O AVÔ E O NETO Um senhor de idade foi morar com o seu filho, nora e o netinho de quatro anos de idade. As mãos do velho eram trémulas, a sua visão embaciada e os seus passos vacilantes. A família jantava reunida à mesa. Mas, as mãos trémulas e a falta de visão do avô atrapalhavam-no na hora da refeição. Ervilhas rolavam da sua colher e caíam no chão. Quando pegava no copo, o leite era derramado na toalha da mesa. O filho e a nora irritaram-se com a confusão. — Precisamos tomar uma providência com respeito ao pai — disse o filho. — Já chega de leite derramado, barulho de gente a comer com a boca aberta e de comida pelo chão. Decidiram então colocar uma pequena mesa num cantinho da cozinha. Ali, o avô comia sozinho, enquanto o resto da família fazia as refeições à mesa, com satisfação. Desde que o velho quebrara um ou dois pratos, a sua comida passou a ser servida numa tigela de madeira. Quando a família olhava para o avô sentado ali sozinho, notavam-se as lágrimas nos seus olhos. Mesmo assim, as únicas palavras que lhe dirigiam eram chamadas de atenção ásperas, sempre que deixava cair ao chão um talher ou pedaços de comida. O menino de 4 anos de idade assistia a tudo em silêncio. Uma noite, antes do jantar, o pai percebeu que o filho pequeno estava no chão, manuseando pedaços de madeira. Perguntou delicadamente à criança: — O que é que fazes aí debaixo? E menino respondeu docemente: — Ah, estou a fazer uma tigela para o pai e a mãe comerem, quando eu crescer. O garoto sorriu e voltou ao trabalho. Aquelas palavras tiveram um impacto tão grande nos pais que acabaram por ficar absolutamente mudos por instantes. Lágrimas começaram a escorrer dos seus olhos....comovidos. Embora ninguém tivesse falado nada, ambos sabiam o que tinha de ser feito! Naquela noite, o pai agarrou o avô pelas mãos e, gentilmente, conduziu-o à mesa da família. Dali para frente e até o final de seus dias comeu todas as refeições juntamente com toda a família. (Jacob Grimm and Wilhelm Grimm)17 de dezembro de 2008
O avô e o neto (Jacob Grimm and Wilhelm Grimm)
O AVÔ E O NETO Um senhor de idade foi morar com o seu filho, nora e o netinho de quatro anos de idade. As mãos do velho eram trémulas, a sua visão embaciada e os seus passos vacilantes. A família jantava reunida à mesa. Mas, as mãos trémulas e a falta de visão do avô atrapalhavam-no na hora da refeição. Ervilhas rolavam da sua colher e caíam no chão. Quando pegava no copo, o leite era derramado na toalha da mesa. O filho e a nora irritaram-se com a confusão. — Precisamos tomar uma providência com respeito ao pai — disse o filho. — Já chega de leite derramado, barulho de gente a comer com a boca aberta e de comida pelo chão. Decidiram então colocar uma pequena mesa num cantinho da cozinha. Ali, o avô comia sozinho, enquanto o resto da família fazia as refeições à mesa, com satisfação. Desde que o velho quebrara um ou dois pratos, a sua comida passou a ser servida numa tigela de madeira. Quando a família olhava para o avô sentado ali sozinho, notavam-se as lágrimas nos seus olhos. Mesmo assim, as únicas palavras que lhe dirigiam eram chamadas de atenção ásperas, sempre que deixava cair ao chão um talher ou pedaços de comida. O menino de 4 anos de idade assistia a tudo em silêncio. Uma noite, antes do jantar, o pai percebeu que o filho pequeno estava no chão, manuseando pedaços de madeira. Perguntou delicadamente à criança: — O que é que fazes aí debaixo? E menino respondeu docemente: — Ah, estou a fazer uma tigela para o pai e a mãe comerem, quando eu crescer. O garoto sorriu e voltou ao trabalho. Aquelas palavras tiveram um impacto tão grande nos pais que acabaram por ficar absolutamente mudos por instantes. Lágrimas começaram a escorrer dos seus olhos....comovidos. Embora ninguém tivesse falado nada, ambos sabiam o que tinha de ser feito! Naquela noite, o pai agarrou o avô pelas mãos e, gentilmente, conduziu-o à mesa da família. Dali para frente e até o final de seus dias comeu todas as refeições juntamente com toda a família. (Jacob Grimm and Wilhelm Grimm)
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A rapariga e os fósforos (Christian Andersen)
A RAPARIGA E OS FÓSFOROS Fazia tanto frio! A neve não parava de cair e a noite aproximava-se. Aquela era a última noite de Dezembro, véspera do dia de Ano Novo. Perdida no meio do frio intenso e da escuridão, uma pobre rapariguinha seguia pela rua fora, com a cabeça descoberta e os pés descalços. É certo que ao sair de casa trazia um par de chinelos, mas não duraram muito tempo, porque eram uns chinelos que já tinham pertencido à mãe, e ficavam-lhe tão grandes, que a menina os perdeu quando teve de atravessar a rua a correr para fugir de um trem. Um dos chinelos desapareceu no meio da neve, e o outro foi apanhado por um garoto que o levou, pensando fazer dele um berço para a irmã mais nova brincar. Por isso, a rapariguinha seguia com os pés descalços e já roxos de frio; levava no avental uma quantidade de fósforos, e estendia um maço deles a toda a gente que passava, apregoando: –Quem compra fósforos bons e baratos? – Mas o dia tinha-lhe corrido mal. Ninguém comprara os fósforos, e, portanto, ela ainda não conseguira ganhar um tostão. Sentia fome e frio, e estava com a cara pálida e as faces encovadas. Pobre rapariguinha! Os flocos de neve caíam-lhe sobre os cabelos compridos e loiros, que se encaracolavam graciosamente em volta do pescoço magrinho; mas ela nem pensava nos seus cabelos encaracolados. Através das janelas, as luzes vivas e o cheiro da carne assada chegavam à rua, porque era véspera de Ano Novo. Nisso, sim, é que ela pensava. Sentou-se no chão e enrolou-se ao canto de um portal. Sentia cada vez mais frio, mas não tinha coragem de voltar para casa, porque não vendera um único maço de fósforos, e não podia apresentar nem uma moeda, e o pai era capaz de lhe bater. E afinal, em casa também não havia calor. A família morava numa água-furtada, e o vento metia-se pelos buracos das telhas, apesar de terem tapado com farrapos e palha as fendas maiores. Tinha as mãos quase paralisadas com o frio. Ah, como o calorzinho de um fósforo aceso lhe faria bem! Se ela tirasse um, um só, do maço, e o acendesse na parede para aquecer os dedos! Pegou num fósforo e: Fcht!, a chama espirrou e o fósforo começou a arder! Parecia a chama quente e viva de uma candeia, quando a menina a tapou com a mão. Mas, que luz era aquela? A menina julgou que estava sentada em frente de um fogão de sala cheio de ferros rendilhados, com um guarda-fogo de cobre reluzente. O lume ardia com uma chama tão intensa, e dava um calor tão bom! Mas, o que se passava? A menina estendia já os pés para se aquecer, quando a chama se apagou e o fogão desapareceu. E viu que estava sentada sobre a neve, com a ponta do fósforo queimado na mão. Riscou outro fósforo, que se acendeu e brilhou, e o lugar em que a luz batia na parede tornou-se transparente como tule. E a rapariguinha viu o interior de uma sala de jantar onde a mesa estava coberta por uma toalha branca, resplandecente de loiças finas, e mesmo no meio da mesa havia um ganso assado, com recheio de ameixas e puré de batata, que fumegava, espalhando um cheiro apetitoso. Mas, que surpresa e que alegria! De repente, o ganso saltou da travessa e rolou para o chão, com o garfo e a faca espetados nas costas, até junto da rapariguinha. O fósforo apagou-se, e a pobre menina só viu na sua frente a parede negra e fria. E acendeu um terceiro fósforo. Imediatamente se encontrou ajoelhada debaixo de uma enorme árvore de Natal. Era ainda maior e mais rica do que outra que tinha visto no último Natal, através da porta envidraçada, em casa de um rico comerciante. Milhares de velinhas ardiam nos ramos verdes, e figuras de todas as cores, como as que enfeitam as montras das lojas, pareciam sorrir para ela. A menina levantou ambas as mãos para a árvore, mas o fósforo apagou-se, e todas as velas de Natal começaram a subir, a subir, e ela percebeu então que eram apenas as estrelas a brilhar no céu. Uma estrela maior do que as outras desceu em direcção à terra, deixando atrás de si um comprido rasto de luz. «Foi alguém que morreu», pensou para consigo a menina; porque a avó, a única pessoa que tinha sido boa para ela, mas que já não era viva, dizia-lhe muita vez: «Quando vires uma estrela cadente, é uma alma que vai a caminho do céu.» Esfregou ainda mais outro fósforo na parede: fez-se uma grande luz, e no meio apareceu a avó, de pé, com uma expressão muito suave, cheia de felicidade! – Avó! – gritou a menina – leva-me contigo! Quando este fósforo se apagar, eu sei que já não estarás aqui. Vais desaparecer como o fogão de sala, como o ganso assado, e como a árvore de Natal, tão linda. Riscou imediatamente o punhado de fósforos que restava daquele maço, porque queria que a avó continuasse junto dela, e os fósforos espalharam em redor uma luz tão brilhante como se fosse dia. Nunca a avó lhe parecera tão alta nem tão bonita. Tomou a neta nos braços, e soltando os pés da terra, no meio daquele resplendor, voaram ambas tão alto, tão alto, que já não podiam sentir frio, nem fome, nem desgostos, porque tinham chegado ao reino de Deus. Mas ali, naquele canto, junto do portal, quando rompeu a manhã gelada, estava caída uma rapariguinha, com as faces roxas, um sorriso nos lábios… morta de frio, na última noite do ano. O dia de Ano Novo nasceu, indiferente ao pequenino cadáver, que ainda tinha no regaço um punhado de fósforos. – Coitadinha, parece que tentou aquecer-se! – exclamou alguém. Mas nunca ninguém soube quantas coisas lindas a menina viu à luz dos fósforos, nem o brilho com que entrou, na companhia da avó, no Ano Novo. Christian Andersen
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Uma visita inesperada (Acácio Simões)
UMA VISITA INESPERADA Foi na noite de Natal. Um anjo apareceu a uma família muito rica e falou para a dona da casa. - Trago-te uma boa notícia: esta noite o Senhor Jesus virá visitar a tua casa! Aquela senhora ficou entusiasmada. Jamais acreditara ser possível que esse milagre acontecesse em sua casa. Tratou de preparar um excelente jantar para receber Jesus. Encomendou frangos, assados, conservas, saladas e vinhos importados. De repente, tocaram a campainha. Era uma mulher com roupas miseráveis, com aspecto de quem já sofrera muito. - Senhora, - disse a pobre mulher, - Será que não teria algum serviço para mim? Tenho fome e tenho necessidade de trabalhar. - Ora bolas! - retorquiu a dona da casa. - Isso são horas de me vir incomodar? Volte outro dia. Agora estou muito atarefada com um jantar para uma visita muito importante. A pobre mulher retirou-se. Um pouco mais tarde, um homem, sujo de óleo, veio bater-lhe à porta. - Senhora, - disse ele, - O meu camião avariou aqui mesmo em frente à sua casa. Não teria a senhora, por acaso, um telefone para que eu pudesse comunicar com um mecânico? A senhora, como estava ocupadíssima em limpar as pratas, lavar os cristais e os pratos de porcelana, ficou muito irritada. - Você pensa que minha casa é o quê? Vá procurar um telefone público... Onde já se viu incomodar as pessoas dessa maneira? Por favor, cuide para não sujar a entrada da minha casa com esses pés imundos! E a anfitriã continuou a preparar o jantar: abriu latas de caviar, colocou o champanhe no frigorífico, escolheu, na adega, os melhores vinhos e preparou os coquetéis. Nesse momento, alguém lá fora bate palmas. "Será que agora é que é Jesus?" -pensou ela, emocionada. E com o coração a bater acelerado, foi abrir a porta. Mas decepcionou-se: era um menino de rua, todo sujo e mal vestido... - Senhora, estou com fome. Dê-me um pouco de comida! - Como é que eu te vou dar comida, se nós ainda não jantámos?! Volta amanhã, porque esta noite estou muito atarefada... não te posso dar atenção. Finalmente o jantar ficou pronto. Toda a família esperava, emocionada, o ilustre visitante. Entretanto, as horas iam passando e Jesus não aparecia. Cansados de tanto esperar, começaram a tomar aqueles coquetéis especiais que, pouco a pouco, já começavam a fazer efeito naqueles estômagos vazios, até que o sono fez com que se esquecessem dos frangos, assados e de todos os pratos saborosos. De madrugada, a senhora acordou sobressaltada e, com grande espanto, viu que estava junto dela um anjo. - Será que um anjo é capaz de mentir? - gritou ela. - Eu preparei tudo esmeradamente, aguardei a noite inteira e Jesus não apareceu. Por que é que você fez essa brincadeira comigo? - Não fui eu que menti... Foi você que não teve olhos para enxergar. - explicou o anjo. - Jesus esteve aqui em sua casa três vezes: na pessoa da mulher pobre, na pessoa do motorista e na pessoa do menino faminto, mas a senhora não foi capaz de reconhecê-lo e acolhê-lo em sua casa". Acácio Simões
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14 de dezembro de 2008
A Diversificação da Economia Portuguesa e a África Lusófona (Luís Saramago)
A DIVERSIFICAÇÃO DA ECONOMIA PORTUGUESA E A ÁFRICA LUSÓFONA
Luís Saramago
País europeu mas com uma vocação universalista consolidada ao longo de séculos, Portugal viu acentuar-se nas últimas décadas a sua vertente europeia − reflectindo a dinâmica conjugada de diversos fenómenos cruciais, desde a abertura económica e a emigração dos anos 60 até à integração comunitária dos anos 80, passando pela democratização e a descolonização da década intermédia − assim se chegando à situação actual, em que o relacionamento externo da economia portuguesa se orienta, de forma acentuada, para a União Europeia, embora não menospreze a diversificação para espaços alternativos onde disponha, para além de um adequado manancial de conhecimentos sobre esses mercados, de afinidades de outra ordem − como linguísticas, de costumes ou de enquadramento jurídico.
É deste ponto de vista que mais interessa abordar os cinco países da África Lusófona (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa − PALOP), com os quais continuam a existir laços especiais, sobejamente conhecidos e ditados pela História. Importa, contudo, ter presentes as limitações objectivas dos PALOP enquanto mercados, que decorrem de factores como a dimensão económica dos mesmos (o PIB conjunto dos cinco representa hoje não mais que 13% do PIB português) ou a relativa debilidade das suas estruturas − físicas, económicas e administrativas, por exemplo (embora se deva sublinhar que os PALOP estão longe de ser homogéneos no tocante a este aspecto).
Por terras de mufete e calulu
É sobre Angola que as atenções habitualmente mais se concentram quando se fala da África lusófona no plano económico. Trata-se da maior economia, com um PIB que terá rondado 12 biliões de euros em 2002 (mais de 70% do total estimado para o conjunto dos PALOP), com um vasto potencial de desenvolvimento e com fluxos financeiros gerados em dois sectores de enclave (responsáveis por 61% do PIB angolano, em média, no período 1999/2003) que são o petrolífero, com uma extracção bruta que se aproxima dos 940 mil barris/dia (sendo o quarto maior produtor africano e segundo subsariano), e o sector dos diamantes, onde Angola é o quarto maior produtor a nível mundial, em termos de valor (além de se contar entre aqueles que fornecem gemas de melhor qualidade).
A sociedade angolana atravessa actualmente uma fase de mudanças consideráveis, determinada em primeiro lugar pelo fim do conflito armado generalizado, em Abril de 2002 (após quatro décadas de guerra, primeiro colonial e depois civil). Mas também, por uma maior abertura política (patente ao nível da comunicação social, do debate partidário ou de iniciativas da sociedade civil), a par de uma diversificação produtiva que se vai afirmando (crescimento a taxas reais estimadas em mais de 7% ao ano desde 2000) e, desde 2003, uma tendência para a estabilização nominal (abrandamento da cadência inflacionária associado a estabilidade cambial em contexto liberalizado), aceleração das reformas económicas − maior rigor orçamental, modificações operacionais na esfera monetária e cambial, fomento à iniciativa empresarial com novo enquadramento jurídico do investimento privado que aligeirou os procedimentos administrativos e reforçou as garantias de que gozam os investidores. Tradicionalmente presente no mercado angolano, Portugal foi, quase invariavelmente, o primeiro país de origem das importações angolanas, com cerca de 25% do total, em média, na década de 90 e uma estimativa de aproximadamente 16% no biénio 2002/03 (abrangendo uma vasta gama de produtos, com destaque para as Máquinas e Aparelhos e para os Bens Alimentares, mais 5 a 7 grupos de produtos com valores relevantes).
Angola passou a ser o nono maior mercado em 2000, cabendo-lhe dois anos depois uma quota de quase 2,0% das exportações totais (contra 1,2% em 1999, embora ainda longe dos 4,5% registados em 1992), a que não é estranha a presença como investidoras de empresas nacionais em sectores como a banca ou a construção, sendo os empresários portugueses, segundo dados oficiais angolanos, responsáveis por cerca de metade do investimento directo estrangeiro oficialmente registado em Angola na década de 90 (excluindo o sector petrolífero), tanto em número de projectos como em valor.
De Angola à contracosta
Também no caso de Moçambique se constata que as empresas portuguesas prestam um contributo importante para o desenvolvimento, com destaque para a banca, a construção (que funciona como pólo para actividades como a gestão hoteleira e distribuição de automóveis), e o turismo, sector dos mais dinâmicos desde o fim da guerra civil, em Outubro de 1992. À data apontado como um dos países mais devastados e pobres do mundo, já então recebia encómios pela forma como vinha concretizando a abertura económica, encetada em 1986/87, e conduzindo a gestão macroeconómica, pese embora as catastróficas cheias de 2000, tendo a economia moçambicana evidenciado um significativo progresso global (embora concentrado na área de Maputo), patente no facto de o PIB per capita ter ultrapassado os 210 dólares em 2002, nível diminuto mas que representa uma melhoria assinalável face aos 60 dólares estimados uma década antes.
Com a estabilidade política preservada, a estabilidade macroeconómica em consolidação, um ambiente relativamente favorável à iniciativa privada e os apoios da comunidade internacional a afluírem de forma significativa, Moçambique foi atraindo investimento estrangeiro, com destaque para o proveniente da África do Sul, (pela dimensão económica e proximidade geográfica), principal parceira de Moçambique em quase todos os domínios, embora deixando espaço para as empresas portuguesas se afirmarem na posição imediata.
Ilhas e tabancas
Cabo Verde é, de entre os cinco PALOP, o país cujos indicadores de desenvolvimento melhor evoluíram desde a independência, com um regime democrático consolidado e uma economia pujante que cresceu 6% ao ano desde a instauração do multipartidarismo, em 1991. Bem dotada (sobretudo no panorama africano) em recursos humanos ou infra-estruturas físicas e jurídico-administrativas, com um historial de estabilidade financeira globalmente positivo, a economia cabo-verdiana liberalizou-se e abriu-se ao exterior no decurso da década de 90, com reflexos na pujança e na modernização notória das actividades mais dinâmicas, como, os serviços e o turismo. Aproveitando de forma exemplar as afinidades existentes, as empresas portuguesas destacam-se claramente entre os parceiros da economia cabo-verdiana, assumindo o papel principal como fornecedoras de mercadorias (mais de metade do total no período 1998/2002, com tendência crescente) ou investidoras (nos mais variados sectores, sobressaindo a actividade financeira, o turismo, as telecomunicações e a energia), mas também, como clientes do reduzido sector exportador de mercadorias (mais de 90% do total em 2001/02). Portugal afirma-se ainda, na segunda ou primeira posição, como país de origem dos turistas e das remessas de emigrantes, definindo assim uma relação de proximidade sem par no contexto lusófono.
São Tomé e Príncipe tem estado em foco, nos últimos anos, sobretudo por duas razões: a instabilidade política e a extracção de petróleo − factor este que deverá marcar uma alteração crucial no funcionamento da economia santomense já a partir do ano em curso, quando derem entrada as primeiras receitas resultantes da atribuição das licenças de exploração (estimadas em mais que 250% do PIB), embora o início da produção só esteja previsto para 2012, caso se confirme a viabilidade comercial. Poderão, assim, abrir-se novas perspectivas para uma economia marcada pelo isolamento e pela estreiteza da base produtiva − onde predominam as actividades terciárias de baixo valor acrescentado e as primárias de subsistência (em paralelo com outras culturas, como o café e, sobretudo, o cacau, outrora florescente mas em acentuado declínio).
A concretização de tais perspectivas contará certamente com o contributo das empresas portuguesas, que também no caso santomense se destacam entre os parceiros externos, assegurando mais de metade das importações de mercadorias − a culminar uma tendência crescente encetada em meados da década de 90 (em paralelo com o desenvolvimento da actividade turística, incontestável ponto forte do país). Se a sociedade santomense tem sido afectada pela instabilidade política, a Guiné-Bissau pode queixar-se muito mais do mesmo − com a agravante de tal instabilidade ter chegado a redundar em conflito armado e de não haver a perspectiva do petróleo (as jazidas que se sabe existirem estão ainda longe de qualquer tipo de aproveitamento comercial).
Além do sofrimento imposto às populações, o golpe militar de 1998 e as suas sequelas resultaram numa contracção da economia equivalente a cerca de 23% até 2002, com uma significativa deterioração das infraestruturas e uma retracção generalizada do já escasso investimento estrangeiro. Foi o caso das empresas portuguesas, ainda as principais fornecedoras de mercadorias e fortemente presentes no reduzido mercado guineense até essa altura (desde a banca ao turismo, passando pela produção de cerveja).
Projecção Internacional da Comunidade de Sant'Egídio no Mundo (Madalena Moita)
PROJECÇÃO INTERNACIONAL DA COMUNIDADE DE SANT'EGÍDIO NO MUNDO
Madalena Moita
A enorme estrutura que sustenta a Igreja Católica permitiu-lhe ocupar um lugar privilegiado na promoção da paz, nomeadamente, quando esta é entendida não como a mera ausência da violência, mas quando se associa a um desenvolvimento social, económico e cultural dos indivíduos. Nos anos 60, a figura do Papa João XXIII, promotor do Concílio do Vaticano II e autor da encíclica Pacem in Terris, e do seu sucessor Paulo VI acentuaram o compromisso da Igreja com a paz. O Concílio, que se realizou entre 1962 e 1965, assinalou a grande viragem na relação da Igreja Católica com o mundo, estabelecendo novas linhas de acção assentes, fundamentalmente, na igualdade de todos os homens, na solidariedade com os mais necessitados e na primazia da Palavra de Deus. Das decisões do Concílio derivaram vários instrumentos importantes para a promoção da paz, designadamente, a criação de Comissões de Justiça e Paz, com o objectivo de “estimular a comunidade católica para promover o desenvolvimento dos países pobres e a justiça social internacional” (1).
Na Cúria Romana foi assim integrado o Conselho Pontifício Justiça e Paz, que ainda hoje organiza programas sobre o controlo de armas ligeiras, a abolição de minas anti-pessoal ou o perdão da dívida aos países do Terceiro Mundo. Muitas figuras da hierarquia católica aproveitaram também a sua visibilidade internacional para exercerem o que se chama de “diplomacia de consciência”. Um bom exemplo é o do Papa João Paulo II, que fez questão em insistir na internacionalização do Papado, com viagens frequentes a Estados fragilizados no quadro geopolítico. Mas é também o caso de Dom Samuel Ruiz de Chiapas, que chamou a atenção para os direitos dos indígenas, sendo mais tarde chamado a mediar as negociações entre zapatistas e o governo mexicano; do bispo Ximenes Belo, que atraiu o mundo para a causa maubere, tendo sido galardoado com o Prémio Nobel da Paz juntamente com Ramos Horta; ou dos bispos guatemaltecos, que desempenharam um papel essencial de incentivo às negociações internas e de defesa dos direitos humanos. Habituados ao contacto com as populações, os homens da Igreja são, muitas vezes, persistentes e criativos, com uma enorme capacidade de resolverem problemas, mesmo com poucos recursos.
A Igreja Católica goza de uma forte estrutura e de um enorme apoio internacional assente na sua autoridade moral, factores que favorecem a sua proximidade e trabalho com os mais desfavorecidos, ao contrário das instituições civis, que muitas vezes não têm capacidade financeira ou logística, ou estão dependentes de interesses políticos e económicos de quem as sustenta, pelo que não têm tanta liberdade de acção. Pela capacidade de criar redes de solidariedade entre comunidades, de ajudar na construção de instituições locais, como escolas e hospitais, a Igreja é mais eficaz na construção da paz, pelo combate às causas estruturais dos conflitos, mas menos útil na resolução directa das contendas. Ainda assim, pequenos grupos ligados à Igreja conseguem assegurar um lugar privilegiado naquilo que se designa como multi-trackdiplomacy, acompanhando a diplomacia tradicional com soluções criativas e informais pela maior proximidade com as populações. A Comunidade de Sant’Egídio escreveu a história de um desses casos em que membros da Igreja Católica foram bem sucedidos na resolução de um conflito.
A Comunidade de Sant’Egídio
Em 1968, num ano muito peculiar de forte mobilização estudantil, um grupo de alunos do Liceo Virgílio di Roma decide fundar uma organização cristã voluntária de solidariedade, onde pudessem partilhar, mas também pôr em prática o Evangelho, pelo combate à miséria. A liderar o grupo, o jovem Andrea Riccardi, incentivado pela abertura da Igreja na década de 60 e inspirado no exemplo e percurso de São Francisco de Assis, acredita na oração como momento de comunhão e diálogo entre todos os homens. Destas influências nascem as raízes da vontade de proximidade com os mais desprotegidos, e de convivência com outros povos e religiões. Sant’Egídio assume assim a sua essência romana, sendo Roma a capital da Igreja Católica, mas também centro privilegiado de encontro com outras confissões; assim como a sua veia mediterrânea, que a aproxima igualmente de outros povos e credos. De início, o grupo de estudantes visita os bairros populares de Roma, onde começa por dar apoio escolar às crianças mais necessitadas. Com o desígnio de ajudar os desfavorecidos, a Comunidade de Sant’Egídio deixa-se adoptar por Trastevere, o bairro popular romano do lado de lá do rio, do lado de lá da Roma capital da Itália próspera.
Trastevere, historicamente bairro de judeus e estrangeiros, alberga ainda hoje significativos grupos marginais da sociedade: pobres, ciganos, toxicodependentes, sem abrigo. Todos se habituaram a ser bem recebidos na Basílica de Santa Maria in Trastevere e no antigo convento carmelita que lhe é vizinho, onde se fixou a sede da Comunidade. O pároco da Basílica é Don Matteo Zuppi: desde 1971 membro da Comunidade, também ele antigo aluno do Liceo, ocupa um dos lugares de maior relevância no seio de Sant’Egídio. A devoção religiosa e a vontade de trabalho levou, nos anos 80, a Comunidade a partir mundo fora: hoje tem mais de 40.000 membros e 300 grupos locais espalhados por toda a Itália, mas que se alargaram aos vários continentes, de Moçambique a Nova Iorque, de Salvador à Indonésia. Da Comunidade depende uma ONG que tem projectos de cooperação e desenvolvimento com os países africanos e latino-americanos – Amigos no Mundo (Amici nel Mondo); e uma Fundação pela Paz, que coordena os esforços no domínio da resolução de conflitos.
Sant’Egídio no mundo
O ecumenismo foi um dos pontos de partida do trabalho internacional da Comunidade, cuja primeira consecução foi o encontro entre o Patriarca católico grego Maximos V. Hakim e o líder druzo (uma das facções muçulmanas) Walid Jumblatt do Líbano. Membros de Sant’Egídio conseguiram reunir estes dois líderes religiosos libaneses para discutir a importância dos últimos pontos de convívio entre as duas religiões no Líbano, as aldeias cristãs do Chouf. Em África, o apelo humanitário levou a Comunidade a estender o seu compromisso com os mais pobres a outros continentes, facilitando as necessidades mais básicas a povos da Namíbia, da Etiópia, da Eritreia ou do Sul do Sudão. É por via deste envolvimento voluntário com a pobreza extrema em África que a Comunidade se apercebe de que todo o trabalho é vão onde a guerra está presente. Em Moçambique, Sant’Egídio via o seu trabalho diário ser travado por um conflito político que afectava transversalmente toda a sociedade, impedindo qualquer esforço de melhoria das condições de vida da população moçambicana. A guerra civil fragilizava um país já de si depauperado por anos de guerra colonial e por acidentes naturais que teimavam em destruir as expectativas dos moçambicanos. As crianças trocavam os livros por armas, os homens desaprendiam os seus ofícios para se dedicarem ao conflito, toda a economia girava em torno da guerra.
A morte, no terreno, de dois dos seus membros terá acentuado a vontade da Comunidade de mudar o rumo da guerra civil que arrasava o país. A profunda integração no terreno e o contacto directo com os envolvidos permitiu a Sant’Egídio desenvolver laços de confiança com ambas as partes em conflito, primeiro passo essencial para o diálogo que entre elas conseguiu estabelecer. O caso bem sucedido da mediação do processo de paz em Moçambique marcou definitivamente o lugar da Comunidade no campo da diplomacia não convencional, dando-lhe uma imensa visibilidade internacional. (Ver texto sobre o caso particular da mediação da paz em Moçambique). Findo o caso moçambicano – com a assinatura do Acordo de Paz entre a RENAMO e a FRELIMO, em 1992 – durante o encontro inter-religioso em Assis, foi pedido à Comunidade de Sant’Egídio auxílio na crise política argelina.
A Comunidade chega à Argélia com a certeza da necessidade de reconhecer e estabelecer contacto com os dois antagonistas em conflito: o governo e os grupos extremistas islâmicos. Era urgente voltar a circunscrever o confronto ao campo político e fazer as partes largar as armas e retomar o diálogo. A 13 de Janeiro de 1995 é assinada a Plataforma de Roma, resultado da reunião de membros da Frente de Libertação Nacional (FLN) com vários elementos da oposição argelina, como a Frente Islâmica de Salvação (FIS) e a Frente das Forças Socialistas (FFS), mas também partidos políticos menores e diversas personalidades argelinas. O conflito na Argélia não está terminado; o governo não aceitou a Plataforma e até foi o FIS quem mais se comprometeu com a via política, declarando o cessar-fogo unilateral. No entanto, a Plataforma de Roma é, ainda hoje, o documento mais avançado no caminho da paz, servindo de base fundamental para um futuro consenso político.
A presença da Comunidade na América Latina trouxe também bons frutos, nomeadamente, com a ajuda no processo de paz da Guatemala. A mediação entre o governo e a União Revolucionária Nacional da Guatemala (URNG) estava nas mãos das Nações Unidas. Contudo, o processo tinha bloqueado na definição de prioridades e estava parado havia mais de um ano. A Comunidade de Sant’Egídio promoveu em São Salvador encontros secretos e informais entre as duas partes em conflito, limitando-se a criar um ambiente de confiança, propício ao diálogo entre ambas. Estes encontros tornaram possível retomar as negociações oficiais sob os auspícios da ONU e, em Dezembro de 1996, assinar o Acordo de Paz na Cidade do México. Também na Europa, onde os confrontos inter-religiosos vieram perturbar a tranquilidade do Velho Continente, a contribuição de Sant’Egídio para a resolução pacífica de conflitos foi precisa. Ao fim de um ano de trabalho, a Comunidade conseguiu juntar o líder dos albaneses do Kosovo, Dr. Ibrahim Rugova, e o presidente jugoslavo, Slobodan Milosevic, para a assinatura do acordo, em Março de 1998, que permitiu a reabertura das escolas e universidades às crianças e adolescentes de origem albanesa, depois de cinco anos de marginalização. Mas a guerra, em 1999, deitou por terra os esforços de pacificação entre as duas comunidades.
Contudo, este esforço pela normalização do sistema educativo veio consumar a já proveitosa presença da Comunidade nos Balcãs, onde garantia, como ainda hoje, condições sociais mínimas às populações, facilitando a convivência das diferentes comunidades étnicas. Estes são apenas – ficando por referir muitos outros – alguns dos exemplos que comprovam o êxito do compromisso de Sant’Egídio com as causas humanitárias e com a não-violência na resolução de conflitos. A extraordinária tolerância e o empenho na promoção do diálogo garantiram à Comunidade um papel político, ainda que o propósito inicial passasse meramente pela preocupação com os que mais sofrem e a vontade de os servir. Por maior que seja o empenho nas questões da paz, a Comunidade conhece as suas limitações e soube desde cedo pedir reforços a instituições de cariz diferente que pudessem complementar o seu trabalho nas áreas em que é menos eficaz.
Sant’Egídio gosta, assim, de promover uma sinergia de esforços entre os meios informais de diplomacia de que dispõe – que possibilitam maior proximidade e confiança com as partes em conflito – com os meios tradicionais, capazes de assegurar garantias políticas, financeiras, de segurança ou logísticas que a comunidade já não pode afiançar. A capacidade de apelar ao auxílio de outras entidades é, com efeito, um dos segredos do êxito da Comunidade italiana. As “Nações Unidas de Trastevere”, como ficou conhecida a Comunidade de Sant’Egídio, ganhou vários prémios de reconhecimento pelo enorme esforço pela paz e pela ajuda humanitária, dos quais devemos sublinhar o Prémio da Paz Félix Houphouët-Boigny, da UNESCO, atribuído, em 1999, à Comunidade; a Medalha Gandhi, também da UNESCO, entregue a Andrea Riccardi e a Vincenzo Paglia no mesmo ano; e a candidatura ao Prémio Nobel da Paz feita pelo Parlamento Italiano em 2002.
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(1) Concilio Vaticano II Gaudium et Spes n.º 90.
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A comunidade de Sant'Egídio em Moçambique (Madalena Moita e Matteo Zuppi)
A COMUNIDADE DE SANT'EGÍDIO EM MOÇAMBIQUE
Madalena Moita e Matteo Zuppi
A Comunidade de Sant’Egídio chegou a Moçambique em meados da década de 80, quando o país vivia já uma longa guerra civil que tinha rebentado poucos meses depois da sua independência formal, em Junho de 1975. A FRELIMO – Frente de Libertação de Moçambique –, movimento que tinha conduzido a luta, desde 1962, contra o “colonialismo português”, tinha garantido nos acordos de Lusaca, em Setembro de 1974, que o poder lhe seria concedido após nove meses de transição. Em Junho de 1975, Samora Machel torna-se o primeiro Presidente da República Popular de Moçambique, onde estabelece um regime marxista com base na centralização do poder estatal e na ruptura com as autoridades tradicionais, assim como com aquelas, como a Igreja Católica, que ficaram da herança colonial portuguesa. Um ano depois, os regimes de minoria branca das vizinhas Rodésia e África do Sul vão promover a criação de um Movimento de Resistência Moçambicana (mais tarde RENAMO), de forma a minar o Estado marxista recém-formado que apoiava as resistências negras, respectivamente a ZANU (União Nacional Africana do Zimbabué) de Robert Mugabe e o ANC (Congresso Nacional Africano) de Nelson Mandela.
A RENAMO vai também gozar de um apoio tácito dos Estados Unidos, numa tentativa de contrariar as influências soviéticas próximas ao governo da FRELIMO. Inscrito neste quadro regional e internacional, o conflito moçambicano vai beneficiar das grandes mudanças de finais do anos 80 e início dos 90, que transformaram o panorama político no mundo. Acontecimentos como o declínio do regime de minoria branca de Ian Smith, na Rodésia, e a consequente ascensão de Mugabe ao poder no novo Zimbabué, a queda do Muro de Berlim em 1989, a independência da Namíbia em 1990 e o fim do apartheid na África do Sul alteraram por completo o sistema de alianças da RENAMO e da FRELIMO, abrindo o caminho para a resolução do conflito, agora circunscrito apenas às quezílias internas.
Sant’Egídio: a aproximação às duas partes em conflito
É Dom Jaime Gonçalves – bispo da Beira que mantinha contactos privilegiados com membros da Comunidade desde os seus tempos de estudante em Roma – que vai estabelecer os primeiros contactos com Sant’Egídio. Reconhecendo não só o trabalho humanitário já desenvolvido pela Comunidade, mas, também, a sua capacidade de semear a boa convivência e o diálogo em sociedades instáveis, Dom Jaime dá-lhes a conhecer a situação que se vivia em Moçambique. O bispo procurava de alguma forma tratar a fragilidade social dos moçambicanos, vítimas de anos seguidos de guerra civil, mas tentava, também, reatar as relações entre o Estado e a Igreja, a qual sofria com a política repressiva da FRELIMO contra o que dizia ser um dos “redutos do colonialismo”. Sendo estes os objectivos que conduzem a Comunidade de Sant’Egídio a Moçambique, o seu envolvimento no terreno vai evoluir no sentido da mediação do conflito, por reconhecer a necessidade absoluta da paz para os garantir.
A par com a importante acção humanitária junto da população que, necessariamente, se dirigia às zonas rurais, mais pobres, maioritariamente sob controlo da guerrilha, os membros da Comunidade romana vão desenvolver no terreno estratégias de aproximação ao governo da FRELIMO, estabelecendo, assim, laços de profunda cooperação e entendimento com cada um dos lados do conflito. Livre de constrangimentos políticos ou interesses económicos, a Comunidade pôde aproximar-se da RENAMO, a guerrilha que pecava pela falta de legitimidade política e de reconhecimento internacional e que tinha como único trunfo continuar a minar o poder estatal através da guerra. Em boa verdade, a guerrilha definia-se apenas pela oposição à FRELIMO: sem uma identidade política coerente, usava a luta armada para combater um governo que acreditava ter tomado o poder pela via não democrática. O facto de a Comunidade estar ligada à Igreja transmitia segurança à RENAMO, em oposição à política hostil que o governo levava a cabo contra as hierarquias católicas moçambicanas.
Pela fraca visibilidade internacional de que gozava, a Comunidade de Sant’Egídio permitiu-se organizar encontros informais e secretos, em Roma, com Dhlakama, onde propôs ao líder da guerrilha um encontro com a FRELIMO. Em Julho de 1990, ainda como mero observador, Sant’Egídio recebe as duas delegações em Roma – a da FRELIMO, chefiada por Armando Guebuza, e a da RENAMO por Raul Domingos – numa primeira tentativa de iniciar o diálogo. Este era o primeiro passo essencial do processo de mediação: o reconhecimento mútuo dos adversários, a legitimidade que cada um confere ao seu rival para se sentar à mesa das negociações. A seu favor, a Comunidade contava com a exaustão vivida no terreno, que os seus membros tinham presenciado e que ambas as partes reconheciam agora, assumindo que uma vitória militar seria pelo menos custosa, se não impossível.
A promoção a mediadores
Em Novembro desse mesmo ano, as delegações voltam a encontrar-se na capital italiana onde dois membros de Sant’Egídio, por opção dos beligerantes, ascendem à condição de mediadores. Andrea Riccardi, fundador da Comunidade, e Matteo Zuppi, pároco da Basílica de Santa Maria in Trastevere, também ele figura de destaque de Sant’Egídio, vão ser acompanhados ao longo de todo o processo por dois homens de grande mérito. São eles Mário Raffaeli, um parlamentar do Partido Comunista Italiano com grande experiência diplomática, que tinha representado o governo italiano na crise da Somália e na questão do Nagorno-Karabakh no quadro da OSCE, e o bispo da Beira, Dom Jaime Gonçalves, que representava o vínculo moçambicano no quadro da mediação. É com a ajuda destes quatro mediadores que, no encontro, é estabelecido o cessar-fogo parcial nos corredores da Beira e do Limpopo, pontos estratégicos, respectivamente, de ligação por via férrea ao mar e de infra-estruturas energéticas.
Para controlar o compromisso com estas duas linhas de defesa é criada a COMIVE (Comissão de Verificação), constituída por elementos de oito países, quatro escolhidos pela RENAMO – Quénia, Portugal, EUA e Zâmbia – e outros quatro pela FRELIMO – Congo, França, Reino Unido e União Soviética. A constituição da COMIVE marca a primeira chamada de outros actores ao processo de paz, sendo um dos maiores factores de sucesso da Comunidade de Sant’Egídio a capacidade de pedir ajuda a instituições, pessoas e governos com capacidades complementares à sua, para darem conselhos sobre problemas técnicos e políticos e para facilitarem meios logísticos e financeiros que a Comunidade não podia assegurar. Os encontros sucedem-se entre avanços e recuos e, em Maio de 1991, o correr das negociações prende-se com a definição da agenda. As prioridades do governo e da guerrilha são naturalmente diferentes e vão ser os próprios mediadores a esboçar um Preâmbulo dos acordos de paz, que ajudaria a definir o ritmo mais adequado para a deliberação de questões sensíveis como a lei sobre os partidos, a lei eleitoral ou a criação de um exército nacional. Optou-se por dar, em primeiro lugar, atenção aos compromissos mais simples, por forma a cultivar um ambiente de confiança entre os adversários, e deixar para mais tarde os obstáculos mais significativos.
Um percurso atribulado
No Verão de 1991, os combates no terreno pareciam contradizer as negociações conduzidas em Roma, gerando críticas duras à Comunidade de Sant’Egídio, acusada de deixar arrastar o processo. Nesse momento, multiplicam-se as iniciativas da sociedade civil nacional e internacional contra a guerra, frequentemente encabeçadas pela Igreja Católica. As delegações da RENAMO e da FRELIMO recebem petições de moçambicanos, de ONG’s e governos europeus que apelam ao compromisso com a paz. No Outono, aparecem os efeitos destes rasgos de mobilização: as negociações são retomadas, encontrando-se um consenso sobre as eleições, a realizar no ano seguinte à assinatura do Acordo de Paz, sob supervisão da ONU e da OUA, e em Dezembro, a RENAMO organiza o seu segundo Congresso, aprofundando o empenho na via política. Ainda em Dezembro de 1991, os mediadores apresentam uma proposta de Lei Eleitoral, uma questão sensível para a RENAMO, que tinha receio de sair prejudicada se fosse atribuída cidadania a quem tivesse lutado ao lado da FRELIMO (absorvendo assim as tropas do Zimbabué, que em eleições votariam no actual governo) e que se criassem leis eleitorais que excluíssem os seus guerrilheiros por crimes de guerra.
Nesta ronda de negociações, ficaram decididas questões basilares como a liberdade de imprensa ou de propaganda política, e ficou estabelecido que os refugiados teriam direito de voto ao regressarem a Moçambique e que a exclusão deste direito aos cidadãos condenados por crimes de direito comum “não era aplicada a elementos dos partidos políticos por actos cometidos em acções de guerra”(alínea b, ponto 2, Capítulo V do Protocolo III sobre a Lei Eleitoral). O processo da resolução do conflito lançava assim as bases da reconstrução do Estado, definindo os alicerces mínimos da nova democracia moçambicana. A Comunidade de Sant’Egídio foi pedindo a colaboração de alguns peritos para assistirem às negociações e aconselharem as partes quando se tratassem os pontos mais controversos, alguns de cariz meramente técnico, como a criação de corpos de polícia ou a estrutura de comandos do exército nacional a criar. Foi assim que Portugal, os EUA, o Reino Unido, a França e elementos da ONU passaram a ter assento nestas reuniões, contribuindo, também eles, para o avanço do processo de paz.
Ao fim de um ano de conversações, a pressão para um encontro entre os líderes do conflito – Afonso Dhlakama da RENAMO e Joaquim Chissano da FRELIMO – crescia a cada batalha ganha no caminho para a paz. Nas preparações deste encontro, Dhlakama vai até ao Botswana, onde se reúne com Mugabe, num visível esforço da guerrilha para contrariar o seu isolamento no quadro internacional. Robert Mugabe vai ser, aliás, uma figura de destaque ao longo das negociações, estando presente no momento em que, finalmente, Chissano e Dhlakama se encontram, em Roma, entre 4 e 7 de Agosto de 1992, conferindo maior consistência ao processo, como símbolo de legitimação africana. Nesse encontro em Roma, de grande importância simbólica, fica acordada a fiscalização pela comunidade internacional, sob a égide da ONU, do cumprimento do Acordo de Paz. Nos três meses finais das negociações, são discutidos, minuciosamente, os problemas mais delicados, como as questões militares, o cessar-fogo definitivo e as garantias a conceder às partes. Sobre a concessão de garantias à RENAMO, podemos sublinhar a importância da comunidade internacional, pelo avultado incentivo financeiro que concedeu à guerrilha para a sua transição para partido político.
Neste ponto, não podemos deixar de referir que as mais significativas contribuições vieram da Itália e da Lonhro, uma companhia multinacional sedeada no Reino Unido, com uma filial em Moçambique, na pessoa de “Tiny” Rowlands. A partir do momento em que entendeu que a guerra prejudicava os interesses da companhia, Rowlands empenhou-se, com os meios de que dispunha, na ajuda ao processo de pacificação em Moçambique. Facilitou a mobilidade dos homens da RENAMO ou dos mediadores que iam ao seu encontro até às montanhas de Gorongosa, ganhando assim grande proximidade e confiança junto aos homens da guerrilha, chegando mesmo a servir de conselheiro informal de Dhlakama. Como outros actores que fomos referindo, a presença de “Tiny” Rowlands neste processo foi fundamental.
Perante um conflito complexo e multidimensional, no qual se vão imiscuindo influências diversas e se jogam interesses regionais e mundiais, de carácter não só político, mas também militar e económico, emerge uma resposta também ela variada, multinacional, com uma matriz muito pouco convencional. O grande sucesso desta mediação, que pôs termo ao conflito moçambicano, conduzindo à assinatura por Chissano e Dhlakama do Acordo Geral de Paz, a 4 de Outubro de 1992, fez-se pela conjugação de esforços diferentes e complementares, entre o trabalho informal e de proximidade da Comunidade, que conseguiu, pacientemente, apontar uma via pacífica, sem nunca a impor aos beligerantes, e o apoio de outros actores que garantiram legitimidade ao processo e compensaram algumas dificuldades logísticas e financeiras próprias de uma comunidade como Sant’Egídio.
Informação Complementar
CARACTERÍSTICAS QUE PERMITIRAM O SUCESSO DE SANT’EGÍDIO EM MOÇAMBIQUE
• Conhecimento – conhecimento do conflito, não só das suas raízes históricas mas, também, das preocupações e aspirações dos que o vivem.
• Desprendimento – ausência de interesses políticos, económicos ou outros, sendo o único motivo que leva ao seu envolvimento o compromisso com a paz e com os que mais sofrem.
• Imparcialidade – não toma partido no conflito, tendo neutralidade e maturidade suficiente para aceitar sentar todos os lados à mesma mesa.
• Discrição – goza de um estatuto pouco relevante no plano internacional, o que lhe permite trabalhar de forma discreta e informal, que ainda hoje privilegia, por permitir uma maior liberdade de actuação.
• Criatividade e Perseverança – encontro de soluções imaginativas quando as negociações encaravam novos obstáculos.
• Flexibilidade – a Comunidade não está presa a estatutos e formalidades rígidos, o que lhe permite uma maior liberdade de acção.
• Oportunidade – saber escolher o melhor ritmo para a agenda de trabalhos.
• Multidimensionalidade – o trabalho pela paz não é feito exclusivamente à mesa das negociações, com os líderes, mas de uma forma transversal a toda a sociedade, pelo contacto com as populações.
• Consenso – nunca se impôs como negociador, nem detinha poder coercitivo, e o seu papel de mediação era reclamado pelos beligerantes.
• Contactos – possui uma rede extensa de contactos, que lhe permite funcionar bem dentro do meio.
• Realismo – a comunidade reconhece as suas limitações, pelo que pediu sempre ajuda de outros actores para complementarem o seu trabalho em áreas que não conseguia assegurar.
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A dinâmica do Instituto Camões no espaço CPLP (Inês Costa Pessoa)
A DINÂMICA DO INSTITUTO CAMÕES NO ESPAÇO CPLP
Inês Costa Pessoa
O Instituto Camões, criado em 1992, tem como objectivo genérico a divulgação da língua e cultura portuguesas no estrangeiro, actuando através de três eixos: diplomático-consular, artístico-cultural e científico-académico. É no espaço CPLP que o Instituto concentra grande parte da sua dinâmica – 11 de entre os 19 Centros Culturais criados concentram-se em países da CPLP, dos 20 Centros de Língua Portuguesa criados, 10 encontram-se em países da CPLP. Por outro lado tem-se vindo a verificar a consolidação da rede de docência, a atribuição de bolsas de estudo e de investigação, etc.
Vocacionado para divulgar a língua e cultura portuguesas no estrangeiro, o Instituto Camões (IC) figura, desde a sua criação em 1992 (data em que toma o lugar do Instituto de Cultura e Língua Portuguesa - ICALP) (1), como uma das mais importantes plataformas de promoção e afirmação da identidade lusófona além fronteiras. Esta afirmação é particularmente estimulada e estimulante num tempo em que proliferam os receios – deveras discutidos e sempre questionáveis – de anulação ou silenciamento das culturas nacionais e locais perante um processo de globalização (entendido como sinónimo de “americanização” e “europeização”), por muitos considerado hegemónico e homogeneizante.
Por conseguinte, é a esta entidade que cabe, em parceria com outros organismos estatais – designadamente o Instituto da Cooperação Portuguesa (agora APAD), os Ministérios da Cultura, da Educação, do Ensino Superior e da Ciência, pôr em prática os vectores prioritários da política cultural externa portuguesa, onde é dado especial destaque à questão linguística, isto é, à multiplicação do número de falantes de português. Mas não só. Visa, em concomitância, fazer chegar Portugal aos quatro cantos do mundo nas mais diversas dimensões artístico-culturais, como a história, o património e a arquitectura, a literatura e a poesia, as artes plásticas, performativas e cinematográficas, a fotografia...
Esferas de actuação do IC
Com vista à concretização dos objectivos assinalados, a esfera de intervenção do IC desdobra-se em uma tríade de eixos fundamentais: diplomático-consular (a cargo das embaixadas e consulados); artístico-cultural (dinamizada pelos Centros Culturais) e científico-académica (ao cuidado dos Centros de Língua Portuguesa, Universidades e Institutos Superiores).
Progressivamente dilatadas, as acções empreendidas contemplam iniciativas tão diferentes quanto complementares. De entre elas destacamos as seguintes:
Celebração de acordos ou protocolos de cooperação com países terceiros que estimulem a difusão da língua portuguesa no estrangeiro e a promoção da cultura lusófona;
Implementação, coordenação e dinamização das iniciativas empreendidas nos centros culturais e de língua portuguesa;
Ampliação e consolidação da rede de docência em universidades estrangeiras (formação de leitores e criação de cátedras);
Investimento na rede de bibliotecas (dotando-as de melhores equipamentos e ampliando os fundos documentais);
Atribuição de bolsas de estudo e financiamento de projectos de investigação nas áreas da educação, investigação e criação artística que se debrucem em torno da língua e cultura lusas, bem como apoio à edição de obras escritas em português;
Fomento de contactos e estabelecimento de parcerias com entidades congéneres, instituições de âmbito cultural, universidades e consulados;
Apoio à representação portuguesa em eventos no estrangeiro, de modo a conferir visibilidade aos signos de portugalidade, valorizando-os (é o caso da participação nas feiras do livro, espectáculos e exposições);
Incentivo ao intercâmbio cultural e educativo;
Organização de encontros internacionais (congressos, seminários, cursos) em torno da língua e cultura lusófona.
Dinamização do recém-criado Centro Virtual Camões, um espaço privilegiado para dar a conhecer, a uma rede que se pretende cada vez mais ampla, a língua, lugares, personalidades, informações e criações nacionais e que, pelo facto de estar disponível online, goza da vantagem de contribuir, sem constrangimentos físico-espaciais, para o cumprimento dos propósitos do Instituto.
É de assinalar ainda que, para além da elaboração de programas próprios, susceptíveis de disseminar pelo mundo os signos linguísticos e culturais portugueses, este organismo tem incentivado e publicitado iniciativas públicas e privadas, nacionais e internacionais em torno da produção, distribuição e consumo da cultura lusófona.
Instituto Camões no espaço CPLP
O português, falado por mais de 200 milhões de indivíduos, figura como a terceira língua materna europeia com maior representação mundial, a sexta mais falada no mundo, sendo ainda o idioma oficial dos oito Estados que compõem a Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) constituída em 1996 – Portugal, Brasil, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Moçambique e Timor-Leste, o mais recente membro –, daí o estatuto de veículo estratégico de comunicação internacional que lhe vem sendo reconhecido.
Estes países têm ocupado um lugar distintivo na política externa cultural portuguesa: Portugal assinou até hoje mais de 70 acordos culturais, dos quais cerca de duas dezenas com membros da CPLP. Porém, se muitas vezes os acordos e protocolos não passam de meras declarações de intenções incapazes de converter-se em práticas efectivas, a crescente proliferação de Centros Culturais e de Língua Portuguesa no espaço lusófono, a consolidação da rede de docência nestes países, a atribuição de bolsas de estudo e investigação a estudantes nacionais do espaço CPLP, a criação do Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP), o apoio à edição e a atribuição anual do Prémio Camões (2) a autores lusófonos, entre vários outros exemplos, são testemunhos vivos do real interface entre Portugal e os mesmos.
De um total de 19 Centros Culturais (incluindo os pólos) criados pelo IC no mundo, 11, isto é metade, estão concentrados na área CPLP. Dos 20 Centros de Língua Portuguesa implementados em 16 países (3), 10 figuram nesse mesmo espaço. Em termos de projectos futuros na área CPLP, o IC visa incrementar o número de Centros Culturais, e também acentuar a colaboração com instituições locais, mediante o accionar de programas específicos de cooperação. Sendo a valorização do português nos territórios que integram a CPLP um objectivo premente do IC, a dinamização do IILP e o seu envolvimento na criação do Instituto Internacional de Línguas Oficiais (INLO) em Timor-Leste lideram a lista de prioridades desta entidade.
Em conclusão, registe-se que, apesar de o espaço da CPLP constituir um dos palcos estratégicos da política cultural externa portuguesa, é imprescindível reavivar e intensificar os laços históricos e culturais que unem o país aos demais parceiros desta comunidade, para que a mesma não se esgote, como por vezes aparenta, na mera afinidade linguística.
__________
1 A partir de 1994, o IC passa a ser tutelado pelo MNE, superintendência que até esta data permanecia a cargo do ME.
2 Este galardão é atribuído conjuntamente, desde 1989, pelo Instituto Camões e o Instituto Nacional do Livro Brasileiro.
3 Encontram-se em fase de instalação mais nove Centros de Língua Portuguesa. Agradecemos a incansável colaboração da Dra. Ana Paula Duarte e do Dr. Jorge Encarnação.
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Frelimo: A emancipação da mulher num programa revolucionário
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11 de dezembro de 2008
A todos um Bom Natal (Lúcia Carvalho)
A Todos Um Bom Natal
Refrão
A todos um Bom Natal
A todos um Bom Natal
Que seja um Bom Natal, para todos vós
Que seja um Bom Natal, para todos vós
No Natal pela manhã
Ouvem-se os sinos tocar
E há uma grande alegria, no ar
Refrão
A todos um Bom Natal
A todos um Bom Natal
Que seja um Bom Natal, para todos vós
Que seja um Bom Natal, para todos vós
Nesta manhã de Natal
Há em todos os países
Muitos milhões de meninos, felizes
Refrão
A todos um Bom Natal
A todos um Bom Natal
Que seja um Bom Natal, para todos vós
Que seja um Bom Natal, para todos vós
Vão aos saltos pela casa
Descalças ou com chinelos
Procurar suas prendas, tão belas
Refrão
A todos um Bom Natal
A todos um Bom Natal
Que seja um Bom Natal, para todos vós
Que seja um Bom Natal, para todos vós
Depois há danças de roda
As crianças dão as mãos
No Natal todos se sentem irmãos
Refrão
A todos um Bom Natal
A todos um Bom Natal
Que seja um Bom Natal, para todos vós
Que seja um Bom Natal, para todos vós
Se isto fosse verdade
Para todos os Meninos
Era bom ouvir os sinos tocar.
Refrão
A todos um Bom Natal
A todos um Bom Natal
Que seja um Bom Natal, para todos vós
Que seja um Bom Natal, para todos vós
Lúcia Carvalho
8 de dezembro de 2008
O sonho do Pai Natal (Vaz Nunes)
O SONHO DO PAI NATAL O Pai Natal sonhou um sonho lindo, tão lindo que não queria acordar. E não queria acordar porque neste ano os Humanos encheram-se de boa vontade e fizeram um acordo de Paz, que silenciou todas as armas. Em todos os cantos do planeta, mesmo nos lugares mais recônditos da Terra, as armas calaram-se para sempre e os carros de combate e outras máquinas de guerra foram entregues às crianças para neles pintarem flores brancas de paz. O Pai Natal sonhou um sonho lindo, tão lindo que não queria acordar. E não queria acordar porque nesse sonho não havia fome: em todas as casas havia comida, havia até algumas guloseimas para dar aos mais pequenos. Mesmo as crianças de países outrora pobres tinham agora os olhos brilhantes, brilhantes de felicidade. Todas as crianças tinham acabado de tomar um esplêndido pequeno-almoço e preparavam-se para ir para a escola, onde todos aprendiam a difícil tarefa de crescer e ser Homem ou Mulher. O Pai Natal sonhou um sonho lindo, tão lindo que não queria acordar. E no seu sonho não havia barracas, com água a escorrer pelas paredes e ratos pelo chão, nem gente sem tecto, a dormir ao relento. No sonho do Pai Natal, todos tinham uma casa, um aconchego, para se protegerem do frio e da noite. O Pai Natal sonhou um sonho lindo, tão lindo que não queria acordar. E no seu sonho não havia instituições para acolher crianças maltratadas e abandonadas pelos pais nem pequeninos e pequeninas à espera de um carinho, de um beijo… de AMOR. Todas as crianças tinham uma família: uma mãe ou um pai ou ambos os pais, todas as crianças tinham um colo à sua espera. O Pai Natal sonhou um sonho lindo, tão lindo que não queria acordar. E no seu sonho não havia palavrões e outras palavras feias, não havia empurrões, má educação e desentendimentos. Toda a gente se cumprimentava com um sorriso nos lábios. Nas estradas, os automobilistas não circulavam com excesso de velocidade, cumpriam as regras de trânsito e não barafustavam uns com os outros. O Pai Natal sonhou um sonho lindo, tão lindo que não queria acordar. E no seu sonho não havia animais abandonados pelos seus donos, deixados ao frio, à fome e à chuva, nem animais espetados e mortos nas arenas, com pessoas a aplaudir. Mas, afinal, quando despertou verdadeiramente, o Pai Natal viu que tudo não tinha passado de um sonho; que pouco do que sonhara acontecia de verdade. Ficou triste, muito triste, e pensou: « - Afinal, ainda é preciso que, pelo menos uma vez por ano, se celebre o Natal!». E, nessa noite, o Pai Natal começou os preparativos para dar, mais uma vez, um pouco de alegria a todas as crianças do Mundo. Retirado de "Diário de Aveiro", de 2000/12/07 Adaptado por Vaz Nunes - Ovar
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7 de dezembro de 2008
Elegia na morte de Samora Moisés Machel (Carlos Domingos)
ELEGIA NA MORTE DE SAMORA MOISÉS MACHEL
(Poema inscrito no livro de condolências da
Embaixada da República Popular de Moçambique)
Não venho trazer-te flores, mas um grito.
No teu sangue derramado
lateja a minha dor e a minha raiva.
Dentro de mim estremeceu o mundo
e o mar ferveu,
os sorrisos voaram em estilhaços
e desmoronou-se a torre em construção.
Agora estamos nus sob os escombros
e a tua ausência é um vento frio
soprando por dentro.
Mas nada poderá deter-te, nem a morte!
De súbito, surgiste ao nosso lado,
sentimos a tua mão de confiança,
continuas de pé, jovem, invencível,
com a vitória a sorrir-te nos lábios.
Nada poderá deter-nos, Samora Machel.
As nossas mãos, a nossa voz, as nossas armas
velarão a tua memória
e arrancarão os frutos renitentes
à terra ainda em flor.
Carlos Domingos
(22 de Outubro de 1986)
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Presidente da República Samora Moisés Machel
Batuque d'África (Jonas Savimbi)
BATUQUE D'ÁFRICA
Batuque velho, envelhecido no tempo
Batuque envelhecido no tempo velho
É o batuque que foi sempre no tempo ido
Quando negro nasce na floresta virgem
A alegria da aldeia no ar atinge
Com batuque velho que anunciou a nova
É no tam-tam que se reúnem os velhos
Tocou assim batuque velho de sempre
Tocou assim quando velhos nasceram sempre
Tocou sempre assim nos acontecimentos de sempre
Tocou assim na floresta virgem da África misteriosa
Batuque velho no tempo envelhecido
Batuque velho na África negra misteriosa
Batuque do pensamento velho na tradição velha
Batuque da velha cultura no pensamento velho
Criança adulta entra na sociedade adulta
Circuncisão velha na tradição da cultura velha
Batuque velho acompanha natalidade e maturidade
A dor! Batuque velho abafa! É crescimento
Mancebo constitui família e avança
Avança na sociedade e no tempo
È o velho batuque envelhecido no tempo
Saúda mais uma família e se reúnem os velhos
Quando tempo envelhecer o homem no tempo
É o tam-tam que lhe descobre a doença
É o velho batuque que afasta a moléstia
Num tam-tam frenético que supera o tempo
Jonas Savimbi
Cuando Cubango, 1977
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As cicatrizes da África na Moçambique de Mia Couto
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Maputo - Avenidas: 24 de Julho, Brito de Camacho e o Liceu Salazar (2005)
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Maputo - Avenidas: Craveiro Lopes, Augusto de Castilho e Pinheiro Chagas (2005)
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