20 de novembro de 2008
E se Obama fosse africano? (Mia Couto)
E SE OBAMA FOSSE AFRICANO? (Mia Couto)
Os africanos rejubilaram com a vitória de Obama. Eu fui um deles. Depois de uma noite em claro, na irrealidade da penumbra da madrugada, as lágrimas corriam-me quando ele pronunciou o discurso de vencedor. Nesse momento, eu era também um vencedor. A mesma felicidade me atravessara quando Nelson Mandela foi libertado e o novo estadista sul-africano consolidava um caminho de dignificação de África.
Na noite de 5 de Novembro, o novo presidente norte-americano não era apenas um homem que falava. Era a sufocada voz da esperança que se reerguia, liberta, dentro de nós. Meu coração tinha votado, mesmo sem permissão: habituado a pedir pouco, eu festejava uma vitória sem dimensões. Ao sair à rua, a minha cidade se havia deslocado para Chicago, negros e brancos respirando comungando de uma mesma surpresa feliz. Porque a vitória de Obama não foi a de uma raça sobre outra: sem a participação massiva dos americanos de todas as raças (incluindo a da maioria branca) os Estados Unidos da América não nos entregariam motivo para festejarmos.
Nos dias seguintes, fui colhendo as reacções eufóricas dos mais diversos recantos do nosso continente. Pessoas anónimas, cidadãos comuns querem testemunhar a sua felicidade. Ao mesmo tempo fui tomando nota, com algumas reservas, das mensagens solidárias de dirigentes africanos. Quase todos chamavam Obama de "nosso irmão". E pensei: estarão todos esses dirigentes sendo sinceros? Será Barack Obama familiar de tanta gente politicamente tão diversa? Tenho dúvidas. Na pressa de ver preconceitos somente nos outros, não somos capazes de ver os nossos próprios racismos e xenofobias. Na pressa de condenar o Ocidente, esquecemo-nos de aceitar as lições que nos chegam desse outro lado do mundo.
Foi então que me chegou às mãos um texto de um escritor camaronês, Patrice Nganang, intitulado: "E se Obama fosse camaronês?". As questões que o meu colega dos Camarões levantava sugeriram-me perguntas diversas, formuladas agora em redor da seguinte hipótese: e se Obama fosse africano e concorresse à presidência num país africano? São estas perguntas que gostaria de explorar neste texto.
E se Obama fosse africano e candidato a uma presidência africana?
1. Se Obama fosse africano, um seu concorrente (um qualquer George Bush das Áfricas) inventaria mudanças na Constituição para prolongar o seu mandato para além do previsto. E o nosso Obama teria que esperar mais uns anos para voltar a candidatar-se. A espera poderia ser longa, se tomarmos em conta a permanência de um mesmo presidente no poder em África. Uns 41 anos no Gabão, 39 na Líbia, 28 no Zimbabwe, 28 na Guiné Equatorial, 28 em Angola, 27 no Egipto, 26 nos Camarões. E por aí fora, perfazendo uma quinzena de presidentes que governam há mais de 20 anos consecutivos no continente. Mugabe terá 90 anos quando terminar o mandato para o qual se impôs acima do veredicto popular.
2. Se Obama fosse africano, o mais provável era que, sendo um candidato do partido da oposição, não teria espaço para fazer campanha. Far-Ihe-iam como, por exemplo, no Zimbabwe ou nos Camarões: seria agredido fisicamente, seria preso consecutivamente, ser-Ihe-ia retirado o passaporte. Os Bushs de África não toleram opositores, não toleram a democracia.
3. Se Obama fosse africano, não seria sequer elegível em grande parte dos países porque as elites no poder inventaram leis restritivas que fecham as portas da presidência a filhos de estrangeiros e a descendentes de imigrantes. O nacionalista zambiano Kenneth Kaunda está sendo questionado, no seu próprio país, como filho de malawianos. Convenientemente "descobriram" que o homem que conduziu a Zâmbia à independência e governou por mais de 25 anos era, afinal, filho de malawianos e durante todo esse tempo tinha governado 'ilegalmente". Preso por alegadas intenções golpistas, o nosso Kenneth Kaunda (que dá nome a uma das mais nobres avenidas de Maputo) será interdito de fazer política e assim, o regime vigente, se verá livre de um opositor.
4. Sejamos claros: Obama é negro nos Estados Unidos. Em África ele é mulato. Se Obama fosse africano, veria a sua raça atirada contra o seu próprio rosto. Não que a cor da pele fosse importante para os povos que esperam ver nos seus líderes competência e trabalho sério. Mas as elites predadoras fariam campanha contra alguém que designariam por um "não autêntico africano". O mesmo irmão negro que hoje é saudado como novo Presidente americano seria vilipendiado em casa como sendo representante dos "outros", dos de outra raça, de outra bandeira (ou de nenhuma bandeira?).
5. Se fosse africano, o nosso "irmão" teria que dar muita explicação aos moralistas de serviço quando pensasse em incluir no discurso de agradecimento o apoio que recebeu dos homossexuais. Pecado mortal para os advogados da chamada "pureza africana". Para estes moralistas – tantas vezes no poder, tantas vezes com poder - a homossexualidade é um inaceitável vício mortal que é exterior a África e aos africanos.
6. Se ganhasse as eleições, Obama teria provavelmente que sentar-se à mesa de negociações e partilhar o poder com o derrotado, num processo negocial degradante que mostra que, em certos países africanos, o perdedor pode negociar aquilo que parece sagrado - a vontade do povo expressa nos votos. Nesta altura, estaria Barack Obama sentado numa mesa com um qualquer Bush em infinitas rondas negociais com mediadores africanos que nos ensinam que nos devemos contentar com as migalhas dos processos eleitorais que não correm a favor dos ditadores.
Inconclusivas conclusões
Fique claro: existem excepções neste quadro generalista. Sabemos todos de que excepções estamos falando e nós mesmos moçambicanos, fomos capazes de construir uma dessas condições à parte.
Fique igualmente claro: todos estes entraves a um Obama africano não seriam impostos pelo povo, mas pelos donos do poder, por elites que fazem da governação fonte de enriquecimento sem escrúpulos.
A verdade é que Obama não é africano. A verdade é que os africanos - as pessoas simples e os trabalhadores anónimos - festejaram com toda a alma a vitória americana de Obama. Mas não creio que os ditadores e corruptos de África tenham o direito de se fazerem convidados para esta festa.
Porque a alegria que milhões de africanos experimentaram no dia 5 de Novembro nascia de eles investirem em Obama exactamente o oposto daquilo que conheciam da sua experiência com os seus próprios dirigentes. Por muito que nos custe admitir, apenas uma minoria de estados africanos conhecem ou conheceram dirigentes preocupados com o bem público.
No mesmo dia em que Obama confirmava a condição de vencedor, os noticiários internacionais abarrotavam de notícias terríveis sobre África. No mesmo dia da vitória da maioria norte-americana, África continuava sendo derrotada por guerras, má gestão, ambição desmesurada de políticos gananciosos. Depois de terem morto a democracia, esses políticos estão matando a própria política. Resta a guerra, em alguns casos. Outros, a desistência e o cinismo.
Só há um modo verdadeiro de celebrar Obama nos países africanos: é lutar para que mais bandeiras de esperança possam nascer aqui, no nosso continente. É lutar para que Obamas africanos possam também vencer. E nós, africanos de todas as etnias e raças, vencermos com esses Obamas e celebrarmos em nossa casa aquilo que agora festejamos em casa alheia.
in: Jornal "SAVANA" – 14 de Novembro de 2008
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Poetas e Escritores de Moçambique
Casa de José Craveirinha para património da cidade de Maputo
Casa de José Craveirinha para património da cidade
A Casa-Museu do poeta-maior José Craveirinha, da Mafalala, vai ser transformada em museu e património cultural da cidade de Maputo. Esta acção surge na sequência de uma proposta do Plano de Actividades e Orçamento para 2009, apresentado ontem pelo Presidente do Conselho Municipal da Cidade de Maputo, Eneas Comiche, no decurso da XXV sessão ordinária da Assembleia Municipal.
A residência onde viveu o maior poeta moçambicano foi transformado em casa-museu em 2005, e em meados do presente ano, o Chefe do Estado, Armando Guebuza, descerrou uma lápide com os indicativos da Casa-Museu. É uma acção que decorreu no ano em que se o poeta fosse vivo completaria, em 28 de Maio, 85 anos.
Armando Guebuza exaltou a coragem e determinação do homem que “soube fazer da literatura uma arma para a libertação dos moçambicanos”.
OS feitos de José Craveirinha, falecido a 6 De Fevereiro de 2003, em muito se identificam com as mais nobres causas que os moçambicanos abraçaram ao longo do tempo. Um homem de cultura e desporto, passando pelo jornalismo, constitui um importante factor de exaltação e celebração da moçambicanidade.
A casa-museu contém um vasto espólio de trabalhos já divulgados e outros inéditos do poeta, que constituem um rico legado para a memória cultural e histórica de Moçambique.
Dentre muitas obras de arte e de literatura existentes na casa do poeta-maior consta uma representativa colecção de obras de arte, com trabalhos de artistas como António Bronze, Malangatana, Samate Mulungo, João Júlio, Chichorro, óleos de Bertina Lopes, desenhos de Idasse Tembe, Zeca Craveirinha. Encontram-se ainda esculturas de arte makonde, cerâmicas, máscaras, reproduções de telas de Gauguin, Cézzane e de Pablo Picasso, para além de uma colecção da indumentária do poeta.
Estão ainda na casa do poeta discos de grandes artistas do jazz como são os casos de Duke Ellingtin, Lady in Saty, Billy Holiday, Count Basie, Charlie Parker, John Coltrone, Jazz Naturaly, Johnny Hartman e Mahalia Jackson. Está ainda uma boa colecção de Fanny Mpfumo.
Na biblioteca consta um espólio de mais de três títulos, bem como um manancial de caixas de outros locais onde estão guardados materiais inéditos.
Consta ainda uma infinidade de medalhas, certificados de méritos e diplomas de honra que o poeta arrecadou, bem como as insígnias e os prémios com que o poeta foi distinguido, um dos quais é o Prémio Camões, em 1991, que é a maior distinção literária da Língua Portuguesa.
CRAVEIRINHA HERÓI NACIONAL
Um dos mais importantes poetas de África e dos países oficiais de Língua Portuguesa, José Craveirinha – o poeta dos vatícinios infalíveis e pai do nacionalismo moçambicano – foi uma figura de intervenção social, política e cultural, e perdeu a vida a 6 de Fevereiro de 2003, numa das clínicas da África do Sul onde se encontrava a receber cuidados médicos.
Devidos aos seus feitos heróicos e em reconhecimento da sua dimensão multifacetada e da sua vida e obras, a após a sua morte, Craveirinha foi elevado à categoria de Herói Nacional.
Com o seu desaparecimento físico decretou-se Luto Nacional, e o Povo, sobretudo, os habitantes da Mafalala, saiu à rua para testemunhar a passagem do cortejo fúnebre rumo ao momento dedicado aos Heróis Moçambicanos.
Na ocasião, o então Presidente da República, Joaquim Chissano, disse que a única consolação para Moçambique e o seu Povo era a semente que o poeta-mor deixava e que a sua obra permanecerá para todo o sempre, porque intemporal.
Um guerrilheiro da palavra e militante político, Craveirinha esteve preso durante quatro anos (1965-1969) na Cadeia Central, pela Polícia Colonial Portuguesa (PIDE).
Sendo auto-didacta, José Craveirinha exerceu a profissão de jornalista, tendo usado vários pseudónimos, designadamente José Manchangane, Mário Vieira, J.C., Jesuíno Cravo, Abílio Cossa e António Sousa.
Iniciou a sua profissão como jornalista no O Brado Africano e posteriormente trabalhou e colaborou, respectivamente, no Notícias, Notícias da Tarde, A Tribuna, A Voz de Moçambique, Notícias da Beira, Voz Africana, O Cooperador, Revista Nova e Revista Tempo.
Foi funcionário público, desportista, associativista, ensaísta e folclorista.
Na década de 50 desempenhou um papel de relevo na Associação Africana, chegando a ser presidente desta agremiação no início dos anos 60.
Dentre os vários livros publicados ainda vivo e outros em edição póstuma contam-se “Xigubo”, “Karingana ua Karingana”, “Cela-1”, “Hamina e Outros Contos”, “Babalaze das Hienas”, “Obra Poética”, “Cantico a une dia de catrame”, “Poemas da Prisão”.
Três meses após a sua morte, a Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO) anunciou a criação do Prémio Literário José Craveirinha, com um valor pecuniário de cinco mil dólares americanos com patrocínio da Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB) e que tem por objectivos valorizar a literatura moçambicana, associando-o a um grande nome da cultura moçambicana.
Com a independência, em 25 de Junho de 1975, José Craveirinha não se eximiu de abraçar novas causas, como a da construção da nação, ao que contribuiu continuando a produzir importantes trabalhos literários. Foi durante vários anos vice-presidente do Fundo Bibliográfico da Língua Portuguesa (FBLB), cargo que ocupou até à sua morte, ocorrida a 6 de Fevereiro de 2003 na África do Sul vítima de sucessivas complicações de saúde.
PRÉMIOS
Prémio Cidade de Lourenço Marques 1959
Prémio Reinaldo Ferreira, Centro de Arte e Cultura da Beira, 1961
Prémio de Ensaio, Centro de Arte e Cultura da Beira, 1961
Prémio Alexandre Dáskalos, Casa dos Estudantes do Império, Lisboa, Portugal, 1962
Prémio Nacional de Poesia de Itália, 1975
Prémio Lotus, Associação dos Escritores Afro-Asiáticos, 1983
Medalha de Nachingwea do Governo de Moçambique, 1985
Medalha de Mérito, Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, Brasil, 1987
Prémio Camões, 1991
Prémio Voice of Africa, da Ordfront Publishing House, Suécia, em 2002
Maputo, Quarta-Feira, 19 de Novembro de 2008:: Notícias
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12 de novembro de 2008
7 de novembro de 2008
Outros incendiários (Mia Couto)
OUTROS INCENDIÁRIOS (MIA COUTO) O alemão espreitou pela janela e viu dois jovens negros se encaminharem para um canto da praça. Era uma noite fria e, na pequena cidade da Alemanha, ninguém circulava nas ruas. Por isso, ele fixou a atenção naqueles dois negros, de tranças "rasta". Viu como eles segredavam entre si e arrastavam objectos estranhos como se fossem pedaços de troncos. Chamou pela mulher para apurar a vigilância sobre os estranhos. Foi então que reparou que os jovens africanos começavam a fazer uma fogueira. Quando as chamas se tornaram mais visíveis, o alarme foi prontamente passado para a esquadra da polícia mais próxima. Num ápice acorreram agentes policiais que abordaram os incendiários. Os jovens não falavam alemão e o entendimento tardou. Juntaram vizinhos, curiosos e apreensivos. Aos poucos, tudo se esclareceu: os moços eram dois moçambicanos que faziam parte de um agrupamento musical que actuava na sala de espectáculos que dava para a praça. O que eles faziam ali, num recanto da praça, era afinar os seus instrumentos musicais. Os tambores preparam-se no afago do fogo. Como se tivessem saudades da fogueira que acende histórias na noite africana. Em poucos minutos, a situação amainou e os alemães se riram. Alguns acederem ao convite dos jovens africanos e foram assistir ao espectáculo. E ali escutaram o crepitar de um outro fogo que se chama batuque. Os tambores ganhavam o seu nome próprio: ngomas. As marimbas renasciam em timbilas. E os jovens africanos ressurgiam como o Timbila Muzimba. Naquela cidade alemã ressoava, pela primeira vez, o pulsar de um país chamado Moçambique. E os alemães foram vencendo um frio que era mais de dentro do que fora. O casal que denunciou os falsos incendiários surpreendeu-se cantando, dançando e festejando a vida. E entenderam porque razão aquele grupo de jovens era aclamado dentro e fora do seu país. Porque esses jovens andam acendendo fogueirinhas pelo mundo afora, afinando não apenas os tambores mas os corações da gente. Vivemos num momento de desespero, em que todos dias somos sacudidos pela violência cega de homens-bomba que se sacrificam as suas vidas e se lançam contra as vidas de outros. Pois, existem, outros jovens que fazem deflagrar esperança e criam mais vida, mais pontes de entendimento e afecto. Esses são os homens-bombo.
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4 de novembro de 2008
30 de outubro de 2008
29 de outubro de 2008
Prelúdio, Mãe-Negra (Alda Lara)
PRELÚDIO
MÃE-NEGRA
Pela estrada desce a noite
Mãe-Negra, desce com ela...
Nem buganvílias vermelhas,
nem vestidinhos de folhos,
nem brincadeiras de guisos,
nas suas mãos apertadas.
Só duas lágrimas grossas,
em duas faces cansadas.
Mãe-Negra tem voz de vento,
voz de silêncio batendo
nas folhas do cajueiro...
Tem voz de noite, descendo,
de mansinho, pela estrada...
Que é feito desses meninos
que gostava de embalar?...
Que é feito desses meninos
que ela ajudou a criar?...
Quem ouve agora as histórias
que costumava contar?...
Mãe-Negra não sabe nada...
Mas ai de quem sabe tudo,
como eu sei tudo
Mãe-Negra!...
Os teus meninos cresceram,
e esqueceram as histórias
que costumavas contar...
Muitos partiram p'ra longe,
quem sabe se hão-de voltar!...
Só tu ficaste esperando,
mãos cruzadas no regaço,
bem quieta bem calada.
É a tua a voz deste vento,
desta saudade descendo,
de mansinho pela estrada..
Alda Lara
28 de outubro de 2008
Fany Mpfumo e Ricardo Rangel graduados "Honoris Causa" pela Universidade Eduardo Mondlane
FANY MPFUMO E RICARDO RANGEL GRADUADOS DOUTORES "HONORIS CAUSA" PELA UNIVERSIDADE EDUARDO MONDLANE
Duas das mais destacadas figuras do panorama artístico e cultural moçambicano, o compositor e intérprete musical Fany Mpfumo e o fotojornalista Ricardo Rangel, foram ontem graduados como doutores "Honoris Causa" pela Universidade Eduardo Mondlane (UEM), que vê neles personalidades que, em vários sentidos, contribuíram para a construção de Moçambique.
A decisão do maior estabelecimento de Ensino Superior do país de atribuir este grau honorífico àqueles proeminentes artistas consubstancia-se num amplo plano do Governo e de várias instituições nacionais para reconhecer e exaltar a vida e obra dos moçambicanos em várias vertentes da sua vida política, económica, social e cultural, segundo destacaram nas suas intervenções o Ministro da Educação e Cultura, Aires Ali, e o Reitor da UEM, Filipe Couto.
Intervindo na cerimónia de graduação de António Mariva, nome de registo de Fany Mpfumo, representado pela filha, Ilda Mpfumo, também cantora, e Ricardo Rangel, o ministro elogiou as duas figuras por inspirarem a moçambicanidade. Reafirmou o cometimento do Governo na promoção e divulgação do trabalho de cidadãos que, com a sua capacidade intelectual e com conhecimentos técnico-científicos desenvolvem acções relevantes que contribuam para o desenvolvimento do país. "Esse desafio compromete-nos a levarmos a cabo acções de reconhecimento, como distinções, premiações ou outras formas de homenagem àqueles que, quer no passado, quer no presente, trabalharam ou trabalham de forma abnegada na preservação, valorização e divulgação do património cultural nacional", apontou o governante.
Tanto Fany Mpfumo como Ricardo Rangel podem ser considerados, para além de exímios artistas, cada um na sua área, grandes nacionalistas. O músico é um dos percursores da marrabenta. Neste estilo, compôs inúmeras canções, através das quais interpretava, quando fosse necessário de forma crítica, o quotidiano de Moçambique. No período colonial, por exemplo, chegou a ser, devido ao conteúdo de alguns dos seus temas, procurado pela PIDE, a polícia política portuguesa. Só não foi detido porque, apercebendo-se do facto, conseguiu emigrar para a África do Sul. Depois da independência continuou a cantar Moçambique, inspirando outros artistas, alguns deles interpretando suas canções. Faleceu aos 57 anos de idade, em Novembro de 1987.
Ricardo Rangel é tido como um dos percursores do fotojornalismo moçambicano. Ingressou no "Notícias da Tarde" em 1952 e começou daí a testemunhar, por via da sua objectiva, a História do nosso país. Denunciou as atrocidades do colonialismo português em Moçambique, o que lhe valeu pelo menos uma vez a detenção pela PIDE. Com o advento da independência, para além de fotografar para si e para os diversos órgãos de informação para que trabalhou, contribuiu para a formação de outros profissionais, sobretudo no Centro de Formação Fotográfica, de que foi co-fundandor.
O reitor Filipe Couto apontou que a UEM continuará a trabalhar na identificação e reconhecimento público de personalidades moçambicanas e estrangeiras que tenham contribuído para o engrandecimento do nosso país. Neste sentido, proximamente receberão o "Honoris Causa" um veterinário português e uma cidadã sueca que contribuiu para o desenvolvimento do Ensino Superior em Moçambique.
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Mia Couto e Lizha James felicitados pelo Ministério da Educação e Cultura
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26 de outubro de 2008
23 de outubro de 2008
O último voo do flamingo (Mia Couto) - Capítulo décimo
O ÚLTIMO VOO DO FLAMINGO
Capítulo décimo
Os primeiros rebentamentos
Os factos só são verdadeiros
depois de serem inventados.
(Crença de Tizingara)
A primeira vez que escutei os rebentamentos acreditei que a guerra regressava em suas tropas e tropéis. Meu pensamento tinha uma só ideia: fugir. Passei pelas últimas casas de Tizingara, minha pequena vila natal. Ainda vi, se silhuetando ao longe, a minha casa natal, depois, já mais perto, a residência de Dona Hortênsia, a torre da igreja. A vila parecia em despedida do mundo, tristonha como tartaruga atravessando o deserto.
Escapei nos matos onde ninguém nunca se apessoara. Sim, era certo: aquela floresta havia recebido nenhuma humanidade. Fiz um abrigo, de galhos e folhas. Pouca coisa, com discrição de bicho: não seria bom ser visto ali alguém em estado de pessoa. Eu tinha abrigo, não tinha morada. Fiquei nesse recôndito, conselhado pelo medo. Regressaria à vila quando me garantisse que a guerra não tinha regressado. Logo na primeira noite, porém, me amedrontaram os sons dos bichos e mais ainda as sombras do escuro. Estremeci de medo: não saltara eu da boca da quizumba para entrar na garganta do leão?
Sentei-me a esclarecer. Minha alma parecia ter-me saído e flutuava como nuvem por cima de mim. A guerra tinha terminado, fazia quase um ano. Não tínhamos entendido a guerra, não entendíamos agora a paz. Mas tudo parecia correr bem, depois que as armas se tinham calado. Para os mais velhos, porém, tudo estava decidido: os antepassados se sentaram, mortos e vivos, e tinham acordado um tempo de boa paz. Se os chefes, neste novo tempo, respeitassem a harmonia entre terra e espíritos, então cairiam as boas chuvas e os homens colheriam gerais felicidades. O novos chefes pareciam pouco importados com a sorte dos outros. Eu falava do que assistia, ali em Tizingara. Do resto não tinha pronunciamento. Mas, na minha vila, havia agora tanta injustiça quanto no tempo colonial. Parecia de outro modo que esse tempo não terminara. Estava era sendo gerido por pessoas de outra raça.
Talvez fosse um grande cansaço que me fazia, afinal, ficar por aquela lonjura. Secretamente, eu deixara de amar aquela vila. Ou, se calhar, não era a vila, mas a vida que nela vivia. Eu já não tinha crença para converter a minha terra num lugar bem assombrado. Culpa do vigente regime de existirmos. Aqueles que nos comandavam, em Tizingara, engordavam a espelhos vistos, roubavam terras aos camponeses, se embebedavam sem respeito. A inveja era seu maior mandamento. Mas a terra é um ser: carece de família, desse tear de entrexistências a que chamamos ternura. Os novos-ricos se passeavam em território de rapina, não tinham pátria. Sem amor pelos vivos, sem respeito pelos mortos. Eu sentia saudade dos outros que eles já tinham sido. Porque, afinal, eram ricos sem riqueza nenhuma. Se iludiam tendo uns carros, uns brilhos de gasto fácil. Falavam mal dos estrangeiros, durante o dia. De noite, se ajoelhavam a seus pés, trocando favores por migalhas. Queriam mandar, sem governar. Queriam enriquecer, sem trabalhar.
Agora, na margem da floresta, eu via o tempo desfilando sem nada nunca acontecer. Esse era um gosto meu: pensar sem nunca ter nenhuma ideia. Seria, afinal, que me convertia em bicho, em lógica de unha e garra? A guerra o que havia feito de nós? O estranho era eu não ter sido morto em quinze anos de tiroteios e sucumbir agora em meio da paz. Não falecera da doença, morria do remédio?
Foi numa dessas manhãs de retiro que senti vozes. Surgiam camufladas. Aquilo era gente que se cuidava não ser vista. Espreitei entre as moitas. Entrevi os vultos. Havia pretos e brancos. Se debruçavam no chão, pareciam escavar na berma de um atalho. Às tantas, um falou alto, bem audível. O grito, em inglês de fora:
– Atention!
E os outros estacaram. Depois, se retiraram, sem pressa. De quando em quando, se voltavam a debruçar em roda de outra qualquer coisa. Que procuravam? Mas eles se foram e eu voltei a ficar só. Dei um tempo para que se afastassem e me dirigi para onde haviam estado a coscuvilhar. Foi quando um braço me travou o intento.
– Não vá que é perigoso!
Me virei: era minha mãe. Ou seria, antes, a visão dela. Pois ela já há muito passara a fronteira da vida, para além do nunca mais. Naquele momento, porém, ela surgia das folhagens, envolta em seus panos escuros, seus habituais. Não me saudou, simplesmente me orientou para junto do meu abrigo. Ali se sentou, aconchegando-se na capulana. Fiquei mudo e miúdo, à espera. Se temos voz é para vazar sentimento. Contudo, sentimento demasiado nos rouba a voz. Agora, que ela transitara de estado, eu acedia, completo, às vistas dela.
– Como é, filho: vive no lugar dos bichos?
Devolvi pergunta com pergunta:
– Há lugar, hoje, que não seja de bichos?
Ela sorriu, triste. Podia ter respondido: há, onde eu venho é lugar de gente. Porém, ela permaneceu calada. Rodou pelos arbustos e desfez folhinhas entre o dedos. Apurava perfumes e levava-os lentamente junto ao rosto. Matava saudades dos cheiros.
– A guerra já chegou outra vez, mãe?
– A guerra nunca partiu, filho. As guerras são como as estações do ano: ficam suspensas, a amadurecer no ódio da gente miúda.
– E a mãe anda a fazer o quê por essas bandas?
Eu queria saber se tinha terminado sua tarefa de morrer. Ela explicou-se, lenta e longa. Andava com uma bilha a recolher as lágrimas de todas as mães do mundo. Queria fazer um mar só delas. Não responda com esse sorriso, você que não sabe o serviço do choro. O que faz a lágrima? A lágrima nos universa, nela regressamos ao primeiro início. Aquela gotinha é, em nós, o umbigo do mundo. A lágrima plagia o oceano. Pensava ela por outras, quase nenhumas, palavras. E suspirou:
– Haja Deus!
Lembrou-me como ela despertava, antes, toda alagada. Não houve, depois que o meu pai nos deixou, uma manhã em que o sol a encontrasse em panos secos. Sempre e sempre ela e os choros. Todavia, isso fora antes, quando ela padecia a doença de estar viva.
– Não fique aqui que esses caminhos ainda têm o pé da guerra. A pegada está viva!
– Estou tão bem aqui, mãe. Nem me apetece regressar.
Ficamos ali horas trocando nadas, simplesmente adiando o tempo. Alongando o milagre de estarmos ali, na margem da floresta. Já entardecia, ela me avisou:
– Volte para a vila, há-de acontecer tantíssima coisa.
– Antes de ir, mãe, me lembre a estória do flamingo.
– Ah, essa estória está tão gasta...
– Me conte, mãe, que é para a viagem. Me falta tanta viagem.
– Então, senta, meu filho. Vou contar. Mas primeiro me prometa: nunca siga pelos carreiros onde seguiam aqueles homens que você espreitava há um bocadito.
– Prometo.
Então ela contou. Eu repetia palavra por palavra, decalcando sobre a voz cansada dela. Rezava: havia um lugar onde o tempo não tinha inventado a noite. Era sempre dia. Até que, certa vez, o flamingo disse:
– Hoje farei meu último voo!
As aves, desavisadas, murcharam. Tristes, contudo, não choraram. Tristeza de pássaro não inventou lágrima. Dizem: lágrima dos pássaros se guarda lá onde fica a chuva que nunca cai.
Ao aviso do flamingo, todas as aves se juntaram. Haveria uma assembleia para se conversar o assunto. Enquanto o flamingo não chegava, se escutavam os pios em rodopios. Se acreditava em tais ditos? Podia-se e não. Fosse ou não fosse, todos se demandavam:
– Mas vai voar para onde?
– Para um sítio onde não há nenhum lugar.
O pernalta, enfim, chegou e explicou – que havia dois céus, um de cá, voável, e um outro, o céu das estrelas, inviável para voação. Ele queria passar essa fronteira.
– Porquê essa viagem tão sem regresso?
O flamingo desvaloriza seu feito:
– Ora, aquilo é longe, mas não é distante.
Depois ele foi internando-se nas árvores sombrosas do matagal. Demorou. Só pareceu quando a paciência dos outros já envelhecia. Os bichos de asa se concentraram na clareira do pântano. E todos olharam o flamingo como se descobrissem, apenas então, a sua total beleza. Vinha altivo, todo por cima da sua altura. Os outros, em fila, se despediam, Um ainda pediu que ele desfizesse o anúncio.
– Por favor, não vá!
– Tenho que ir!
A avestruz se lhe interpôs e lhe disse:
– Veja, eu, que nunca voei, carrego as asas como duas saudades. E, no entanto, só piso felicidades.
– Não posso, me cansei de viver num só corpo.
E falou. Queria ir lá para onde não há sombra, nem mapa. Lá onde tudo é luz. Mas nunca chega a ser dia. Nesse outro mundo ele iria dormir, dormir como um deserto, esquecer que sabia voar, ignorar a arte de pousar sobre a terra.
– Não quero posar mais. Só repousar.
E olhou par cima. O céu parecia baixo, rasteiro. O azul desse céu era tão intenso que se vertia líquido, nos olhos dos bichos.
Então, o flamingo se lançou, arco e flecha se crisparam em seu corpo. E ei-lo, eleito, elegante, se despindo do peso. Assim, visto em voo, dir-se-ia que o céu se vertebrara e a nuvem, adiante, não era senão alma de passarinho. Dir-se-ia mais: que era a própria luz que voava. E o pássaro ia desfolhando, asa em asa, as transparentes páginas do céu. Mais um bater de plumas e, de repente, a todos pareceu que o horizonte se vermelhava. Transitava de azul para tons escuros, roxos e liláceos. Tudo se passando como um incêndio. Nascia, assim, o primeiro poente. Quando o flamingo se extinguiu, a noite se estreou naquela terra.
Era o ponto final. No escurecer, a voz de minha mãe se desvaneceu. Olhei o poente e vi as aves carregando o sol, empurrando o dia para outros aléns.
Aquela era a minha última noite desse retiro nos matos. Manhã seguinte eu já entrava na vila, como quem regressa a seu próprio corpo depois do sono.
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MOZ
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Poetas e Escritores de Moçambique