9 de janeiro de 2009

Mia Couto aprova filme "Terra Sonâmbula"

MIA COUTO APROVA FILME "TERRA SONÂMBULA" O escritor moçambicano Mia Couto elogiou a adaptação cinematográfica da realizadora Teresa Prata da obra de sua autoria, "Terra Sonâmbula". O autor de "Mar me quer" considerou que o produto final "respeita o espírito da história" e que a cineasta "soube recolher o essencial" do romance. "É um filme sério e limpo", classificou o escritor. A película tem estreia mundial prevista para o dia 27 deste mês no âmbito do Festival Internacional de Cinema de Montreal, no Canadá. Estreia de Teresa Prata no grande ecrã, "Terra sonâmbula" foi publicado em 1992. O filme foi todo rodado em Moçambique, mais precisamente numa área de 200 quilómetros nos arredores da capital, Maputo. A acção tem como pano de fundo a guerra civil em Moçambique e conta a história de Muidinga, um rapaz de 12 anos que se lança na aventura de reencontrar a família. No momento em que contacta com um diário pertencente a uma mulher que procura o filho, acredita ser ele a criança e parte em busca da mãe, em direcção ao mar. A produção de Mia Couto não é desconhecida da Sétima Arte. Aquele que é o autor moçambicano mais lido no estrangeiro já teve outras obras transpostas para o cinema. "O olhar das estrelas", filme de João Ribeiro, baseou-se no conto "Saíde, o lata de água", enquanto que "Um rio", de José Carlos Oliveira, é uma adaptação do romance "Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra". Jornal de Notícias, 21 Agosto 2007

Pequeninura do Morto e do Vivo (Mia Couto)

PEQUENINURA DO MORTO E DO VIVO O morto abre a terra: encontra um ventre O vivo abre a terra: descobre um seio Mia Couto

4 de janeiro de 2009

Maria de Lurdes Mutola - Filha da Nação

MARIA DE LURDES MUTOLA - FILHA DA NAÇÃO Maria de Lurdes Mutola disputou o maior prémio do atletismo mundial: um milhão de dólares por ganhar cinco corridas de seguida. Conversa com a heroína de Moçambique Maria de Lurdes Mutola não é uma campeã qualquer. A mulher mais rápida do mundo nos 800 metros, primeira medalhada olímpica de Moçambique, tornou-se a heroína nacional. Um símbolo, num país necessitado de referências. Os moçambicanos tratam-na domesticamente por Lurdes, já lhe erigiram uma estátua, deram o seu nome a uma avenida e à escola primária onde andou. O Presidente Joaquim Chissano, que lhe pôs à disposição o número de telemóvel, é dos primeiros a ligar-lhe depois das provas. E ela não desdenha a sua importância. «Estou tão orgulhosa desse carinho todo que me é difícil expressar o que sinto. Acho que devo parte do que sou a esse apoio», disse esta semana ao EXPRESSO.
Foi também como agradecimento que a atleta criou a Fundação Lurdes Mutola, com sede em Maputo, que apoia «talentos» no desporto nacional. Aproveitando a «febre das corridas» que provocou em Maputo, a fundação já permitiu a mais de 20 atletas a participação em provas internacionais e está a pagar a preparação de uma corredora nos Estados Unidos. Na capital irá ser construído um centro desportivo profissional. No manifesto que escreveu para a fundação, Mutola diz: «Quando a bandeira de Moçambique sobe nos estádios internacionais não vencemos apenas uma prova desportiva; vencemos a descrença, a falta de confiança em nós mesmos, a condenação da pobreza, a exclusão e o isolamento.» Mutola percebeu bem a lição que o poeta José Craveirinha lhe ensinou, quando a descobriu, aos 14 anos, a retirou dos campos de futebol - onde ela julgava estar o seu futuro - e a atirou para as pistas, onde as suas pernas musculadas lhe haviam de dar um futuro glorioso. «Ele foi o meu Deus, o meu criador», diz Mutola, ainda saudosa de quem sempre chamou «o Poeta», falecido em Fevereiro deste ano. Ele foi o seu golpe de sorte. Adolescente num Moçambique estraçalhado pela guerra, Mutola não tinha outra brincadeira que não fosse jogar futebol. Disputava a bola ombro a ombro, nas peladinhas com os rapazes do bairro da Mafala, em Maputo. «Queria ser futebolista, em Portugal, como o Eusébio, ou nos Estados Unidos, onde sabia que havia equipas femininas. Mas também jogava por causa da guerra. Não tínhamos o que comer, não podíamos fazer nada, ir a lado nenhum. Não tínhamos liberdade, ficávamos fechados na cidade, onde havia alguma segurança. E o desporto era o meu refúgio». Maria já era o embrião da força que agora ostenta nas pistas. Convenceu a restante equipa dos Águias de Ouro a inscrevê-la numa competição municipal masculina. «Fomos campeões. Ninguém pensou que fosse problema eu ser rapariga», conta. Mas a competição era oficial e, mesmo com a elasticidade habitual das regras africanas, houve quem se aproveitasse da pequena falha para ganhar com isso. «Queriam que fossemos desclassificados». Na altura, ficou destroçada. Sem perceber ainda que naquela peripécia espreitava um novo futuro, longe dos relvados - onde, aliás, nenhuma mulher tem grande destino.
O caso deu brado nos jornais de Maputo. E chamou a atenção do escritor José Craveirinha que considerava o desporto uma das causas da emancipação moçambicana. Ele teve uma visão, quando decidiu ir observar Mutola a jogar. Reparou na maneira como a rapariga corria atrás da bola, os seus gémeos a esticarem-se sem perderem força, os glúteos contraídos num pontapé. Viu nela a campeã. «Quando ele me falou da primeira vez do atletismo, eu nem sabia o que isso era», recorda Mutola ao EXPRESSO, dando uma das gargalhadas com que costuma afastar os nervos, dentro e fora da pista. São conhecidos os largos sorrisos com que se deixa fotografar depois de poderosos «sprints» finais, em corridas com cara fechada e ar de quem pode levar tudo à frente. Dois dias antes da prova da sua vida - sexta-feira da semana passada estava em causa um milhão de dólares, o «jackpot» da Liga de Ouro da Federação Internacional de Atletismo, para quem ganhar cinco das sete principais provas mundiais - Mutola ainda dizia que preferia não pensar no prémio. «Quando ganhar logo penso no que vou fazer com o dinheiro». Foi essa combinação de força e humor que a levou de um bairro de caniço e madeira e zinco, em Maputo, até ao pódio do atletismo mundial, e fez ultrapassar todas as dificuldades. A primeira, as «dores horríveis no corpo», que diz ter sentido depois da primeira semana de treinos com o filho de Craveirinha, Stélio, treinador de atletismo. O escritor comprou-lhe as primeiras sapatilhas. Durante seis dias, Mutola correu distâncias curtas e fáceis. Ao sétimo estava numa pista a sério, para uma sessão de intervalos de 300 e 400 metros. «Aquilo dava muito mais trabalho do que eu pensava. Desisti e pensei em nunca mais na vida ver o Poeta», recorda Mutola. Craveirinha obrigou-a à persistência. Desistir era o erro de tantos outros e isso irritava o patriota, que via no corpo atlético dos moçambicanos mais futuro do que os resultados indiciavam. Até ali nunca Moçambique tinha ganho uma medalha olímpica. Craveirinha culpava a discriminação colonial também por isso. «Ele foi a minha casa convencer os meus pais de que eu tinha de correr», conta a atleta. Craveirinha teve uma conversa séria com os pais dela, João e Catarina Mutola, que tinham mais cinco filhos e poucos rendimentos. Ele era funcionário dos Caminhos-de-Ferro de Moçambique, ela cultivava legumes no quintal para vender no mercado. Acenou-lhes com os futuros louros da caçula da família. Certos, no seu entender.
Os tempos eram difíceis. Os pais acederam aos pedidos do auto-empossado «treinador» e deram-lhe a «tutela desportiva» da filha. Craveirinha sabia como convencê-la. Levou-a para casa e pôs no vídeo gravações das Olimpíadas de Los Angeles em 1984. O desempenho de Carl Lewis era o argumento que faltava. Resultou. «Nunca tinha visto um estádio tão cheio de gente». Apenas alguns meses depois, em 1988, no dia em que completava 16 anos, estava a correr nas Olimpíadas de Seul, terminando em sétimo lugar. O tempo obtido - dois minutos, quatro segundos, 36 centésimos - deu-lhe acesso à Bolsa Olímpica de Solidariedade. «Era uma tristeza, mas sabia que a tinha de deixar ir embora, Moçambique não tem uma cultura que apoie o desporto», diria Craveirinha. Aos 18 anos, sem saber uma palavra de inglês, Mutola embarcou num avião para Chicago, via Paris. Num dia de chuva, instalou-se em Eugene, no gélido e frondoso Estado do Oregon. Vivia com uma família americana e tinha aulas numa escola secundária, onde partilhava a sala de aula com adolescentes americanas preocupadas com vestidos e festas. As suas performances deram nas vistas, o que, aliado à sua condição de estrangeira e ao ar másculo - que se acentuou com os treinos no ginásio três vezes por semana -, contribuiu para que fosse o gozo na escola. «Foi muito difícil. Tive de aprender inglês rápido, ninguém sabia uma palavra de português. Não desisti porque uma vez liguei para casa a chorar e a minha irmã disse-me que se eu voltasse ia ser uma moça igual às outras, para aí nas ruas». A sua treinadora desde os tempos de escola, a americana Margot Jennings, tem outra explicação: «Ela estava a milhas das colegas todas em maturidade». GOVERNO PAGOU CASA DOS PAIS Mutola diz simplesmente que a sua preocupação era saber se os pais «tinham comida para comer». Pouco tempo depois deixariam de ter dificuldades, recebendo uma boa parte dos 250 mil dólares que a filha iria ganhar por ano, especializando-se nos 800 metros. «Acho que quem sentiu mais as mudanças foram os meus pais. O Governo até mandou recuperar a casa deles - a casa que a minha mãe nunca quis deixar. Até hoje!»
A carreira foi fulgurante. Nos Campeonato do Mundo de 1991, Mutola terminou a prova em quarto lugar, nas Olimpíadas de 1992 ficou em quinto, jogos em que correu os seus únicos 1500 metros numa prova internacional, ficando-se pelo 9º lugar. Nos anos seguintes tornar-se-ia a rainha dos 800 metros. O primeiro título de Mutola foi conquistado nos Mundiais de Estugarda, em 1993, no mesmo ano em que ganhou também os Mundiais de Pista Coberta de Toronto. Em 1995, em Gotemburgo, Mutola teve um dos únicos desaires da sua carreira: foi desclassificada por ter saído da pista. Prostrou-se de joelhos na pista. Mas alguns meses mais tarde recuperaria, quebrando o recorde da vencedora de Gotemburgo. Em 1996, em Atlanta, ganhou a primeira medalha olímpica para Moçambique, embora de bronze. Até 2000. Nas suas quartas olimpíadas, em Sidney, arrebatou o ouro dos 800 metros (com 1:56:15) e foi recebida em Maputo com uma passadeira vermelha e honras de heroína nacional. De 1992 a 1995 não perdeu uma única prova, tendo, segundo ela própria confessou, «perdido um pouco a motivação». O estímulo regressou depois duma pequena conversa com Nelson Mandela - seu ídolo de sempre -, que a chamou ao palácio presidencial para lhe garantir que África tinha os olhos postos nela. Apesar de ser heroína nacional, Mutola nunca mais voltou a viver em Moçambique. «Agora já podia treinar lá - porque tem ginásio e pista de tartan - mas não tinha sossego. Não é por mal, mas não me concentrava», diz. Tem um pequeno rancho nos EUA, que teve de abandonar por causa das alergias primaveris. E mudou-se para a África do Sul, onde fica mais perto da mãe (sozinha, depois da morte do pai num acidente de carro). Treina com a inglesa Kelly Holmes - a companheira que ela ajudou a ganhar o segundo lugar, na corrida dos 800 metros no Mundial de Paris, na semana passada. Este ano foi o melhor da sua carreira e, para já, Mutola não faz planos de reforma. «Ainda sou nova, quero continuar a correr», afirma. Mas quando as pernas já não a deixarem, o poiso será certo - a sua terra, Moçambique - «onde espero ajudar o povo naquilo que sei». E é tanto.
Texto de Catarina Carvalho, com Mateus Chale, correspondente em Maputo in: Expresso

3 de janeiro de 2009

Venenos de Deus, Remédios do Diabo (Mia Couto)

VENENOS DE DEUS, REMÉDIOS DO DIABO (MIA COUTO) Venenos de Deus, Remédios do Diabo é o mais recente romance de Mia Couto, escritor moçambicano nascido em 1955. Neste livro, tomamos contacto com Sidónio Rosa, médico português que decide fazer trabalho cooperativo em Moçambique para tentar encontrar a sua amada Deolinda, uma mulata que conheceu num congresso em Lisboa. Chegado a Via Cacimba só encontra os pais de Deolinda – Bartolomeu Sozinho e Dona Munda – que justificam a ausência da mulata por suposto estágio. No decorrer da narrativa Sidónio é confrontando com histórias antagónicas sobre o que terá acontecido a Deolinda e sobre o passado da família Sozinho. Adensa-se o mistério e Sidónio mergulha, também ele, na cacimba que parece cobrir a Vila Cacimba. Mia Couto sabe contar uma história, doseia a informação com mestria, revela os factos no momento certo, fá-lo quando já estamos desconfiados da sua existência e sem chamar a atenção para si. O leitor só sabe aquilo que a personagem principal sabe, embora haja algumas excepções, e toma conhecimento dos factos ao mesmo tempo que Sidónio. Isto permite que cada revelação seja, no contexto da narrativa, verosímil e permite também uma maior envolvência da parte do leitor. Em Venenos de Deus, Remédios do Diabo é fácil gostarmos das personagens pelo carisma e pela quase total ausência de maldade. Não são heróis, são pessoas que, como todos nós, cometem erros, mentem, falam verdade, têm medos, fantasmas e acreditam em algo que não se vê e que não é terreno. Nessa galeria de personagens destaca-se Bartolomeu Sozinho, um velho reformado que andou toda a vida, quando Moçambique era uma colónia portuguesa, embarcado no transatlântico Infante D. Henrique. Passa os dias fechado no seu quarto, apenas com a companhia da televisão que, como é dito, sonha por ele. Mal visto em Cacimba, por causa da sua ligação ao regime colonial que é empolada por uma daquelas lendas heróicas que alguns contam – neste caso o administrador Suacelência – para se vangloriar e conseguir um lugar de destaque junto da comunidade. A sua esposa, Dona Munda, é uma mulata acusada pelo seu marido de ser feiticeira. Guarda segredos que nunca chegamos a conhecer na sua totalidade. Tão depressa deseja, aparentemente, matar o seu marido como deseja que ele não morra e que recupere do mal que o consome. Com um papel de menor destaque desfilam na prosa de Mia Couto outras personagens com traços particulares e que prevalecem na nossa memória finda a leitura deste romance. Disso exemplo é Suacelência, o administrador da cidade que deseja um medicamento que acabe com o suor. A própria Vila Cacimba assume um destaque simbólico, porque tudo nela – locais (cemitério) e personagens – parece, como o nome indica, estar envolto num nevoeiro que não deixa ver a realidade. Na vila, o tempo (passado, presente e futuro) parece não existir e as histórias têm tantas versões quantos os habitantes que as contam. Venenos de Deus, Remédios do Diabo apresenta o trabalho sobre a linguagem típico de Mia Couto, onde as palavras são alteradas pela oralidade e pelo uso efectivo do dia-a-dia. Ainda assim, Mia Couto exagera nos adágios que coloca na boca das personagens e na voz do narrador. Parece haver uma necessidade de colocar em filosofia popular todo e qualquer acontecimento. Mesmo a personagem mais humilde tem a capacidade de soltar uma máxima em relação à coisa mais ínfima. Em alguns casos esse exagero de máximas é justificado e até recebido com um sorriso de aprovação, noutros parece um puro exercício de estilo feito a pensar em antologias de pensamentos de bolso. Cito alguns exemplos: “O amor acontece para a gente desacontecer” (página 38) e “Viver é um verbo sem passado” (página 46). Com o desenrolar da acção, deixamos de reparar nesse pequeno pecado e passamos a devorar com ganância cada página, na esperança de ver atadas todas as pontas da história. É esse o grande mérito de Mia Couto: sabe contar uma história e isso é um bom motivo para pegar num livro. por Emanuel Amorim

Lurdes Mutola: Briosa Homenagem à Pérola do Índico

LURDES MUTOLA: BRIOSA HOMENAGEM À PÉROLA DO ÍNDICO A cerimónia de homenagem a Lurdes Mutola realizada na passada sexta-feira, no Centro de Conferências Joaquim Alberto Chissano foi preparada à imagem de uma campeã do mundo e olímpica, à imagem de uma atleta que correu e conquistou o mundo, sempre com o emblema de Moçambique colado ao peito. Tudo foi preparado ao mínimo pormenor, com a devida pompa e circunstância ao nível da exigência e requinte de uma cerimónia que estiveram presentes as mais importantes figuras do Governo e do desporto. Como era de esperar, a “Pérola do Índico”, como é carinhosamente tratada Lurdes Mutola, foi congratulada com uma briosa homenagem, dirigida pelo Presidente da República de Moçambique, Armando Emílio Guebuza, que lhe concedeu o título de “Heroína do Trabalho da República de Moçambique”. Mais de 200 pessoas presentes, entre membros do Governo, familiares, desportistas e amigos aplaudiriam euforicamente o gesto, afinal era o mais alto reconhecimento após 20 anos de carreira. O coroar de uma carreira repleta de brilho que encheu de satisfação milhões de moçambicanos que em frente dos ecrãs ou “in-loco” vibravam com as cavalgadas da Menina de Ouro que quase sempre terminavam em vitória. As vitórias nos Campeonatos do Mundo dos 800 metros e nos Jogos Olímpicos em Sidney-2000 foram seguramente o momento mais alto de uma caminhada cheia de êxitos. Mutola estreou-se ao mais alto nível nos Jogos Olímpicos de Seul/ Coreia, tendo ocupado a sétima posição. Na homenagem a Lurdes Mutola não houve quem não se rendesse à campeã dos 800 metros. Os elogios vieram de diferentes figuras do desporto moçambicano. Todos foram unânimes em dizer que a homenagem é inteiramente merecida. “Briosa homenagem à Pérola do Índico”. Maputo,Segunda feira: 24 de Novembro de 2008

Quissico (Mia Couto)

QUISSICO 1. Deixei o sol na praia de Quissico De bruços sobre o Verão eu deixei o Sol na extensão do tempo Molhando, quase líquido, o dia afundava nas fundas águas do Índico A terra se via estar nua lembrando, distante, seu parto de carne e lua 2. Não o pássaro: era o céu que voava O ombro da terra amparava o dia A luz tombava ferida pingando como um pulso suicida um minhas ocultas asas Mia Couto

Saudades (Mia Couto)

SAUDADES Magoa-me a saudade do sobressalto dos corpos ferindo-se de ternura sói-me a distante lembrança do teu vestido caindo aos nossos pés Magoa-me a saudade do tempo em que te habitava como o sal ocupa o mar como a luz recolhendo-se nas pupilas desatentas Seja eu de novo a tua sombra, teu desejo, tua noite sem remédio tua virtude, tua carência eu que longe de ti sou fraco eu que já fui água, seiva vegetal sou agora gota trémula, raiz exposta Traz de novo, meu amor, a transparência da água dá ocupação à minha ternura vadia mergulha os teus dedos no feitiço do meu peito e espanta na gruta funda de mim os animais que atormentam o meu sono Mia Couto

O Macaco e o Cágado (Conto Macua)

O MACACO E O CÁGADO (CONTO MACUA) "O macaco e o cágado fizeram-se amigos. Certo dia, o macaco disse: - Amigo, vem a minha casa. O cágado respondeu: - Está bem. O cágado saiu e foi a casa do seu amigo. Quando lá chegou, o macaco matou um galo, fez echima, pô-la na mesa e disse: - Amigo, vamos lá comer a echima. - Ah, o meu amigo pôs a echima na mesa sabendo que eu não consigo subir? - pensou o cágado. Tentou subir, tentou, mas não conseguiu comer a echima! Por fim resolveu ir para casa, mas antes pediu ao macaco: - Amigo, dá-me as minhas ferramentas para me ir embora. Quando estava para sair, perguntou ao macaco: - Quando é que vais a minha casa? - Hei-de ir na próxima semana - disse o macaco. - Está bem - respondeu o cágado. Na semana seguinte, o macaco foi a casa do amigo. Quando lá chegou, mataram um galo, fizeram echima. O cágado deitou fora a água das panelas e disse para o amigo: - Não há água, mas podes lavar as mãos no poço. Tem cuidado para não as pores no chão quando voltares. O macaco foi ao poço com a sua mulher. Lavou as mãos e começou a andar só com duas patas. O cágado tinha queimado todo o capim à volta da casa e havia muita cinza. Quase ao chegar, o macaco não aguentou mais e pôs as mãos no chão ficando com elas todas sujas. Teve que voltar ao poço para as lavar de novo. Fez isto tantas vezes que acabou por desistir. Foi com a sua mulher despedir-se e pedir as suas ferramentas. A partir daí o macaco e o cágado nunca mais voltaram a ser amigos." in: "Contos Macuas",1992, ed. Associação dos Amigos da Ilha de Moçambique, p.16, coordenação de Elisa Fuchs e ilustrações de Malangatana.

África Minha (Karen Blixen)

ÁFRICA MINHA (KAREN BLIXEN) "Quando se sobrevoam os planaltos africanos, desfruta-se de um panorama deslumbrante: extraordinárias combinações e cambiantes de luz e de cor, o arco-íris sobre a terra muito verde banhada de sol, nuvens gigantescas acasteladas e grandes tempestades selvagens e negras giram em nosso redor numa dança ou numa louca corrida. Aguaceiros violentos cortam obliquamente o ar. Não existem palavras para descrever esta experiência e, com o tempo, ter-se-ão de inventar novos vocábulos para a descrever." in "África Minha" de Karen Blixen

2 de janeiro de 2009

Entrevista de Mia Couto, autor de "O último Voo do Flamingo"


ENTREVISTA DE MIA COUTO, AUTOR DE "O ÚLTIMO VOO DO FLAMINGO" O escritor moçambicano Mia Couto, adotado pelo vestibular 2007 da Cásper – "O último voo do flamingo" está na lista de obras obrigatórias –, falou em entrevista da importância de aproximar Brasil e África por meio da literatura. "O simples facto de um livro ser publicado no Brasil já parece constituir uma espécie de alerta, de uma aceitação de que há um outro país que produz coisas que podem ser partilhadas", assegurou. Para evitar leituras equivocadas, o autor expôs a necessidade de os alunos visitarem os livros de história para compreender O último voo. “Conhecer um país por via da literatura pode ser uma maneira extraordinária de conhecer este país, mas com o devido cuidado, sabendo que este livro fala de um Moçambique inventado por mim, do meu Moçambique. Não é possível entender exatamente a história que está contatada neste livro se não souber sobre a guerra em Moçambique. É preciso conhecer alguma coisa sobre a sociedade moçambicana, a história, a cultura”, avisa. Abaixo entrevista concedida pelo escritor São Paulo por ocasião do lançamento de O outro pé da sereia. Como é a relação de Moçambique com a literatura e como foi sua trajetória para se consolidar como escritor moçambicano? Eu não tive trajetória nenhuma, as coisas me aconteceram por acidente. Nunca aconteceu na minha vida que eu assumisse que tenho uma carreira literária, não gosto da idéia de carreira. Tenho livros que estão dentro de mim e os faço sair. Não sei que percurso possa ter se amanhã deixar de escrever e, sei lá, montar um grupo de teatro e me divertir mais. Isso não tem problema nenhum. Portanto, não houve nem haverá nunca a idéia de um projeto ou percurso, alguma aspiração de ser escritor. Não me dou bem com a idéia de ser escritor. Por quê? Por duas razões. Primeiro porque não sei se alguém é escritor. Acho que o verbo estar é melhor que o verbo ser. Alguém está escritor enquanto está produzindo, enquanto tem doação com a escrita, com os outros, com a língua. Enfim, estou a recusar com isto a idéia de que por essência nós seremos qualquer coisa. Por outro lado, também podemos não ser por essência, mas porque queremos ser. Não escrevo para querer ser escritor, escrevo porque quero contar histórias. Há nessa comunidade de escritores – não em todo lado, no Brasil, por acaso, noto que é diferente – certa vaidade, petulância, de alguém que pensa ser escritor, que eu não quero ter. Quando escreve, o senhor pensa escrever para alguém ou é algo seu? Eu escrevo para mim mesmo. Só quando eu escrevo para teatro estou a pensar “quem é que vai fazer este papel”, mas no resto não, são fantasmas, vozes que estão escondidas dentro de mim, não há um destinatário que esteja claro. Em sua opinião, por que um escritor pára de escrever? Por que deixa sua vivência? Não te posso dizer por que não é fácil dizer que há uma coisa chamada escritor. Recuso a idéia de que há um retrato único. Há várias maneiras de ser escritor, cada um tem sua própria maneira de se converter em escritor. Há escritores de um só livro, há outros que pensam que estão escrevendo livros diferentes e estão escrevendo sempre o mesmo livro – mas isso não é mal, ele está a fazer aproximações de escala (risos). Há escritores que investem numa coisa que é, de facto, contar uma história. Há outros que não, que trabalham a própria escrita. É difícil falar de maneira geral. Às vezes, me penso mais como reescritor do que escritor, porque reescrevo tanto aquilo que eu atirei pela página que provavelmente este é o momento mais importante. Só posso falar de mim, e mesmo de mim falo mal. O eu ser escritor tem a ver com a maneira de eu trabalhar minha própria existência, minha própria vida. Tentar fazer com que esse meu lado de infância, de perceber que o mundo não está feito, esse flagrante da língua que está em construção, como se ela não estivesse feita, como se eu estivesse chegando como um ser completamente ingênuo, visitando a vida pela primeira vez. Mostrar ao mundo, às pessoas, isso que me faz ser feliz. Depois se isso resulta em escrita ou não, já é uma coisa a se perguntar. O ensino secundário do Brasil divide o conceito de literatura em portuguesa e brasileira, não usa o conceito um pouco mais amplo de literatura de expressão em língua portuguesa. De certa forma, isso marginaliza a literatura feita na África. Como o senhor avalia esse aspecto do nosso ensino? De maneira geral, acho que se desconhece muito do que acontece nos países africanos de língua portuguesa em geral, não é só na literatura, mas nas áreas de cultura, história, etc. É muito comum aqui [no Brasil] eu dizer para uma pessoa do táxi ou do restaurante que sou de Moçambique e ver que ele não sabe do que estou a dizer. Há caricatos que me perguntam coisas extraordinárias, como “você é de Moçambique, América Latina?” Eu e alguns colegas de Angola e Moçambique notamos que há uma ignorância que não é localizada só na área literária. O Brasil não conhece muito o que é África e o que é África de língua portuguesa. Ainda hoje, uma jornalista brasileira me falava da necessidade que ela tinha de resgatar esta idéia de que há uma constelação de países que têm uma história comum, uma língua comum. Isso tem que ser fabricado, não é uma coisa que vai por si, os brasileiros não sabem automaticamente que existe Angola, Moçambique, Guiné-Bissau ou São Tomé [e Príncipe]. Isso deve ser resultado de um trabalho dos vários governos, para que seja resolvido. Ou isto não é sequer percebido como um problema e pronto. Compreendo que o Brasil tenha um contexto geográfico e econômico particular, e essa não é uma preocupação urgente, não posso fazer um juízo de valor. O que eu noto é que há certa esquizofrenia nessa coisa, porque de um lado se faz um elogio desta família lusófona, do português no mundo, etc., e depois, ao mesmo tempo, se cuida muito pouco de criar esse espaço. O livro Coração das Trevas [de Josef Conrad] discute a África interna como um cenário de trevas e estupefação. A cultura de massa não deturpa um pouco a maneira como a África é vista? O que é a África hoje e como ela pode ser representada de maneira não tão deturpada, de maneira não tão homogenia como passam para gente? Não estamos a trabalhar num terreno inocente, porque em princípio existem idéias preconcebidas sobre o que é a África. Essas idéias caminham muito sobre este lugar, o lugar das trevas, não é? Antes do livro O Coração das Trevas já havia a idéia dominante sobre o continente que era obscuro, que não cabia dentro do entendimento europeu. A idéia da África foi criada nesta relação, neste confronto entre o olhar europeu e aquilo que vinha de dentro da África. São várias Áfricas. A resposta precisa ser uma resposta que contrarie este clichê, os vários estereótipos sobre a África. Eu vejo muito falar sobre a África profunda, África verdadeira, África autêntica, e eu não sei por que se tem que falar da África nesses termos. Quando falo da Europa, eu não falo da Europa autêntica, ou da Europa verdadeira ou profunda. A África tem vários retratos simultâneos e são profundamente diversos. Se olharmos para a África do Norte, com países do Magreb, por exemplo, há um tipo de cultura com diferenças entre eles profundas, todos esses países são diferentes, diversos. Eu já estou a comprar estereótipos, já estou a dividir a África em Sul do Saara, Norte do Saara. Não sei por que tenho que fazer isto. Este é um processo [de desmistificação] que tem que começar a partir dos próprios africanos, são os africanos que tem que trabalhar sua própria idéia de si próprios, transferir deles para os outros e criar um processo de população com os outros, uma identidade que sabemos ser móvel, fluída, em construção. Nunca se chega àquela coisa de que a África é isto, este identitário simplista muito redutor que nós temos hoje Em Moçambique há uma divisão partidária, questões religiosas, minorias contraditórias (ex-marxistas, católicos), etnias que não participaram do processo de libertação. Ou seja, uma realidade muito complexa. Como o senhor consegue trabalhá-la literariamente, de maneira a dar conta de registrar essas diferenças? Mesmo que eu soubesse responder não responderia (risos)... Para mim como pessoa, antes de pensar-me como escritor, pensando como cidadão, me fascina este jogo de contrates, estas repostas diversas. Fascina-me, sobretudo, naquilo que toca na relação com o divino e aqui se chega a um ponto: a religiosidade dos africanos. Há qualquer coisa que é comum nas religiões africanas, que não são nunca instituídas. Embora vivam numa esfera que está sempre misturada como se houvesse a religião da África. Ela não tem essência autônoma, ela permeia todos os outros campos de existência, mas existe alguma coisa que eu acho importantíssima, quer dizer, se cremos ter uma idéia de África, daquilo que podemos chamar África Negra, é preciso perceber que religiosidade está ali presente. Eu só posso compreender os brasileiros se souber alguma coisa sobre o catolicismo, por exemplo; a influência profunda que tem o catolicismo, que depois se sincretizou e misturou com outras religiões provenientes da África. Mas se não sei nada sobre catolicismo, eu não posso entender os brasileiros, não é? Não é possível se eu não tiver nenhuma visão sobre isso. A maior parte das pessoas que quer entender a África não tem nenhum elemento sobre essa religiosidade dos africanos, elas sequer se apercebem da dimensão divina, da construção de Deus, dos preceitos éticos que fazem com que uma coisa seja vista como bem ou mal; se isto não é entendido não; se pode entender a África. Como biólogo, o senhor vive em contato com os elementos da natureza, eles também são elementos de religiosidade? Quando estou no campo trabalhando, pergunto sempre como se diz nas línguas locais certa palavra, certo conceito e, quando chego à idéia de como se diz ambiente, como se diz natureza, é muito curioso porque nenhuma das línguas bantos de Moçambique tem uma palavra para traduzir este conceito. [Nós, que falamos português] temos palavras que dizem coisas muito gerais, conhecimentos muito integradores, como sociedade, cultura, ambiente,tudo junto numa mesma palavra. Isso mostra que estamos perante uma filosofia diferente, outra maneira de ver o mundo, que não separou, que não fez gavetas ou fronteiras entre natural ou não natural. Para uma noção até mesmo histórica do continente africano como um todo, de que maneira o Último voo do flamingo pode auxiliar o jovem brasileiro a ter contato com Moçambique e com o continente em si? O simples facto de um livro ser publicado no Brasil já parece constituir uma espécie de alerta, de uma aceitação de que há um outro país que produz coisas que podem ser partilhadas. Agora, começar a conhecer um país por via da literatura pode ser uma maneira extraordinária de conhecer este país, mas com o devido cuidado, sabendo que este livro fala de um Moçambique inventado por mim, do meu Moçambique. Eu não vejo que só este livro ou só a literatura por si mesmo possa trazer uma idéia de Moçambique que seja produtiva, que seja funcional. Estamos a falar de coisas que precisam ter futuro, que tem que criar futuro. Essas coisas [os livros] precisam ser produtivas, não podem só fazer apelo à história do passado, devem ter alguma coisa que punciona a dinâmica de hoje. Num comentário sobre o Último voo do flamingo, o senhor falou da necessidade de não deixar a esperança morrer. O senhor acredita passar essa esperança da possibilidade de uma utopia através de sua literatura? A idéia de que se está a lutar e de que se abdica de um sonho, seja ele qual for, é uma idéia que me parece igual à morte, para quem saiu de uma guerra e tem que recomeçar e olha para trás e não quer nunca mais aquilo. Isso é uma coisa que me motiva como pessoa. Este livro será lido por estudantes entre 17 e 25 anos que estão acostumados com toda uma cultura urbana, como a de São Paulo. Quais outros elementos ou livros o senhor acha interessante para que eles entendam um pouco mais o próprio contexto moçambicano e africano, para ir um pouco além do seu Moçambique? A literatura tem que ter apoio, porque a literatura sozinha não pode fazer esse trabalho. A literatura não chega a fazer trabalho nenhum, nem chamaria de trabalho aquilo que a literatura faz. A literatura funciona num outro domínio, no domínio de uma outra dimensão, o que tem que ir junto é informação sobre o país. Acho que o estudante deve receber um trabalho sobre o contexto histórico, político, ou seja, não é possível entender exatamente a história que está contatada neste livro se não souber sobre a guerra em Moçambique, se não souber sobre o conflito que esteve latente em Moçambique, que é muito semelhante ao que esteve presente em Angola. É preciso conhecer alguma coisa sobre a sociedade moçambicana, sobre a história, sobre a cultura. Obviamente não se pode pedir aos livros de ficção que tragam todo esse conjunto de elementos. Em Terra Sonâmbula, o senhor diz, através do personagem Kindzu, que suas palavras são como grãos de areia e que esses grãosformarão páginas de terra. Em outro diálogo, personagem diz que “é bom fazer alguém sonhar”. O senhor é mais velho que seu próprio país, um Moçambique que ainda está em formação. Deque maneira sua literatura auxilia ou tenta vislumbrar um projeto de país? Não te vou dizer a minha literatura, acho que a literatura pode ter alguma função nessa invenção de um sentimento de nação, um projeto de nação. Uma das coisas que eu vejo que pode ser importante é o facto de que Moçambique resolveu de maneira cirúrgica o problema da memória da guerra. Nós tivemos uma guerra traumática de 16 anos, um milhão de mortos, e se tu fores a Moçambique hoje, ninguém fala mais nisso, não existiu, como se houvesse um apagamento, quer dizer, uma esponja que passou. Isso é um consenso silencioso que mostra que talvez seja uma melhor solução essa amnésia coletiva. Mas, por outro lado, é preciso pensar que esse tempo tem que ser nosso. Nós temos que resgatar esse tempo, não pode ser um tempo do esquecimento, temos que ter acesso. Se queremos, vamos lá. A literatura pode ser um convite para reduzir para esse tempo, sem o dedo culpabilizante de quem teve responsabilidade nas coisas. Acho que a literatura moçambicana está fazendo isso, está mostrando a História através das pequenas histórias, criando um sentimento de que essa história é bonita, que vale a pena ter essa história, mesmo que não seja muito verdadeira – nenhum país tem uma história completamente verdadeira. Nós [escritores moçambicanos] estamos criando aquilo que são os mitos fundadores da nação. Durante a ditadura militar perguntaram a Clarice Lispector qual era o papel do escritor, e ela disse que naquele momento era ficar calado. Em seus livros, há referências às guerras que aconteceram em Moçambique, e o senhor, por ocasião da invasão no Iraque, escreveu uma carta ao presidente Bush, na qual terminava dizendo que os países do terceiro mundo possuíam uma “arma de construção massiva: a capacidade de pensar”. Qual o papel de um escritor hoje, tendo em vista os conflitos mundiais que vemos renascer? Não sei se é o papel do escritor, mas o papel que eu quero manter é de alguma intervenção, minha própria história está ligada a isso. Não consegui nem farei isso de ficar indiferente às coisas que me convocam, e uma coisa que me convoca é esta espécie de estado de estupidificação que é passado em nome de certa ordem mundial. A escrita, não que seja uma coisa acima do mundo, mas não tem papel nenhum. Não por que ela não seja objeto de interesse, mas porque devia estar acima dessa pergunta funcional “serve para quê?”. O amor serve para quê? Uma característica sua é a criação de palavras. Até que ponto essas palavras são realmente novas, ou são uma captação daquilo que o senhor vê e ouve nas ruas e no interior de Moçambique? O senhor faz alguma avaliação para aplicar essa linguagem na literatura? Talvez grande parte dessas palavras para mim tenha surgido como sendo minhas, mas as palavras não são de ninguém. Ou elas estão dentro dos limites das possibilidades, das potencialidades da língua, ou não funcionam. Em alguns casos eu tenho sido surpreendido, por exemplo, uma amiga telefonou-me, dizendo: “estou aqui numa loja que vende mobiliário e está aqui uma palavra que poderia ser tua”, que era arrumário em vez de armário. A palavra tem uma lógica muito bonita, porque a gente usa o armário para arrumar. De facto, eu pensava que eu tinha inventado essa palavra, já tinha escrito isso em um livro meu, mas alguém usou também e acredito que quem usou não conhecia meus livros. Eu estou trabalhando numa lógica que ultrapassa a questão literária, uma lógica de povos que estão tomando o português como empréstimo, criando em cima desse português coisas que são da sua própria cultura. Isso cria uma espécie de baliza, há ali uma lógica que faz com que a palavra, mesmo não estando lá, seja uma palavra possível. É uma palavra mais do que inventada é uma palavra descoberta, como se houvesse um véu que está sendo retirado. Sobre a quebra da lógica, Roland Barthes, em Leçon, afirmou que a língua obriga a pensar de maneira “fascista”, faculta a liberdade, condicionando a pessoa a certa forma de pensamento e lógica. Como o senhor trabalha com essa luta contra esse poder da língua, quebrando a lógica que não seja só do português? Como “trapaceia” dentro da língua? Eu sou uma criatura privilegiada nesse ponto de vista, porque venho de uma cultura também européia. Uma parte de mim está ancorada naquela margem, e outra parte de mim está na outra margem, e eu posso fazer a ponte. Sinto que tenho essa possibilidade de fazer contrabando entre uma coisa e outra; me interessa realmente essa área furtiva, esquiva, em que as coisas às vezes se tocam. Não é uma promoção da língua em torno da maneira de olhar o mundo, as coisas estão muito misturadas. Por exemplo, agora ocorreu o caso da cobra cantadora, noticiado num jornal de Moçambique. Um colega foi lá e se fartou em discutir sobre o que era exatamente aquela cobra, que identidade tinha aquela criatura. Houve grande discussão, então, meu colega perguntou: “isto é ou não é uma cobra?”, e um homem disse: “Quase é, doutor, quase é.” O que me fascina é essa possibilidade de haver uma categoria chamada quase-ser. Este é o fascínio desta espécie de transgressão. Nós aprendemos que as coisas são ou não, é clara esta dicotomia única de uma coisa não ser e ser ao mesmo tempo. Uma coisa é e/ou não é. Há uma espécie de fresta nesta construção que mostra que há uma coisa que pode quase-ser. Esse é o caminho que me apercebi. Como o senhor engravida as palavras para materializar esse quase-ser? É resultado de um trabalho poético. A poesia foi o primeiro instrumento que eu tive para desarrumar o mundo, para perder familiaridade com a própria língua, perder familiaridade com a minha visão de mundo. Nesta capacidade de eu ser de repente estranho na minha própria casa e sentir-me estrangeiro nela. Essa habilidade de me poder distanciar e visitar as coisas como se elas fossem novas, como se eu de repente fosse criança, um menino chegando pela primeira vez no mundo. Acho que vai por aí, mas acho que tem que ser uma mistura de várias coisas. Outro autor que fez esse trabalho de campo, anotando experiências em cadernos, foi Guimarães Rosa, que o senhor conheceu por meio do escritor angolano Luandino Vieira. Em que medida sua obra tem influência ou ressonância de Guimarães? Que outros escritores o senhor tem como referência? O Guimarães foi uma iluminação para mim, uma descoberta importantíssima. Eu tinha feito já um livro, Vozes anoitecidas, em que eu me deparava com essa coisa do como é que eu vou escrever usando esta língua portuguesa herdada dos portugueses com uma estrutura, uma lógica, uma racionalidade e como esta língua pode contar as histórias que eu quero, como pode dar luz a esses personagens que vivem numa outra cultura. Luandino [Vieira] foi a primeira influência grande. Ele faz isso com o linguajar de Angola, particularmente dos subúrbios de Luanda. Depois, numa entrevista que Luandino deu, eu tomei conta de que existia um tal João Guimarães Rosa deste lado. Mas não tinha nenhuma maneira de chegar até ele, porque nós tínhamos a guerra e não havia coisas do Brasil circulando. Pedi a um amigo que me trouxesse um livro, trouxe Primeira Histórias. De facto, foi um momento mágico. A escrita do Guimarães Rosa está cheia não só desse trabalho de reconstrução de uma língua mais plástica, mas também há ali um convite para que a oralidade invada a escrita, numa espécie de transbordação daquilo que é a lógica da escrita, que se deixa ir por uma outra lógica. Acho que é mais do que um trabalho lingüístico-poético. É uma coisa que tem a ver com a fronteira entre a oralidade e a escrita, isso é que foi importante para mim. O senhor já manifestou afinidade com Manoel de Barros, autor que também foi adotado pelo vestibular, e sua “brincriação” da descoberta é similar. O que o senhor enxerga no universo pantaneiro dele que talvez se expressa por essas palavras descoberta? Manoel de Barros é também uma fascinação. Encontrei nele não só alguém que trabalha no domínio do verso o que Guimarães Rosa já vinha fazendo no domínio da prosa. Parece-me que aqui também há uma coisa interessante que eu noto no português do Brasil. É um português que está em luta consigo próprio, quer dizer, cria dinâmicas muita curiosas. Há coisas que vocês provavelmente não notam porque estão dentro do próprio edifício, mas muita coisa ficou do português arcaico, que em outros territórios de língua portuguesa teve outras evoluções. O Brasil está retrabalhando a língua portuguesa a um jeito que está acontecendo com outras culturas diferentes, não européias, outras línguas que estão pegando o português e dizendo “agora nós termos que imprimir neste corpo a marca da nossa alma”. Tem que haver um trabalho de namoro, que no caso de Manoel de Barros teve também a filosofia, não é só um trabalho lingüístico. Filosofia de resgatar a importância da pequena sujidade, da pequena coisa que não é nada, a importância do nada, da vulgaridade que pode ser um tesouro. Isso se encosta com uma coisa da minha vida, quando eu era menino e ia fazer os meus deveres de casa nos caminhos de ferro onde meu pai trabalhava – estação de trem como você dizem. Meu pai levava-me pela linha do trem a apanhar pequenas pedras, eram pedras que tinham cores especiais, brilho especial. Essa foi uma primeira grande lição de poesia para mim, porque havia guerra colonial, estava no meio de um mundo que se rasgava e, de repente, tinha meu pai como feito uma criança apanhando pequenas coisas que brilhavam no chão. No fundo venho reencontrar essa lição no Manoel de Barros. Conhece Graciliano Ramos? Tem alguma influência? Qual a influência de outros escritores brasileiros que não somente brincam com a língua, mas que também tenham oralidade? Sou mais marcado pela poesia, ainda hoje, penso-me poeta enquanto escrevo em prosa, contando história. De facto, Drummond de Andrade é um mestre, João Cabral de Melo Neto, também. Gosto muito de Adélia Prado, e Manoel Bandeira foi outra marca da experiência. AHá na poesia brasileira casou com a canção de uma maneira que nunca aconteceu em Portugal, por exemplo. A maneira como a língua passou a ser cantada passou a ser não só objeto de letra, mas de poesia. Casos como o de Vinicius de Moraes, Chico Buarque, etc., marcaram muito minha geração, quando todo mundo convidava a que não buscássemos a nossa própria língua porque era uma língua dita dos povos pequenos, uma língua da periferia. A língua grande era a língua inglesa, já naquela altura a cultura anglo-saxônica já estava nesse percurso que depois vai dar nisto que chamamos agora de globalização. Esta espécie de milagre de a gente de repente se apaixonar por uma coisa que sempre esteve dentro de nós, que é a língua que falávamos mesmo antes de nascermos, no fundo é a língua da poesia. Não estou a falar da língua portuguesa estou a falar desta outra coisa anterior a nós mesmos. Todo esse re-encantamento foi feito quase sempre por via de brasileiros. Claro, houve outros, como Luandino Vieira, portugueses, como Sofia de Melo Braga, que para mim foram importantes também. A estudiosa Cremilda Medina falava na década de 80 em se perseguir um registro mestiço da língua, assumindo as diferenças entre as línguas portuguesas e, desta forma, aprender a ser poliglota em português. Essa marca mestiça é um imperativo para a utopia da lusofonia? Faz-nos falta primeiro criar essa comunidade. Eu não sei o que vamos fazer no mundo, provavelmente o mundo nem sequer está a pensar que nós [moçambicanos] temos algum lugar nele. [É preciso saber] o que pode ser nosso lugar, como alguém que diz “olha, nós resistimos e temos alguma coisa para dizer”. Isso que temos para dizer não sabemos o que é, estamos procurando. É qualquer coisa que a gente só pode fazer quando, primeiro entre nós, nos reconhecermos parceiros nessa caminhada. Não vejo outra hipótese. Uma habilidade que nós temos, que nos foi conferida pela história, é, realmente, certa apetência, certo gosto pela mistura. Não nos faz grande questão nos entregarmos a um outro que tenha diferenças e criar certo caldeirão de mestiçagem. Podemos dizer aos outros que nós fomos e somos felizes exatamente porque temos essa disponibilidade para ter vários sotaques, várias colorações de pele, várias maneiras de ser. O que nós queremos estar a dizer ao mundo é: “olha, nós não temos medo de não ter identidade. Nossa identidade não sabemos qual é. É uma identidade em viagem. É uma identidade de descoberta cíclica.” [Alguém pode] estar aflito por saber como são os brasileiro, o que é uma coisa tipicamente brasileira. Impossível encontrar alguma uma coisa chamada tipicamente brasileira, mas é ótimo porque nós não temos medo de não ter isto, de não ter este chão. Há alguns que têm medo, há gente que foi preparada historicamente para ter uma diferença clara do ponto de vista de que “isto aqui é tipicamente nacional e é isto que nós vamos entregar ao mundo”. Nós temos a grande essa vantagem de não saber o que temos, não é? Essa lusofonia, que o senhor já chamou de “lusofolia”, é uma utopia, uma demagogia pós-colonial, um projeto humanístico exeqüível? O que é uma comunidade lusófona? Como ela se materializa? Eu não sei. Tenho minha idéia sobre isto, reconheço que existem projetos de lusofonia que são orientados politicamente por alguma coisa que não é essa utopia que eu gostaria de viver. Mas qualquer que seja a idéia que temos de lusofonia deve ser inventada, tem que ser construída a partir de laços que já existem. Há uma relação que não é muito recíproca: o cidadão comum moçambicano, mesmo que não tenha muita escolaridade, sabe o que é o Brasil. Ele conhece alguma coisa do Brasil, mesmo que tenha uma visão distorcida ou que seja um receptor desta imagem de exportação que o Brasil faz de si mesmo. O moçambicano conhece cantores, tem referências sobre literatura brasileira, conhece, sobretudo, as novelas, tem uma idéia do que é o Brasil e uma idéia do pertence, quer dizer, do fato de que “eu podia ser brasileiro”. Esta coisa do “nós podíamos ser”. Eu aqui em São Paulo, quando circulo na rua, de vez em quando penso “eu podia ser brasileiro também” – teria que mudar um pouco meu sotaque. O sentido do pertence, a maneira como nós podemos nos incorporar neste espaço é algo que está aqui, não é inventado, é real. Aqui, qualquer coisa criou uma espécie de sentimento de partilha, acho que é como devia ser cultivado, principalmente no momento em que corremos um certo risco de que o futuro seja algo que só se escreve em inglês. Há contrapontos de resistência a certa hegemonia, e podíamos caminhar por esta família, por esta constelação A professora Cremilda Medina definiu a língua como chave coletiva, e o senhor procura não destacar sua qualidade como escritor para operar como coletor de pedrinhas dentro de seu país. Como asfaltar coletivamente a estrada marítima do projeto não só literário, mas também humanístico da Lusofonia? Para dizer a verdade, não sei, não sei. Minha primeira questão é saber como poderá existir minha lusofonia no meu próprio país. Meu país não é um país lusófono, a maior parte dos moçambicanos não fala português. Quando falarem, provavelmente, será a custo de alguma coisa que não será muito bonita. Essa é a primeira grande questão para mim, em vez de pensar nesta família largada. A questão que para mim se coloca como alguma coisa que eu penso muito é de que maneira os moçambicanos poderão ter uma coisa qualquer parecida com a sua lusofonia. Só depois disso, eles saberão como chegar até os outros lusófonos, dizendo “nós estamos aqui, nós construímos. A nossa esperança de construir um instrumento comum, um veículo de comunicação lingüístico foi esta. Então, estamos preparados para trocar experiências”. Como é que vamos fazer em um nível mais elevado. Oficializar a língua portuguesa é um fator ambíguo? Há um limite tênue que desprestigia as línguas que os moçambicanos aprendem desde pequenos com seus pais, através de um projeto de coesão nacional? Isso não causa um esfacelamento no país? É profundamente ambíguo, não tem solução. Teria uma solução num quadro ideal em que as línguas todas conviveriam e seriam acarinhadas por um projeto do Estado. Mas isso não é viável, nem sequer financeiramente é viável. Então, eu não vejo solução. Infelizmente será um projeto hegemônico, com violência. Línguas vão ser preteridas, escandalizadas, viverão na sombra com tudo o que se tem de prioritárias. Depois, se vai hierarquizar culturas e regiões dentro de Moçambique. A questão é essa, para se ter um país com nome, bandeira, símbolos, etc., de maneira moderna, não vejo muito a hipótese desses governos respeitarem um processo de aceitação da diversidade. Teria que haver um Estado com a capacidade de criar, de acarinhar as línguas dos nativos de Moçambique, sabendo que são mais de 20. Isto é muito complexo A Isabel Allende, quando recebe uma carta, tentar descobrir pelo volume em que língua está escrita. Existe uma índole ou natureza da língua, por exemplo, o inglês é mais preciso, o francês mais prolixo Não sei se isso é verdade. Tenho tido surpresas que mostram que essas idéias feitas sobre as línguas quase nunca funcionam exatamente, por exemplo, o português mais apto para nostalgia e o inglês mais apto para a tecnologia. Encontro nisto surpresas enormes. Para mim, por uma questão de preconceito, o alemão seria uma língua rígida, áspera, que não se ateria nesse jogo de invenções, e percebi afinal que a língua alemã tem uma ginástica, uma possibilidade de se reconstruir por justaposição de palavras, como se fosse um jogo de Lego. Para mim, foi uma enorme surpresa, de tal maneira que algumas vezes nas traduções em alemão o leitor não se apercebe que ali está uma palavra que foi encontrada por via literária, porque está dentro do jogo lingüístico natural do alemão. Em vários outros momentos, me apercebo que não se pode dizer que o português seja especialmente qualquer coisa, o que difere são os percursos históricos.
O português hoje é uma língua que tem uma dinâmica muito particular, isto é verdade, mas não é por que ela tenha uma índole especial qualquer, mas porque ela teve um percurso histórico. Aconteceu uma coisa no Brasil, um caldeirão de culturas com a presença de escravos, portugueses e vários outros europeus que tiveram influência num português que hoje aqui se vai criando. Por faltar ausência de nome, alguns lingüistas ficaram aflitos. A ausência de nome pode ser, num certo momento, uma coisa ótima porque permite digressões, e isso no vosso caso aconteceu. Depois vem a ganhar gostos dos povos africanos também, então está aqui uma história particular recente que está ainda a acontecer. No caso de Moçambique, há milhares de pessoas, todas tomando contacto com a língua portuguesa a partir de dentro, tentando que ela passe de uma língua oficial para uma língua da cultura, dos sentimentos. Isso é um namoro que está sendo operado no profundo, coisa que o francês e o inglês nas colônias africanas não fez tão profundamente. Agora daqui se pode dizer que o português é uma língua mais rápida para mestiçagem? Não, ela simplesmente foi um elemento de uma história diversa. Por: Fabio Salem, Nivaldo Souza, Rodrigo Antonio, Rodrigo Turrer e Thais Arbex Pinhata

31 de dezembro de 2008

28 de dezembro de 2008

Maputo: Praça 7 de Março (2005)

Maputo: Rua Consiglieri Pedroso (2005)

A cidade que nos resta (Mia Couto)

A CIDADE QUE NOS RESTA (MIA COUTO) Perguntava-me um amigo estrangeiro, acabado de chegar a Maputo, em que ruas ele podia circular à vontade. - À vontade? - perguntei, apenas para ganhar tempo. O fulano ficou olhando o meu rosto pensativo. Poucos anos antes eu teria respondido sem muita hesitação. A cidade mantinha áreas de relativo sossego, onde o pacato cidadão podia circular sem riscos. Mas naquele dia eu acabava de receber a notícia que um colega meu do serviço, em plena Rua Joaquim Lapa, a escassos metros da Esquadra, tinha sido assaltado à mão-armada, em pleno dia. No dia anterior, assim rezava o jornal, uma mulher fora violada na marginal. Não acontecera no lusco-fusco. Sucedera à luz do dia. Na noite anterior eu escutara no noticiário televisivo bairros inteiros reclamando contra o reino de terror da bandidagem. Na semana anterior, um estrangeiro que visitava a nossa empresa, próximo do Hotel Polana tinha sido agredido por um grupo de jovens. Nós tínhamos informado esse mesmo consultor estrangeiro que o bairro era tranquilo e que ele podia caminhar pelas redondezas sem problema. Horas depois, estávamos visitando o pobre homem no Hospital. - Ora caminhar à vontade .... ruminei eu, já consciente do preço da minha demora. O visitante salvou-me do embaraço, decidindo filosofar sobre a tendência universal do aumento da criminalidade. Eu acreditava que o mau momento passara quando ele lançou nova interrogação: - E conduzir? - Conduzir? Ao menos, eu fizesse uso de mais imaginação. A repetição da pergunta era um estratagema que ameaça saturar. - Sim, conduzir um carro? Acha que posso? - Claro que pode, se tiver carta de condução. - Tenho, sim. Mas é seguro? - Bem... quer dizer... é preciso ter alguns cuidados... - Como, por exemplo....por exemplo.... Desta feita, as imagens cruzaram-me a mente com a velocidade de um chapa cem. Como explicar ao pobre turista que nos semáforos não se arranca quando abre o verde. Como explicar que, em certas esquinas, o vermelho corresponde ao verde e só se pára no amarelo? Que em outros cruzamentos o verde corresponde ao amarelo? Como esclarecer que os chapas nunca param nos semáforos e param sempre no meio da estrada? O estrangeiro entendeu a demora na minha resposta. Deve ter ficado a matutar: a pé não podia, de carro não devia. Como usufruiria ele da cidade? E a mim mesmo eu me questionei: que cidade nos resta a nós, cidadãos de Maputo? Não podemos oferecer a cidade aos outros porque ela está deixando de ser nossa.
- Deixe estar, disse ele para me tranquilizar. Eu vou ficando no Hotel. Num impulso eu quase dizia: eu também me vou mudar para o seu Hotel. E enquanto conduzia o meu amigo rumo ao seu alojamento eu fui olhando Maputo e pensando se como o cidadão está perdendo a cidade, como nos restam de Maputo as sobras daquilo que a voragem do caos não está ainda dominando.

Sérgio Vieira de Mello: O Brasileiro da Paz

SÉRGIO VIEIRA DE MELLO (1948-2003) Embaixador Brasileiro e Alto Comissário de Direitos Humanos da ONU. Nascido no Rio de Janeiro em 1948, Sérgio Vieira de Mello entrou na ONU em 1969 enquanto estudava filosofia e humanidades na Universidade de Paris (Panthéon-Sorbonne). Passou a maior parte da carreira trabalhando na ONU para refugiados em Geneva, e serviu em operações humanitárias e de guarda-paz em Bangladesh, Sudão, Chipre, Moçambique e Peru. Em 1981 ele assumiu seu primeiro cargo de alto-nível, quando ele foi nomeado Conselheiro Político Sênior das forças da ONU no Líbano. Depois disso, ocupou diversas funções importantes nas matrizes da UNHCR's de 1983 a 1991 (Chefe de Gabinete da Alta Comissão; Diretor do Departamento Regional para Ásia e Oceania; e Diretor de divisão de relações externas). Entre 1991 e 1996, serviu como Enviado Especial do Alto Comissário ao Camboja, diretor do repatriamento para a autoridade transicional da ONU em Camboja (UNTAC). Diretor de casos civis da ONU de proteção das nações (UNPROFOR), Coordenador humanitário regional da ONU na região dos Grandes Lagos da África. Em 1996 ele foi nomeado Assistente Alto Comissário da ONU para refugiados, antes de ser enviado para Nova York em janeiro 1998 como Sub-Secretário-Geral para casos humanitários e Coordenador de Emergência. Assumiu temporariamente a posição do Representante Especial do Secretário Geral em Kosovo e serviu também como o Administrador Transicional da ONU no Timor Leste. Em 12de setembro de 2002 foi nomeado Alto Comissário de Direitos Humanos da ONU. Em maio de 2003, foi nomeado pelo Secretário Geral para assumir seu cargo, como Representante Especial do Secretário Geral durante quatro meses no Iraque. E nesta função ficou até o dia 19 de agosto de 2003, quando foi morto tragicamente. "Sergio", como era conhecido pelos oficiais de governo, membros da equipe de funcionários da ONU, e de outros que o consideraram um bom amigo, foi um empregado civil internacional notavelmente eficaz. Como resultado, a ONU nomeou para resolver um dos mais complicados desafios humanitários mundiais. Sua carreira de sucesso é extraordinária. Seus bens eram a inteligência extraordinária e o bom senso, a graciosidade e a sagacidade, e uma profunda dedicação aos princípios humanitários que integram a ONU. Ele era uma escolha óbvia para conduzir o esforço da ONU no Iraque, a que deu sua vida. Seus amigos e colegas da ONU e do Mundo sempre honrarão o Sérgio, em memória de sua perseverança no direito humanitário, que ele sempre defendia. Fonte: Office of the High Commissioner for Human Rights

Samora Moisés Machel na Vitória em 1974

Samora Machel e Eduardo Mondlane na Luta Armada

Dois estandartes da Revolução Moçambicana: o Nacional e o do Partido Frelimo

21 de dezembro de 2008

19 de dezembro de 2008

O primeiro postal de Natal (Dezembro de 1843)

O PRIMEIRO POSTAL DE NATAL O primeiro postal de Natal surgiu na Inglaterra, pelas mãos do pintor John Callcott Horsley (1817-1903), em Dezembro de 1843, a pedido de Sir Henry Cole (1808-1882), director do South Kensington Museum (rebaptizado, em 1899, de The Victoria and Albert Museum). Sir Henry Cole era assistente no Public Records Office, para além disso era escritor e editor de livros e jornais. Cole escreveu livros sobre arte e arquitectura sob o pseudónimo de Felix Summerly, e fundou o jornal The Journal of Design. Este possuía, ainda, o Summerly's Home Treasury, através do qual eram publicados livros infantis, de entre as histórias publicadas contam-se "Cinderela", "João e o pé de feijão" e "A Bela e o Monstro", entre outros. No Natal, Sir Henry escrevia cartas aos seus familiares, amigos e conhecidos, desejando-lhes Boas Festas. Contudo, devido ao seu trabalho, este tinha pouco tempo para escrever tantas cartas. Assim , ele (tal como todas as outras pessoas que escreviam cartas de Boas Festas) comprava papel de carta decorado com motivos natalícios ou então, comprava postais de festas genéricos, nos quais se podia acrescentar a festa de que se tratava. Perante isto, Sir Henry pediu a Horsley para lhe criar um postal com uma única mensagem que pudesse ser duplicada e enviada a todas as pessoas da sua lista. A primeira edição destes postais foi colorida à mão, nestes podia ver-se uma família a festejar com a legenda "Merry Christmas and a Happy New Hear to You" (Feliz Natal e um Próspero Ano Novo para ti). Estes foram impressos num cartão por Jobbins de Warwick Court, Holborn, Londres, sendo, posteriormente, pintados à mão por um profissional de nome Manson. Estes foram publicados no "Summerly's Home Treasury Office, 12 Old Bond Street, Londres", pelo seu amigo e sócio Joseph Cundall. Os postais que não foram utilizados po Sir Henry, venderam-se na Summerly's por 1 xelim. Segundo Cundall venderam-se muitos postais, cerca de 1000. Actualmente, só existe por volta de uma dúzia destes postais originais, um desses foi leiloado em 24/11/2004, sendo vendido por £22,500 (foi enviado por Sir Henry Cole para "Granny and Auntie Char"), como estava assinado pelo próprio Sir Henry Cole, este postal é extremamente raro e valioso. Estes postais ilustravam uma família em festa durante o Natal e brindavam ao seu amigo ausente (ao qual o postal era dirigido) com um copo de vinho tinto. Em cada um dos lados do postal tinha imagens de actos de caridade "vestir os desnudados" e "alimentar os pobres". Contudo, a imagem central da família brindando causou grande controvérsia, sendo alvo de várias críticas já que ver crianças a beber um pouco de vinho era considerado como um fomentar da corrupção moral nas crianças. Perante isto, os postais foram retirados de venda. Segundo a lenda, no ano seguinte, Sir Henry não usou o método dos postais para fazer os seus votos de Boas Festas aos seus amigos, mas mesmo assim o hábito de enviar postais de Natal rapidamente se espalhou não só por toda Inglaterra, mas também um pouco por todo o mundo.