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3 de março de 2014

Domingo de Angola (Ernesto Lara Filho)



Para mim, domingo de Angola é paraíso. É um Céu. Colorido. É moamba de peixe ou caril de galinha de Quilengues. Domingo de Angola não tem rival no mundo. Começa na praia e acaba na sesta. Não tem Sporting-Benfica, nem linha de Sintra, não tem passeio a Vila Franca. Não tem touros, nem Cacilhas, nem caracóis no Ginjal. Domingo de Angola, para mim, é o melhor domingo do mundo que eu conheço – e que já não é nada pequeno, benza-o Deus.

Moamba para mim é um ritual. Tem pirão de fuba de mandioca – que eu sou do Sul, usa-se de milho, mas eu prefiro de mandioca à moda do Norte, à moda de Malanje, tal qual no Uíje – mete farinha de pau e obrigado velha que está uma delícia. Tem de ser comido à sombra de um palmeira ou coqueiro, debaixo de uma mandioqueira ou mangueira quando é no interior. Porque coqueiro só no litoral. É por estas e por outras que eu gosto do domingo em Angola. Domingo de Branco. Domingo de Preto. Domingo de todos, domingo de missa, de padre, de domingo.

A verdadeira moambada, aquela que é feita de galinha tenra, tão tenra que sabe a peito de virgem, a moamba verdadeira, tem de ser do cacho primeiro da palmeira do quintal. O molho será apurado pelo velho cozinheiro, que foi mestre dos pais, dos filhos e dos filhos dos filhos. Tem molho que é de “come e arrebenta e o que sobra vai no mar” como dizia o poeta patrício e mulato Viriato da Cruz, no “Sô Santo”. Moamba verdadeira, repito, só se come duas ou três vezes na vida. É preciso estar-se em estado de graça. Estar-se com Nosso Senhor e com os anjos.

Moamba para mim, é saudade, hoje que estou longe, hoje que estou perto. Estou perto de estar tão longe. Não compreendem leitores? A gente está longe e tem saudades. Antes de adormecer, pela noite, vem a lembrança, da pitangueira do quintal, da Rosa Lavadeira, do amo-seco Canivete que falava “axim” à moda de Viseu, e tudo isso aparece nítido, cada vez mais claro e puro como certas horas da madrugada da Serra do Lépi. A primeira vez que comi moamba, dela me lembro como da primeira vez que beijei mulher, do primeiro desafio de futebol, do primeiro amor nocturno na areia da praia, com mulher de verdade. A primeira moamba, lembra-se como se lembra a primeira ida à escola.

O travo nativo do cacho de déndém, que leva meses a fazer-se, até os frutos terem a tonalidade da queimada. Metade o clarão no céu da noite, a outra metade, escuro, um escuro de breu. Tudo isso o sabor tropical junta naquele fruto, que tem brisa do mar, sol de praia, frescura de casuarina, amor de mulata. O coconote e as influências indianas nadando no molho. Tem jindungo, a moamba genuína, aquela que cheira a sândalo, que escorre do canto da boca, do patrício apaixonado, de olho rútilo e lábio trémulo. Mas a galinha, essa tem de ser de Quilengues, magra e criada no mato, quase sem penas, galinha de sanzala, galinha de preto, que é como quem diz, de pobre. Isto está divinal, velha, eu um dia volto. Se entra a erva-doce, zumba que zumba e farinha de pau, oh, céus, oh, Mãe, isto não é moamba, isto é poesia. Literatura.

Mas tem de ser comida no terreiro da casa de adobe do bairro velho. Tem de ser comida em ritual, na casa de adobe com telhado de zinco da estrada da escola da Liga, ou num dos Muceques de Luanda, por sobre as areias avermelhadas do Prenda ou do Burity.

Depois a altura do peito de mulher na moleza da carne ou do peixe. Se é “roncador”, aka, é peixe da costa e sabe que sabe tão bem. Mas de galinha é melhor. Galinha de Quilengues escanifrada, repito. Galinha de pobre.

Fico por momentos em êxtase, as mãos sobre o estômago, lembrando o terreiro da família Gamboa lá de Luanda onde comi uma coisa dessas uma vez há muitos anos. Num bairro velho de Benguela, eu estarei ainda um dia com meus companheiros dos tempos de eu menino, comendo moamba e bebendo quissângua à sombra do bambu do Edelfride – na casa do Edelfride.

Moamba é riqueza de pobre e fraqueza de rico. Entra em palácios sem pedir licença, com o mesmo à vontade com que se senta nos quintais com sombra de mangueira e entra em terrina de esmalte, prato de esmalte, caneca de esmalte, garfo de alumínio. Velho sonho de poeta, lembrança de castimbala, moambada para mim é saudade e sonho, recordação e batuque, história de amor.

Um dia, quando eu voltar, hei-de comer uma moambada de peixe ou de carne, à sombra de um cajueiro, num Muceque de Luanda, moamba do cacho primeiro da palmeira do quintal, não é velha? Depois de muito beber dormirei a sesta. E hei-de gostar de ouvir um desses rapazes do meu tempo, feito velho de cabelos brancos, recitar baixinho enquanto adormeço, a balada do Viriato:

“… Kitoto e batuque pró povo lá fora champanha, ngaieta tocando lá dentro…

Garganta cantando:

“Come e arrebenta

E o que sobra vai no mar…”

Para mim, domingo de Angola é isso tudo. Um Céu colorido. Uma moamba de peixe. Uma noite de luar.

… não tem Sporting-Benfica, não tem touros, nem caracóis no Ginjal…


in Jornal de Notícias, 1957

2 de outubro de 2009

Luandino Vieira admite que recusou Prémio Camões 2006 alegando "razões pessoais e íntimas"

Luandino Vieira admite que recusou Prémio Camões 2006 por ter estado 30 anos sem escrever um livro e não gostar de dinheiro O escritor angolano Luandino Vieira, que recusou em 2006 receber o Prémio Camões alegando "razões pessoais e íntimas", explicou hoje, no Algarve, que não aceitou a recompensa por ter estado 30 anos sem escrever e não gostar de dinheiro. "Quando me vêm atribuir o prémio eu estava há 30 anos sem escrever um livro e essa minha escolha tem um preço… Considerei que era uma injustiça para com os colegas que trabalharam e se esforçaram ao longo desses anos", admitiu Luandino Vieira, à margem da cerimónia de apresentação da sua mais recente obra, "O Livro dos Guerrilheiros", uma iniciativa que decorreu na Biblioteca Municipal de Loulé. Na altura e segundo uma nota do Ministério da Cultura, o escritor Luandino Vieira justificou a decisão de não aceitar o maior galardão literário da língua portuguesa evocando "razões pessoas, íntimas" mas, esta noite, em Loulé, depois de questionado pela plateia, concretizou que a sua recusa estava também relacionada com o facto de "não gostar de dinheiro". O escritor angolano contou que a sua homenagem a Luís Vaz de Camões é feita todos os anos, dia 10 de Junho, quando, num acto simbólico, convida o autor de "Os Lusíadas para almoçar num restaurante. "O Livro dos Guerrilheiros" centra-se em Angola e no povo angolano durante o quadro da libertação daquele país - entre 1961 e 1974 - e conta a história de meia dúzia de guerrilheiros de uma primeira coluna, numa acção de recuo e em que um desses homens é julgado pelos seus pares e condenado à morte por enforcamento, refere o escritor. Luandino Vieira, 74 anos, que participou no movimento de libertação nacional e contribuiu para o nascimento da República Popular de Angola, acrescentou que este livro é baseado tanto em "histórias vividas por ele, como histórias que lhe foram contadas" mas sublinhou que é na "imaginação que tudo se resolve". "O livro foi escrito mergulhando nas memórias", afirmou, adiantando que muitas das suas influências vêm de Camões, Homero mas também da sétima e da nona artes, do Cinema e da Banda Desenhada, respectivamente. O autor admite que gostou muito destes textos. "No final de os escrever acordei de mim próprio, porque antes de os escrever adormeci em mim próprio", disse. Aos leitores, Luandino confessa que os seus livros não devem ser de fácil leitura e, por isso, recomenda que sejam lidos devagar: "Um parágrafo, uma linha por noite, como quando se lêem versículos da Bíblia". O "Livro dos Guerrilheiro é o segundo de uma espécie de trilogia intitulada "Rios Velhos e Guerrilheiros" e cujo primeira obra foi publicada em 2006 e teve o título de "Livro dos Rios. A terceira obra, caso seja concretizada, terá o título de "Ela e os Velhos", uma homenagem à mulher angolana durante a luta de libertação do povo angolano mas, para já, Luandino Viera explica que embora saiba o que escrever por ter o material, ainda lhe falta descobrir "o como". "Talvez descubra por anunciação. Talvez sonhe com a forma", lança, com alguma melancolia. Editado pela Caminho, o livro de narrativas distingue-se pela forma como são contadas as histórias, ora se encontrando ritmos que recordam a poesia de Camões ou de Homero mas onde também se pode perceber algumas semelhanças com a "Peregrinação" de Fernão Mendes Pinto no tom de abertura da obra. José Luandino Vieira nasceu na Lagoa do Furadouro (Portugal) em 4 de Maio de 1935 mas passou toda a infância e juventude em Luanda, onde frequentou e terminou o ensino secundário. Esteve mais de uma década preso durante o regime salazarista, passando oito anos no Campo de Concentração do Tarrafal (Cabo Verde). "A Guerra dos Fazedores de Chuva com os Caçadores de Nuvens Guerra para Crianças" ou "A vida verdadeira de Domingos Xavier" são outras das obras do escritor Luandino Vieira. Lusa, 01 de Outubro de 2009

19 de agosto de 2009

Angola: Óscar Ribas (1909-2004)

ÓSCAR RIBAS (1909 – 2004) Filho de pai português da Guarda e de mãe angolana pertencente à aristocracia luandense, nasceu em Luanda este socio-etnólogo autodidacta. Iniciou os estudos em Angola mas foi em Portugal que os terminou. Regressado ao país natal empregou-se na Fazenda Nacional tendo vivido em diversas localidades angolanas: Novo Redondo (Sumbe), Ndalatando, Benguela e Bié, para além de Luanda, naturalmente. Da observação dos usos e costumes do povo angolano foi coligindo todos os factos e pormenores que viriam a ser ricamente descritos nas suas obras. O livro que vos trago é disso exemplo: “UANGA” (feitiço em kimbundu), é um romance que relata os amores de Joaquim e Catarina, habitantes de musseque na Luanda de 1882. Entre eles se intromete o ambaquista António Sebastião que, despeitado, recorre ao feitiço, ao uanga, para terminar com o amor partilhado pelos dois jovens. A obra é um repositório riquíssimo do quotidiano luandense do século dezanove. Como exemplo extraí os seguintes parágrafos deste notável trabalho: “(…) A massemba(…), este bailado, rico de fogosidade e elegância, proveio do caduque, dança de Ambaca. Como afinidade persistiu a característica fundamental – a semba ou umbigada. O caduque executava-se ao ar livre, sob a toada de ngoma, dicanza e uma lata, vibrada com duas baquetas grosseiras. Com o aparecimento da harmónica, nasceu então a massemba: substituiu-se o tambor e a lata por aquele instrumento, pela sala se trocou o ambiente campestre.” “(…) O ambaquista (…), pela superioridade intelectual, que o impõe à consideração de seus irmãos de raça, é preferido pelos sobas para o cargo de conselheiro. E então ele, sempre munido de papel, caneta e tinta (antigamente supridos com folha seca de bananeiras, pedaço aguçado de madeira e infusão de folhas de tomateiro), redige as petições às autoridades superiores, no que é useiro e vezeiro. Para melhor se definir a astúcia de que é dotado, basta dizer-se que, certa vez, desejando um grupo de ambaquistas endereçar uma representação ao chefe da Colónia contra determinada autoridade, assinaram-na em círculo, isto para evitar que a responsabilidade recaísse no primeiro!!!” Óscar Ribas cegou por completo aos 36 anos de idade. Contudo, nunca deixou de “escrever” os seus livros, fazendo-o através do punho de um irmão a quem ditava o que o conhecimento e a inspiração lhe sugeriam. É detentor dos seguintes títulos honoríficos: Membro Titular da Sociedade Brasileira de Folk-Lore (Natal, Rio Grande do Norte, Brasil – 1954) Oficial da Ordem do Infante (1962) Medalha Gonçalves Dias da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro (1968) Diploma de Mérito da Secretaria de Estado da Cultura de Angola (1989) Medalha de Mérito Municipal da C. M. Cascais (1995) Diploma de Investigador Convidado da Universidade Moderna – Lisboa (1996) Bibliografia: “Nuvens Que Passam” (1927) – novela “O Resgate Duma Falta” (1929) – novela “Flores e Espinhos” (1948) – lirismo, ensaios e contos “Uanga” (1951) – romance – Menção Honrosa da Agência-Geral do Ultramar “Ecos da Minha Terra” (1952) – dramas angolanos– Prémio Margaret Wrong do International Committee of Christian Literature for Africa “Ilundu” (1959) – espíritos e ritos angolanos– Prémio de Etnografia do Instituto de Angola “Misoso - I, II e III” (1961, 1962 e 1964) – literatura tradicional angolana – Prémio Monsenhor Alves da Cunha da Associação dos Antigos Estudantes de Coimbra em Angola “Alimentação Regional Angolana” – 6ª edição (1990) “Izomba” (1965) – associativismo e recreio “Sunguilando” (1967) – contos tradicionais angolanos “Kilandukilu” (1973) – contos e instantâneos “Cultuando as Musas” (1993) – poesias “Dicionário de Regionalismos Angolanos” (1997) “Temas da Vida Angolana e Suas Incidências” (2002) - ensaios

Angola: Centenário do nascimento do escritor Óscar Ribas (1909-2004)

Comemoração do centenário do nascimento do escritor Óscar Ribas (1909-2004) O presidente da Assembleia Nacional, Fernando da Piedade Dias dos Santos, considerou, ontem, o escritor Óscar Ribas um dos “mais insignes investigadores angolanos, que soube resgatar, valorizar e promover, através das letras, muito do imaginário nacional e das tradições orais”. Fernando da Piedade Dias dos Santos, que falava na abertura da Conferência Internacional sobre a vida e obra de Óscar Ribas, qualificou o autor de Missosso, Uanga e Ilundo, entre outras obras, um “homem notável” pelo “relevante contributo ao conhecimento, divulgação e valorização da realidade nacional”. O Ministério da Cultura, ao celebrar o centenário do nascimento de Óscar Ribas, frisou, “procura promover o interesse no estudo e no aprofundamento” da cultura angolana. “Esta conferência pode constituir-se num elemento de dinamização da investigação científica no domínio das letras, das ciências sociais e humanas do país”, disse o líder do Parlamento, acrescentando que, “apesar dos progressos alcançados no domínio da ciência, da técnica e da expansão do ensino, a todos os níveis”, o “país ainda está marcado fortemente pela tradição oral”. Referiu que a reflexão iniciada, ontem, com a conferência é oportuna, por a sociedade, em nome das tradições culturais, assistir a “fenómenos que levam à desagregação da família e, muitas vezes, a fins trágicos, como acontece com crianças acusadas de feitiçaria”. Fernando da Piedade Dias dos Santos manifestou a esperança de a conferência resultar num “amplo movimento de recolha, estudo, valorização e divulgação das tradições”e que o evento sirva de incentivo para a elaboração de teses, dissertações e trabalhos de fim de curso sobre a cultura, literatura e autores angolanos. “Devemos ter a capacidade de assumir aquelas tradições que podem propiciar o desenvolvimento e relegar para o passado aquelas que obstaculizam ou passam a ser susceptíveis de gerar perturbações e conflitos sociais”, disse, acrescentando que as “tradições devem ser estudadas, valorizadas e divulgadas de forma a fortalecer o país”. O presidente da Assembleia Nacional afirmou, igualmente, que a tradição oral “ocupa um lugar crucial e determinante do agir social” e que a cultura e a tradição oral “devem ser levadas em conta quando se perspectiva o desenvolvimento sustentável do país”.
Óscar Bento Ribas nasceu a 17 de Agosto de 1909, em Luanda, e faleceu no dia 19 de Junho de 2004, em Cascais, Portugal. Autor de várias obras literárias, o seu trabalho foi várias vezes reconhecido no país e no estrangeiro. Possuía dezenas de distinções, entre as quais a insígnia de Membro Honorário da Associação de Intercâmbio Cultural (Mato Grosso – Brasil), de Sócio Honorário do Centro dos Portugueses do Ultramar (Rio de Janeiro – Brasil) e de Oficial da Ordem do Infante D. Henrique.
Membros do Governo, deputados, entidades eclesiásticas, corpo diplomático, escritores e estudantes participam na conferência, que termina amanhã. Jornal de Angola, 18 de Agosto de 2009