordar tiritando fustigado pela ventania que me abre a cortina do céu e ver, do cimo dos meus montes, o quadro roxo, de um perturbado nascer do sol a leste de Timor Se eu pudesse pelos tórridos sóis cavalgar embevecido de encontro a mim mesmo nas serenas planícies do capim e sentir o cheiro de animais bebendo das nascentes que murmurariam no ar lendas de Timor Se eu pudesse pelas tardes de calma sentir o cansaço da natureza sensual espreguiçando-se no seu suor e ouvir contar as canseiras sob os risos das crianças nuas e descalças de todo o Timor Se eu pudesse ao entardecer das ondas caminhar pela areia entregue a mim mesmo no enlevo molhado da brisa e tocar a imensidão do mar num sopro da alma que permita meditar o futuro da ilha de Timor Se eu pudesse ao cantar dos grilos falar para a lua pelas janelas da noite e contar-lhes romances do povo a união inviolável dos corpos para criar filhos e ensinar-lhes a crescer e a amar a Pátria Timor! Xanana Gusmão (Timor)

24 de novembro de 2008

Abril de brados mil (João Craveirinha)

ABRIL DE BRADOS MIL (1974/2005 - 25 de Abril) Abril em Lisboa, brados Mil Cravos, Flores, floriram Rostos sorriram, mas… Áfricas ensanguentadas, gemiam Angola, Guiné e Moçambique Maquela do Zombo, Madina do Boé e Mueda Irmanadas, nas granadas rebentadas Metralhadoras G3 e canhões estremeciam Kalashenikoves – metralhadoras, e minas bailarinas Bailando no baile da morte anunciada Viúvas e órfãos de soldados vivos De luto antecipado vestidos Soldados mancebos, outros, Dormindo com a morte, a fiel amante. África em Guerra Soldados portugueses, longe do Norte Africanos guerrilheiros, a Sul, nas suas Terras Abril de brados Mil e Em Lisboa, não choveram balas nem obuses Choveram flores emancipadas Emancipando as armas e os barões não assinalados Passaram ainda além do Chiado e dos Algarves Ao largo, no Tejo, A Armada, seu fado aguardava Em África o luso soldado, sua amada, chorava Em Portugal o Povo desesperava Contra os canhões marcharam, marcharam Cravos de liberdade e de brados mil, armados A 25 de Abril, 1900 e 74, O Dia ficou mais Dia E a Noite menos noite Raiou o Sol da esperança… Esperança da mulher ser mais mulher, Da criança mais criança, Do homem mais homem, …E do Amor, mais Amor, e, sobretudo, falar sem Temor Apesar de esquecida ficar, Timor!! João Craveirinha 05.04.2005 (Poema lido pelo autor na Suécia em Abril 2005 a convite da Associação Portuguesa de Estocolmo por ocasião da efeméride do 25 de Abril naquele País Nórdico)

29 de outubro de 2008

Prelúdio, Mãe-Negra (Alda Lara)

PRELÚDIO MÃE-NEGRA Pela estrada desce a noite Mãe-Negra, desce com ela... Nem buganvílias vermelhas, nem vestidinhos de folhos, nem brincadeiras de guisos, nas suas mãos apertadas. Só duas lágrimas grossas, em duas faces cansadas. Mãe-Negra tem voz de vento, voz de silêncio batendo nas folhas do cajueiro... Tem voz de noite, descendo, de mansinho, pela estrada... Que é feito desses meninos que gostava de embalar?... Que é feito desses meninos que ela ajudou a criar?... Quem ouve agora as histórias que costumava contar?... Mãe-Negra não sabe nada... Mas ai de quem sabe tudo, como eu sei tudo Mãe-Negra!... Os teus meninos cresceram, e esqueceram as histórias que costumavas contar... Muitos partiram p'ra longe, quem sabe se hão-de voltar!... Só tu ficaste esperando, mãos cruzadas no regaço, bem quieta bem calada. É a tua a voz deste vento, desta saudade descendo, de mansinho pela estrada.. Alda Lara

22 de outubro de 2008

A fraternidade das palavras (José Craveirinha)

A FRATERNIDADE DAS PALAVRAS O céu é uma m´benga onde todos os braços das mamanas repisam os bagos de estrelas. Amigos: as palavras mesmo estranhas se têm música verdadeira só precisam de quem as toque ao mesmo ritmo para serem todas irmãs. E eis que num espasmo de harmonia como todas as coisas palavras rongas e algarvias ganguissam neste satanhoco papel e recombinam em poema. José Craveirinha