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27 de abril de 2015

25 de Abril: Cavaco impressionado com ignorância dos jovens



O Presidente da República, Cavaco Silva, mostrou-se hoje «impressionado» com a ignorância de muitos jovens sobre o 25 de Abril e o seu significado e denunciou uma «notória insatisfação» dos portugueses com o funcionamento da democracia.
No seu discurso na sessão comemorativa do 25 de Abril, no Parlamento, Cavaco Silva divulgou extractos de um estudo que mandou realizar sobre o alheamento da juventude face à política, e atribuiu parte da responsabilidade aos partidos políticos.
O Presidente considerou «não ser justo» para aqueles que se bateram pela liberdade, tantas vezes arriscando a própria vida, que a geração responsável por manter viva a memória de Abril persista em esquecer que a revolução foi um projecto de futuro.
«Os mais novos, sobretudo, quando interrogados sobre o que sucedeu em 25 de Abril de 1974 produzem afirmações que surpreendem pela ignorância de quem foram os principais protagonistas, pelo total alheamento relativamente ao que era viver num regime autoritário», declarou o Chefe de Estado perante o hemiciclo.

França: Otelo Saraiva de Carvalho "conta" o 25 de Abril à comunidade portuguesa de Lyon



Lyon, 28 Abr (Lusa) - Durante mais de duas horas, de pé, dando mostras de uma vitalidade extraordinária, Otelo Saraiva de Carvalho falou a uma plateia de 50 pessoas em Feyzin, França, sobre a história da ditadura portuguesa e as motivações dos capitães que realizaram o 25 de Abril.
O ex-dirigente do MFA voltou a sublinhar que até ao 25 de Abril nunca tinha "ouvido falar de Álvaro Cunhal" e que os civis (os partidos políticos), não foram envolvidos no derrube da ditadura para não comprometer as hipóteses de sucesso da acção militar.
Do descontentamento dos oficiais em relação à guerra em África, ao papel da CIA no 25 de Novembro, o antigo dirigente do MFA transmitiu ao público, com entusiasmo e minúcia, a orquestração do golpe militar e os momentos-chave da revolução de Abril, sem esquecer o papel dos emigrantes na história da ditadura portuguesa.
"Salazar fechava os olhos à saída das pessoas para os Estados Unidos, o Canadá, a Suíça, a Alemanha e a França porque precisava das remessas dos emigrantes para a guerra", disse
A mesa-redonda decorreu no Centro Leonard de Vinci, em Feyzin (Lyon, França).
Otelo Saraiva de Carvalho deslocou-se ao local a convite da Associação Cultural dos Portugueses de Feyzin, em parceria com o Instituto Camões, o Centro de Documentação 25 de Abril da Universidade de Coimbra e o Instituto de Língua e Cultura Portuguesa (Lyon).
Na mesma sala, foram inauguradas três exposições sobre o 25 de Abril trazidas pelo Instituto Camões e pelo Centro de Documentação 25 de Abril da Universidade de Coimbra.
Fonte: Expresso, 27 de Abril de 2008

30 de março de 2015

PCP foi "tragédia" no processo de descolonização - Pacheco Pereira



O historiador português José Pacheco Pereira considera que a intervenção do PCP em Portugal e junto dos movimentos independentistas nas ex-colónias portuguesas em África foi "trágica" para a história recente desses países.
Pacheco Pereira considera que "a herança, quer do colonialismo, quer do PCP, enquanto partido comunista nas colónias portuguesas, é de facto trágica".
Numa palestra subordinada ao tema "As relações dos movimentos de libertação com a oposição portuguesa", Pacheco Pereira defendeu ainda que um debate desapaixonado sobre a história recente pressupõe a emergência de uma "nova geração" e a abertura dos arquivos do PCP e de partidos como a FRELIMO (Moçambique) e MPLA (Angola).

O 25 de Abril de 1974 em Cartoons

28 de fevereiro de 2015

"Se Necessário o Exército Atirará Sobre os Colonos Brancos"

Entrevista a Mário Soares, Ministro dos Negócios Estrangeiros
O Ministro dos Negócios Estrangeiros português Mário Soares sobre a descolonização em África
SP – Sr. Ministro, o Governo Provisório está em vias de conceder a independência às colónias da Guiné-Bissau, Angola e Moçambique. Há portugueses que se interrogam se este Governo de Transição, que não foi eleito pelo povo, mas empossado por um golpe militar, tem legitimidade para tomar uma decisão tão histórica.

MS – Isso nos perguntámos logo a seguir à revolução de 25 de Abril. Ponderamos se a descolonização se deveria fazer apenas após eleições regulares. Mas verificou-se que o problema era candente, que dificuldades e demoras surgiam no processo. E assim convencemo-nos que precisávamos de nos apressar.
SP – Há portugueses que julgam que o Sr. se tenha apressado demais – como em tempos os belgas ao se retirarem do Congo.
MS – Estamos há 3 meses no governo, e entretanto fizemos contactos e progressos, mas não creio que tenhamos sido demasiado apressados. Pelo contrário. A situação em Angola, que nos últimos tempos se tornou explosiva, prova que talvez não tivéssemos andado suficientemente depressa.
SP – Sobre as condições de independência o Sr. negoceia exclusivamente com os movimentos de libertação africanos. Na sua opinião eles são os únicos legítimos representantes das populações nas colónias?
MS – Bem, se quisermos fazer a paz – e nós queremos sem demora a paz – temos que falar com os que nos combatem. Isto não implica uma avaliação política ou ética dos movimentos de libertação, mas resulta da apreciação pragmática de determinada situação. E quem nos combate na Guiné? O PAIGC. Assim temos de falar com o PAIGC. Quem nos combate em Moçambique? A Frelimo. Assim temos de falar com a Frelimo.

A Descolonização Portuguesa Contada Por Mário Soares

Ministro dos Negócios Estrangeiros logo após o 25 de Abril de 1974 (I, II e III Governos Provisórios), Mário Soares, em entrevista com Dominique Pouchin, apresenta a sua versão sobre o processo de descolonização.

Na medida em que nele foi parte activa, editamos aqui o que faz registar sobre o assunto.
Referência bibliográfica:
Mário Soares. Memória viva. Entrevista com Dominique Pouchin. Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2003 (Biblioteca "Primeiras Pessoas"- vol. I).
A DESCOLONIZAÇÃO PORTUGUESA
- A revolução nascera das guerras coloniais, e a primeira das urgências era pôr fim a essas guerras. Nessa altura o senhor começa a negociar com cada um dos movimentos nacionalistas. Começou, de certa forma, pelo mais fácil, pela Guiné, a seguir trabalhou em relação a Moçambique, e finalmente Angola. Como se passaram as coisas com os Guineenses?
É preciso começar por dizer que não existia uma visão política homogénea no seio do governo provisório. Na ausência de coordenação, cada um fazia mais ou menos aquilo que entendia. Quando aceitei a pasta dos Negócios Estrangeiros, tinha uma ideia para levar a bom termo a descolonização. Pretendia fazer assinar rapidamente um cessar-fogo nos territórios em guerra, para acabar com ela localmente. Mas tinha de respeitar o presidente Spínola, o qual possuía os seus próprios pontos de vista nessa matéria. Ele desejava a constituição de um processo sob controlo armado, para chegar a uma espécie de "Commonwealth portuguesa". Numa altura em que a opinião pública apelava à manifestação nas ruas a favor das independências, da fraternidade e da paz, isso era claramente impossível. A população reclamava o regresso dos seus soldados ao País. As tropas portuguesas estacionadas no Ultramar começavam, também elas, a confraternizar com os nacionalistas. A política de Spínola era, por conseguinte, irrealista. Do lado oposto, havia a visão do Partido Comunista. Convém lembrar que, naquela época, nos aproximávamos do período da máxima expansão da União Soviética no Mundo. Os comunistas portugueses desejavam fazer entrar as antigas colónias portuguesas na esfera de influência soviética, uma vez que elas albergavam no seu seio movimentos de tendência comunista. Estávamos então em 1974. Finalmente, uma terceira tendência era a que preconizava Melo Antunes, um tenente-coronel do Exército português e ao mesmo tempo um intelectual, que me sucedeu no ministério dos Negócios Estrangeiros. A sua ideia de descolonização negociada estava mais próxima da minha, sem ser exactamente a mesma. Ele era muito "terceiro-mundista". Então cada um começou a trabalhar para seu lado.

15 de dezembro de 2014

O choque cultural do "retorno": A vida em Moçambique e a vida em Portugal



O choque cultural do "retorno": A vida em Moçambique e a vida em Portugal, uma narrativa na 1ª pessoa (Sérgio Guimarães)
Introdução
Este trabalho centra-se na história verídica do seu autor, narrada na primeira pessoa, e onde se irão encontrar alguns relatos que encontram equivalência em algumas das situações expressas no texto que à frente transcrevo, e que é nota introdutória do livro de Rita Garcia. A narrativa vai incidir sobre a cultura e modos de vida em Lourenço Marques (Moçambique) nos anos pré 25 de Abril de 1974, e posteriormente vai situar-se numa pequena vila do norte de Portugal, de nome Caldas de Vizela, local de onde era oriundo o pai do autor e onde residia grande parte da família deste, sendo também o local para onde o autor foi residir após a saída de Lourenço Marques. A principal intenção deste trabalho é dar a conhecer a cultura da classe média residente em Lourenço Marques nos inícios da década de 70 e que na sua quase totalidade era constituída por pessoas de raça branca, dando algumas notas sobre a construção nacional da identidade neste país. Tenho também como segunda intenção e ambição de desmistificar um pouco o conceito que existe na sociedade portuguesa, e que considero pouco correcto, de que os “retornados” eram “colonialistas exploradores dos povos africanos”, correndo o risco de estar errado, considero ser um conceito formado pela construção duma entidade social nacional pós 25 de Abril em que havia a necessidade extrema de condenar tudo o que estava relacionado com o antigo regime, sendo os “retornados” catalogados como colaboradores desse mesmo regime. Não tenho qualquer intenção de transmitir aqui um discurso ou mensagem politica ou partidária, apenas pretendo transmitir um pouco da cultura onde nasci e dar a conhecer uma realidade que foi de alguma maneira desconhecida pela maioria dos portugueses residentes em Portugal.
Após o 25 de Abril de 1974, a maioria dos Portugueses residentes nas ex-colónias, consideradas até à data como províncias de Portugal, foram forçados a abandonar os territórios onde viviam e tiveram que ir viver para outros países, sendo que a maioria veio para Portugal, alguns como retornados e outros como o autor, os que haviam nascido nas ex-colónias, vieram conhecer pela primeira vez a “Metrópole”, como era apelidada. A título de introdução ao trabalho, transcrevo a nota introdutória do livro de Rita Garcia “Os que vieram de Africa”, onde é referenciado o drama pelo qual passaram muitos dos residentes nas ex-colónias que vieram viver para Portugal.

25 de junho de 2014

O 25 de Abril de 1974 e as Independências Exemplares do Império Colonial Português



Quanto «às independências ditas exemplares pelos vendilhões da Pátria Portuguesa, pelos traidores e cobardes do 25 de Abril de 1974», o povo português que vivia na ex-colónia de Moçambique (de todas as raças e crenças), logo a seguir ao 25 de Abril, foi obrigado a entregar as armas que tinham em casa (os que as tinham), mediante a ameaça que JOAQUIM CHISSANO fez através da rádio, que se não as entregassem, imediatamente mandaria chacinar os portugueses pelos marginais.

Mesmo assim, depois de as armas serem entregues, os portugueses foram todos enganados e sem aviso prévio, sem nada o prever, ordenaram a sua perseguição, a sua crucificação, a sua chacina, a sua matança.

O povo português ficou desarmado, indefeso e à disposição das hordas de assassinos, de grupos de maltrapilhos e analfabetos que assolaram a capital, as vilas, as aldeias e as cidades dos arredores, aliás todo o território moçambicano foi invadido por estes criminosos, dizendo que estavam a cumprir ORDENS recebidas dos seus "SUPERIORES" (os de Moçambique e os de Lisboa).

Armados de catanas, metralhadoras, baionetas e outros materiais contundentes, perseguiram o povo nas casas, nos empregos, nas escolas, nos templos religiosos, nos hospitais, nas machambas, nas ruas, em todo o lado onde estivesse, para o chacinar.

Estupraram milhares de mulheres, crianças e idosas, perante a impotência dos homens da família, porque eram manietados, acorrentados, ameaçados com catanas e baionetas, eram obrigados a assistir a estas crueldades horrendas, para depois no fim serem todos chacinados e esquartejados, morrendo assim milhares num conflito hediondo de que o povo português foi a principal vítima.

Nos cemitérios vandalizaram jazigos, campas, caixões e os mortos foram profanados.

Os “superiores de Moçambique e os traidores, os cobardes de Abril, os vendilhões da Pátria – os de Lisboa”, ordenaram estas chacinas, para que o povo ficasse aterrorizado e fugisse imediatamente de Moçambique, para lhes serem confiscados todos os seus bens - os portugueses ficaram sem nada, ficaram despojados de todos os seus haveres.

“Os superiores de Moçambique” não queriam que os portugueses ficassem em Moçambique depois da Independência (obtendo a nacionalidade moçambicana e continuando a viver a sua vida no Moçambique Independente), e também “os traidores, os cobardes de Abril, os vendilhões da Pátria” – os de Lisboa, não queriam os portugueses, os retornados da África, em Portugal.

Não foi o cobarde, o traidor de Portugal, o vendilhão da Pátria – MÁRIO SOARES - que disse para atirarem os portugueses, os retornados de África, dos aviões ao mar para que fossem comidos pelos tubarões?!

Quando os SOLDADOS PORTUGUESES que ainda se encontravam em Lourenço Marques, a seguir ao 25 DE ABRIL, mesmo que presenciassem violações, roubos e mortes e os portugueses lhes implorava socorro, eles faziam chacota, palitavam os dentes, mascavam chicletes, fumavam e cuspiam para o chão, cruzavam e descruzavam os braços ou as pernas, viravam costas, ficavam indiferentes, em posição de descanso, quer vissem desmembrar crianças (como aconteceu na Ponte Pinto Teixeira), violar mulheres à frente de todos ou rebentar as portas das cantinas, das casas ou das flats para matar os donos e roubar-lhes tudo, diziam: “SÃO ORDENS DE LISBOA”.

E a procissão de veículos, carros, camiões e jeeps regados com gasolina a que deitavam fogo depois de trancar as portas com os seus ocupantes lá dentro, filas intermináveis de veículos a arder, tudo em labaredas gigantescas, fumos imensos negros e densos, cheirando a carne queimada por toda o lado, parecia que Lourenço Marques, as suas vilas, as aldeias e as cidades nos seus arredores, iam desaparecer do mapa, num inferno dantesco, um autêntico apocalipse.

As pessoas que eram apanhadas, enfiavam-lhes pneus dos carros pelas cabeças abaixo, que lhes mobilizava os braços, ficavam logo em asfixia, penduravam-nas nas árvores, regavam-nas com gasolina e deitavam-lhes fogo, uns autênticos archotes humanos.

Foi um espetáculo horroroso e diabólico que preencheu os 250 quilómetros que medeiam entre Lourenço Marques e a cidade de João Belo.

Em Lourenço Marques e nos seus bairros limítrofes (Mahotas, Infulene, Aeroporto, Malhangalene, Mafalala, Benfica, Xipamanine, etc.), muitas casas foram incendiadas com as pessoas lá dentro, outras conseguiram fugir e andaram refugiadas no centro da cidade, onde foram acolhidas em casa de familiares, em casa de pessoas conhecidas e outras foram acolhidas até por pessoas desconhecidas.

Porque estas hordas de assassinos, já estavam a fazer um cerco à cidade de Lourenço Marques para obrigar o povo, que estava cada vez mais encurralado, a fugir para a Baixa da cidade, em direção à sua Baía – não havia outra escapatória, morreriam chacinados, ou morreriam todos afogados - seria uma carnificina absoluta e inexorável.

Claro que perante estas chacinas levadas a cabo com uma selvajaria diabólica e não havendo sinais para que terminassem, deu-se a debandada geral dum povo que foi abandonado desde o início e de propósito pelos traidores e cobardes de Lisboa, crucificado, fragilizado, aterrorizado, horrorizado, traumatizado, que conseguiu sobreviver a tamanha matança, deixando para trás todos os seus bens imóveis, móveis, veículos e pertences pessoais - tudo o que ainda não tinha sido saqueado, tudo o que ainda não tinha sido pilhado - saindo às pressas de Moçambique com uma mão à frente e outra atrás, uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma.

O dinheiro que muitos portugueses tinham guardado nos bancos, as economias que muitos andaram a poupar ao longo dos anos com muito trabalho e sacrifício, com a intenção de terem uma velhice digna já que não havia reformas, sem aviso prévio ficaram sem as suas economias, ficaram sem nada, ficaram sem um tostão, porque as contas bancárias pessoais e das Empresas foram todas congeladas após o 25 de Abril, a mando dos “superiores de Moçambique e dos traidores, dos cobardes de Abril, dos vendilhões da Pátria – os de Lisboa”.

Os portugueses só conseguiam sair de Moçambique no Aeroporto de Lourenço Marques ou nas Fronteiras saindo em direcção à África do Sul e outros países africanos, mediante a apresentação de um documento emitido pela Frelimo, onde era comprovado que tinham sido entregue as chaves das habitações alugadas ou próprias, caso contrário não podiam sair de lá.

Os massacres mais hediondos perpetrados contra o povo português (de todas as raças e de todas as crenças) e que estão na memória de quem “sobreviveu a eles” são o 7 de Setembro, o 21 de Outubro e o 17 de Dezembro de 1974.

Na altura destes massacres tinha surgido na cidade de Lourenço Marques “um grupo refratário, insignificante e asqueroso de portugueses de todas as raças e de todas as crenças”, que não aceitavam jamais que Moçambique fosse Independente, contribuindo eles também com este ignóbil, intolerável e inaceitável protesto, ao massacre dos seus compatriotas.

Passados que são 40 anos, “este grupo refratário”, cujos nomes constam de uma lista (eu sei o nome de algumas pessoas), que está na posse do Governo de Moçambique desde essa data - continuam a estar proibidos de pisar “Terra Moçambicana”.

Ainda estão vivos alguns dos RESPONSÁVEIS (moçambicanos e portugueses) pelos hediondos massacres perpetrados ao povo português, que lançaram milhares de corpos de portugueses nas águas da Baía, dos rios Limpopo, Incomáti, Umbeluzi, Matola, ou os transformaram em cinzas fumegantes na terra que se acreditava que pudesse ser de todos os que lá estavam e que queriam continuar a viver nela – portugueses de todas as raças e de todas as crenças.

Esta chacina foi compactuada com os de “Moçambique e com os traidores e os cobardes do 25 de Abril (os vendilhões da Pátria)” – que deram as independências às pressas.

Com exceção dos Deficientes das Forças Armadas, depois do 25 de Abril de 1974, todos os antigos combatentes da guerra colonial, foram "votados ao abandono” por Portugal, ao longo destes 40 anos de "democracia".

Durante a guerra colonial e também no pós-25 de Abril, alguns dos ex-combatentes perpetraram por conta própria "Crimes de Alta Traição à Pátria Portuguesa e ao seu Povo" e que estão “gravados” nas páginas negras da História de Moçambique e da História de Portugal.

Um dos meus irmãos que cumpriu o serviço militar em Tete, numa das muitas emboscadas de que foi alvo, a sua companhia sofreu uma emboscada terrível em 1970, onde camaradas seus perderam a vida, outros ficaram gravemente feridos, foram evacuados para o Hospital Militar em Lourenço Marques (muitos deles ficaram com braços e pernas amputados e muitos até sem os olhos) - ficaram inválidos, mutilados, cegos e com traumas de guerra para toda a vida.

Depois de ter recuperado e estar novamente apto, esteve três meses em serviço no Quartel Geral sito no Bairro do Alto Maé na cidade de Lourenço Marques.

A Baía de Lourenço Marques com uma largura de 36 quilómetros e 52 quilómetros de comprimento, forma o Estuário do Espírito Santo com 30 quilómetros quadrados.

Na Baía embocam, além de outros, os rios Maputo, Incomáti, Umbeluzi, Matola e Tembe.

A Xefina (constituída por 3 ilhas, Xefina Grande, Xefina Média e Xefina Pequena), fica dentro do Estuário do Espírito Santo, a uma distância de 5 quilómetros de Lourenço Marques, quase frente à Praia da Costa do Sol.

Na Xefina existia na altura um Forte e uma Prisão Militar.

O seu serviço durante estes três meses consistiu no seguinte:

Ia todos os dias com os seus camaradas à Xefina num barco da Marinha para levarem víveres, medicamentos, correspondência e outros, aos militares que ali se encontravam presos a cumprirem pena sentenciada pelo “Tribunal de Guerra” por terem cometido crimes contra o “Estado Português”.

Em seguida o meu irmão retornou a Tete para cumprir o tempo de serviço militar que ainda lhe faltava para passar à disponibilidade.

Falando em militares condenados pelo “Tribunal de Guerra” e presos na Xefina, quem não se lembra de nos meados dos anos sessenta, um militar ter morto a tiro, três camaradas seus dentro do Quartel Geral na cidade de Lourenço Marques?

Pois eu lembro-me, nunca o vou esquecer enquanto viver, porque um deles pertencia à nossa família e era filho único, sem irmãos, a casa onde morava ele e os seus pais ficava perto do Quartel onde foi morto, na Avenida 24 de Julho – Alto Maé.

Ficou sepultado no Jazigo de Família no Cemitério de S. José de Lhanguene.

Esta imensa vergonha que, com a Inquisição, constituem as mais negras páginas de uma História gloriosa – como foi a de Portugal – talvez para mostrar que mesmo um povo de heróis pode gerar traidores e fratricidas.

- Porque é que Portugal deu um prazo gigantesco, estranho e excessivo de 10 anos para entregar a cidade de Macau à China, e não fez o mesmo com as Províncias Ultramarinas, com todo o seu Império Colonial Português?!

Moçambique está de parabéns pelo dia de hoje.

Que o povo moçambicano tenha muita paz, seja muito feliz e viva com muita prosperidade.

Fonte: Arquivo Pessoal

30 de maio de 2014

Portugal 40 anos depois


Desde o famoso Golpe Militar de 25 de Abril de 1974, o poder político foi tomado de assalto pela machimba dos politiqueiros, pela corja de bandidos, pelos corruptos gananciosos, pelos mafiosos desonestos, pelos prepotentes e ditadores, pelos covardes e traidores, pelos vampiros e sanguessugas, pelos esclavagistas cruéis e desumanos.

Uma gentalha de oportunistas, de analfabetos sem escrúpulos, muitos deles detentores de “canudos falsos” e “outros são tão ocos que não têm nada lá dentro”, mas que não olha a meios para atingir os fins a que se propuseram os cobardolas de abril: enriquecer de geração em geração, saqueando o seu próprio país custe o que custar, deixando-o na bancarrota, pondo o seu próprio povo trabalhador no desemprego e os reformados e pensionistas na miséria, para o aterrorizar e para o poder subjugar.

O PSD - Que sabem eles o que que significa "Democracia"? - Nada.

O PS - Que sabem eles o que significa "Socialismo"? - Nada

O PCP - Que sabem eles o que significa "Comunismo"? - Nada

Dizem eles que antes havia em Portugal o "fascismo", nada mais estúpido, havia sim uma ditadura, como se percebe eles nem sabem distinguir o significado entre "fascismo e ditadura".

O que mudou afinal em Portugal com o Golpe Militar do 25 de Abril de 1974 perpetrado por traidores?

- Dizem eles que veio a Democracia. Mas que Democracia é que existe? - Nenhuma, nem nunca existiu! 

- Para o povo nada mudou, o povo pode ter vivido iludido ou ludibriado, mas na realidade nunca foi beneficiado em nada!

- Os funcionário públicos e os reformados que não roubaram nada a ninguém, é que foram infelizmente os escolhidos como bode expiatório, para pagarem uma crise financeira que não a fizeram, mas que tem sido feita há muitos anos pela corja dos políticos e dos banqueiros corruptos e ladrões que foram "ao pote" e continuam a ir e puseram Portugal na bancarrota.

- Os trabalhadores sempre foram explorados, sempre foram escravizados, sempre foram ferramenta de trabalho e sempre foram mão-de-obra barata.

A machimba continua a ser sempre a mesma, o que tem mudado são só os moscardos.

Esta escumalha instalou-se, alastrou-se, propagou-se e perpetuou-se.

Fonte: Arquivo Pessoal

18 de dezembro de 2013

Que raio de país é este (José Goulão)


1º de Maio de 1974, momento ímpar de mobilização colectiva de que os portugueses rapidamente desistiram, o dr. Soares fez-se notar por um trabalho oratório, glosando, com toda a razão e propriedade, o mote “Que raio de país era aquele!?” – aludindo ele ao Portugal de Salazar e Caetano, da Pide e dos banqueiros, da guerra e da brutalidade, da miséria e ausência de direitos que, julgavam os presentes e muitos ausentes, acabara de ficar para trás.

Uns lembram-se, outros não, outros ainda fazem por esquecer, mas o facto entrou para a História. Agora acompanhem-me um pouco na evocação de acontecimentos dos últimos dias, escolhidos ao acaso entre outros do mesmo jaez, nesse país chamado Portugal. Dizem as notícias que a PSP, o corpo de polícia que manda os seus agentes comprar as fardas de trabalho e que deve dinheiro a três mil deles, gastou 300 mil euros na compra secreta de instrumentos marítimos e aéreos, entre os quais dois drones (aviões sem piloto), máquinas assassinas que têm feito as delícias do presidente Obama e das autoridades israelitas quando se trata de proceder a execuções extra judiciais de “terroristas” – seja lá o que isso for – através do mundo. Digamos que o drone tem funcionado como um longo braço de foras de lei, definição que assenta que nem uma luva ao caso de Portugal, onde, como têm afirmado as instituições competentes, não há enquadramento legislativo para uso de tais meios – deve ser culpa da Constituição. E tal como a compra foi um acto secreto, também as finalidades reservadas aos engenhos potencialmente letais são apenas do conhecimento das almas do negócio.

E por falar em negócio, recordo que, também segundo as notícias, o signatário da transacção, então comandante da PSP e entretanto demitido por, segundo o governo, não ter estado à altura dos acontecimentos na escadaria da Assembleia da República por ocasião das manifestações de agentes de forças policiais, foi colocado em Paris num cargo milionário que não existia. Falta-nos saber de quem são e em que apertos estarão presos os rabos dos envolvidos nesta criação de uma prateleira dourada na cidade luz para um alto funcionário do Estado demitido por indecente e má figura – foi essa, então, a interpretação governamental.

Dizem ainda as notícias que os quinhões principais dos CTT, essa empresa pública que sabia merecer os esforços dos contribuintes portugueses, ficam nas mãos de duas conhecidas entidades privadas, logo de bem, o Goldman Sachs e o Deutsch Bank. Do Goldman Sachs sabemos que o seu presidente se define como “um banqueiro a fazer o trabalho de Deus”, coisa meritória se partirmos do princípio de que foi abolido – o mais certo é ter sido em segredo - o mandamento “não roubarás”. O mundo vai conhecendo as tropelias de tal instituição e os portugueses também sabem que, além do falecido gestor responsável pelas privatizações, também o secretário de Estado do primeiro-ministro de Portugal tutelando as privatizações e as ligações com a troika foi um alto quadro do Goldman Sachs. Ele há coincidências, é verdade, mas em dois anos o governo português rifou a preço de saldo a EDP, a REN, os aeroportos, os CTT e os Estaleiros de Viana, e o mais que vier a seguir se lhe derem tempo.

Tudo boas áreas de negócio e que por um qualquer desígnio divino, quem sabe se devido à intermediação privilegiada entre o presidente do Goldman Sachs e o Senhor, têm de pertencer ao sector privado – ao mercado, pois, como sinónimo de liberdade e democracia. Quarenta anos depois, e dispensando o labor oratório, basta perguntar exclamando ou exclamar perguntando – que raio de país é este!?

Jornal de Angola, 17 de Dezembro, 2013

3 de novembro de 2013

PCP foi "tragédia" no processo de descolonização (Pacheco Pereira)


O historiador português José Pacheco Pereira considera que a intervenção do PCP em Portugal e junto dos movimentos independentistas nas ex-colónias portuguesas em África foi "trágica" para a história recente desses países.

Pacheco Pereira considera que "a herança, quer do colonialismo, quer do PCP, enquanto partido comunista nas colónias portuguesas, é de facto trágica".

Numa palestra subordinada ao tema "As relações dos movimentos de libertação com a oposição portuguesa", Pacheco Pereira defendeu ainda que um debate desapaixonado sobre a história recente pressupõe a emergência de uma "nova geração" e a abertura dos arquivos do PCP e de partidos como a FRELIMO (Moçambique) e MPLA (Angola).

"Se o PCP não tivesse o papel que teve em Portugal o caso de Angola, por exemplo, teria sido muito diferente porque o acordo inicial em Angola é assinado com três movimentos e a independência é feita por um, com tropas cubanas", disse Pacheco Preiera, acrescentando: "Em Moçambique, a FRELIMO comportou-se como um partido único realizando toda uma série de violências que criaram o caldo de cultura para o conflito civil que houve mais tarde com a RENAMO e praticamente destruiu Moçambique".

Para Pacheco Pereira, "a herança, quer do colonialismo, quer do PCP enquanto partido comunista nas colónias portuguesas é de facto trágica".

"Como aconteceu em muitos sítios, em África destruiu infra-estruturas, fez com quem em muitos desses países as pessoas ficassem mais pobres do que eram no tempo do colonialismo", disse o historiador.

Para Pacheco Pereira, autor de uma biografia em vários volumes do falecido dirigente comunista Álvaro Cunhal, a acção do PCP no pós-independência, designadamente enquanto instrumento da extinta União Soviética, influenciou ainda as guerras civis que posteriormente assolaram e arruinaram as ex-colónias africanas de Portugal.

"Uma das heranças que o PCP e a União Soviética deixaram, em muitos aspectos trágica, foram partidos e regimes comunistas. Basta olhar para a bandeira de Angola, para a bandeira de Moçambique para ver a simbologia comunista, uma versão da foice e do martelo", sublinhou.

Pacheco Pereira considerou não ser ainda possível "tirar uma conclusão" sobre a acção do PCP em Portugal no período que se seguiu ao 25 de Abril - se a simples tomada do poder para instauração de um regime do tipo comunista, se a criação de agitação que acelerasse, em condições favoráveis para Moscovo, a entrega das possessões ultramarinas, se ambas.

"Não se pode ainda tirar uma conclusão, mas penso que alguns quadros do PCP objectivamente quiseram tomar o poder em Portugal. Não estou a dizer que fosse essa a orientação da União Soviética", observou Pacheco Pereira, referindo que o PCP teve "enorme importância na génese dos movimentos de libertação", embora essa importância não tenha sido "a mesma para Angola, Guiné ou Moçambique".

Por outro lado, acrescentou, em 1953, os estudantes africanos ligados ao PCP, que mais tarde protagonizaram as lutas pela independência dos respectivos países, fizeram um "movimento de ruptura" recusando ser "apenas uma parte de um movimento português".
Fonte: Lusa

Autor: África Today/CB

Data: 02 / 10 / 2008

28 de outubro de 2013

O Cineasta, Escritor e Homem da Rádio, Courinha Ramos


 
Um homem de sete ofícios, sempre voltado para a rádio, cinema e escrita
António Jorge Courinha e Ramos

Tudo começou quando em 1949, comecei a aprender e a estudar para técnico de rádios. Um dia ao regressar a casa, passando junto á Fábrica de Cerveja DICCA, na Av. Paiva Manso, vejo na porta ao lado e pertencendo á mesma Organização, um homem que estava a reparar um aparelho receptor de rádio. Eram os agentes dos rádios MURPHY. Com aquela curiosidade dos meus quinze anos, comecei a falar com o indivíduo, e ali nasceu uma amizade que perdurou para sempre e que marcou a minha vida e digamos que moldou a minha vida para sempre.

Esse homem era o António Jorge COURINHA E RAMOS.

Homem de sete ofícios, sempre voltado para a rádio, cinema e escrita. E quando falo em rádio, já não falo só em rádio reparações, mas sim na RÁDIO.

Ao princípio, sob sua orientação, construí para ele, o primeiro Estúdio de Gravação, em Moçambique. Deu-lhe o nome de PRODUÇÕES ONDA.

Na altura tinha acabado de comprar uma máquina de filmar de 16 m/m, mas em 1952, já tinha uma máquina profissional de 35 m/m, uma Arriflex.

Foi nessa altura, que deixei os Caminhos de Ferro e fui trabalhar para a PHILIPS (Zuid) e para ele.

Este homem, que durante a minha estadia em Moçambique sempre foi como um irmão mais velho, e que até foi o meu padrinho de casamento, sempre foi o homem mais desleixado, sem pressas, e deixa para amanhã, que eu conheci. Capaz de estar no meio do fogo, á espera que alguém chamasse os bombeiros.

A esposa, Maria Cecília de Sabóia Delgado Malaquias de Lemos Courinha e Ramos, via-se doida com ele, pois se a máquina encravasse, ele logo se sentava, cruzava as pernas e vai de desmanchar, só que nunca reparava se o chão estava limpo ou sujo, podia ter água ou óleo, que o resultado era sempre o mesmo, ficava todo porco. Para ele tudo estava bem.

Após o 25 de Abril de 74, cada um teve que orientar a sua vida e cada um teve destino diferente, eu estou em Águeda e ele estava em Lisboa. Foi ele que me safou, quando eu em vésperas do Natal de 77, regressei de Milão e na Estação de Santa Apolónia, vi que me tinham gamado a carteira. Telefonei-lhe e ele lá foi levar-me 500$00, para o Foguete, até Aveiro.

Uma dúzia de anos mais tarde, veio aqui a Águeda, acompanhado do Beja, das Produções Beja, pois trabalharam os dois em conjunto. O próprio Ramos, tinha nessa altura, umas reportagens na RTP 1, sobre Municípios.

Em Março de 2002, depois de várias tentativas, consegui falar com a Ana e com a minha madrinha e fiquei a saber que ele morreu em Novembro de 2000. Como não podia deixar de ser, disseram-me, que não sofreu, pois que estava sentado e que se ficou. Posteriormente estive lá em casa na Parede.

Este homem era de fino trato, pois teve uma educação esmerada. Era o homem dos charutos e dos cachimbos. Tinha uma colecção fantástica de cachimbos. Foi estudante em Lisboa de Engenharia Electrotécnica, mas as farras e o Casino do Estoril, fizeram com que não terminasse a licenciatura. Foi soldado raso, pois chumbou nos cursos. Na altura, já fumador de charuto, o seu comandante de Batalhão, fumava mata-ratos. Isto era a sua piada. Além disso o motorista, ia levar à “porta de armas”, o almoço ao menino.

O pai tinha sido Comerciante de Ferragens em Lourenço Marques, e foi assassinado por um sócio. Uma vez fomos a essa firma buscar umas coisas e um sócio diz: andei muitas vezes consigo ao colo. A mãe era uma senhora de fino trato e de muita cultura. O padrasto, o Sr. Oliveira, era sócio-gerente da Fábrica de Cervejas Reunidas, de onde saía a célebre Laurentina. O Courinha teve lá diversos postos, pois foi até o responsável da publicidade.

Lembro-me quando em 06.06.53, lhe nasceram, as filhas gémeas. A Anabela e a Ana Maria, esta, Técnica de Montagem na RTP. Se aquele carro novo, um SKODA, descapotável, falasse. Aquele carro andava por cima de toda a folha.

Uma vez, fomos á Palmeira. Esta terra ficava pouco depois da Vila da Manhiça. Ele foi filmar, eu gravar. No regresso, ao jantar, comemos o tradicional bife com batatas fritas, só que ali no Castro da Manhiça, aquilo era descomunal. Quando dali saímos já era noite. Ainda não tínhamos andado dez quilómetros e parte-se a alavanca das mudanças, que eram no volante. Tivemos que vir até a Marracuene engatados em primeira, pois era a velocidade que estava engatada. Da Manhiça a Vila Luiza, eram 50 quilómetros, não havia asfalto, mas sim duas estreitas faixas de pavimento de cimento e lateralmente aquilo era areia solta. Tivemos muita sorte em não haver trânsito algum e de ter começado a chover, pois de vez em quando, tínhamos que pôr água no radiador. Só chegamos a Vila Luiza (Marracuene) já era dia.

Quando se fez ”O MACHIMBOMBO DAS OITO E MEIA“, começou no Teatro Varietá, onde se colocou um autocarro em tamanho natural, mas feito em madeira, emprestado pelos Caminhos de Ferro, e que estava guardado num armazém, pois tinha sido feito para um desfile alegórico, aquando da visita do Presidente da República, ÓSCAR CARMONA, em 1939.

Os artistas principais, foram durante muito tempo o JOSÉ BANDEIRA e a MILÚ DOS ANJOS. Cada espectáculo tinha sempre dezenas de artistas no seu elenco, pois era um género de Revista á Portuguesa, mas também tinha concursos. Todas as segundas-feiras, era lotação esgotada. Mais tarde passou para o Teatro Manuel Rodrigues, pois este tinha capacidade de 1.500 espectadores, mais do dobro do que o Varietá.

Não foi novidade nenhuma, quando a Rádio Clube de Moçambique, me foi buscar à Zuid- Afrikan Handershuis, em finais de 1953. Naquela altura o RCM, tinha acabado de sair do primeiro andar, onde se situava a Zuid. Se eu já não passava sem o Courinha, ou seria ele que já não passava sem mim? Maior passou a ser a nossa convivência, pois eu fazia parte da Central Técnica. Ele escrevia muitos textos para o “Teatro em sua Casa”, orientado pela Sara Pinto Coelho, mãe do antigo locutor da RTP, Pinto Coelho.

Entretanto, já tinha construído, no 5º. Andar do Prédio Paulino dos Santos Gil, para o Courinha Ramos, o novo Estúdio e que se passou a chamar “PRODUÇÕES SOMAR”, (Ramos, lido ao contrário). Ali já havia um bocado de técnica, pois os tempos já eram outros e já haviam mais recursos. Só agora rememoro, que a mesa foi construída pelo meu pai. Toda a parte técnica, foi totalmente feita por mim.

Lembro-me uma ocasião, em que o cantor de modinhas brasileiras, Horácio Reinaldo, deu uns espectáculos em L. Marques e o Courinha o contratou para fazer uma série de programas publicitários sobre o Leite Condensado “ BÉBÉ HOLANDÊS “, que ali era produzido. Então, fiquei até às seis da manhã a gravar este cantor, que apanhou uma grande esfrega, pois que interpretou umas dezenas de modinhas. Lembro-me de uma que dizia: e lá para as tantas da manhã - (dava umas palmadas no violão)... Pum – pum.

Quando, andávamos tesos, e lhe pedíamos dinheiro (andava permanentemente atrasado nos pagamentos), lá fazia sair uma nota de “VINTE” do bolso. Hoje quer-me parecer que ele deveria trazer sempre uma nota de “vinte” em cada bolso.

O seu aspecto, era do género Vasco Santana, um bocadinho, quase nada, mais magro, mas sempre dependurado do cachimbo ou do charuto. Usava óculos, de armação muito leve, como os actuais em voga. Bebidas, nada, a não ser uma dúzia de cafés por dia, e até aos anos 60, quando ainda se usava o açucareiro, aquilo só estavam doce, depois de o café estar todo no pires. Mas um dia começou a bebe-lo sem açúcar e nunca mais utilizou qualquer adoçante.

Quando chegava ao Café Manuel Rodrigues, que era o nosso preferido, e que foi o primeiro em Moçambique a ter uma máquina de tirar cafés “CIMBALINO”, dizia logo alto e em bom som: “onde está o meu café… que eu pedi á meia hora “. Um dia, (na brincadeira) lixaram-no. Quando chegou ao balcão, depois de á porta, ter pronunciado as palavras habituais, colocaram-lhe á sua frente, a chávena do café, só que este estava frio.

- “Então vocês., servem-me o café frio?”

- “Você já o pediu á meia hora.”

Foi gargalhada geral.

Aquele homem, se não tivesse nascido, teria que ser inventado, pois às vezes dizia: “Esta semana vou emagrecer cinco quilos, por isso, vou fazer dieta”. Muitas das vezes o vi pesar-se e passada uma semana, ou pouco mais, lá estava ele sem os tais cinco quilos. O mal dele é que era muito lambareiro.

Ainda eu estava no RCM, e a Somar, lança o PROGRAMA DA MANHÃ. Gravado nos estúdios privativos e transmitido pelo RCM das 9.00 às 10.00 da manhã. Todo o trabalho técnico era meu e a locução era do ANTÓNIO LUIS RAFAEL.

Ao longo de cerca de vinte anos, tive tempo suficiente para apreciar todas as nuances dele, tanto na Rádio como no Cinema, e até naquilo que escrevia, tanto a sério como em sátira como era o caso da GARGALHADA, revista humorística, semanal das Produções Somar.

Havia as grandes companhias de variedades, que periodicamente iam em digressão pelo Ultramar. Por exemplo lembro-me de mais do que uma ida da Companhia de Vasco Morgado.

Mas também haviam grupos menos numerosos, já não falando dos casos individuais. Por exemplo a Maria Adalgisa, fazia parte dum grupo onde também estavam o Jimmy (irmão do MAX), o Acordeonista, David Pantoja e mais alguns. Estes três ficaram por aquelas paragens durante muitos anos, e todos trabalharam com o Courinha.

Outro colaborador, que esteve muitos anos ligado ao Ramos, foi o António Luís Rafael (também era um faz tudo). Igualmente o Agostinho Caramelo. Já era escritor, pois aqui na Metrópole já tinha publicado uma Trilogia, MARIA. Lá entre outros escreveu O FOGO.

No Cinema, o Courinha, lá ia fazendo uns documentários publicitários e pouco mais. Todos os serviços de Laboratório, eram feitos em Joanesburgo, pois em Moçambique não havia nada. Depois de revelado e munido com uma cópia de montagem, numa mesa de montagem, por nós engendrada, lá se visionava, controlava quanto tempo tinha cada assunto, fazia-se a parte musical de fundo, e depois o Courinha lá se metia no carro ou no combóio, levando o Rafael e lá iam um dia para os Estúdios da African Films em Killarny – Johannesburg. Quando em 57, regressei aos CFM e comecei a ir semanalmente a Joanesburgo, passei eu a fazer esse serviço, pois passava lá o dia inteiro.

Também para ele trabalhou o operador Alfredo Moreira, que nos anos 40, foi o operador de câmara, de muitos filmes aqui em Portugal.

O Ramos como cada vez tivesse mais trabalhos, resolve criar a FILMLAB.

Desloca-se a Joanesburgo e consegue comprar uma máquina de revelação, que estava parada e de origem italiana e que até já revelava a cores.

Alugou uma moradia, na rua J.Serrão e fizemos um pequeno estúdio de projecção. Foi uma máquina que já estava na sucata, que nós recuperámos. De uns tantos carretos, arranjados no ferro velho, de outros mandados fazer, inventávamos uma máquina. Foi o que aconteceu com a máquina de copiar, ou o caso da máquina de gravação magnética, em fita perfurada. A sincronia do som com a imagem. A gravação de som óptico (em filme). Naqueles tempos tudo era difícil por dois lados. Primeiro não havia dinheiro, segundo os técnicos eram poucos, pois que praticamente fomos pioneiros no caso, por aquelas terras.

Mas foi assim, que quinzenalmente apareceu no cinema o “ VISOR MOÇAMBICANO”, que focava as principais actualidades, sob o patrocínio de certas empresas locais. Posteriormente também apareceu, e também quinzenalmente, mas desfasado, o “ VISOR DESPORTIVO “, este patrocinado integralmente pela cerveja 2 M, portanto todas as semanas havia um documentário de cerca de 10 minutos de duração.

Foi daqui, que também saiu o primeiro filme Moçambicano, O ZÉ DO BURRO, com esse grande (em tudo, menos em altura) artista JOSÉ BANDEIRA. Segui-se o EXPLICADOR DE MATEMÁTICA, com o Diniz, que na altura era o gerente do Cinema Avenida.

O último foi o DEIXEM-ME SUBIR Às PALMEIRAS, que já não foi exibido em Moçambique, porque a P.I.D.E. não o autorizou. Já se estava nos anos 70.

Só quem esteve por dentro disto, é que hoje, com todas as técnicas que há, olha para trás e diz: as nossas dificuldades foram de tal envergadura, que comparando, parece que andámos nas Naus das Descobertas e hoje andam nos Luxuosos Transatlânticos de Cruzeiros, tanto na rádio como no cinema.
Recardenense (Humberto Almeida)

in http://sol.sapo.pt/blogs/meiablue/default.aspx

25 de outubro de 2013

Mário Soares desejou que os Portugueses do Ultramar fossem atirados aos Tubarões



Porém na memória de muitas pessoas, ainda vivas, o mal que lhes causou com a tal descolonização exemplar. Mário Soares e a "canalha" do Partido Socialista (que sempre lhe haja prestado vassalagem) contribuíram para o estado caótico em que Portugal se encontra.  

Ele o Mário Soares tomou Portugal como se a ele lhe pertencesse. É um "artista" de golpes que enriqueceu à conta de nós todos, portugueses, os contribuintes.

O destino encarregou-se, agora um velho inútil, de o julgar e prestar-lhe a justiça que merece.  

Os livros que foi escrevendo ao longo de seu percurso político, jamais servirão para se limpar das "cavaladas" que a história já o julgou, ainda vivo, como um traidor à Pátria e igual a outros envolvidos na fragmentação do espaço lusófono e a desgraça de centenas de milhares de seres humanos que de um momento para outro se viram desalojados da terra aonde, muitos, nascidos.

A descolonização a tal exemplar é a ovelha ranhosa da história de Portugal depois de 1500 e de quando se deu a era da expansão de Portugal no Mundo e a união de outros povos com a Europa.

Recbido por email

A DESCOLONIZAÇÃO PORTUGUESA CONTADA POR MÁRIO SOARES


 
A DESCOLONIZAÇÃO PORTUGUESA CONTADA POR MÁRIO SOARES

Ministro dos Negócios Estrangeiros logo após o 25 de Abril de 1974 (I, II e III Governos Provisórios), Mário Soares, em entrevista com Dominique Pouchin, apresenta a sua versão sobre o processo de descolonização.

Na medida em que nele foi parte activa, editamos aqui o que faz registar sobre o assunto.

Referência bibliográfica:

Mário Soares. Memória viva. Entrevista com Dominique Pouchin. Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2003 (Biblioteca "Primeiras Pessoas"- vol. I).

A DESCOLONIZAÇÃO PORTUGUESA

- A revolução nascera das guerras coloniais, e a primeira das urgências era pôr fim a essas guerras. Nessa altura o senhor começa a negociar com cada um dos movimentos nacionalistas. Começou, de certa forma, pelo mais fácil, pela Guiné, a seguir trabalhou em relação a Moçambique, e finalmente Angola. Como se passaram as coisas com os Guineenses?

É preciso começar por dizer que não existia uma visão política homogénea no seio do governo provisório. Na ausência de coordenação, cada um fazia mais ou menos aquilo que entendia. Quando aceitei a pasta dos Negócios Estrangeiros, tinha uma ideia para levar a bom termo a descolonização. Pretendia fazer assinar rapidamente um cessar-fogo nos territórios em guerra, para acabar com ela localmente. Mas tinha de respeitar o presidente Spínola, o qual possuía os seus próprios pontos de vista nessa matéria.

Ele desejava a constituição de um processo sob controlo armado, para chegar a uma espécie de "Commonwealth portuguesa". Numa altura em que a opinião pública apelava à manifestação nas ruas a favor das independências, da fraternidade e da paz, isso era claramente impossível.

A população reclamava o regresso dos seus soldados ao País. As tropas portuguesas estacionadas no Ultramar começavam, também elas, a confraternizar com os nacionalistas. A política de Spínola era, por conseguinte, irrealista.
Do lado oposto, havia a visão do Partido Comunista. Convém lembrar que, naquela época, nos aproximávamos do período da máxima expansão da União Soviética no Mundo. Os comunistas portugueses desejavam fazer entrar as antigas colónias portuguesas na esfera de influência soviética, uma vez que elas albergavam no seu seio movimentos de tendência comunista. Estávamos então em 1974.

Finalmente, uma terceira tendência era a que preconizava Melo Antunes, um tenente-coronel do Exército português e ao mesmo tempo um intelectual, que me sucedeu no ministério dos Negócios Estrangeiros. A sua ideia de descolonização negociada estava mais próxima da minha, sem ser exactamente a mesma. Ele era muito "terceiro-mundista". Então cada um começou a trabalhar para seu lado.

Encontrei-me com Agostinho Neto, dirigente do Movimento Popular de Libertação de Angola, no dia 2 de Maio de 1974, em Bruxelas, mas dois dias mais tarde, Spínola enviava um embaixador (...), para se encontrar com ele na Suiça. Quanto aos comunistas, esses avançavam com os seus negócios através de Moscovo.

Os dirigentes africanos compreenderam então que cada um de nós conduzia uma política própria, o que lhes abria possibilidades de negociação. Naquela altura, enquanto ministro, estabeleci os primeiros contactos com Aristides Pereira, o dirigente guineense que encontrara em Dakar, no Senegal, com quem consegui negociar um cessar-fogo.

No próprio dia do cessar-fogo a guerra estava terminada na Guiné, sem nada acordar em troca. Isso para nós foi um importante sucesso. Relativamente à minha proposta, a seguir encontrámo-nos em Londres, para pôr a funcionar as modalidades da transição do poder, porque naquela altura ainda não se falava de independência.

Mas, no momento em que chegámos a Londres, fomos informados das ordens estritas de Spínola, que não queria conceder a autodeterminação.

Ora ao proibir ao PAIGC que se exprimisse, não era possível manter o cessar-fogo. O ministro dos Territórios das antigas colónias, o meu amigo António de Almeida Santos, e eu estávamos francamente embaraçados, pois não dispúnhamos das menores condições para uma verdadeira negociação.

A seguir, estabeleci contactos com os Angolanos, eles próprios divididos em três movimentos nacionalistas diferentes. Precisávamos de negociar com os três, o MPLA pró-soviético, a UNITA de Jonas Savimbi, que naquela época estava muito próxima dos Chineses e a FNLA, o movimento de Holden Roberto, próximo do Congo e dos Americanos.

O xadrez tornou-se ainda mais complexo, quando foi igualmente necessário levar em conta Moçambique. Encontrei-me então com Samora Machel, presidente da FRELIMO, o movimento da independência, o qual veio a ser Presidente do seu país em 1975. Isso aconteceu na Zâmbia. (...). Encetámos então as negociações.

Mas estas vieram a verificar-se mais difíceis, porque Chissano, o número dois de Samora, e actual Presidente, avisara-nos que o cessar-fogo só seria respeitado uma vez obtidas as garantias solenes da nossa parte quanto ao reconhecimento da FRELIMO como representante legítimo do povo Moçambicano.

Houve um acordo verbal, abraços e novos aplausos, mas quando nos sentámos à mesa das negociações, eles recusaram-se a assinar. E os Guineenses regressaram com a mesma disposição.

- Portanto, a FRELIMO por um lado, o PAIGC por outro, tal como Angola, exigiam que Portugal os reconhecesse como representantes dos seus povos antes de qualquer cessar-fogo.

E isso, no preciso momento em que o cessar-fogo entrava espontaneamente em aplicação no terreno. (...)

- O caso mais difícil continua a ser, mesmo assim, o de Angola.

Angola foi sem dúvida o caso mais complexo, em virtude da realidade dos movimentos pró-independentistas. As outras colónias ainda não pensavam na descolonização. Nem Cabo Verde, nem São Tomé, nem Timor estavam em guerra, e os Indonésios, naquela altura, não queriam ouvir falar de descolonização. (...)

- O senhor assinou os acordos de descolonização em Alvor, no Algarve, em Janeiro de 1975?

Nessa altura, Spínola já estava afastado do poder. O Presidente da República era o general Costa Gomes, e eu ainda era ministro dos Negócios Estrangeiros. Os acordos de Alvor, com os três movimentos angolanos, que estabeleciam a independência de Angola, foram assinados em Janeiro de 1975, por Almeida Santos, Melo Antunes e por mim.

E, pela parte de Angola, por Jonas Savimbi, Agostinho Neto e Holden Roberto, os líderes dos três partidos nacionalistas: UNITA, MPLA, FNLA. Esses acordos de Alvor fixaram as modalidades de independência. O último soldado português deveria abandonar o território angolano antes de 11 de Novembro de 1975.

Em contrapartida, não assinei os acordos com Moçambique, mas apenas assisti, após os acordos, ao acto de independência de Moçambique, no Maputo, assim como também não negociei, uma vez que já não era ministro dos Negócios Estrangeiros, a independência de Cabo Verde e São Tomé. Em Março de 1975, tive de abandonar a minha pasta.

Após o 11 de Março de 1975- data do golpe militar atribuído ao general Spínola, que teve de fugir para o estrangeiro- tornei-me ministro sem pasta... e sem poder. (...)

- Que balanço faz dessa descolonização portuguesa, que representa o último império ocidental?

Com o distanciamento e a perspectiva histórica que hoje possuo, julgo que não havia outro caminho senão conceder a independência às colónias, o que fizemos num tempo recorde. Fomos forçados a isso pela pressão internacional e pelas condições internas portuguesas.

Disse-se, posteriormente, que a descolonização tinha representado um trauma para aqueles que viviam nas colónias. Não nego que alguns dos que acreditaram poder lá ficar tivessem depois tido de fugir e regressar a Portugal, sem trabalho, sem dinheiro, sem casa.

Isso é efectivamente traumatizante, mas todos os processos de descolonização passam por aí. Penso que, apesar de tudo, temos a nosso favor a rapidez com que concluímos o processo, e a generosidade que nos guiou nessa obra de descolonização. Foi isso que nos abriu o caminho do futuro!

- Mas deixaram em Angola uma guerra civil que nunca cessou depois disso.

Não se pode misturar guerra civil com descolonização. Quando a independência foi proclamada unilateralmente pelo MPLA, a UNITA contestou de maneira muito forte, e a isso seguiu-se uma guerra civil que durou até à morte de Savimbi.

Em Moçambique, a guerra civil foi posterior à independência. A FRELIMO era naquela época um partido marxista-leninista, e a guerra só aconteceu depois de ter aparecido um outro partido, a RENAMO, não marxista, apoiado pela África do Sul.

Ao princípio, todos os movimentos nacionalistas africanos de expressão portuguesa estavam próximos da União Soviética e pretendiam construir nos seus países regimes ditos democracias populares, de partido único. Ora isso não era possível em África, nomeadamente por causa do contexto europeu e da guerra fria.

Na perspectiva portuguesa, não poderíamos ter feito outra coisa: o 25 de Abril de 1974 era para nós sinónimo de liberdade, e não podíamos fazer outra coisa a não ser pôr fim às guerras coloniais. As condições sociológicas em que conduzíamos aquelas guerras condicionavam-nos completamente, e era-nos impossível continuar.

Os militares portugueses, cansados de uma guerra colonial sem saída, recusavam-se a combater. Já ninguém acreditava na guerra, e a paz só poderia desembocar num mundo novo e na independência. Por conseguinte, fomos forçados a conceder a independência, de acordo com as Nações Unidas, e fizemos bem.

Salazar e Caetano eram incapazes de dialogar, incapazes de perceber a realidade. Eram autistas, no sentido político do termo, e deixaram a situação apodrecer. Pela nossa parte, conseguimos descolonizar sem demasiados choques, e actualmente temos boas relações com as nossas antigas colónias. (...)

(p. 97-104)

Fonte: Arquivo Pessoal

1 de outubro de 2013

A broa dos velhos (Por Alberto Pinto Nogueira, Procurador-Geral Adjunto)


A República vive da mendicidade. É crónico. Alexandre de Gusmão, filósofo, diplomata e conselheiro de D. João V, acentuava que, depois de D. Manuel, o país era sustentado por estrangeiros.

Era o Séc. XVIII. A monarquia reinava com sumptuosidades, luxos e luxúrias.

A rondar o Séc. XX, Antero de Quental, poeta e filósofo, acordava em que Portugal se desmoronava desde o Séc. XVII. Era pedinte do exterior. A Corte, sempre a sacar os cofres públicos, ia metendo vales para nutrir nobrezas, caçadas, festanças e por aí fora.

Uma vez mais, entrou em bancarrota. Declarou falência em 1892.

A I República herdou uma terra falida. Incumbiu-se de se autodestruir. Com lutas fratricidas e partidárias. Em muito poucos anos, desbaratou os grandes princípios democráticos e republicanos que a inspiraram.

O período posterior, de autoritarismo, traduziu uma razia deletéria sobre a Nação. Geriu a coisa pública por e a favor de elites com um só pensamento: o Estado sou eu. Retrocedia-se ao poder absoluto. A pobreza e miséria dissimulavam-se no Fado, Futebol e Fátima.

As liberdades públicas foram extintas. O Pensamento foi abolido. Triturado. O Povo sofria a repressão e a guerra. O governo durou 40 anos! Com votos de vivos e de mortos.

A II República recuperou os princípios fundamentais de 1910, massacrados em 1928.

Superou muitos percalços, abusos e algumas atrocidades.

Acreditou-se em 1974, com o reforço constitucional de 1976, que se faria Justiça ao Povo.

Ingenuidade, logro e engano.

Os partidos políticos logo capturaram o Estado, as autarquias, as empresas públicas.

Nada aprenderam com a História. Ignoram-na. Desprezam-na.

Penhoraram a Nação. Com desvarios e desmandos. Obras faraónicas, estádios de futebol, auto-estradas pleonásticas, institutos públicos sobrepostos e inúteis, fundações público-privadas para gáudio de senadores, cartões de crédito de plafond ilimitado, etc. Delírio, esquizofrenia esbanjadora.

O país faliu de novo em 1983. Reincidiu em 2011.

O governo arrasa tudo. Governa para a troika e obscuros mercados. Sustenta bancos. Outros negócios escuros.

São o seu catecismo ideológico e político.

Ao seu Povo reservou a austeridade. Só impostos e rombos nas reformas.

As palavras “Povo” e “Cidadão” foram exterminadas do seu léxico.

Há direitos e contratos com bancos, swaps, parcerias. Sacrossantos.

Outros, (com trabalhadores e velhos) mais que estabelecidos há dezenas de anos, cobertos pela Constituição e pela Lei, se lhe não servem propósitos, o governo inconstitucionaliza aquela e ilegaliza esta. Leis vigentes são as que, a cada momento, acaricia. Hoje umas, amanhã outras sobre a mesma matéria. Revoga as primeiras, cozinha as segundas a seu agrado e bel- prazer.

É um fora de lei.

Renegava a Constituição da República que jurou cumprir. Em 2011, encomendou a um ex-banqueiro a sua revisão. Hoje, absolve-a mas condena os juízes que, sem senso, a não interpretam a seu jeito!!!

Os empregados da troika mandam serrar as reformas e pensões. O servo cumpre.

Mete a faca na broa dos velhos.

Hoje 10, amanhã 15, depois 20%.

Até à côdea. Velhos são velhos. Desossem-se. Já estão descarnados. Em 2014, de corte em corte (ou de facada em facada?), organizará e subsidiará, com o Orçamento do Estado, o seu funeral colectivo.

De que serviu aos velhos o governo? E seu memorando?

Fonte: Público, 4 de Setembro de 2013

16 de setembro de 2013

Celebra-se neste sábado os Acordos de Lusaka



Comemora-se neste sábado, dia 07, os Acordos de Lusaka que foram celebrados em, em Lusaka (Zâmbia) entre o Estado Português e a Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) Nestes acordos o Estado Português reconheceu formalmente o direito do povo de Moçambique à independência e, em consequência, acordou com a FRELIMO o princípio da transferência de poderes, ou seja, transferência da soberania que detinha sobre o território de Moçambique.

Sapo MZ

25 de abril de 2013

Revisitar Abril (Rui Pereira)



Na sua síntese mais abreviada, formulada pela Junta de Salvação Nacional, o programa do 25 de Abril resumia-se a tês dês: "descolonizar, democratizar e desenvolver".

Mas que balanço poderemos fazer em relação ao cumprimento deste programa, trinta e nove anos volvidos sobre o levantamento do Movimento dos Capitães? A descolonização endossou aos povos das ex-colónias portuguesas a decisão sobre o seu próprio destino? A democracia portuguesa está de boa saúde? O nosso desenvolvimento é "sustentável" ou conduziu-nos a um beco sem saída?

A descolonização foi feita com décadas de atraso devido à política de negação e isolamento internacional de Salazar. A guerra civil em Angola e a ocupação de Timor-Leste mancharam um processo atabalhoado e, na realidade, não democrático. Hoje, porém, Cabo Verde e Timor-Leste (independente, com a nossa contribuição auto-redentora) praticam a alternância, enquanto Angola e Moçambique procuram consolidar a democracia. A situação mais problemática vive-se na Guiné-Bissau, apontada a dedo como um narco-estado pela comunidade internacional. A democracia representativa e o sistema semipresidencialista português têm garantido condições de governabilidade e alternância. Os "partidos fundadores" mantêm-se estáveis desde a eleição da Constituinte e o terrorismo doméstico, protagonizado por grupos de extrema-direita durante o período revolucionário e de extrema-esquerda ao longo dos anos oitenta, foi erradicado. Mas há um desencanto crescente do Povo com os seus representantes e com a Política em geral. Porém, a solução não é o regresso ao passado. A solução é mais e não menos democracia.

O desenvolvimento mede-se pelo crescimento da rede viária e do consumo, mas também pelo acesso generalizado à água canalizada, ao saneamento básico e à eletricidade, pela redução da mortalidade infantil, pelo aumento da longevidade, pela quase eliminação do analfabetismo, pelo aumento da instrução média e pela instituição do salário mínimo e de prestações sociais. A crise, a quebra da natalidade e a fragilidade da economia dificultam a defesa deste Estado. Todavia, a solução não é voltar atrás. É apostar no crescimento e na justiça social.

Correio da Manhã, 25 de Abril de 2013

1 de maio de 2012

Democratas (João Pereira Coutinho)


Chegam as comemorações de Abril e a pergunta é fatal: quem são os donos da revolução? A resposta devia ser óbvia: ninguém e toda a gente. Acontece que em Portugal as coisas nunca foram tão simples: até 1982, Abril pertencia aos quartéis, que tutelavam a vida doméstica.

E depois de 1982, o sectarismo continuou: Abril era da esquerda, e só da esquerda, um espectáculo de ressentimento e ódio que devia cobrir qualquer democrata de vergonha. Nunca cobriu. Pelo contrário: como se viu esta semana, com as ausências de Soares, Alegre e restante tropa-fandanga, a data continua a ser usada para ajustes de contas com inimigos imaginários. E, claro, para passar atestados de menoridade aos portugueses.

Perante isto, a única coisa a lamentar é que não se pondere seriamente suspender para os próximos anos as festividades solenes da revolução. E esperar que as gerações futuras possam honrar o 25 de Abril com a dignidade que manifestamente falta aos nossos ‘democratas’.

Correio da Manhã, 29 Abril 2012

23 de fevereiro de 2012

Se soubesse como o País ia ficar, não fazia a revolução (Otelo Saraiva de Carvalho)

Se soubesse como o País ia ficar, não fazia a revolução
Otelo Saraiva de Carvalho garante que, se soubesse como o País ia ficar, não teria realizado o 25 de Abril.
Aos 75 anos, Otelo mantém a boa disposição e fala da revolução dos cravos como se esta tivesse acontecido há dois dias.

Recorda os propósitos, enumera nomes, sabe de cor as funções de cada um dos intervenientes, é rigoroso nas memórias, embora reconheça que ainda hoje vai sabendo de contributos de anónimos que revelam, tantas décadas depois, o papel que desempenharam no golpe que deitou por terra uma ditadura de 28 anos.

Essa permanente atualização tem justificado, entre outros propósitos, a sua obra literária, como o mais recente "O dia inicial", que conta a história do 25 de abril "hora a hora".Apesar de estar associado ao movimento dos "capitães de abril" e aceitar o papel que a história lhe atribuiu nesta revolução, Otelo não esconde algum desânimo. Ele, que se assume como um "optimista por natureza".

"Sou um optimista por natureza, mas é muito difícil encarar o futuro com otimismo. O nosso país não tem recursos naturais e a única riqueza que tem é o seu povo", disse, em entrevista à Agência Lusa.

Otelo lamenta as "enormes diferenças de carácter salarial" que existem na sociedade portuguesa e vai desfiando nomes de personalidades públicas, cujo vencimento o indigna.

"Não posso aceitar essas diferenças. A mim, chocam-me. Então e os outros? Os que se levantam às 5h para ir trabalhar na fábrica e na lavoura e chegam ao fim do mês com uma miséria de ordenado?", questiona, sem esconder o desânimo.
Para este eterno capitão de abril, o que mais o desilude é "questões que considerava muito importantes no programa político do Movimento das Forças Armadas (MFA) não terem sido cumpridas".

Uma delas, que considera "crucial", era a criação de um sistema que elevasse rapidamente o nível social, económico e cultural de todo um povo que viveu 48 anos debaixo de uma ditadura".
"Este povo, que viveu 48 anos sob uma ditadura militar e fascista merecia mais do que dois milhões de portugueses a viverem em estado de pobreza", adiantou.

Esses milhões, sublinhou, significa que "não foram alcançados os objetivos" do 25 de abril. Por esta, e outras razões, Otelo Saraiva de Carvalho garante que hoje em dia não faria a revolução, se soubesse que o país iria estar no estado em que está.

"Pedia a demissão de oficial do exército, nunca mais punha os pés no quartel, pois não queria assumir esta responsabilidade", frisou. Otelo justifica: "O 25 de abril é feito em termos de pensamento político, com a vontade firme de mudar a situação e desenvolver rapidamente o nível económico, social e cultural do povo. Isso não foi feito, ou feito muito lentamente".

"Fizeram-se coisas importantes no campo da educação e da saúde, mas muito delas têm vindo a ser cortadas agora outra vez", lamentou.

"Não teria feito o 25 de abril se pensasse que íamos cair na situação em que estamos atualmente. Teria pedido a demissão de oficial do Exército e, se calhar, como muitos jovens têm feito atualmente, tinha ido para o estrangeiro", concluiu.

Económico com Lusa, 13 de Abril de 2011

Otelo Saraiva de Carvalho (Entrevista)


Para o “capitão de Abril” Otelo Saraiva de Carvalho bastam 800 militares para derrubar um governo, mas, acredita que «um novo 25 de Abril» só deverá acontecer com a perda de direitos dos militares.
Em entrevista, a propósito do livro recém-lançado “O dia inicial”, que conta a revolução do 25 de Abril «hora a hora», Otelo reconhece que, ao contrário da sociedade em geral, os militares não têm demonstrado grande indignação pelo estado do país.

Justifica: «Os militares pertencem à classe burguesa, estão bem, estão bem instalados, têm o seu vencimento, vão para fora e ganham ajudas de custo, são voluntários e os que estão reformados ainda não viram a sua reforma diminuída». Mas, na perspetiva deste obreiro da “revolução dos cravos”, «a coisa começará a apertar, no dia em que os militares perderem os seus direitos» e «se isso acontecer, é possível que se criem as tais condições necessárias para que haja um novo 25 de Abril».

Otelo Saraiva de Carvalho lembrou que o movimento dos capitães iniciou-se precisamente por «razões corporativistas», nomeadamente quando «os militares de carreira viram-se de repente ultrapassados nas suas promoções por antigos milicianos que, através de um decreto-lei de um governo desesperado por não ter mais capitães para mandar para a guerra colonial, permite a entrada desses antigos milicianos».
Otelo lembra que, «quando tocam nos interesses da oficialidade, ela começa a reagir. Há 37 anos, essa reacção foi o movimento de capitães», que culminou no derrube de um regime com 48 anos.