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12 de maio de 2018

Moçambique: Mia Couto ataca a Frelimo em Pleno Encontro dos Camaradas



Mia Couto diz que partido no poder aborda alguns temas de forma superficial por isso os problemas nunca são resolvidos

Mia Couto esteve igual a si mesmo. Falou de peito aberto perante os “camaradas”. Diz que o partido no poder aborda alguns temas de forma superficial, por isso, os problemas nunca são resolvidos. Aponta como exemplo a distribuição da terra, que se diz ser propriedade do Estado e que não deve estar à venda, mas que a realidade mostra o contrário. Para o escritor, a terra é, sim, vendida no país e o partido no poder não deve tapar a vista diante deste facto. “Aqui é preciso não só corrigir, como também repensar a relação que o partido Frelimo tem com o fenómeno da urbanidade, da modernidade. Há dificuldades de lidar com essa complexidade. E essa dificuldade está bem patente, porque a Frelimo já perdeu três das quatro maiores cidades do país”, lembrou Couto, alertando que o partido no poder não deve tratar as pessoas apenas como eleitores, mas como cidadãos.

Mia Couto: "Paz em Moçambique deveria ser mais debatida"




O escritor moçambicano Mia Couto defende um debate mais alargado sobre a paz, não só entre os políticos mas também na sociedade civil. Em entrevista à DW África, fala ainda sobre os escândalos de corrupção no país.

Os moçambicanos vivem ainda uma paz com prazo de validade. O Governo moçambicano e o maior partido da oposição, a Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO), acordaram em cessar as hostilidades até 4 de maio. Esta é a terceira trégua consecutiva, algo que alimenta as esperanças dos moçambicanos numa paz definitiva.

Durante a Feira do Livro de Leipzig, que terminou a 26 de março na Alemanha, a DW África falou com o escritor Mia Couto sobre a situação política, o combate à corrupção e a falta de transparência em Moçambique.

Mia Couto: Moçambicanos estão a pagar preço "desumano" por conflito



O que é preciso fazer para pôr fim ao conflito entre a RENAMO e o Governo da FRELIMO? O escritor moçambicano Mia Couto considera que as duas partes têm de fazer cedências para chegar a um entendimento, em nome do povo.

"O ambiente em Moçambique padece de uma certa doença esquizofrénica", afirma o autor em entrevista à DW África. "A RENAMO está representada no Parlamento, tem colocado questões às vezes muito pertinentes em relação à construção de soluções ou alternativas para a gestão do país. Agora, não se pode aceitar em nenhum lado do mundo que um partido discuta coisas no Parlamento e depois fora dele usa armas para combater o Governo", defende.

Tal como todos os moçambicanos, Mia Couto não deseja viver os horrores de uma nova guerra civil em Moçambique. Por isso, recomenda que o Governo e a Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO) façam cedências para chegar a um acordo, de modo a pôr fim às hostilidades.

Opinião – Os pecados de Mia Couto



Anda por aí a solta uma verborreia canina contra o Mia Couto. Foi parida na geringonça da Renamo. O Mia anda a cometer pecados e devia se expiar extenuamente. Ele não aproveitou a semana santa para essa empreitada porque decidiu fazer uma ponte… entre a escrita e a sua paixão pela biologia.

O Mia é um traidor. Primeiro porque nasceu branco. Não devia. Depois, por ter um irmão chamado Fernando Amado Couto que, como se sabe, tem uma aliança empresarial com o general Chipande, que hoje está no centro do poder em Moçambique. Esse laço de sangue é uma fatalidade. O Mia devia se desunir do Amado Couto.

O grande pecado foi ele ter criticado essa propensão da Renamo para a chantagem política. Que é recorrente desde as eleições de 1999, quando, na sequência delas, a Frelimo começou a acarinhar financeiramente o líder da Renamo para amainar as suas tentações disruptivas. Tal como o Mia, são muitos os moçambicanos que discordam da natureza eternamente bélica da luta politica da Renamo. Por isso, o escritor que mais exporta a cultura moçambicana está a ser vexado, vilipendiado num chorrilho de insultos por ter usado a sua liberdade de expressão.

Moçambique vive "uma colonização mental"- Mia Couto



Maputo, 10 jun (Lusa) - O escritor moçambicano Mia Couto defende que, quarenta anos depois da independência, Moçambique vive uma "colonização mental", considerando urgentes e necessárias ideias que respeitam a realidade e a diversidade cultural do país.

"Nós ainda somos muito colonizados mentalmente e olhamos para a Europa como ponto de referência. Estamos sempre a pensar no nosso comportamento em função do outro", disse em entrevista à Lusa Mia Couto, por ocasião das comemorações dos 40 anos da independência do país.

De acordo com escritor moçambicano, são frequentes em Moçambique discursos de emancipação económica e política, mas, na verdade, os moçambicanos ainda precisam libertar-se dentro do seu próprio pensamento.

"Fala-se muito na emancipação, na libertação económica e política, mas o que é realmente urgente e necessário é criarmos um pensamento que seja fundado na realidade moçambicana, que é diversa", declarou Mia Couto.

Mia Couto, o canto magnético de Moçambique (por Sébastien Lapaque)



Testemunha engajada da independência de Moçambique, em 1975, e da guerra civil que se seguiu a ela, o grande escritor Mia Couto apropria-se do português para reinventá-lo. Como se o trabalho com a língua lhe permitisse oferecer aos seus concidadãos uma renovação do mundoSébastien Lapaque

Branco e moçambicano, Mia Couto, nascido em 5 de julho de 1955 em Beira, na margem do Oceano Índico, é biólogo de profissão e “escritor nas horas vagas”. Quando se evoca um escritor africano, imaginamos geralmente que este compõe suas obras em inglês, como o nigeriano Wole Soyinka e a sul-africana Nadine Gordimer, em francês, como o marfinense Ahmadou Kourouma, ou ainda em árabe, como o egípcio Alaa Al-Aswany…

21 de julho de 2017

Biografia de Carlos Cardoso (Cristóvão Araújo )



Esta segunda-feira, dia 22 de Novembro, assinala-se o 10 º aniversário da morte do jornalista moçambicano Carlos Cardoso, assassinado ao início da noite desse dia na Avenida Mártires da Machava quando o carro em que seguia foi alvejado por vários tiros. Na altura, Cardoso dirigia-se a casa depois de mais uma jornada de trabalho no ‘Metical’, o periódico onde era editor.

Carlos Cardoso nasceu na Beira no ano de 1951. Estudou primeiro em Moçambique e depois a nível secundário e universitário na África do Sul, na universidade de Witwatersrand, onde foi expulso e deportado para Portugal pelas suas posições anti-apartheid. 

Após a independência de Moçambique, em 1975, ao contrário da família e da grande maioria dos elementos da comunidade branca, Cardoso resolve ficar e engaja-se profundamente nos ideais da Frelimo, revendo-se sobretudo nas posições do primeiro presidente Samora Machel. Em 1980, é nomeado editor da AIM (Agência de Informação de Moçambique). Anos depois, torna-se conselheiro de imprensa de Samora Machel e prevê que algo de muito grave está para se passar com o presidente, sendo um dos que desaconselha a viagem do presidente para a viagem fatídica, em Outubro de 1986. 

"Nus" (Carlos Cardoso)



            ...por tudo isto, as pessoas que registam devem merecer pelo menos o nosso apreço. São elas que projectam, para lá das fronteiras etárias e sociais, a trajectória que hoje traçamos no éter. Deixá-las registar, bem ou mal, até mesmo os mal - intencionados, que acabam por não ser mais do que o registo de si próprios.

            Esconder o quê? Andamos nus. E quanto mais nos desnudarmos, mais as gerações vindouras saberão, em silêncio, respeitar a intimidade com que nos demos, entre nós e à Natureza.

            Nada se esconde por muito tempo. Nada. Os reis de outrora, tão convencidos que estavam da sua altivez, dos seus adornos de poder, da sua distância em relação aos humildes, são hoje examinados por historiadores, por jornalistas, por «homens comuns», tal como os ratos são examinados num laboratório.

23 de setembro de 2016

O "jet-set" moçambicano (por Mia Couto)



Já vimos que, em Moçambique, não é preciso ser rico. O essencial é parecer rico. Entre parecer e ser vai menos que um passo, a diferença entre um tropeço e uma trapaça. No nosso caso, a aparência é que faz a essência. Daí que a empresa comece pela fachada, o empresário de sucesso comece pelo sucesso da sua viatura, a felicidade do casamento se faça pela dimensão da festa. A ocasião, diz-se, é que faz o negócio. E é aqui que entra o cenário dos ricos e candidatos a ricos: a encenação do nosso "jet-set".

O "jet-set" como todos sabem é algo que ninguém sabe o que é. Mas reúne a gente de luxo, a gente vazia que enche de vazio as colunas sociais.

O jet-set moçambicano está ainda no início. Aqui seguem umas dicas que, durante o próximo ano, ajudarão qualquer pelintra a candidatar-se a um jet-setista. Haja democracia! As sugestões são gratuitas e estão dispostas na forma de um pequeno manual por desordem alfabética:

30 de março de 2015

Ler (José Craveirinha) uma belíssima poesia nossa irmã (Isabel Pires de Lima)



José Craveirinha, poeta moçambicano recentemente falecido, aos 80 anos, é uma das vozes fundadoras da literatura moçambicana. Xigubo(1964) foi o seu primeiro livro, logo apreendido pela PIDE, ao qual se seguiram muitos outros de que se destaca Karingana ua Karingana, Cela 1, Maria. Muito premiado nacional e internacionalmente (prémio Camões em 1991), foi um embaixador da literatura moçambicana no mundo.
 
A sua poesia canta a revolta, a raiva, o amor, a solidariedade e faz a denúncia frontal da injustiça social e racial, como testemunham estes versos do poema "Grito negro":
 
Eu sou carvão.
Tenho que arder
Queimar tudo com o fogo da minha
Combustão.
Sim!
Eu sou o teu carvão, patrão.

Nas Águas do Tempo (Mia Couto)



Meu avô, nesses dias, me levava rio abaixo, enfilado em seu pequeno concho. Ele remava, devagaroso, somente raspando o remo na correnteza. O barquito cabecinhava, onda cá, onda lá, parecendo ir mais sozinho que um tronco desabandonado.
- Mas vocês vão aonde?
Era a aflição de minha mãe. O velho sorria. Os dentes, nele, eram um artigo indefinido. Vovô era dos que se calam por saber e conversam mesmo sem nada falarem...
- Voltamos antes de um agorinha, respondia.
Nem eu sabia o que ele perseguia. Peixe não era. Porque a rede fica amolecendo o assento. Garantido era que, chegada a incerta hora, o dia já crepusculando, ele me segurava a mão e me puxava para a margem. A maneira como me apertava era a de um cego desbengalado. No entanto, era ele quem me conduzia, um passo à frente de mim. Eu me admirava da sua magreza direita, todo ele musculíneo. O avô era um homem em flagrante infância, sempre arrebatado pela novidade de viver.

27 de abril de 2014

Mia Couto, um passeio emocional por Maputo

O escritor moçambicano, biólogo de formação, guia-nos num percurso por Maputo ao sabor da natureza, da história e das suas recordações dos tempos da luta na Frelimo e do "carapau e do repolho".

"Veem estas acácias rubras?", diz Mia Couto ao volante do seu jipe, apontando para as árvores de flores vermelhas que povoam as ruas por toda a cidade. "São a árvore típica de Maputo, mas vieram de Madagáscar. O nome técnico é delonix regia, ou flamboyant. Mas se começo a falar destas coisas que adoro nunca mais me calo... " Corrigimos. Fale por favor, é mesmo essa a ideia. Esta conversa-percurso com Mia por Maputo quer-se emocional, sem guião, feita ao sabor das árvores e das recordações.

Paramos na Avenida Frederich Engels, a rua mais bonita de toda a cidade. Os bancos coloridos voltados para o mar convidam à contemplação, a vista para a baía é deslumbrante. "Aqui desaguam cinco rios. A zona portuguesa estava confluída a uma pequenina faixa de areia ali em baixo, hoje a grande avenida da baixa da cidade era um paliçada militar. Ali começava o território 'dos outros'", conta. "Com a chegada dos boers, o governador português quis fazer de Maputo uma cidade portuária. Fez uma obra monumental, com enormes movimentações de terras, criando esta muralha que ainda existe. Este movimento deu origem ao que chamavam a Nova Buenos Aires, as pessoas vinham encontrar-se com os novos ares que havia na baixa. Ali ficou, até hoje, o centro de gravidade da cidade".

Seguimos viagem para o Jardim dos Namorados, uma zona com lugar de destaque no coração de Mia Couto. Não por razões de amor, mas pela memória da dedicação a uma causa. Ali era ponto de encontro dos casais apaixonados, e onde Mia vinha fazer os encontros secretos do movimento estudantil ao qual pertencia, com ligações à Frelimo. "Fingíamos que éramos mais uns. Como isto é feito em socalcos por ali abaixo, se houvesse algum problema conseguíamos entrar por um lado e sair no outro. A célula secreta a que eu pertencia reunia no jardim, foram os melhores tempos da minha vida. Tinha que fingir que namorava com várias meninas diferentes, vejam a sorte!", graceja. Foi aqui que conheceu Patrícia, que viria mais tarde a ser a sua segunda mulher.

Os pais, portugueses emigrados, viviam na Beira, que era do ponto de vista político e social uma cidade muito diferente de Maputo. "Não era preciso explicar que havia uma coisa chamada subjugação colonial. O meu pai já tinha uma posição muito crítica em relação ao regime, ele saiu de Portugal também já por questões políticas. Era fácil, sem que ninguém fizesse alguma catequização, perceber o que se passava. Era tão gritante a tensão, que acabávamos sem querer por tomar partido pró-moçambicano. Foi uma coisa que aconteceu naturalmente para mim e para os meus irmãos, a vida decidiu por nós." Quando veio para a universidade de Maputo, em 1972, sempre soube que não vinha propriamente estudar. Vinha fazer oposição. "Escolhi o curso de Biologia no catálogo 'O que é que não serve absolutamente para nada?' Então é este! Para mim não fazia nenhum sentido vir fazer a tropa", partilha. Pela Frelimo e pela independência nunca pôde pegar em armas por ser branco. "Naquela altura eu não sabia disso, estava convicto de que vinha lutar."

Continuamos o percurso pelo jardim, e a atenção de Mia foca-se num canhoeiro, a árvore sagrada, onde os moçambicanos depositam as cinzas dos seus antepassados. Nos seus livros, é permanente a relação com os mortos. "Para se perceber África e estas pessoas é preciso perceber essa espiritualidade. Os mortos em África não só não morrem e continuam presentes, como comandam. Determinam. E se não tivermos uma relação de harmonia com eles a vida não vai correr bem", explica. Só se pertence verdadeiramente ao lugar onde estão os seus mortos, disse um dia. "Eu tenho de inventar os meus mortos aqui, porque os meus verdadeiros mortos estão em Portugal. O meu pai morreu há poucos meses e quis ser enterrado lá".

Mas Mia, voltemos à conversa dos tempos da Frelimo. Que sonho era esse? "Era uma causa que eu hoje olho à distância, politicamente já percebi que nos enganámos todos. Não por causa da intenção de fazer um mundo melhor, mas por causa da concretização. Tínhamos um olhar muito ingénuo. Felizmente o mundo é muito mais complexo e cheio de variáveis que nós não dominamos. A ideia de, numa geração, criar uma sociedade nova era algo muito bonito mas desastroso na concretização." Mas foi essa espécie de sentimento épico que lhe proporcionou uma adolescência feliz e preenchida. "Entregámo-nos a uma coisa que era maior do que nós mesmos, era uma coisa generosa. Vejo, nos meus três filhos, que hoje é tudo tão diferente. Faltam-lhes as grandes narrativas, a política que fascina. Hoje a política foi apropriada por interesses tão mesquinhos e tão privados, tão conspurcada pelo oportunismo, que perdeu o brilho."

"Inventa qualquer merda!"

É hora de seguir viagem. Entramos no carro em direção ao Museu de História Natural. E Mia recorda-se de uma história divertida. "Fui uma vez a Paris numa conferência, e precisei de um tradutor, um brasileiro, pianista, muito formal de fato e gravata. Era uma assembleia enorme de mais 400 pessoas, uma coisa séria. E o francês faz-me uma pergunta que demora 10 minutos. Sobre esta coisa da globalização versus não sei o quê, dos nacionalismos e blá blá blá, e eu com o meu francês peço para repetir por favor porque não tinha percebido bem. O tipo repete e demora mais 20 minutos. O brasileiro, sentado numa cadeira pequenina ao meu lado, falando-me ao ouvido para todos pensarem que estava a traduzir, diz-me: 'Não entendi porra nenhuma! Inventa qualquer merda!'. Aquilo ficou como um lema para a minha vida, eu invento qualquer merda!" Gargalhada geral no carro.

Mas Mia, há aí qualquer coisa de português nessa noção muito lusa do 'desenrasca'. É um moçambicano convicto, o que há afinal em si da alma lusitana? "Tenho mescladas em mim várias coisas que são portuguesas, e eu não fujo das minhas origens. Há uma certa nostalgia, uma certa necessidade de ter saudade de coisa nenhuma." E sente que a sua pátria é a língua portuguesa, como dizia Pessoa? "O que eu acho mais bonito na língua é que facilmente deixa de ser portuguesa e facilmente passa a ser misturada, mestiça. Eu vejo a língua como uma coisa viva, em evolução. O acordo ortográfico foi como se não tivesse existido. Irritaram-me as razões que se invocaram, como se fosse uma coisa imperiosa e que daí nascesse algo mais próximo entre nós, portugueses, africanos e brasileiros. Isso é inventado, é artificial, não é por aí. Entristece-me ver a língua como um investimento político e económico."

As conversas são como os cajus, e vão parar ao futuro de Moçambique. "Muitas decisões que são tomadas hoje apenas servem interesses de grupos. Mas não tenho muita esperança que possa ser de outra maneira. A história mostra que foi assim que, ao longo dos tempos, foram criadas as burguesias, o capital nacional, etc. Se houver estabilidade política e social, este país vai crescer. E vai ser, no futuro, um país como os outros todos. Os meus ideais de juventude tiveram de ser ajustados à realidade e às dinâmicas de mudança do mundo. A pior das ditaduras é a da realidade, a do possível. Tive de engolir isto. Não quer dizer que eu não seja feliz a construir este Moçambique, é o Moçambique possível."

Passamos no antigo edifício da câmara, onde esteve a gestão da cidade colonial. Circundamos a estátua de Samora, que substituiu a de Mouzinho de Albuquerque a cavalo. E Mia recorda-se dos "tempos do carapau e do repolho", em que corria a cidade em busca de comida durante a guerra civil. Foi dos poucos brancos lusodescendentes que cá ficaram. No tempo das "filas das pedras", em que se marcavam os lugares para a espera com uma cesta com uma pedra lá dentro, na maior parte das vezes nem se sabia o que estava para chegar. "Parece que vai haver peixe, e ali ficávamos...". E os lugares eram respeitados. "Hoje olho para trás e pergunto-me o que é que se passava em mim para nem sequer levantar a hipótese de sair. Eu tinha filhos, e saía de manhã com a mesma preocupação que tinha toda a população: voltar ao fim do dia com alguma coisa para eles comerem. Mas era muito curioso. Quando se diz que a miséria moral nasce da miséria material, não acho que seja verdade. Quando se apanhava qualquer coisa, era tudo distribuído pelos familiares. Chamávamos os vizinhos, havia uma genuína partilha do pouco que existia."

Salvo pela poesia

E foram tantos os momentos de aventura nos tempos de oposição. Como aquele em que se ofereceu para ser membro da Frelimo, e foi aceite numa cerimónia secreta. "Fui para uma casa à noite, nem pude ver qual era o caminho para não saber onde ficava. Quando cheguei lá, os candidatos tinham de contar uma história que era a 'narração do sofrimento'. Cada um tinha de mostrar quanto sofreu para merecer a honra de estar ali. E todos tinham razões profundas, e eu, que fui o último a falar, não tinha nada. Era um privilegiado, uma pessoa feliz. Estava aflito, comecei a pensar 'tenho de inventar um sofrimento instantâneo'. Mas quando me pus em frente da assembleia, o fulano reconheceu-me e perguntou 'você é aquele que publica aqueles poemas no jornal! Ah, você é poeta! Precisamos de vocês!' E não tive de contar história nenhuma. A poesia afinal tinha algum serviço. A mim salvou-me!"

Nunca teve medo, sendo um branco lusodescendente, nem nunca sentiu racismo. "Todos conheciam a minha ligação ao partido. Mas tive medo, porque esta guerra era absurda, morria-se sem razão aparente. Uma vez saí da cidade sozinho, para fazer uma inspeção dos estragos de um petroleiro que tinha naufragado, e quando voltei senti um silêncio absoluto que me preocupou. O jipe enterrou-se na margem do rio, e passou um fulano que me disse: 'Você saia daqui imediatamente, isto está um caos, a Renamo está à porta'. Deixei o jipe, veio um amigo dele com uma canoa que me levou, e aí percebi que vivíamos uma guerra aqui muito próxima e que às vezes nos esquecíamos dela. Uma colega minha foi assassinada a cinco quilómetros da cidade."

Chegámos ao museu de História Natural, um edifício inspirado no estilo manuelino. Dois animais embalsamados guardam a porta. Ao fundo, impõe-se colorido um painel de Malangatana para onde nos dirigimos. Mia conta histórias de outros tempos com o pintor. "Ele era um 'homem show'. Além de pintar, cantava e dançava, usava a barriga como tambor. Uma vez estive com ele uma vez numa conferência no estrangeiro, e no último dia veio dizer-me que o programa tinha sido alterado para se incluírem cantares moçambicanos na sessão de encerramento. E eu perguntei 'olha que giro, quem é o grupo que vem cantar?'. Ele olhou para mim e disse 'o grupo? Então, sou eu e tu!'. Fiquei aflito, tentei explicar-lhe que não cantava. Mas para ele não era possível uma pessoa não cantar. Toda a gente canta!", conta. Para Mia, Malangatana foi um exemplo de alguém que se entregou de alma e coração a uma causa, sem nunca ter feito uma declaração de amargura pelos momentos difíceis que viveu.

Uma planta no jardim chama a atenção de Mia. É uma cica. "Já viu isto? São células sexuais nuas e reproduzem-se só pelo vento. Foi feita no momento em que a natureza ainda não sabia desenhar flores. Inventar a cores, os formatos, os desenhos foi um trabalhão enorme e veio muito depois."

Entramos no museu, uma mostra estática, com uma coleção de animais africanos embalsamados. Elefantes, impalas, leões pousam numa savana improvisada. Mas Mia destaca a coleção de dezenas de fetos de elefante embalsamados, nos vários estágios de gestação. "É um exemplo da crueldade em nome da ciência. Mataram milhares de fêmeas para apanhar os 20 meses de gravidez...".

Seguimos para a zona dos artefactos tribais, tanto macuas, o grupo étnico mais numeroso do país, como macondes. "Algumas destas culturas são do interior, que só muito recentemente tiveram contacto com o litoral. O que deu azo a algumas expressões muito poéticas. Pescar eles dizem caçar peixe, e barco a vapor chamam comboio da água", explica Mia.

Mostra um peixe de dois metros, o selecante, uma espécie em vias de extinção típica do norte, que vive em águas muito profundas. "Antigamente estes povos imaginava-se que existia um ser como este que faria a transição entre o mar e a terra, com barbatanas adaptadas para a locomoção. Imaginaram com tanta intensidade que o desenharam, e era quase isto que está aqui. Foi descoberto pela primeira vez na década de 50, e só agora é que se conseguiu provar que existia mesmo. É a imaginação a anteceder, a superar a natureza."

Saímos para a rua e Mia mostra uma árvore de madeira preciosa. Faz-lhe festas no tronco suave. "É lindíssima, não é? Gosto muito desta árvore. Quando vou para fora e não sei os nomes das árvores, sinto-me totalmente perdido. Elas não falam comigo." Encontra um jardineiro, um velho conhecido. Cumprimentam-se com um ritual de apertos de mão, "à boa maneira africana". "Por aqui os homens podem falar mão na mão, andar abraçados. Aqui o toque é normal, faz parte da comunicação." E é, "à boa maneira africana", com um abraço, que nos despedimos de Mia.
Fonte: Expresso, 29 de Abril de 2013

28 de dezembro de 2013

Nas Águas do Tempo (Mia Couto)



Meu avô, nesses dias, me levava rio abaixo, enfilado em seu pequeno concho. Ele remava, devagaroso, somente raspando o remo na correnteza. O barquito cabecinhava, onda cá, onda lá, parecendo ir mais sozinho que um tronco desabandonado.

- Mas vocês vão aonde?

Era a aflição de minha mãe. O velho sorria. Os dentes, nele, eram um artigo indefinido. Vovô era dos que se calam por saber e conversam mesmo sem nada falarem..

- Voltamos antes de um agorinha, respondia.

Nem eu sabia o que ele perseguia. Peixe não era. Porque a rede fica amolecendo o assento. Garantido era que, chegada a incerta hora, o dia já crepusculando, ele me segurava a mão e me puxava para a margem. A maneira como me apertava era a de um cego desbengalado. No entanto, era ele quem me conduzia, um passo à frente de mim. Eu me admirava da sua magreza direita, todo ele musculíneo. O avô era um homem em flagrante infância, sempre arrebatado pela novidade de viver.

Entrávamos no barquinho, nossos pões pareciam bater na barriga de um tambor. A canoa solavanqueava, ensonada. Antes de partir, o velho se debruçava sobre um dos lados e recolhia uma aguinha com sua mão em concha. E eu lhe imitava.

- Sempre em favor da água, nunca esqueça!

Era a sua advertência. Tirar água no sentido contrário ao da corrente pode trazer desgraça. Não se pode contrariar os espíritos que fluem.

3 de novembro de 2013

Mia Couto distinguido com prémio internacional de literatura Neustadt


O escritor moçambicano Mia Couto foi distinguido com o prémio internacional de literatura Neustadt, atribuído de dois em dois anos pela Universidade de Oklahoma, no valor de 50.000 dólares, disse hoje à Lusa fonte da sua editora.

O galardão é entregue desde 1970 e já distinguiu, entre outros, o brasileiro João Cabral de Melo Neto, Álvaro Mutis, Octávio Paz e Giuseppe Ungaretti.

Mia Couto é o pseudónimo de António Emílio Leite Couto, de 58 anos, autor que já recebeu os prémios Camões, Eduardo Lourenço e o da União Latina de Literaturas Românicas.

Além do cheque, o autor vai receber uma reprodução em prata de uma pena de águia.

"A Confissão da Leoa", editado o ano passado é o seu mais recente livro.


NL // PMC

Lusa/Fim, 02 de Novembro de 2013

Ler (José Craveirinha) uma belíssima poesia nossa irmã (Por Isabel Pires de Lima)


José Craveirinha, poeta moçambicano recentemente falecido, aos 80 anos, é uma das vozes fundadoras da literatura moçambicana. Xigubo(1964) foi o seu primeiro livro, logo apreendido pela PIDE, ao qual se seguiram muitos outros de que se destaca Karingana ua Karingana, Cela 1, Maria. Muito premiado nacional e internacionalmente (prémio Camões em 1991), foi um embaixador da literatura moçambicana no mundo.

A sua poesia canta a revolta, a raiva, o amor, a solidariedade e faz a denúncia frontal da injustiça social e racial, como testemunham estes versos do poema "Grito negro":

Eu sou carvão.

Tenho que arder

Queimar tudo com o fogo da minha

Combustão.

Sim!

Eu sou o teu carvão, patrão.

E canta um ideal de mestiçagem harmoniosa, que de resto o marca biologicamente, filho que foi de pai algarvio branco e de mãe ronga negra, mestiçagem cultural espelhada no poema, "A fraternidade das palavras", que termina assim :
E eis que num espasmo

de harmonia como todas as coisas

palavras rongas e algarvias ganguissam

neste satanhoco papel

e recombinam em poema.

Craveirinha foi um apaixonado pela língua portuguesa que cultivou com exaustivo trabalho e que aprendeu a amar pelos lábios desse pai algarvio, colono pobre, cuja voz grave relembra "recitando Guerra Junqueiro ou Antero", a quem ele dedicou um extraordinário poema intitulado "Ao meu belo pai ex-emigrante", no qual garante:

(...) não esqueço

meu antigo português puro

que me geraste no ventre de uma tombasana

eu mais um novo moçambicano

semiclaro para não ser igual a um branco

qualquer

e seminegro para jamais renegar

um glóbulo que seja dos Zambezes do

meu sangue.

Perdemos, moçambicanos e portugueses, um grande poeta de língua portuguesa. Sugiro a leitura da sua poesia, que está publicada entre nós pela Editorial Caminho, e garanto que terão a confirmação dos seguintes versos seus:
Amigos:

as palavras mesmo estranhas

se têm música verdadeira

só precisam de quem as toque

ao mesmo ritmo para serem

irmãs.

Descobrirão ou redescobrirão, os que já o leram, uma belíssima poesia nossa irmã.

Acção Socialista - 9/4/2003

7 de julho de 2013

Moçambique felicita Mia Couto



Nascido a 05 de Julho de 1955, o escritor moçambicano Mia Couto completa hoje mais um ano de vida. Natural da Beira, o escritor é também biólogo de profissão.

Este ano foi outorgado com o Prêmio Camões, que lhe foi entregue em 10 de Junho no Palácio de Queluz pelas mãos do presidente de Portugal Cavaco Silva e da presidente do Brasil, Dilma Rousseff.

Sapo MZ

28 de maio de 2013

Mia Couto gostaria de usar Prémio Camões a favor de jovens escritores moçambicanos



O escritor Mia Couto disse hoje que gostaria de usar o valor do Prémio Camões para desenvolver um projeto que dê "espaço aos jovens escritores moçambicanos", algo que, considera, Moçambique não dispõe nesta altura.

"Gostaríamos (o escritor e os seus irmãos) muito de poder intervir (...) em áreas junto do livro, dos jovens escritores que não têm espaço", disse Mia Couto, quando falava, em Maputo, numa conferência de imprensa a propósito do Prémio Camões, que lhe foi atribuído ontem.

Segundo Mia Couto, "todas as semanas", algum jovem escritor lhe bate à porta com um "manuscrito para mostrar", o que lhe causa "muita impressão", pois revela "uma grande solidão", uma vez que "essas pessoas" não têm com quem partilhar a "preocupação" do valor da obra.

"Não existe instituição em Moçambique que possa receber esta gente, que possa organizar um momento que é essencial, que é alguém escutar, olhar aquele texto preparado pelo jovem e poder ver se ali há uma potencialidade de alguém que pode ser amanhã um escritor", disse.

Mia Couto distinguido com o Prémio Camões 2013



O escritor moçambicano, Mia Couto, é o 25º vencedor do prémio Camões.

Prémio Camões foi hoje atribuído a Mia Couto, disse à Lusa a Secretaria de Estado da Cultura.

Mia Couto é o vencedor da 25.ª edição do prémio, que distingue um autor da literatura portuguesa.

O anúncio do vencedor foi feito hoje, no Rio de Janeiro, onde o júri se reuniu.

O júri integrou os escritores José Eduardo Agualusa e João Paulo Borges Coelho, o jornalista José Carlos Vasconcelos, a catedrática Clara Crabbé Rocha, o crítico Alcir Pécora e o embaixador e membro da Academia Brasileira de Letras Alberto da Costa e Silva.

A reunião decorreu no Palácio Gustavo Capanema, sede do Centro Internacional do Livro, Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.

Prémio criado em 1988

O Prémio Camões foi criado em 1988 por Portugal e pelo Brasil para distinguir um autor de língua portuguesa que, "pelo valor intrínseco da sua obra, tenha contribuído para o enriquecimento do património literário e cultural da língua comum".

Em 2012 foi atribuído ao escritor brasileiro Dalton Trevisan e no ano anterior ao escritor português Manuel António Pina.

Ferreira Gullar (2010), Arménio Vieira (2009), António Lobo Antunes (2007), Sophia de Mello Breyner Andresen (1999), Pepetela (1997), José Saramago (1995) e Jorge Amado (1994) também já foram distinguidos com o Prémio Camões que, na primeira edição, reconheceu a obra de Miguel Torga.

Em 2006, o escritor angolano José Luandino Vieira recusou o prémio.

5 de março de 2013

Peça de porcelana "Mar Me Quer" inspirada no livro de Mia Couto


Obra de porcelana "Mar Me Quer" de Mia Couto com Roberto Chichorro

Nesta quinta-feira, o Grupo Visabeira inaugurou a nova loja Vista Alegre em Maputo, no Centro Comercial Interfranca. Na ocasião foi lançada a peça de porcelana "Mar Me Quer" inspirada na obra homónima de Mia Couto, resultante da colaboração com o mestre Roberto Chichorro.

Sapo MZ