21 de outubro de 2008
8 de outubro de 2008
Obra literária de Mia Couto
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Mia Couto (Biografia)
MIA COUTO
António Emílio Leite Couto, mais conhecido por Mia Couto, nasceu em 5 de Julho de 1955 na cidade da Beira em Moçambique.
É filho de uma família de emigrantes portugueses.
O pai, Fernando Couto, natural de Rio Tinto, foi jornalista e poeta, pertencendo a círculos intelectuais, tipo cineclubes, onde se faziam debates. Chegou a escrever dois livros que demonstraram preocupação social em relação à situação de conflito existente em Moçambique.
Mia Couto publicou os seus primeiros poemas no jornal Notícias da Beira, com 14 anos. Iniciava assim o seu percurso literário dentro de uma área específica da literatura – a poesia –, mas posteriormente viria a escrever as suas obras em prosa.
Em 1972 deixou a Beira e foi para Lourenço Marques para estudar medicina.
A partir de 1974 enveredou pelo jornalismo, tornando-se, com a independência, repórter e director da Agência de Informação de Moçambique (AIM) - de 1976 a 1976; da revista semanal Tempo - de 1979 a 1981 e do jornal Notícias - de 1981 a 1985.
Em 1985 abandonou a carreira jornalística.
Reingressou na Universidade de Eduardo Mondlane para se formar em biologia, especializando-se na área de ecologia, sendo actualmente professor da cadeira de Ecologia em diversas faculdades desta universidade.
Como biólogo tem realizado trabalhos de pesquisa em diversas áreas, com incidência na gestão de zonas costeiras e na recolha de mitos, lendas e crenças que intervêm na gestão tradicional dos recursos naturais.
É director da empresa IMPACTO, Lda. - Avaliações de Impacto Ambiental.
Em 1992, foi o responsável pela preservação da reserva natural da Ilha de Inhaca.
Mia Couto é um "escritor da terra", escreve e descreve as próprias raízes do mundo, explorando a própria natureza humana na sua relação umbilical com a terra.
A sua linguagem extremamente rica e muito fértil em neologismos, confere-lhe um atributo de singular percepção e interpretação da beleza interna das coisas. Cada palavra inventada como que adivinha a secreta natureza daquilo a que se refere, entende-se como se nenhuma outra pudesse ter sido utilizada em seu lugar. As imagens de Mia Couto evocam a intuição de mundos fantásticos e em certa medida um pouco surrealistas, subjacentes ao mundo em que se vive, que envolve de uma ambiência terna e pacífica de sonhos - o mundo vivo das histórias.
Mia Couto é um excelente contador de histórias.
A sua actividade como escritor é a mais conhecida em Portugal.
É o único escritor africano que é membro da Academia Brasileira de Letras.
É hoje o autor moçambicano mais traduzido e divulgado no estrangeiro e um dos autores estrangeiros mais vendidos em Portugal.
As suas obras são traduzidas e publicadas em 24 países.
Várias das suas obras têm sido adaptadas ao teatro e cinema.
Tem recebido vários prémios nacionais e internacionais, por vários dos seus livros e pelo conjunto da sua obra literária.
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6 de outubro de 2008
Quero ser tambor (José Craveirinha)
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Grito negro (José Craveirinha)
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Grito negro (José Craveirinha)
Grito Negro
Eu sou carvão!
E tu arrancas-me brutalmente do chão
e fazes-me tua mina, patrão.
Eu sou carvão!
E tu acendes-me, patrão,
para te servir eternamente como força motriz
mas eternamente não, patrão.
Eu sou carvão
e tenho que arder sim;
queimar tudo com a força da minha combustão.
Eu sou carvão;
tenho que arder na exploração
arder até às cinzas da maldição
arder vivo como alcatrão, meu irmão,
até não ser mais a tua mina, patrão.
Eu sou carvão.
Tenho que arder
Queimar tudo com o fogo da minha combustão.
Sim!
Eu sou o teu carvão, patrão.
José Craveirinha
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Xigubo (José Craveirinha)
Xigubo
Minha mãe África
meu irmão Zambeze
Culucumba! Culucumba!
Xigubo estremece terra do mato
e negros fundem-se ao sopro da xipalapala
e negrinhos de peitos nus na sua cadência
levantam os braços para o lume da irmã lua
e dançam as danças do tempo da guerra
das velhas tribos da margem do rio.
Ao tantã do tambor
o leopardo traiçoeiro fugiu.
E na noite de assombrações
brilham alucinados de vermelho
os olhos dos homens e brilha ainda
mais o fio azul do aço das catanas.
Dum-dum!
Tantã!
E negro Maiela
músculos tensos na azagaia rubra
salta o fogo da fogueira amarela
e dança as danças do tempo da guerra
das velhas tribos da margem do rio.
E a noite desflorada
abre o sexo ao orgasmo do tambor
e a planície arde todas as luas cheias
no feitiço viril da insuperstição das catanas.
Tantã!
E os negros dançam ao ritmo da Lua Nova
rangem os dentes na volúpia do xigubo
e provam o aço ardente das catanas ferozes
na carne sangrenta da micaia grande.
E as vozes rasgam o silêncio da terra
enquanto os pés batem
enquanto os tambores batem
e enquanto a planície vibra os ecos milenários
aqui outra vez os homens desta terra
dançam as danças do tempo da guerra
das velhas tribos juntas na margem do rio.
José Craveirinha
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Mãe (José Craveirinha)
Mãe
Minha Mãe:
Trago a resina das velhas árvores
da floresta nas minhas veias.
E a sina de nascença
no meio das baladas à volta da fogueira
tu sabes como é sempre uma dor nova
sabes ou não sabes, minha Mãe?
Sabes ou não sabes
o mistério de olhos inflamados de macho
que um dia encontraste no teu caminho
de tombasana de pés descalços?
Sabes ou não sabes, Mãe
a resina das velhas árvores plantadas pelos espíritos
as blasfémias dos mortos salgando as raízes virgens
e as grandes luas de ansiedade esticando
as peles dos tambores enraivecidos
e dando às folhas das palmeiras
o brilho incandescente das catanas nuas?
E no sabor do encantamento, Mãe
dos nossos desenfeitiçados feitiços ancestrais
o exorcismo ingénuo das tuas missangas
o maravilhoso mecheu das tuas canções
e o segredo do teu corpo possuído
mas de materno sangue inviolável
donde a minha sina nasceu.
No
espaço da tua sepultura de negra
sabes ou não sabes a verdade
agora sabes ou não sabes
minha Mãe?
José Craveirinha
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5 de outubro de 2008
Acordo Geral de Paz entre o Governo Moçambicano e a Renamo (4 de Outubro de 1992)
ACORDO GERAL DE PAZ ENTRE O GOVERNO MOÇAMBICANO E A RENAMO
A 4 de Outubro de 1992, realizou-se em Roma a assinatura do Acordo Geral de Paz, entre o Governo moçambicano e a Renamo, que pôs fim à guerra.
O Acordo foi composto por sete Protocolos, que regulavam questões de carácter político, militar e económico. Para a sua implementação foram constituídas Comissões, que funcionaram entre finais de 1992 e finais de 1994, ou seja, por um período aproximado de dois anos.
A Comissão de Supervisão e Controlo (CSC) foi o principal órgão coordenador e controlador da implementação do Acordo. Foi criada ao abrigo do Protocolo I e presidida por Aldo Ajello, representante local do Secretário-Geral das Nações Unidas. Integrou uma delegação da Renamo, chefiada por Raúl Domingos e uma delegação do Governo, chefiada por Armando Guebuza. Incluiu representantes da Itália, Portugal, Reino Unido, Estados Unidos da América, França, OUA e Alemanha.
A esta Comissão coube:
- Garantir as disposições contidas no Acordo Geral de Paz;
- Garantir o respeito pelo calendário previsto para o cessar-fogo e para a realização de eleições;
- Responsabilizar-se pela interpretação autêntica dos acordos;
- Dirimir os litígios surgidos entre as partes;
- Orientar e coordenar as actividades das comissões que se lhe subordinaram.
Em paralelo, entraram em funções as Comissões subordinadas:
- Comissão de Cessar-Fogo (CCF);
- Comissão de Reintegração (CORE);
- Comissão Conjunta para a Formação das Forças Armadas de Defesa e Segurança de Moçambique (CCFADM);
- Comissão Nacional dos Assuntos Policiais (COMPOL);
- Comissão Nacional de Informação (COMINFO);
- Comissão Nacional da Administração Territorial;
- Comissão Nacional de Eleições;
- O Tribunal Eleitoral.
Nesses dois anos (1992 a 1994), o país passou por profundas mudanças: adopção do multipartidarismo; realização das primeiras eleições multipartidárias, em Novembro de 1994; desenvolvimento de meios de comunicação social independentes; formação de diversas organizações e associações a nível da sociedade civil; passagem de uma economia socialista centralizada para um regime neo-liberal.
O Acordo Geral de Paz deu origem ao ciclo político e económico que ainda hoje se vive em Moçambique.
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3 de outubro de 2008
Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP)
COMUNIDADE DOS PAÍSES DE LÍNGUA PORTUGUESA (CPLP)
O primeiro passo no processo de criação da CPLP foi dado em São Luís do Maranhão, em Novembro de 1989, por ocasião da realização do primeiro encontro dos Chefes de Estado e de Governo dos países de Língua Portuguesa - Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe, a convite do Presidente brasileiro, José Sarney. Na reunião, decidiu-se criar o Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP), que se ocupa da promoção e difusão do idioma comum da Comunidade. A ideia da criação de uma Comunidade reunindo os países de língua portuguesa – nações irmanadas por uma herança histórica, pelo idioma comum e por uma visão compartilhada do desenvolvimento e da democracia – já tinha sido suscitada por diversas personalidades.
Em 1983, no decurso de uma visita oficial a Cabo Verde, o então ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, Jaime Gama, referiu que: "O processo mais adequado para tornar consistente e descentralizar o diálogo tricontinental dos sete países de língua portuguesa espalhados por África, Europa e América seria realizar cimeiras rotativas bienais de Chefes de Estado ou Governo, promover encontros anuais de Ministros de Negócios Estrangeiros, efectivar consultas políticas frequentes entre directores políticos e encontros regulares de representantes na ONU ou em outras organizações internacionais, bem como avançar com a constituição de um grupo de língua portuguesa no seio da União Interparlamentar". O processo ganhou impulso decisivo na década de 90, merecendo destaque o empenho do então Embaixador do Brasil em Lisboa, José Aparecido de Oliveira.
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2 de outubro de 2008
Bungavílias para a menina de Benguela (Orlando Albuquerque)
BUNGAVÍLIAS PARA A MENINA DE BENGUELA
(para a sua esposa, Alda Lara)
Trago em meus braços ramadas de buganvílias vermelhas para a última morada da que foi a Menina de Benguela e se está tornando a Menina de Angola.
Bem sei que os ramos de buganvílias têm espinhos, que laceram a carne fundo.
Mas nem por isso, ou talvez por isso mesmo, poderei deixar de trazer estas buganvílias vermelhas, de que tanto gostavas...
Vermelhas como o sangue que os nossos corações têm chorado...
Vermelhas como o sangue que a inveja (até depois da morte a inveja não te deixa) está fazendo brotar da nossa tristeza...
Menina de Benguela toda sonho e ternura...
Sonho que uma manhã tropical cortou cerce, como uma flor arrancada violentamente de uma haste...
Aceita estas buganvílias vermelhas, que te trago num momento de desespero e de revolta. Revolta contra o destino...
Revolta contra a vida...
Revolta contra a inveja...
Não mais poderei estar ausente, quando a tua lembrança clamar por uma presença nas primeiras linhas...
Seria cobardia fugir.
E eu não quero ser cobarde.
Aqui estou, pois, com este ramo de buganvílias e de coração sangrado pelos espinhos.
Mas estou!
E o que é preciso é estar.
Que as buganvílias se tornem no símbolo do teu querer e do teu sonho...
Que os espinhos me lacerem, quanto mais as aperto contra o peito.
Mas que importa?...
Que importa o desespero, a raiva, se somos?...
Se trazemos até ti este punhado de buganvílias, de que tu tanto gostavas?
E eu aqui estou...
Que nesta noite de tristura o vivo das flores seja uma nota de coragem.
Agora, mais do que nunca, a coragem é necessária.
A coragem de sermos...
A coragem de estarmos...
A coragem de trazermos nos braços, rasgados pelos espinhos, um braçado de buganvílias... Buganvílias para ti...
Buganvílias para a Menina de Benguela, para a Menina de Angola, toda sonho, coragem e ternura...
Aqui te deixo a Esperança nas flores que te trago...
A Esperança que nunca faltou no teu coração...
Adeus, Menina de Benguela...
Menina de Angola...
Adeus...
Até sempre!...
Orlando de Albuquerque
História do Palácio da Ponta Vermelha (Maputo)
HISTÓRIA DO PALÁCIO DA PONTA VERMELHA
A designação da Ponta Vermelha ao promontório de cor avermelhada, 63 metros acima do nível médio das águas do mar, onde desaguam os rios Tembe, Umbeluzi, Matola e Maputo para formarem a imensa Baía de Maputo, deve ser reminiscência remota do período da ocupação holandesa (1720-1730).
Com efeito, sob a designação de «Roode Hoek», ela aparece pela primeira vez na célebre carta da Baía de Lourenço Marques levantada em 1726 pelo engenheiro holandês Konick. Mais tarde a designação aparece repetida pelos ingleses que a traduzem para «Reuben Point», daí, talvez, o vir a chamar-se Ponta Vermelha pelos cartógrafos portugueses como tradução da expressão inglesa, originária por sua vez da designação holandesa. É porém curioso notar que na carta da Baía de Lourenço Marques, datada de 1872 submetida ao julgamento arbitral de Mac-Mahon, ela aparece indicada sob duas designações: «Ponta alta de Mafumo» e «Ponta Vermelha».
Ainda hoje, quem contornar observando com atenção os penhascos salientes que do alto da reentrância parece ameaçarem a estrada marginal, notará a razão de ser da designação que conserva.
A Ponta Vermelha constituía, ainda na última década do século XIX, uma vila à parte de Lourenço Marques. Foi integrada na cidade e entregue à Câmara Municipal em 27 de Agosto de 1896, por decreto provincial do Comissário Régio António Enes.
Presume-se que os primeiros edifícios que se situavam onde hoje se encontra o Palácio da Ponta Vermelha tenham sido erguidos por volta de 1883-1884 por uma concessionária norte-americana designada Mac Murdo, que estava envolvida nas obras de construção da linha dos Caminhos de Ferro Lourenço Marques–Transvaal.
Num contrato rubricado a 14 de Dezembro de 1883 com o Governo português, a concessionária obrigava-se a construir, para além da linha férrea, todas as dependências necessárias para residência do pessoal e armazenamento de material. Daí terá resultado a construção de alguns barracões na zona da Ponta Vermelha.
O Palácio começou por ser um pavilhão de madeira e ferro. Era uma construção sem carácter de longa duração, portanto estaria lá enquanto durassem os trabalhos da construção da linha férrea.
A 25 de Junho de 1889, por quebra de contrato e desobediência à autoridade portuguesa por parte da concessionária, o Governo colonial determinou a apreensão da linha do caminho de ferro, incluindo as dependências de qualquer natureza que pertencessem à Mac Murdo.
O pavilhão de madeira e ferro passou à posse do Estado, o seu primeiro ocupante famoso foi o Comissário Régio António Enes, quando chegou a Lourenço Marques, em Janeiro de 1895.
"À noite" - escreveu ele – "fui instalar-me na pequena casa da Ponta Vermelha, antiga propriedade da empresa concessionária do caminho de ferro, em que os Governadores do distrito já haviam estabelecido residência, e que eu ia promover a Paço do Governo e quartel-general, embora a sua modéstia arquitectónica lhe proibisse prosápias, e a sua varanda alpendrada, sobranceira à vastidão da baía e toda afestoada de trepadeiras floridas, lhe desse ares de moradia romântica de alguma Julieta".
A partir dessa data, mas sem carácter permanente, os Governadores do Distrito de Lourenço Marques passaram a estabelecer-se na Residência da Ponta Vermelha, uma vez que a sua residência oficial tinha deficiências na sua construção.Em 1891, para além das habitações já construídas na Ponta Vermelha, é iniciada a instalação de quartéis militares. É ainda com António Enes que em 1895, Ponta Vermelha passa a ser a residência oficial do Governador Geral, que até aí tinha o seu palácio na Ilha de Moçambique, capital da colónia. Essa mudança esteve intimamente relacionada com as campanhas de ocupação no sul, nomeadamente contra Ngungunhana.
Outro hóspede que a Residência da Ponta Vermelha teve foi de Mouzinho de Albuquerque, que sucedeu a António Enes como Comissário Régio, em 1896. Quando ali se instalou com sua esposa, D. Maria José Gaivão, tudo continuava faltando, quer em mobiliário quer em conforto.
Foi então que sobre os ombros da senhora D. Maria José caiu a tremenda responsabilidade de preparar decentemente a Residência para receber o almirante inglês Rawson, que, com a sua esquadra estacionada no Cabo, visitaria oficialmente Lourenço Marques em 1897.
A visita do almirante Rawson, numa altura em que os ingleses ainda pensavam em «comprar» ao Governo Português a cidade e o porto de Lourenço Marques, parece que tinha outros fins que não de simples cortesia. O autor Montague George Jessett, escreve no seu livro «The Key to South África: Delagoa Bay», que «foi verdadeiramente a visita do esquadrão britânico a Delagoa Bay, em 1897, que atraiu pela primeira vez as atenções do Mundo para este "maravilhoso porto".
Cerca de 1905-1906, sob a direcção técnica do empreiteiro italiano Francesco Masci fizeram-se as primeiras obras mais importantes de que urgentemente carecia a Residência, para sua ampliação e modificação.
Masci pôs na execução do trabalho que lhe foi confiado, toda a sua boa vontade e entusiasmo, resultando aquilo que um jornal da época chamou, depois, de «uma verdadeira obra-prima».
O italiano que fora empreiteiro também da construção do edifício dos Correios de Moçambique, na hoje Av. 25 de Setembro, retirou-se para a Itália em Outubro de 1906.
Devido às modificações introduzidas por Masci, Ponta Vermelha ficou em condições de receber os Príncipes de Connaught, em 1906. Foi essa a primeira vez nos anais da história, que a cidade que Lourenço Marques recebeu uma visita régia, pois o Duque era membro da Casa Real Inglesa.
Os Connaughts e a filha, Princesa Vitória Patrícia (que chegou a ser indigitada para noiva do Rei D. Manuel II), chegaram a Lourenço Marques em visita oficial em fins de Fevereiro de 1906 e ficaram instalados na Residência da Ponta Vermelha, posta à sua disposição pelo Governador-Geral João de Azevedo Coutinho. Em 1 de Março de 1906, pelas 15.30 horas da tarde realizou-se na Residência, em honra do Duque, que era Inspector-Geral dos Exércitos da Grã-Bretanha e irmão do Rei Eduardo VII, sua esposa e filha, uma recepção oficial que ficou memorável, pois decorreu com o maior brilhantismo possível.
O primeiro príncipe português que habitou a Residência foi D. Luís Filipe, Duque de Bragança, que seria o futuro Rei de Portugal se não tivesse sido assassinado em Lisboa, a 1 de Fevereiro de 1908. Chegou a Lourenço Marques a 29 de Julho de 1907, a bordo do paquete «África». À chegada à Residência, D. Luís Filipe dirigiu-se para os seus aposentos particulares, que tinham sido preparados no andar superior do Palácio do Governador-Geral. Após pequena demora, desceu para o salão principal, onde se efectuou a recepção. Era Governador-Geral o conselheiro Freire de Andrade.
Ao Governador-Geral, Dr. Alfredo de Magalhães (1911-1912) se ficou devendo a ampliação mais importante do Palácio da Ponta Vermelha. Primitivamente, só a parte central do edifício tinha primeiro andar, servindo pela escada interior. Ali se reunia o Conselho Legislativo. Verificada a necessidade de novas instalações pelo desenvolvimento de todos os serviços públicos, surgiu a conveniência imperiosa de o ampliar, elevando os corpos laterais. Desta forma, o edifício se tornou mais amplo, pois além da Sala do Conselho do Governo ficou com mais duas grandes salas, sendo uma destinada à biblioteca e outra à reunião de vários conselhos e comissões, como era objectivo do Dr. Alfredo de Magalhães.
Ponta Vermelha voltou a conhecer obras de reabilitação em Fevereiro de 1939 e foi preparada convenientemente para a visita do Presidente Óscar Carmona, primeiro Chefe do Estado que a habitou.
Por essa ocasião, ampliou-se a Sala da Índia, cuja área foi duplicada. Essa sala evocava, pela designação que lhe fora atribuída, o período áureo da gesta da expansão ultramarina e as afinidades que ligaram Moçambique aos Vice-Reis e ao Governo de Gôa, sob cuja administração esteve a província até Abril de 1752, tendo-se desligado dessa administração durante o vice-reinado de Marquês de Távora.
Em 1956, a Residência beneficiou de outros melhoramentos e principalmente da construção do vasto salão preparado para a visita oficial do Chefe do Estado, Marechal Craveiro Lopes. Por essa altura o mestre Frederico Ayres executou um gigantesco painel que decora o salão e foi colocado em ambiente próprio, no Jardim, o conjunto alegórico em bronze, representando a famosa carga de cavalaria de Macontene, conduzida por Mouzinho, em 1897.
Ao longo dos anos, Ponta Vermelha foi sofrendo várias obras de beneficiações, mas sempre mantendo o seu traçado primitivo que o confere uma certa beleza e estética.
Com a conquista da Independência Nacional, em Junho de 1975, o Palácio da Ponta Vermelha foi declarado residência oficial do Presidente da República.
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Armando Emílio Guebuza (Biografia)
ARMANDO EMÍLIO GUEBUZA
Nasceu a 20 de Janeiro de 1943, em Murrupula, Província de Nampula onde, seu pai, Miguel Guebuza, exercia a função de enfermeiro e sua mãe, Marta Bocota Guebuza, doméstica.
Em 1948, seu pai é transferido para Lourenço Marques, nome como era chamada a Cidade de Maputo no período colonial. Aqui, aos seis anos, Armando Guebuza inicia os seus estudos em Xipamanine, no Centro Associativo dos Negros da Colónia de Moçambique.
Frequenta, igualmente, a Igreja da Missão Suíça, onde é integrado nas Patrulhas (Mintlawa), que para além das actividades religiosas, desenvolviam outras que exigiam a participação de todos, irmanados no espírito de sacrifício, ajuda mútua e promoção de uma visão comum.
No ensino secundário, junta-se a outros jovens, membros do Núcleo dos Estudantes Secundários Africanos de Moçambique (NESAM), e que era conhecido por “Núcleo”, uma organização cívica fundada por Eduardo Mondlane em 1949. O Núcleo tinha como actividades principais, a realização de aulas de compensação, educação cívica e cultural e, de uma forma discreta, a mobilização política.
Após a saída do Presidente do Núcleo, Joaquim Alberto Chissano, para Portugal, onde ia prosseguir os seus estudos, foram sucessivamente eleitos dois companheiros para direcção daquela organização estudantil. Em 1963, Armando Guebuza é eleito Presidente do Núcleo. A sua escolha correspondeu à expectativa, tornando o Núcleo um centro de atracção e de referência para muitos jovens e adolescentes de então. Em 1963, Armando Guebuza junta-se à rede clandestina da FRELIMO, na então Cidade de Lourenço Marques.
A sua experiência na direcção do Núcleo, a sua qualidade de monitor e o seu carisma concorreram para promover e desenvolver o trabalho clandestino no meio estudantil.
Em Março de 1964, Armando Guebuza e outros colegas, decidem abandonar Moçambique para se juntarem à FRELIMO. Para escapar ao controlo da PIDE, a tenebrosa polícia secreta do regime colonial, tiveram que abandonar o comboio em Mapai para fazer o restante percurso até à fronteira de Chicualacuala, a pé, enfrentando o cansaço, a fome e a sede. Uma vez do outro lado da fronteira rodesiana, ainda exaustos, com fome e sede, caminharam mais 30 Kms antes de retomarem ao comboio.
Depois de Salisbúria, hoje Harare, o grupo que integrava Armando Guebuza já na companhia de outros dois moçambicanos, que a eles se juntaram no comboio a caminho de Salisbúria, retomam a viagem para a Zâmbia. No comboio, são presos pela polícia rodesiana, quando se preparavam para abandonar aquele país, e encarcerados em Victoria Falls. Armando Guebuza e os seus colegas são entregues à PIDE e durante aproximadamente cinco meses são torturados para se lhes extrair confissões.
Entretanto, por alturas da sua libertação são presos os guerrilheiros da Quarta Região que se preparavam para abrir a Frente Sul. Apesar de estarem em liberdade vigiada, Armando Guebuza e os seus camaradas decidem vingar-se da acção da PIDE e reafirmar com actos de coragem que a FRELIMO estava activa. Na noite de 24 e 25 de Dezembro de 1964, espalham panfletos, na região Sul de Moçambique, que continham a fotografia do Presidente Eduardo Mondlane. Esta situação forçou a PIDE a divulgar, um comunicado com a lista dos guerrilheiros detidos dando detalhes de cada um deles. Não obstante as intimidações e chantagens da PIDE, retomam o sonho de se juntarem à FRELIMO. Permanecem alguns meses na Suazilândia, como refugiados. Mais tarde, conseguem atravessar a África do Sul e, na Bechuanalândia, um protectorado Britânico, são novamente detidos e ameaçados com a deportação pelas autoridades britânicas. Graças à intervenção do Dr. Eduardo Mondlane, exigindo a sua incondicional libertação, o grupo é entregue ao Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados e conduzido para a Zâmbia. Dali, mais tarde, o grupo segue para a Tanzânia, conduzido por Mariano Matsinha, então representante da FRELIMO na Zâmbia.
Na Tanzânia, Armando Guebuza é submetido aos treinos militares em Bagamoyo. Faz depois parte do grupo de combatentes que abriu o Campo de Preparação Político Militar de Nachingweya.
Em 1966, é transferido de Nachingweya para Dar-es-salam, para exercer as funções de Secretário Particular do Presidente Mondlane, em substituição de Joaquim Chissano que se preparava para ir à formação na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Nesta altura, Armando Guebuza, lecciona Cumulativamente no Instituto Moçambicano.
Mais tarde e ainda nesse mesmo ano de 1966 é nomeado Secretário para a Educação e Cultura.
Desde 1966, é membro do Comité Central da FRELIMO.
Em 1968, é nomeado Inspector das escolas da FRELIMO.
Em 1970 é nomeado Comissário Político Nacional.
No Governo de Transição Guebuza ocupa a pasta da Administração Interna. No primeiro Governo do Moçambique independente é nomeado Ministro do Interior.
Em 1974, Armando Emílio Guebuza, dirige na sua qualidade de Comissário Político, o processo de criação e implantação dos Grupos Dinamizadores.
Em 1977, o Comité Político Permanente da FRELIMO designa Armando Guebuza para dirigir a Comissão de reassentamento das populações vítimas das cheias na Província de Gaza. É em resultado desse esforço, e em colaboração com as autoridades e populações locais, que nascem as aldeias comunais erguidas nas partes altas do Vale do Limpopo, e hoje em franco progresso.
Em 1977, o Comissário Político Nacional, Armando Guebuza é nomeado Vice-Ministro da Defesa Nacional e em 1978 acumula estes cargos com o de Substituto Legal do Governador da Província de Cabo Delgado.
Em 1981, é designado Governador da Província de Sofala, e em 1983, é novamente, nomeado Ministro do Interior.
Em 1984, é nomeado Ministro na Presidência, responsável pela coordenação das áreas da Agricultura, Comércio, Indústria Ligeira e Turismo, assim como a cooperação com a China, Coreia do Norte, Paquistão e Vietname.
Em 1986, assume a pasta dos Transportes e Comunicações e da Presidência do Comité de Ministros dos Transportes e Comunicações da Comunidade para o Desenvolvimento da Africa Austral.
Em 1990, é nomeado chefe da delegação do Governo às conversações de Roma que resultaram na assinatura do Acordo Geral de Paz em 1992.
Em 1992, é designado Chefe da Delegação do Governo na Comissão de Supervisão e Implementação do Acordo Geral de Paz para Moçambique.
Armando Guebuza, Tenente-General na Reserva esteve também envolvido no processo de Paz do Burundi sob a égide do falecido Presidente da Tanzânia Julius Nyerere e, mais tarde, do antigo Presidente sul-africano, Nelson Mandela. Armando Guebuza foi responsável da Comissão sobre a natureza do conflito Burundês, problemas do genocídio e exclusão e suas soluções.
Em 2000 ele foi escolhido por consenso pelas partes em conflito no Burundi para presidir à Comissão sobre as Garantias para a Implementação do Acordo resultante das negociações de Paz.
Foi Chefe da bancada da FRELIMO desde o primeiro parlamento multipartidário saído das Eleições Gerais de 1994, até ao VIII Congresso da FRELIMO.
Em 2002, é eleito Secretário Geral da FRELIMO.
Em 2004, é eleito Presidente da República.
Em 2005 é eleito Presidente do Partido.
Armando Emílio Guebuza é casado com Maria da Luz Guebuza, é pai de 4 filhos e tem dois netos.
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Joaquim Alberto Chissano (Biografia)
JOAQUIM ALBERTO CHISSANO
Nasceu a 22 de Outubro de 1939 na aldeia remota de Malehice, distrito de Chibuto, província de Gaza.
Frequentou o ensino primário numa escola oficial na cidade de Xai-Xai, actual capital provincial de Gaza.
Em 1951, o jovem Joaquim Chissano logrou tornar-se no primeiro negro a matricular-se no Liceu Salazar (actual Escola Secundária Josina Machel), onde fez os seus estudos secundários.
Nessa altura, Joaquim Chissano integrou o Núcleo dos Estudantes Secundários Africanos de Moçambique (NESAM), organização de que se tornou seu líder.
Depois de concluir o ensino secundário em 1960 partiu para Portugal afim de cursar medicina. Entretanto, em 1961 viu-se na contingência de fugir deste país, integrando um numeroso grupo de estudantes provenientes das então colónias portuguesas de África, devido a perseguição de que estavam sujeitos pela Policia Secreta Portuguesa (PIDE) devido às suas convicções no que diz respeito ao direito à auto-determinação dos seus povos. Chegado à Paris na França estabeleceu contactos com Dr. Eduardo Chivambo Mondlane, um moçambicano então professor na Universidade de Siracusa que viera dos Estados Unidos da América de propósitos para se encontrar com os estudantes moçambicanos que entretanto haviam fundado a União Nacional dos Estudantes Moçambicanos (UNEMO). Com objectivo de continuar com os estudos matriculou-se na Universidade de Poitiers, em França.
Em Abril de 1962 Joaquim Chissano viajou para Dar Es Salaam a fim de, em representação da União dos Estudantes Moçambicanos, de que era Presidente, tentar convencer os Movimentos de Libertação ali sediados a unirem-se numa FRENTE DE LIBERTAÇÃO NACIONAL.
Como corolário de esforços conjugados com vários outros compatriotas liderados por Eduardo Mondlane, a FRENTE DE LIBERTAÇÃO DE MOÇAMBIQUE (FRELIMO) foi formalmente fundada a 25 de Junho de 1962, em Dar-Es-Salaam, Tanzania.
A consciência patriótica de Joaquim Chissano leva-o a responder positivamente ao chamamento da FRELIMO, que ajudou a formar, e abandonar os estudos, em 1963, de modo a fixar-se na Tanzania afim de servir mais directamente a causa da libertação nacional.
Dadas as suas qualidades de liderança e a sua entrega é pouco tempo depois da sua chegada designado Secretário Particular do Presidente Eduardo Mondlane e Assistente deste nas funções de Chefe do Departamento de Educação e por inerência de funções torna-se membro do Comité Central da FRELIMO.
Em 1964 acumula as suas funções com as de subtítulo do Chefe de Departamento de Segurança e Defesa. No mesmo ano recebe uma formação militar em Moscovo. De regresso, em 1965, reassume as suas funções na Educação e participa como professor nas actividades da Escola Secundária da FRELIMO e do Instituto Moçambicano.
Em 1966 volta à formação militar. De regresso é nomeado chefe do Departamento da Segurança que é encarregado de criar, já separado do Departamento de Defesa.
Em 1968 participa no II Congresso da FRELIMO, realizado em Matchedje, uma zona libertada da província do Niassa, no Norte de Moçambique. Ali foi eleito membro do Comité central.
Em 1969 Joaquim Chissano é nomeado Representante Permanente da FRELIMO na Tanzânia cargo que acumulou com a de Chefe do Departamento de Segurança.
Chissano jogou um papel fundamental nas negociações dos Acordos de Lusaka, assinados a 7 de Setembro de 1974, entre a FRELIMO e o Governo Português, sobre a Independência de Moçambique.
A 20 de Setembro de 1974, com apenas 35 anos de idade, Joaquim Chissano toma posse como Primeiro-Ministro do Governo de Transição que conduziria Moçambique à proclamação da sua Independência Nacional, a 25 de Junho de 1975.
Depois da proclamação da Independência, Chissano é nomeado Ministro dos Negócios Estrangeiros. Como chefe da diplomacia moçambicana ajudou o país a granjear respeito e simpatia em todo o Mundo, do oriente ao ocidente e do norte ao sul.
Chissano participou com a equipa de Samora Machel na preparação e direcção das negociações do Acordo de N’Komati embora não tomasse parte nos contactos directos para não dar aso a um relacionamento diplomático com a África do Sul. Fez parte na delegação que acompanhou o Presidente Machel à assinatura do mesmo acordo na fronteira com África do Sul em 1984.
Com a morte trágica do Presidente Samora Machel, em 1986, Joaquim Chissano é eleito Presidente da República Popular de Moçambique.
Como Chefe do Estado, Chissano conduziu com sucesso profundas reformas sócio-económicas no país, fundamentalmente consubstanciadas na Constituição de 1990, que abriu Moçambique ao multipartidarismo e á economia de mercado.
Chissano conduziu igualmente com sucesso as negociações com o ex-movimento armado Renamo para o fim de 16 anos de uma guerra de desestabilização que dilacerou o tecido social e económico do país. O Acordo de paz foi assinado a 4 de Outubro de 1992, levando a que o povo carinhosamente o tratasse por “Obreiro da Paz”.
Em 1994 venceu as primeiras eleições multipartidárias na história do país, tendo sido reeleito Presidente da República em 1999. Apesar de o número 5 do artigo118 da Constituição moçambicana permitir que possa concorrer nas eleições presidenciais de 2004, Joaquim Chissano voluntariamente decidiu não o fazer.
Como Chefe de Estado moçambicano, Chissano ocupou altos cargos em organizações internacionais, nomeadamente, Presidente da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP); Presidente da Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral (SADC); Presidente do Órgão da SADC para a Cooperação nas Áreas de Política, Defesa e Segurança e Vice-Presidente da Internacional Socialista. Em Julho de 2003, foi eleito Presidente da União Africana.
Chissano é poliglota. Fala fluentemente cinco línguas: Changana, Português, Swahili, Inglês e Francês. Comunica em mais três línguas: Espanhol, Italiano e Russo.
É casado com Marcelina Rafael Chissano com que tem 4 filhos.
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MOZ
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