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28 de abril de 2018

15 de Março de 1961 (Helena Matos)



A 15 de Março de 1961, cinco a seis mil portugueses foram assassinados em Angola. Esses mortos nunca estiveram no lugar certo. Antes do 25 de Abril de 1974 eles foram inconvenientes porque, numa primeira fase, atestavam a imprevidência do regime que não acautelara a segurança daquelas pessoas como era sua obrigação, e posteriormente porque a vontade de mostrar que a guerra estava reduzida à Guiné e a algumas zonas de Moçambique levava a que estes mortos fossem esquecidos.

Após o 25 de Abril estes portugueses continuaram a ser omitidos, pois os seus corpos repetidamente violados, empalados e queimados atestavam na brutalidade de que tinham sido vítimas que aquilo a que se chamava movimentos de libertação não tinham nada de libertadores nem de civilização. Antes pelo contrário. E sobretudo porque esses cadáveres de brancos, pretos e mulatos não se coadunavam com o decálogo revolucionário que transformava os fazendeiros brancos em opressores contra os quais se tinham levantado os seus trabalhadores negros.

Chamaram-lhes retornados (Helena Matos)



Foi no último dia de Março, há 40 anos. Nascia o IARN. Os retornados já estavam aí, mas ainda não se chamavam retornados. Muitos vindos de Moçambique, onde contra eles se fizeram as leis mais abjectas

Em 1975 uma palavra entra na actualidade portuguesa: retornados. Há precisamente 40 anos, os colonos, os brancos, os africanistas, os europeus, os ultramarinos, os residentes ou os metropolitanos do Verão de 1974 que entretanto tinham passado a desalojados, regressados, repatriados, fugitivos, deslocados e refugiados, tornam-se por fim retornados.

Mas antes de lhes reconhecerem a existência, os responsáveis políticos e militares discutiram em Lisboa a possibilidade de os proibir de deixar as antigas colónias e acusaram-nos de colonialismo e de reaccionarismo por quererem fugir.

Crónica de Natal (4): 1975, o ano de todos os retornados (Paulo de Almeida Sande)



20 anos depois, na sua casa da Rodrigo da Fonseca, o velho africano de Sumbe pede: “não me falem de Angola, não quero saber”; e contudo, durante anos, frequentou a tertúlia dos angolanos ao Rossio.

A conversa passa-se na varanda de uma vivenda algures na província do Quanza-Sul, numa cidade hoje chamada Sumbe (então Novo Redondo). Diz o militar recém-chegado da metrópole ao cunhado: “tira daqui o teu dinheiro, vende a casa, isto vai rebentar”. Responde o outro: “esta é a terra onde nasci meu caro, os meus filhos são do planalto, os netos crescerão angolanos e os meus ossos cá apodrecerão – só morto saio da minha terra”.

No ano de 1975 ocorreu uma das maiores e mais rápidas transumâncias humanas de que há memória: mais de meio milhão de pessoas deixaram casas e haveres e voltaram a uma terra de que boa parte delas não partira. O êxodo foi também um dos que se fez a maior distância, dos fundos de África à Ocidental praia lusitana.

12 de novembro de 2017

Fim da Longa Guerra e Descolonização (Fernando Madail)


Acordos. Treze anos após Salazar ter ordenado "para Angola, rapidamente e em força", a paz chegava às três frentes de batalha. Mário Soares não pensou nas independências de Cabo Verde, São Tomé, Timor. E distinguiu o acolhimento dado a 800 mil retornados e aos pieds noirs franceses.

"O senhor é que não me dá lições de patriotismo a mim!", gritava Mário Soares a Spínola na véspera da reunião com os dirigentes do PAIGC, em Argel, a 15 de junho de 1974, como revelou Almeida Santos (Quase Memórias, 2.º vol.). Naquela fase, as teses sobre o futuro das colónias ainda provocava choques entre as várias fações que se digladiavam após a Revolução do 25 de Abril. O então ministro dos Negócios Estrangeiros tentava conseguir a paz e a autodeterminação com os movimentos de libertação, mas as declarações de Spínola e dos que pretendiam um processo mais lento ou o caminho do federalismo chocavam com a realidade: a extrema-esquerda tinha lançado a palavra de ordem "nem mais um soldado para as colónias" e, nos teatros de guerra, os militares portugueses já confraternizavam com aqueles que, antes, eram os "turras".

15 de janeiro de 2017

Fim da longa guerra e descolonização (Fernando Madail)



Acordos. Treze anos após Salazar ter ordenado "para Angola, rapidamente e em força", a paz chegava às três frentes de batalha. Mário Soares não pensou nas independências de Cabo Verde, São Tomé, Timor. E distinguiu o acolhimento dado a 800 mil retornados e aos pieds noirs franceses

"O senhor é que não me dá lições de patriotismo a mim!", gritava Mário Soares a Spínola na véspera da reunião com os dirigentes do PAIGC, em Argel, a 15 de junho de 1974, como revelou Almeida Santos (Quase Memórias, 2.º vol.). Naquela fase, as teses sobre o futuro das colónias ainda provocava choques entre as várias fações que se digladiavam após a Revolução do 25 de Abril. O então ministro dos Negócios Estrangeiros tentava conseguir a paz e a autodeterminação com os movimentos de libertação, mas as declarações de Spínola e dos que pretendiam um processo mais lento ou o caminho do federalismo chocavam com a realidade: a extrema-esquerda tinha lançado a palavra de ordem "nem mais um soldado para as colónias" e, nos teatros de guerra, os militares portugueses já confraternizavam com aqueles que, antes, eram os "turras".

6 de novembro de 2016

Quando Spínola quis invadir Portugal com ajuda do Brasil (Manuel Carvalho)


Em vésperas do Verão Quente, António de Spínola está exilado no Brasil e sonha com um regresso à frente de um exército invasor para expulsar os comunistas do poder. Numa reunião secreta com altas patentes do Serviço Nacional de Informações, no Rio de Janeiro, pede ao Brasil ajuda para preparar as suas tropas a tempo da invasão prevista para Dezembro de 1975. Ernesto Geisel, o general que mandava no Brasil, cortou-lhe as asas do sonho. Foi a primeira de uma série de derrotas que acabou com o “escândalo Wallraff”. Memórias de um tempo em que Portugal parecia um filme de James Bond.

25 de abril de 2016

O 25 de Abril de 1974 e a Independência Exemplar do Território Colonial de Moçambique



Quanto «às independências ditas exemplares pelos vendilhões da Pátria Portuguesa, pelos traidores e cobardes do 25 de Abril de 1974», o povo português que vivia na ex-colónia de Moçambique (de todas as raças e crenças), logo a seguir ao 25 de Abril, foi obrigado a entregar as armas que tinham em casa (os que as tinham), mediante a ameaça que JOAQUIM CHISSANO fez através da rádio, que se não as entregassem, imediatamente mandaria chacinar os portugueses pelos marginais.

Mesmo assim, depois de as armas serem entregues, os portugueses foram todos enganados e sem aviso prévio, sem nada o prever, ordenaram a sua perseguição, a sua crucificação, a sua chacina, a sua matança.

O povo português ficou desarmado, indefeso e à disposição das hordas de assassinos, de grupos de maltrapilhos e analfabetos que assolaram a capital, as vilas, as aldeias e as cidades dos arredores, aliás todo o território moçambicano foi invadido por estes criminosos, dizendo que estavam a cumprir ORDENS SUPERIORES recebidas da FRELIMO (Samora Machel, Joaquim Chissano, Marcelino dos Santos) e do GOVERNO DE PORTUGAL (Melo Antunes, Mário Soares, Almeida Santos, Victor Crespo, Otelo de Carvalho, Vasco Gonçalves).

25 de junho de 2015

Chamaram-lhes retornados (Helena Matos)



Foi no último dia de Março, há 40 anos. Nascia o IARN. Os retornados já estavam aí, mas ainda não se chamavam retornados. Muitos vindos de Moçambique, onde contra eles se fizeram as leis mais abjectas

Em 1975 uma palavra entra na actualidade portuguesa: retornados. Há precisamente 40 anos, os colonos, os brancos, os africanistas, os europeus, os ultramarinos, os residentes ou os metropolitanos do Verão de 1974 que entretanto tinham passado a desalojados, regressados, repatriados, fugitivos, deslocados e refugiados, tornam-se por fim retornados.
Mas antes de lhes reconhecerem a existência, os responsáveis políticos e militares discutiram em Lisboa a possibilidade de os proibir de deixar as antigas colónias e acusaram-nos de colonialismo e de reaccionarismo por quererem fugir.

“Os retornados reconstruíram Portugal” (Fernando Dacosta)



Dramaturgo, jornalista, formado em Filologia Românica pela Faculdade de Letras de Lisboa e galardoado com vários prémios, Fernando Dacosta é mais conhecido pelas suas obras sobre o Estado Novo. O DIABO entrevistou-o sobre a vida durante essa época, sobre a republicação da sua obra “Os Retornados Estão a Mudar Portugal” e o seu mais recente livro sobre Natália Correia.
O DIABO – Como surgiu a ideia de escrever sobre os retornados?
Fernando Dacosta – A questão dos retornados surgiu porque eu viajava muito pelo País e comecei a notar que, pelas estradas, havia muitos cafés novos com comida e música africanas e achei interessante. Contei isso ao Prof. Agostinho da Silva, com quem me dava muito bem, e ele disse: “Mas você ainda não percebeu que Portugal vai ser reconstruído pelos retornados”. Foi aí que decidi explorar esse fenómeno. Estava então no semanário “O Jornal”, que era mais de esquerda, e propus fazer essa reportagem. No entanto, o editor responsável, que era ferozmente anti-retornados porque achava que eles eram todos reaccionários, disse-me: “o sr. nem pense que se vai ocupar dessa cambada de fascistas”.

4 Países Libertados Porugal, Guiné/Bissau, Angola, Moçambique

3 de junho de 2015

O choque cultural do "retorno": A vida em Moçambique e a vida em Portugal, uma narrativa na 1ª pessoa



Introdução

Este trabalho centra-se na história verídica do seu autor, narrada na primeira pessoa, e onde se irão encontrar alguns relatos que encontram equivalência em algumas das situações expressas no texto que à frente transcrevo, e que é nota introdutória do livro de Rita Garcia. A narrativa vai incidir sobre a cultura e modos de vida em Lourenço Marques (Moçambique) nos anos pré 25 de Abril de 1974, e posteriormente vai situar-se numa pequena vila do norte de Portugal, de nome Caldas de Vizela, local de onde era oriundo o pai do autor e onde residia grande parte da família deste, sendo também o local para onde o autor foi residir após a saída de Lourenço Marques. A principal intenção deste trabalho é dar a conhecer a cultura da classe média residente em Lourenço Marques nos inícios da década de 70 e que na sua quase totalidade era constituída por pessoas de raça branca, dando algumas notas sobre a construção nacional da identidade neste país. Tenho também como segunda intenção e ambição de desmistificar um pouco o conceito que existe na sociedade portuguesa, e que considero pouco correcto, de que os “retornados” eram “colonialistas exploradores dos povos africanos”, correndo o risco de estar errado, considero ser um conceito formado pela construção duma entidade social nacional pós 25 de Abril em que havia a necessidade extrema de condenar tudo o que estava relacionado com o antigo regime, sendo os “retornados” catalogados como colaboradores desse mesmo regime. Não tenho qualquer intenção de transmitir aqui um discurso ou mensagem politica ou partidária, apenas pretendo transmitir um pouco da cultura onde nasci e dar a conhecer uma realidade que foi de alguma maneira desconhecida pela maioria dos portugueses residentes em Portugal.

Os últimos filhos do Império (São José Almeida)



Chegaram em barcos e aviões num movimento que durou poucos meses. Ficaram conhecidos como os “retornados”. É meio milhão de pessoas que ajudaram a construir a democracia e o Estado social e cuja integração na metrópole é uma história de sucesso que a Revista 2 agora conta.

Meio milhão de portugueses foram integrados na sociedade portuguesa durante o período que vai do Verão de 1974 ao Verão de 1975, fruto da descolonização imposta pelo fim da ditadura do Estado Novo. É um movimento de integração populacional único que trouxe uma massa humana qualificada que contribuiu de forma decisiva para a construção do Estado democrático. Para a história ficaram conhecidos como os “retornados”. Na realidade, são a última geração de portugueses que viveram e cresceram na África colonial portuguesa.

“É um dos momentos mais extraordinários da história portuguesa do século passado, a capacidade de integrar 500 mil pessoas que chegam em poucos meses”, defende o empresário Alexandre Relvas, nascido em Luanda, para quem o movimento de integração dos retornados “correu tão bem que não é suficientemente valorizado, a sociedade portuguesa não valoriza essa capacidade enorme que teve”.

Retornados: 40 anos depois recomeçar do zero



Conheça as histórias de pessoas da região que deixaram as ex-colónias de África depois do 25 de Abril
Retornados: voltar sem nada e recomeçar do zero
África era o sonho e a paixão de muitos portugueses. Durante décadas, deixaram para trás tudo o que conheciam e lançaram-se à aventura, à procura de uma vida melhor nos territórios ultramarinos. Foram essas pessoas que ajudaram as ex-colónias a desenvolver-se, que aí incentivaram a agricultura e o comércio. Até ao dia em que o sonho se esfumou. O 25 de Abril de 1974 pôs fim à Guerra Colonial e abriu portas ao processo de descolonização de territórios como Angola, Moçambique, Guiné, Timor e Cabo-Verde. A instabilidade e a insegurança cresceram e cerca de meio milhão de pessoas optou por fugir para Portugal, entre o Verão de 1974 e o de 1975. A maioria chegava com nada ou quase nada, deixando para trás casas, carros, fazendas, empresas, prédios, roupas e dinheiro. Muitos ainda embarcaram haveres em contentores e caixotes, mas grande parte nunca chegou ou foi saqueada. Cá deparam-se com um país mais atrasado e com uma mentalidade mais fechada.
Encontraram poucos apoios, mas mesmo assim a maioria conseguiu reerguer-se rapidamente. Foram muitos os nomes que lhes chamaram, desde repatriados, refugiados, fugitivos, desalojados, espoliados... O que ficou para a história foi só um: retornados. Esta semana, contamos-lhe algumas histórias de quem perdeu tudo, arregaçou as mangas e recomeçou, quase do zero.

24 de maio de 2015

Uma história de sucesso por contar (São José Almeida)



Chegaram em barcos e aviões num movimento que durou poucos meses. Ficaram conhecidos como os "retornados". É meio milhão de pessoas que ajudaram a construir a democracia e o Estado social e cuja integração na metrópole é uma história de sucesso que a Revista 2 agora conta.

Meio milhão de portugueses foram integrados na sociedade portuguesa durante o período que vai do Verão de 1974 ao Verão de 1975, fruto da descolonização imposta pelo fim da ditadura do Estado Novo. É um movimento de integração populacional único que trouxe uma massa humana qualificada que contribuiu de forma decisiva para a construção do Estado democrático. Para a história ficaram conhecidos como os "retornados". Na realidade, são a última geração de portugueses que viveram e cresceram na África colonial portuguesa.

25 de Abril: Retornados contam história 40 anos depois



40 anos depois, os retornados de África contam o regresso a Portugal depois do 25 de Abril de 1974. A revolução, com o fim da ditadura e a descolonização, provocou um afluxo de centenas de milhares de portugueses ao país, muitos vindos das "colónias". A Lusa foi ouvir quem veio de Angola e Moçambique.

Leston Bandeira: "Aquela era a minha terra"

Leston Bandeira vivia no Lubango (antiga Sá da Bandeira) quando soube que "estavam a acontecer movimentações militares com consequências imprevisíveis" em Portugal.

Aquela "era uma terra pobre, apesar de se cultivar desde a banana à castanha" e de o distrito da Huíla ter "milhares e milhares de cabeças de gado", mas tinha três cinemas, boîtes e o mar a apenas duas centenas de quilómetros. "Vivia-se muito bem". Correcção: "Os brancos viviam muito bem".

25 Abril: Retornados são hoje "assunto da memória", diz sociólogo Rui Pena Pires



Os "retornados" que vieram de África para Portugal, após o 25 de Abril, não formaram "uma identidade coletiva" e são hoje "um assunto da memória", observa o sociólogo Rui Pena Pires.

A seguir à revolução de 1974, cerca de meio milhão de pessoas vieram para Portugal, dois terços de Angola e um terço de Moçambique e das outras ex-colónias, o que equivalia, na altura, a cinco por cento da população.

Foi "o maior" movimento demográfico, "em termos relativos", de todos os processos de descolonização e, portanto, teve "um impacto importante", assinalou Rui Pena Pires.

Porém, disse, o efeito foi-se "diluindo, à medida que os retornados foram sendo assimilados na população portuguesa".

Apesar da experiência comum, "tiveram uma existência muito efémera como entidade coletiva" e não se afirmaram em torno de "uma identidade própria", afirmou.

Retornados: a palavra possível nasceu há 35 anos (parte II)



"Os recentes acontecimentos de Moçambique e outros que se lhe possam seguir, devemo-los considerar como esporádicos, meramente emocionais, ação duma minoria que aproveita a falta de informação ou a informação desvirtuada em que o anterior regime deixava as populações das colónias." - Datada de 15 de Outubro de 1974, esta Informação de Serviço do Ministério dos Negócios Estrangeiros/Comissão Nacional da Descolonização contém as linhas mestras da atitude do Estado português sobre o que nesse mesmo período acontecia nos territórios sob sua administração em África e na Ásia. Ou seja, oficialmente não acontece nada que não esteja previsto e controlado. Tudo o que não coubesse nesta moldura era apresentado como o resultado duma minoria emocionalmente descontrolada e de forma consciente ou involuntária afeta ao regime anterior.

Retornados: a palavra possível nasceu há 35 anos (I)



Foi uma das maiores pontes aéreas mundiais para evacuação de refugiados. Mas eles não retornavam. Eles fugiam
"Estivadores africanos do porto de Lourenço Marques recusaram-se ontem a carregar barcos de carga destinados a Lisboa com bens pertencentes a colonos brancos que regressam a Portugal. Segundo anunciaram, respondem assim a um apelo lançado pela Frelimo no sentido dos residentes brancos permanecerem no território, ajudando ao seu desenvolvimento. Todavia, na capital moçambicana a tensão aumentou nos últimos dias, devido a uma série de deflagrações (...) que devem ser obra de extremistas das direitas."
Direitas. Extremistas. Colonos. Brancos - esta notícia do Telejornal da RTP do dia 21 de Junho de 1974 contém os tópicos básicos das notícias sobre aqueles que, um ano depois, passarão a ser designados como retornados. Mas em Junho de 1974 os retornados não só não existiam como eram precisamente aquilo que antecipada e firmemente se garantia aos portugueses que jamais sucederia. É certo que, em 1974, existiam em Portugal os refugiados de Goa e os refugiados do Zaire. Mas os primeiros surgiam como o resultado dos erros de Salazar e dos segundos não só mal se ouvira falar como também eram apresentados como a natural consequência do colonialismo.

29 de abril de 2015

"O 25 de Abril e a História" (António José Saraiva)



«Se alguém quisesse acusar os portugueses de cobardes, destituídos de dignidade ou de qualquer forma de brio, de inconscientes e de rufias, encontraria um bom argumento nos acontecimentos desencadeados pelo 25 de Abril.

Na perspectiva de então havia dois problemas principais a resolver com urgência. Eram eles a descolonização e a liquidação do antigo regime.

Quanto à descolonização havia trunfos para a realizar em boa ordem e com a vantagem para ambas as partes: o Exército Português não fora batido em campo de batalha; não havia ódio generalizado das populações nativas contra os colonos; os chefes dos movimentos de guerrilha eram em grande parte homens de cultura portuguesa; havia uma doutrina, a exposta no livro Portugal e o Futuro do general Spínola, que tivera a aceitação nacional e poderia servir de ponto de partida para uma base maleável de negociações. As possibilidades eram ou um acordo entre as duas partes, ou, no caso de este não se concretizar, uma retirada em boa ordem, isto é, escalonada e honrosa.

Todavia, o acordo não se realizou e retirada não houve mas sim uma debandada em pânico, um salve-se-quem-puder. Os militares portugueses, sem nenhum motivo para isso, fugiram como pardais, largando armas e calçado, abandonando os portugueses e africanos que confiavam neles. Foi a maior vergonha de que há memória desde Alcácer Quibir.