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5 de março de 2013

A Hipocrisia do Amor ao Povo (Agostinho da Silva)


Estes amam o povo, mas não desejariam, por interesse do próprio amor, que saísse do passo em que se encontra; deleitam-se com a ingenuidade da arte popular, com o imperfeito pensamento, as superstições e as lendas; vêem-se generosos e sensíveis quando se debruçam sobre a classe inferior e traduzem, na linguagem adamada, o que dela julgam perceber; é muito interessante o animal que examinam, mas que não tente o animal libertar-se da sua condição; estragaria todo o quadro, toda a equilibrada posição; em nome da estética e de tudo o resto convém que se mantenha.

Há também os que adoram o povo e combatem por ele mas pouco mais o julgam do que um meio; a meta a atingir é o domínio do mesmo povo por que parecem sacrificar-se; bate-lhes no peito um coração de altos senhores; se vieram parar a este lado da batalha foi porque os acidentes os repeliram das trincheiras opostas ou aqui viram maneira mais segura de satisfazer o vão desejo de mandar; nestes não encontraremos a frase preciosa, a afectada sensibilidade, o retoque literário; preferem o estilo de barricada; mas, como nos outros, é o som do oco tambor retórico o último que se ouve.

Só um grupo reduzido defende o povo e o deseja elevar sem ter por ele nenhuma espécie de paixão; em primeiro lugar, porque logo reprimiriam dentro em si todo o movimento que percebessem nascido de impulsos sentimentais; em segundo lugar, porque tal atitude os impediria de ver as soluções claras e justas que acima de tudo procuram alcançar; e, finalmente, porque lhes é impossível permanecer em êxtase diante do que é culturalmente pobre, artisticamente grosseiro, eivado dos muitos defeitos que trazem consigo a dependência e a miséria em que sempre o têm colocado os que mais o cantam, o admiram e o protegem.

Interessa-nos o povo porque nele se apresenta um feixe de problemas que solicitam a inteligência e a vontade; um problema de justiça económica, um problema de justiça política, um problema de equilíbrio social, um problema de ascensão à cultura, e de ascensão o mais rápida possível da massa enorme até hoje tão abandonada e desprezada; logo que eles se resolvam terminarão cuidados e interesses; como se apaga o cálculo que serviu para revelar um valor; temos por ideal construir e firmar o reino do bem; se houve benefício para o povo, só veio por acréscimo; não é essa, de modo algum, a nossa última tenção.

Agostinho da Silva, in 'Considerações'

22 de outubro de 2012

Moral ruim (António Aleixo)


Acho uma moral ruim

trazer o vulgo enganado:

mandarem fazer assim

e eles fazerem assado.


Sou um dos membros malditos

dessa falsa sociedade

que, baseada nos mitos,

pode roubar à vontade.

1 de setembro de 2012

Uma visão do caos feita por Eça de Queirós em 1872



"Nós estamos num estado comparável apenas à Grécia: a mesma pobreza, a mesma indignidade política, a mesma trapalhada económica, a mesma baixeza de carácter, a mesma decadência de espírito. Nos livros estrangeiros, nas revistas quando se fala num país caótico e que pela sua decadência progressiva, poderá vir a ser riscado do mapa da Europa, citam-se em paralelo, a Grécia e Portugal”.

16 de setembro de 2011

A Pedra (Antonio Pereira)


A PEDRA

O distraído, nela tropeçou,

o bruto a usou como projétil,

o empreendedor, usando-a construiu,

o campônio, cansado da lida,

dela fez assento.

Para os meninos foi brinquedo,

Drummond a poetizou,

Davi matou Golias...

Por fim;

o artista concebeu a mais bela escultura.

Em todos os casos,

a diferença não era a pedra.

Mas o homem.


Autor: Antonio Pereira (Apon)
Este poema foi publicado em 1999 no livro: Essência.

21 de outubro de 2009

José Saramago: "O Deus da Bíblia é vingativo, rigoroso e má pessoa"

José Saramago: "O Deus da Bíblia é vingativo, rigoroso e má pessoa" José Saramago convocou uma conferência de imprensa para falar sobre as polémicas relacionadas com o lançamento do seu novo livro "Caim" e não volta trás com o que defende: "não disse nada que qualquer pessoa não saiba". O Nobel da Literatura esclareceu os jornalistas sobre a afirmação que proferiu sobre a Bíblia, dizendo que tinha "noção que o livro ia agitar as águas", mas "não esperava isto, sinceramente". Saramago voltou a falar sobre a Bíblia e da história de Caim, tema central do novo livro, e questionou: Porque é que Deus aceitou o sacrifício de Abel e não o de Caim? Não há arqueólogo que possa responder a isto.", afirmou. "O Deus da Bíblia não é de fiar. É vingativo, rigoroso e má pessoa", acrescentou. O escritor equiparou esta polémica com o lançamento do livro "Evangelho sobre Jesus Cristo". "Ainda há ódios e anticorpos antigos", afirmou em relação á Igreja. "Ainda nem tinha (livro "Caim") saído do forno e a Igreja já estava a pronunciar-se", acrescentou. Saramago não volta atrás com as palavras e diz que não alimenta polémicas sobre os comentários a "Caim". "Podem dizer o que quiserem, eu tenho a pele dura." O escritor disse também que para o ano será lançado um novo livro e prometeu que será menos polémico do que "Caim", lançado no domingo passado em Penafiel. Sapo PT, 21 de Outubro de 2009