23 de janeiro de 2009

Roberto Carlos: 50 anos de uma carreira que não pára de cintilar

ROBERTO CARLOS: 50 anos de uma carreira que não pára de cintilar Em 1959, Roberto Carlos estava numa sinuca de bico. Saíra meio desgostoso do conjunto The Sputniks, no qual dividia a liderança com Tim Maia. Muitas editoras diziam-lhe não sem cerimónia: fora recusado pela Chantecler, pela RCA, pela Philips, pela Odeon. Tinha então 18 anos e teve de recorrer a um primo, que era gerente da boate Plaza, em Copacabana, no Rio de Janeiro, para conseguir um contrato como cantor da noite daquela cidade brasileira. Assinou para trabalhar como “crooner” da casa nocturna. Ali ele ganharia o seu primeiro salário profissional, e foi nesse momento, o do primeiro pagamento, que ele considera o início da sua carreira consagrada de cantor (embora já tivesse uma década de experiência musical). Por conta dessa data-chave, Roberto (que faz 68 anos em Abril) inicia agora em Fevereiro - no mar, cantando para 2.682 pessoas no navio brasileiro Costa Mágica – as comemorações dos seus 50 anos de carreira, que começou naquele trabalho na Boate Plaza. Logo depois, em Julho do mesmo ano, Roberto Carlos seria aceite pela Polydor, após uma audição com Roberto Corte Real, e gravaria um compacto em 78 rotações com as canções “Fora do Tom” e “João e Maria”, ambas de Carlos Imperial. No mesmo ano, Roberto Carlos ainda gravaria outro disco de 78 rotações com “Brotinho Sem Juízo” e “Canção do Amor Nenhum” (Carlos Imperial). Ricardo Pugialli, autor do livro “Almanaque da Jovem Guarda”, acredita que Fevereiro de 1959 foi o mês em que Roberto Carlos iniciou a sua primeira temporada como cantor profissional. “A data precisa é muito difícil de se afirmar. Não existem mais documentos sobre o período. Provavelmente Roberto pode ter os originais. Nada mais existe da antiga boate ou mesmo do hotel Plaza. Temos hoje um novo hotel no local, com o mesmo nome, mas tudo foi modificado. Não há fotos, documentos, cartazes, nada”, conta o autor. Segundo o escritor e pesquisador, autor de um livro que Roberto Carlos elogia, o cantor parece preferir a data como marco inicial da sua carreira (em vez da gravação do compacto em 78 RPM) por um motivo especial. “Cantando na mesma casa onde João Gilberto se apresentou, onde os cobras da bossa nova (Baden Powell, Johnny Alf, João Donato, Milton Banana, entre outros) davam canjas quase todas as noites, é com certeza o motivo pelo qual ele guarda com carinho a data. Já o disco não é um trabalho que eu acredito que ele tenha gostado tanto. Não estava em seu estilo, era uma emulação de João Gilberto e ele foi muito criticado na época pelos músicos e simpatizantes da bossa nova.” O próprio Roberto Carlos, numa entrevista, em 2005, foi sucinto a respeito da data. “Eu tinha uns 16 ou 17 anos e só ouvia rock’n’roll, quando um dia, no rádio do carro, escutei João Gilberto. Mudei tudo e só quis cantar bossa nova”, contou. “Por isso, o meu primeiro trabalho como cantor foi na Boate Plaza.” Outra novidade prevista para este ano para festejar o cinquentenário da sua carreira seria uma grande tournée de Roberto Carlos pela América Latina, passando pela Argentina, Chile e México.
22 de Janeiro de 2009

Quando a Pátria é Nossa (Armando Artur)

QUANDO A PÁTRIA É NOSSA É assim esgravatada e repilhada Até aos limites do seu interior Por gente nossa e despudorada Quando a pátria que é nossa É assim regateada ao preço da gula E ganância, por gente que jurou Defendê-la com bravura e valentia Quando a pátria que é nossa É assim extorquida e ameaçada Por gente sem dó e auto-esconjurada Que não olha a meios senão a fins Quando a pátria que é nossa É assim leiloada em praças obscuras À taxa diária do sangue, suor e lágrimas De milhões de braços, e uma só força Por gente ilustre e de colarinho branco Quando a pátria que é nossa É assim assaltada pelos flancos da sua Beleza e contornos da sua geografia Por gente forasteira de si própria Quando a pátria que é nossa É assim deixada à deriva e ao relento E à mercê dos párias do nosso maior Descontentamento colectivo Quando a pátria que é nossa É assim atraiçoada por essa gente sem Nome, que se aliança com mercadores De insónias e arautos do caos e do mal Em troca do fútil e do asco Todo silêncio e todo exílio serão Sempre iguais a pátria que é nossa! Armando Artur

21 de janeiro de 2009

Karingana ua Karingana (Luiz Eduardo Rodrigues Amaro)

Karingana ua Karingana Karingana ua Karingana, poesia de 13 versos, divididos em duas estrofes de seis e um verso isolado (título da poesia – enfático), possui características singulares a um poeta que busca a sua redenção ao beber nas fontes inexauríveis de uma cultura rica e em questionamento. Esta poesia é mais do que um protesto: é a definição de um fazer-poético em simbiose com a cultura popular. Observe a primeira estrofe: “Este jeito de contar as nossas coisas à maneira simples das profecias (1) é que faz o poeta sentir-se gente”. (2) Uma maneira de contar as coisas? À maneira simples das profecias? O que é isto a não ser a cultura, o folclore, as tradições de uma nação em busca da própria identidade? É exatamente tal busca que traz a cidadania às pessoas, ou seja, faz o poeta – como contador de histórias – sentir-se gente, sentir-se humano, íntegro e actante na sociedade em que se insere. Percebamos a linguagem fluente, quotidiana, descomplicada. Premonitória até, como se identifica nos versos: “E nem de outra forma se inventa o que é propriedade dos poetas nem em plena vida se transforma a visão do que parece impossível em sonho do que vai ser _ Karingana!” A estrutura paralelística existente na segunda estrofe reforça a idéia de que o poeta deve cantar a transformação, o sonho. A conjunção (nem) une as duas concepções: o que é propriedade do poeta (contar as nossas histórias à maneira das profecias) e a visão premonitória (que faz o poeta – e todo homem - ser gente). Em outras palavras, em um processo anafórico, a estrofe subseqüente reforça, enfatiza a anterior. Karingana! Desta forma termina a poesia e desta forma devemos aprender a vislumbrar um futuro libertário! A poesia que segue chama-se Guerra. Duas estrofes de três versos cada. O leitor desatento pode não valorizar um texto tão simples, porém, o leitor crítico sabe valorizar a magnífica capacidade de síntese do poeta, assim como a soberba metáfora que se instaura neste poema, como a chave de ouro do soneto, que nos faz pensar a respeito do potencial semântico das palavras, quando são bem empregadas. Analisemos a primeira parte: “Aos que ficam resta o recurso de se vestirem de luto”. O que faz estes versos possuírem esta densidade dramática, este apelo ao leitor? Existe um repertório, um conhecimento de mundo pré-existente, emanado pelo vocábulo-título que contamina a estrofe, liberando os sentimentos à leitura. “Aos que ficam”, àqueles que sobreviveram à guerra, resta a perda dos entes queridos e outras modalidades de ausência, “o luto”. De uma forma, vencedores por atingirem o objetivo; por outro lado, perdedores, uma vez que as lembranças e as dores do passado guerrilheiro voltam como sombras a perseguir, incessante e implacavelmente, o eu lírico que extravasa esta mesma memória na estrofe seguinte: “Ah, Cidades! Favos de pedra (1) macios amortecedores de bombas”. (2) Uma mistura de memória e nostalgia instaura-se nesta interjeição. As cidades, emaranhados de prédios (concreto, pedra, sem vida), pulsando com as milhares de pessoas que a dão motivo de existir, que imprimem ao concreto, vida. (1) “Favos de pedra”: os favos fazem referência às colméias (moradias das abelhas) que, como os homens, vivem em sociedade. Faz alusão às janelas onde estão o mel (alimento), assim como as inúmeras janelas dos prédios, possível aproximação pelo adjunto restritivo “de pedra”, onde as pessoas vivem, trabalham, amam, alimentam-se, constituem família. (2) “macios amortecedores de bombas”: esta metáfora é fortíssima. Percebemos a tensão provocada por uma antítese implícita que contrasta “macio” com “bombas”, uma vez que as bombas não tornam nada macio, ao contrário, o contato destes artefatos com o solo destroem as mais resistentes estruturas, de pedra ou de carne. Observe que o eu lírico joga com as imagens, são simples e diretas, porém fortes e bem elaboradas. É nesta simplicidade, nesta extraordinária capacidade sintética que a tensão se instaura na poesia. Aqui está uma breve análise de algumas poesias do escritor africano Craveirinha. Há, sem sombra de dúvidas, uma vasta gama de poesias deste escritor que merece análises mais apuradas. Luiz Eduardo Rodrigues Amaro

16 de janeiro de 2009

Karingana Ua Karingana (José Craveirinha)

Karingana Ua Karingana Este jeito de contar as nossas coisas à maneira simples das profecias - Karingana ua Karingana! - é que faz o poeta sentir-se gente E nem de outra forma se inventa o que é propriedade dos poetas nem em plena vida se transforma a visão do que parece impossível em sonho do que vai ser. - Karingana! José Craveirinha

Poema da Infância Distante (Noémia de Sousa)

Poema da Infância Distante A Rui Guerra Quando eu nasci na grande casa à beira-mar, era meio-dia e o sol brilhava sobre o Índico. Gaivotas pairavam, brancas, doidas de azul. Os barcos dos pescadores indianos não tinham regressado ainda arrastando as redes pejadas. Na ponte, os gritos dos negros dos botes chamando as mamanas amolecidas de calor, de trouxas à cabeça e garotos ranhosos às costas soavam com um ar longínquo, longínquo e suspenso na neblina do silêncio. E nos degraus escaldantes, mendigo Mufasini dormitava, rodeado de moscas. Quando eu nasci... – Eu sei que o ar estava calmo, repousado (disseram-me) e o sol brilhava sobre o mar. No meio desta calma fui lançada ao mundo, já com meu estigma. E chorei e gritei – nem sei porquê. Ah, mas pela vida fora, minhas lágrimas secaram ao lume da revolta. E o Sol nunca mais brilhou como nos dias primeiros da minha existência, embora o cenário brilhante e marítimo da minha infância, constantemente calmo como um pântano, tenha sido quem guiou meus passos adolescentes, - meu estigma também. Mais, mais ainda: meus heterogéneos companheiros de infância. Meus companheiros de pescarias por debaixo da ponte, com anzol de alfinete e linha de guita, meus amigos esfarrapados de ventres redondos como cabaças, companheiros de brincadeiras e correrias pelos matos e praias da Catembe unidos todos na maravilhosa descoberta de um ninho de tutas, na construção de uma armadilha com nembo, na caça aos gala-galas e beija-flores, nas perseguições aos xitambelas sob um sol quente de Verão... – Figuras inesquecíveis da minha infância arrapazada, solta e feliz: meninos negros e mulatos, brancos e indianos, filhos da mainata, do padeiro, do negro do bote, do carpinteiro, vindos da miséria do Guachene ou das casas de madeira dos pescadores, Meninos mimados do posto, meninos frescalhotes dos guardas-fiscais da Esquadrilha – irmanados todos na aventura sempre nova dos assaltos aos cajueiros das machambas, no segredo das maçalas mais doces, companheiros na inquieta sensação do mistério da “Ilha dos navios perdidos” – onde nenhum brado fica sem eco. Ah, meus companheiros acocorados na roda maravilhada e boquiaberta de “Karingana wa karingana” das histórias da cocuana do Maputo, em crepúsculos negros e terríveis de tempestades (o vento uivando no telhado de zinco, o mar ameaçando derrubar as escadas de madeira da varanda e casuarinas, gemendo, gemendo, oh inconsolavelmente gemendo, acordando medos estranhos, inexplicáveis das nossas almas cheias de xituculumucumbas desdentadas e reis Massingas virados jibóias...) Ah, meus companheiros me semearam esta insatisfação dia a dia mais insatisfeita. Eles me encheram a infância do sol que brilhou no dia em que nasci. Com a sua camaradagem luminosa, impensada, sua alegria radiante, seu entusiasmo explosivo diante de qualquer papagaio de papel feito asa no céu de um azul tecnicolor, sua lealdade sem código, sempre pronta, – eles encheram minha infância arrapazada de felicidade e aventuras inesquecíveis. Se hoje o sol não brilha como do dia em que nasci, na grande casa, à beira do Índico, não me deixo adormecer na escuridão. Meus companheiros me são seguros guias na minha rota através da vida. Eles me provaram que “fraternidade” não é mera palavra bonita escrita a negro no dicionário da estante: ensinaram-me que “fraternidade” é um sentimento belo, e possível, mesmo quando as epidermes e a paisagem circundante são tão diferentes. Por isso eu CREIO que um dia o sol voltará a brilhar, calmo, sobre o Índico. Gaivotas pairarão, brancas, doidas de azul e os pescadores voltarão cantando, navegando sobre a tarde ténue. E este veneno de lua que a dor me injectou nas veias em noite de tambor e batuque deixará para sempre de me inquietar. Um dia, o sol iluminará a vida. E será como uma nova infância raiando para todos. Noémia de Sousa 29 de Abril de 1950

A Montanha (Roberto Carlos)

A Montanha (Roberto Carlos)

A MONTANHA Eu vou seguir uma luz lá no alto eu vou ouvir Uma voz que me chama eu vou subir A montanha e ficar bem mais perto de Deus e rezar Eu vou gritar para o mundo me ouvir e acompanhar Toda minha escalada e ajudar A mostrar como é o meu grito de amor e de fé Eu vou pedir que as estrelas não parem de brilhar E as crianças não deixem de sorrir E que os homens jamais se esqueçam de agradecer Por isso eu digo: Obrigado Senhor por mais um dia Obrigado senhor que eu posso ver Que seria de mim sem a fé que eu tenho em Você Por mais que eu sofra, Obrigado Senhor mesmo que eu chore Obrigado Senhor por eu saber Que tudo isso me mostra o caminho que leva a Você Mais uma vez Obrigado Senhor por outro dia Obrigado Senhor que o sol nasceu Obrigado Senhor agradeço Obrigado Senhor Por isso eu digo: Obrigado Senhor pelas estrelas Obrigado Senhor pelo sorriso Obrigado Senhor agradeço Obrigado Senhor Mais uma vez Obrigado Senhor por um novo dia Obrigado Senhor pela esperança Obrigado Senhor agradeço Obrigado Senhor Por isso eu digo: Obrigado Senhor pelo sorriso Obrigado Senhor pelo perdão Obrigado Senhor agradeço Obrigado Senhor Roberto Carlos

Poeta moçambicano Eduardo White lança novo livro de poesia "A Fuga e a Húmida Escrita do Amor"

Eduardo White lança novo livro Novo ano. Nova obra. O poeta moçambicano Eduardo White entrou literariamente em 2009 com o pé direito. Apresentou ontem em Maputo mais um livro de poesia intitulado “A Fuga e a Húmida Escrita do Amor”. O livro sai sob chancela da Texto Editores. Numa cerimónia singela, Eduardo White, reuniu familiares, amigos e jornalistas para apresentar esta que é a sua mais recente produção literária. Num discurso de improviso, destacou o que é que aquele momento representava na sua vida. Visivelmente emocionado, White caracterizou a sua obra nos seguintes termos, “escrever livro é como ter filhos”. Entretanto, como não há bela sem senão, a ausência do seu editor à cerimónia não terá passado despercebido, facto pontualmente lamentado por Eduardo White. E num acto quase inédito na praxe, Eduardo White, pegou as rédeas e apresentou pessoalmente a sua própria obra! E na sua qualidade de poeta, construiu um discurso à altura da sua estatura, usando um discurso belo, penetrante e reflexivo. Seguiu-se um momento particularmente interessante, em que a poesia fez um “casamento” com a música. Um trio de jovens talentos - banda “New Joit”- corou a plateia ao cantando com grande qualidade vocal. Mas a cerimónia só caiu o pano, com a apresentação de uma peça teatral baseado no livro ora lançado, num trabalho de encenação do actor Mário Mabjaia. A peça terminou com o personagem principal (Mário Mabjaia) a gritar, “eu não sou louco/ Sou um homem livre / e que vive na Liberdade”. Eduardo White é membro da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO). É autor das obras “Amar sobre o Índico” (1984); “Homoíne” (1987); “País de Mim” (1990; Prémio Gazeta revista Tempo); “Poemas da Ciência de Voar e da Engenharia de Ser Ave (1992; Prémio Nacional de Poesia); “Os Materiais de Amor Seguido de O Desafio à Tristeza” (1996); “Janela para Oriente” (1999); “Dormir com Deus e um Navio na Língua” (2001; bilingue português/inglês; Prémio Consagração Rui de Noronha); “As Falas do Escorpião (novela; 2002); “O Homem a Sombra e a Flor e Algumas Cartas do Interior (2004). A sua poesia está exposta no museu Val-du-Marne em Paris desde 1989. Em 2001 foi considerado em Moçambique a figura literária do ano. Maputo, Sexta-Feira, 16 de Janeiro de 2009:: Notícias

14 de janeiro de 2009

Biografia do escritor moçambicano Eduardo White

Biografia de Eduardo White Escritor moçambicano, Eduardo Costley White nasceu em Quelimane (Moçambique), a 21 de Novembro de 1963. Após uma formação durante três anos no Instituto Industrial, o escritor exerceu funções directivas numa empresa comercial, foi membro do Conselho de Coordenação e fundador da revista «Charrua» e dirigente da Associação de Escritores de Moçambique. Tem colaboração na imprensa lusófona e várias publicações como "Amar sobre o Índico" (1984), "País de Mim" (1990), "Poemas da Ciência de Voar e da Engenharia de Ser Ave" (1992), "Dormir com Deus e um Navio na Língua" (2001), "As Falas do Escorpião" (2002), "O Manual das Mãos" (2004), entre outros. Recebeu vários prémios literários e foi considerado, em 2001, em Moçambique, a Figura Literária do Ano. Numa preocupação com as origens, Eduardo White reflecte na sua poesia a sua história e reflecte sobre Moçambique, numa tentativa de apagar as marcas da guerra e de dignificar a vida humana. Para isso, escreve através de um amor diversificado que pode ser pela amada, pela terra ou mesmo pela própria poesia, sempre num tom de ternura, de onirismo, de musicalidade e de erotismo.

Baseado no livro de Mia Couto: Filme “Terra Sonâmbula” na mostra de Nova Iorque



Baseado no livro de Mia Couto: Filme “Terra Sonâmbula” na mostra de Nova Iorque A longa-metragem “Terra Sonâmbula”, baseada no livro do escritor moçambicano Mia Couto, abre hoje a mostra “Global Lens 2009”, em acto a ter lugar no Museum of Modern Arts de Nova Iorque (MOMA). Esta produção cinematográfica faz parte de uma dezena de películas que serão exibidas neste certame. Depois da apresentação no Museum of Modern Arts de Nova Iorque, “Terra Sonâmbula” ficará por uma semana e depois seguirá para outras 35 cidades dos Estados Unidos. O filme da cineasta portuguesa Teresa Prata, é baseado no romance homónimo do escritor moçambicano Mia Couto. Conta a história de Muidinga, um menino que procura a família em plena guerra dos 16 anos. Esta produção cinematográfica conta com apenas dois actores profissionais no elenco, a moçambicana Ana Magaia e a portuguesa Laura Soveral. Os restantes, incluindo o menino de 12 anos que protagoniza Muidinga, são amadores. Quanto à cineasta Teresa Prata, ela é formada em argumento e realização pela Deutsche Film und Fernsehakademie Berlin (Academia de Cinema e Televisão de Berlim). Passou a infância em Moçambique e a adolescência no Brasil, estudou em Portugal, e agora está baseada na Alemanha, tem uma formação bastante ecléctica: estudou piano no Rio de Janeiro, formou-se em Biologia em Coimbra e Cinema em Berlim. Leu o livro de Mia Couto quando estudava em Berlim e achou a história fantástica, decidindo passá-la ao cinema, com o consentimento do escritor, que quando visionou a longa-metragem gostou da adaptação feita. "Terra Sonâmbula" é uma co-produção portuguesa (Filmes do Fundo), alemã (ZDF/ARTE), e a moçambicana (Ébano Multimédia), com o apoio do Ministério da Cultura, por meio do Instituto do Cinema e Audiovisual (ICA), da RTP, e do Instituto Camões. É distribuído pela The Global Film Iniciative. “Terra Sonâmbula” já conquistou um galardão: Prémio da Federação Internacional da Crítica de Cinema no Festival Internacional de Cinema na Índia. Maputo, Quarta-Feira, 14 de Janeiro de 2009 :: Notícias

9 de janeiro de 2009

Ilha do Meu alento, Moçambique

Ilha do meu alento, de Moçambique Sei de cor, Cada curva do teu corpo, Os passos dos teus caminhos, As sombras das tuas árvores e casario. Sei de cor, Cada dança das tuas ondas, As carícias das teu vento, Os cheiros da tua maresia. Sei de cor, Cada tom da cor do teu mar, O calor e brilho do sol dos teus dias, O luar e as estrelas das tuas noites. Sei de cor, Cada limite do teu horizonte, A voz das tuas gentes, A brandura das tuas horas, Sei de cor, A imagem do mau tempo Neste meu exílio terreno Onde tomei tamanho de gente. Sei de cor, Cada lágrima do teu rosto, As angústias do teu olhar, Os silêncios do tua voz, A imagem de outro tempo! E o que não sei de cor Adivinho a sonhar. Se me disserem que sou louca, Logo minha voz com firmeza desmente. Mas se for, tanto melhor! Autor/a Desconhecido/a

Poema de Despedida (Mia Couto)

POEMA DE DESPEDIDA Não saberei nunca dizer adeus Afinal, só os mortos sabem morrer Resta ainda tudo, só nós não podemos ser Talvez o amor, neste tempo, seja ainda cedo Não é este sossego que eu queria, este exílio de tudo, esta solidão de todos Agora não resta de mim o que seja meu e quando tento o magro invento de um sonho todo o inferno me vem à boca Nenhuma palavra alcança o mundo, eu sei Ainda assim, escrevo Mia Couto

Sotaque da Terra (Mia Couto)

SOTAQUE DA TERRA Estas pedras sonham ser casa sei porque falo a língua do chão nascida na véspera de mim minha voz ficou cativa do mundo, pegada nas areias do Índico agora, ouço em mim o sotaque da terra e choro com as pedras a demora de subirem ao sol Mia Couto

Mia Couto aprova filme "Terra Sonâmbula"

MIA COUTO APROVA FILME "TERRA SONÂMBULA" O escritor moçambicano Mia Couto elogiou a adaptação cinematográfica da realizadora Teresa Prata da obra de sua autoria, "Terra Sonâmbula". O autor de "Mar me quer" considerou que o produto final "respeita o espírito da história" e que a cineasta "soube recolher o essencial" do romance. "É um filme sério e limpo", classificou o escritor. A película tem estreia mundial prevista para o dia 27 deste mês no âmbito do Festival Internacional de Cinema de Montreal, no Canadá. Estreia de Teresa Prata no grande ecrã, "Terra sonâmbula" foi publicado em 1992. O filme foi todo rodado em Moçambique, mais precisamente numa área de 200 quilómetros nos arredores da capital, Maputo. A acção tem como pano de fundo a guerra civil em Moçambique e conta a história de Muidinga, um rapaz de 12 anos que se lança na aventura de reencontrar a família. No momento em que contacta com um diário pertencente a uma mulher que procura o filho, acredita ser ele a criança e parte em busca da mãe, em direcção ao mar. A produção de Mia Couto não é desconhecida da Sétima Arte. Aquele que é o autor moçambicano mais lido no estrangeiro já teve outras obras transpostas para o cinema. "O olhar das estrelas", filme de João Ribeiro, baseou-se no conto "Saíde, o lata de água", enquanto que "Um rio", de José Carlos Oliveira, é uma adaptação do romance "Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra". Jornal de Notícias, 21 Agosto 2007

Pequeninura do Morto e do Vivo (Mia Couto)

PEQUENINURA DO MORTO E DO VIVO O morto abre a terra: encontra um ventre O vivo abre a terra: descobre um seio Mia Couto

4 de janeiro de 2009

Maria de Lurdes Mutola - Filha da Nação

MARIA DE LURDES MUTOLA - FILHA DA NAÇÃO Maria de Lurdes Mutola disputou o maior prémio do atletismo mundial: um milhão de dólares por ganhar cinco corridas de seguida. Conversa com a heroína de Moçambique Maria de Lurdes Mutola não é uma campeã qualquer. A mulher mais rápida do mundo nos 800 metros, primeira medalhada olímpica de Moçambique, tornou-se a heroína nacional. Um símbolo, num país necessitado de referências. Os moçambicanos tratam-na domesticamente por Lurdes, já lhe erigiram uma estátua, deram o seu nome a uma avenida e à escola primária onde andou. O Presidente Joaquim Chissano, que lhe pôs à disposição o número de telemóvel, é dos primeiros a ligar-lhe depois das provas. E ela não desdenha a sua importância. «Estou tão orgulhosa desse carinho todo que me é difícil expressar o que sinto. Acho que devo parte do que sou a esse apoio», disse esta semana ao EXPRESSO.
Foi também como agradecimento que a atleta criou a Fundação Lurdes Mutola, com sede em Maputo, que apoia «talentos» no desporto nacional. Aproveitando a «febre das corridas» que provocou em Maputo, a fundação já permitiu a mais de 20 atletas a participação em provas internacionais e está a pagar a preparação de uma corredora nos Estados Unidos. Na capital irá ser construído um centro desportivo profissional. No manifesto que escreveu para a fundação, Mutola diz: «Quando a bandeira de Moçambique sobe nos estádios internacionais não vencemos apenas uma prova desportiva; vencemos a descrença, a falta de confiança em nós mesmos, a condenação da pobreza, a exclusão e o isolamento.» Mutola percebeu bem a lição que o poeta José Craveirinha lhe ensinou, quando a descobriu, aos 14 anos, a retirou dos campos de futebol - onde ela julgava estar o seu futuro - e a atirou para as pistas, onde as suas pernas musculadas lhe haviam de dar um futuro glorioso. «Ele foi o meu Deus, o meu criador», diz Mutola, ainda saudosa de quem sempre chamou «o Poeta», falecido em Fevereiro deste ano. Ele foi o seu golpe de sorte. Adolescente num Moçambique estraçalhado pela guerra, Mutola não tinha outra brincadeira que não fosse jogar futebol. Disputava a bola ombro a ombro, nas peladinhas com os rapazes do bairro da Mafala, em Maputo. «Queria ser futebolista, em Portugal, como o Eusébio, ou nos Estados Unidos, onde sabia que havia equipas femininas. Mas também jogava por causa da guerra. Não tínhamos o que comer, não podíamos fazer nada, ir a lado nenhum. Não tínhamos liberdade, ficávamos fechados na cidade, onde havia alguma segurança. E o desporto era o meu refúgio». Maria já era o embrião da força que agora ostenta nas pistas. Convenceu a restante equipa dos Águias de Ouro a inscrevê-la numa competição municipal masculina. «Fomos campeões. Ninguém pensou que fosse problema eu ser rapariga», conta. Mas a competição era oficial e, mesmo com a elasticidade habitual das regras africanas, houve quem se aproveitasse da pequena falha para ganhar com isso. «Queriam que fossemos desclassificados». Na altura, ficou destroçada. Sem perceber ainda que naquela peripécia espreitava um novo futuro, longe dos relvados - onde, aliás, nenhuma mulher tem grande destino.
O caso deu brado nos jornais de Maputo. E chamou a atenção do escritor José Craveirinha que considerava o desporto uma das causas da emancipação moçambicana. Ele teve uma visão, quando decidiu ir observar Mutola a jogar. Reparou na maneira como a rapariga corria atrás da bola, os seus gémeos a esticarem-se sem perderem força, os glúteos contraídos num pontapé. Viu nela a campeã. «Quando ele me falou da primeira vez do atletismo, eu nem sabia o que isso era», recorda Mutola ao EXPRESSO, dando uma das gargalhadas com que costuma afastar os nervos, dentro e fora da pista. São conhecidos os largos sorrisos com que se deixa fotografar depois de poderosos «sprints» finais, em corridas com cara fechada e ar de quem pode levar tudo à frente. Dois dias antes da prova da sua vida - sexta-feira da semana passada estava em causa um milhão de dólares, o «jackpot» da Liga de Ouro da Federação Internacional de Atletismo, para quem ganhar cinco das sete principais provas mundiais - Mutola ainda dizia que preferia não pensar no prémio. «Quando ganhar logo penso no que vou fazer com o dinheiro». Foi essa combinação de força e humor que a levou de um bairro de caniço e madeira e zinco, em Maputo, até ao pódio do atletismo mundial, e fez ultrapassar todas as dificuldades. A primeira, as «dores horríveis no corpo», que diz ter sentido depois da primeira semana de treinos com o filho de Craveirinha, Stélio, treinador de atletismo. O escritor comprou-lhe as primeiras sapatilhas. Durante seis dias, Mutola correu distâncias curtas e fáceis. Ao sétimo estava numa pista a sério, para uma sessão de intervalos de 300 e 400 metros. «Aquilo dava muito mais trabalho do que eu pensava. Desisti e pensei em nunca mais na vida ver o Poeta», recorda Mutola. Craveirinha obrigou-a à persistência. Desistir era o erro de tantos outros e isso irritava o patriota, que via no corpo atlético dos moçambicanos mais futuro do que os resultados indiciavam. Até ali nunca Moçambique tinha ganho uma medalha olímpica. Craveirinha culpava a discriminação colonial também por isso. «Ele foi a minha casa convencer os meus pais de que eu tinha de correr», conta a atleta. Craveirinha teve uma conversa séria com os pais dela, João e Catarina Mutola, que tinham mais cinco filhos e poucos rendimentos. Ele era funcionário dos Caminhos-de-Ferro de Moçambique, ela cultivava legumes no quintal para vender no mercado. Acenou-lhes com os futuros louros da caçula da família. Certos, no seu entender.
Os tempos eram difíceis. Os pais acederam aos pedidos do auto-empossado «treinador» e deram-lhe a «tutela desportiva» da filha. Craveirinha sabia como convencê-la. Levou-a para casa e pôs no vídeo gravações das Olimpíadas de Los Angeles em 1984. O desempenho de Carl Lewis era o argumento que faltava. Resultou. «Nunca tinha visto um estádio tão cheio de gente». Apenas alguns meses depois, em 1988, no dia em que completava 16 anos, estava a correr nas Olimpíadas de Seul, terminando em sétimo lugar. O tempo obtido - dois minutos, quatro segundos, 36 centésimos - deu-lhe acesso à Bolsa Olímpica de Solidariedade. «Era uma tristeza, mas sabia que a tinha de deixar ir embora, Moçambique não tem uma cultura que apoie o desporto», diria Craveirinha. Aos 18 anos, sem saber uma palavra de inglês, Mutola embarcou num avião para Chicago, via Paris. Num dia de chuva, instalou-se em Eugene, no gélido e frondoso Estado do Oregon. Vivia com uma família americana e tinha aulas numa escola secundária, onde partilhava a sala de aula com adolescentes americanas preocupadas com vestidos e festas. As suas performances deram nas vistas, o que, aliado à sua condição de estrangeira e ao ar másculo - que se acentuou com os treinos no ginásio três vezes por semana -, contribuiu para que fosse o gozo na escola. «Foi muito difícil. Tive de aprender inglês rápido, ninguém sabia uma palavra de português. Não desisti porque uma vez liguei para casa a chorar e a minha irmã disse-me que se eu voltasse ia ser uma moça igual às outras, para aí nas ruas». A sua treinadora desde os tempos de escola, a americana Margot Jennings, tem outra explicação: «Ela estava a milhas das colegas todas em maturidade». GOVERNO PAGOU CASA DOS PAIS Mutola diz simplesmente que a sua preocupação era saber se os pais «tinham comida para comer». Pouco tempo depois deixariam de ter dificuldades, recebendo uma boa parte dos 250 mil dólares que a filha iria ganhar por ano, especializando-se nos 800 metros. «Acho que quem sentiu mais as mudanças foram os meus pais. O Governo até mandou recuperar a casa deles - a casa que a minha mãe nunca quis deixar. Até hoje!»
A carreira foi fulgurante. Nos Campeonato do Mundo de 1991, Mutola terminou a prova em quarto lugar, nas Olimpíadas de 1992 ficou em quinto, jogos em que correu os seus únicos 1500 metros numa prova internacional, ficando-se pelo 9º lugar. Nos anos seguintes tornar-se-ia a rainha dos 800 metros. O primeiro título de Mutola foi conquistado nos Mundiais de Estugarda, em 1993, no mesmo ano em que ganhou também os Mundiais de Pista Coberta de Toronto. Em 1995, em Gotemburgo, Mutola teve um dos únicos desaires da sua carreira: foi desclassificada por ter saído da pista. Prostrou-se de joelhos na pista. Mas alguns meses mais tarde recuperaria, quebrando o recorde da vencedora de Gotemburgo. Em 1996, em Atlanta, ganhou a primeira medalha olímpica para Moçambique, embora de bronze. Até 2000. Nas suas quartas olimpíadas, em Sidney, arrebatou o ouro dos 800 metros (com 1:56:15) e foi recebida em Maputo com uma passadeira vermelha e honras de heroína nacional. De 1992 a 1995 não perdeu uma única prova, tendo, segundo ela própria confessou, «perdido um pouco a motivação». O estímulo regressou depois duma pequena conversa com Nelson Mandela - seu ídolo de sempre -, que a chamou ao palácio presidencial para lhe garantir que África tinha os olhos postos nela. Apesar de ser heroína nacional, Mutola nunca mais voltou a viver em Moçambique. «Agora já podia treinar lá - porque tem ginásio e pista de tartan - mas não tinha sossego. Não é por mal, mas não me concentrava», diz. Tem um pequeno rancho nos EUA, que teve de abandonar por causa das alergias primaveris. E mudou-se para a África do Sul, onde fica mais perto da mãe (sozinha, depois da morte do pai num acidente de carro). Treina com a inglesa Kelly Holmes - a companheira que ela ajudou a ganhar o segundo lugar, na corrida dos 800 metros no Mundial de Paris, na semana passada. Este ano foi o melhor da sua carreira e, para já, Mutola não faz planos de reforma. «Ainda sou nova, quero continuar a correr», afirma. Mas quando as pernas já não a deixarem, o poiso será certo - a sua terra, Moçambique - «onde espero ajudar o povo naquilo que sei». E é tanto.
Texto de Catarina Carvalho, com Mateus Chale, correspondente em Maputo in: Expresso

3 de janeiro de 2009

Venenos de Deus, Remédios do Diabo (Mia Couto)

VENENOS DE DEUS, REMÉDIOS DO DIABO (MIA COUTO) Venenos de Deus, Remédios do Diabo é o mais recente romance de Mia Couto, escritor moçambicano nascido em 1955. Neste livro, tomamos contacto com Sidónio Rosa, médico português que decide fazer trabalho cooperativo em Moçambique para tentar encontrar a sua amada Deolinda, uma mulata que conheceu num congresso em Lisboa. Chegado a Via Cacimba só encontra os pais de Deolinda – Bartolomeu Sozinho e Dona Munda – que justificam a ausência da mulata por suposto estágio. No decorrer da narrativa Sidónio é confrontando com histórias antagónicas sobre o que terá acontecido a Deolinda e sobre o passado da família Sozinho. Adensa-se o mistério e Sidónio mergulha, também ele, na cacimba que parece cobrir a Vila Cacimba. Mia Couto sabe contar uma história, doseia a informação com mestria, revela os factos no momento certo, fá-lo quando já estamos desconfiados da sua existência e sem chamar a atenção para si. O leitor só sabe aquilo que a personagem principal sabe, embora haja algumas excepções, e toma conhecimento dos factos ao mesmo tempo que Sidónio. Isto permite que cada revelação seja, no contexto da narrativa, verosímil e permite também uma maior envolvência da parte do leitor. Em Venenos de Deus, Remédios do Diabo é fácil gostarmos das personagens pelo carisma e pela quase total ausência de maldade. Não são heróis, são pessoas que, como todos nós, cometem erros, mentem, falam verdade, têm medos, fantasmas e acreditam em algo que não se vê e que não é terreno. Nessa galeria de personagens destaca-se Bartolomeu Sozinho, um velho reformado que andou toda a vida, quando Moçambique era uma colónia portuguesa, embarcado no transatlântico Infante D. Henrique. Passa os dias fechado no seu quarto, apenas com a companhia da televisão que, como é dito, sonha por ele. Mal visto em Cacimba, por causa da sua ligação ao regime colonial que é empolada por uma daquelas lendas heróicas que alguns contam – neste caso o administrador Suacelência – para se vangloriar e conseguir um lugar de destaque junto da comunidade. A sua esposa, Dona Munda, é uma mulata acusada pelo seu marido de ser feiticeira. Guarda segredos que nunca chegamos a conhecer na sua totalidade. Tão depressa deseja, aparentemente, matar o seu marido como deseja que ele não morra e que recupere do mal que o consome. Com um papel de menor destaque desfilam na prosa de Mia Couto outras personagens com traços particulares e que prevalecem na nossa memória finda a leitura deste romance. Disso exemplo é Suacelência, o administrador da cidade que deseja um medicamento que acabe com o suor. A própria Vila Cacimba assume um destaque simbólico, porque tudo nela – locais (cemitério) e personagens – parece, como o nome indica, estar envolto num nevoeiro que não deixa ver a realidade. Na vila, o tempo (passado, presente e futuro) parece não existir e as histórias têm tantas versões quantos os habitantes que as contam. Venenos de Deus, Remédios do Diabo apresenta o trabalho sobre a linguagem típico de Mia Couto, onde as palavras são alteradas pela oralidade e pelo uso efectivo do dia-a-dia. Ainda assim, Mia Couto exagera nos adágios que coloca na boca das personagens e na voz do narrador. Parece haver uma necessidade de colocar em filosofia popular todo e qualquer acontecimento. Mesmo a personagem mais humilde tem a capacidade de soltar uma máxima em relação à coisa mais ínfima. Em alguns casos esse exagero de máximas é justificado e até recebido com um sorriso de aprovação, noutros parece um puro exercício de estilo feito a pensar em antologias de pensamentos de bolso. Cito alguns exemplos: “O amor acontece para a gente desacontecer” (página 38) e “Viver é um verbo sem passado” (página 46). Com o desenrolar da acção, deixamos de reparar nesse pequeno pecado e passamos a devorar com ganância cada página, na esperança de ver atadas todas as pontas da história. É esse o grande mérito de Mia Couto: sabe contar uma história e isso é um bom motivo para pegar num livro. por Emanuel Amorim

Lurdes Mutola: Briosa Homenagem à Pérola do Índico

LURDES MUTOLA: BRIOSA HOMENAGEM À PÉROLA DO ÍNDICO A cerimónia de homenagem a Lurdes Mutola realizada na passada sexta-feira, no Centro de Conferências Joaquim Alberto Chissano foi preparada à imagem de uma campeã do mundo e olímpica, à imagem de uma atleta que correu e conquistou o mundo, sempre com o emblema de Moçambique colado ao peito. Tudo foi preparado ao mínimo pormenor, com a devida pompa e circunstância ao nível da exigência e requinte de uma cerimónia que estiveram presentes as mais importantes figuras do Governo e do desporto. Como era de esperar, a “Pérola do Índico”, como é carinhosamente tratada Lurdes Mutola, foi congratulada com uma briosa homenagem, dirigida pelo Presidente da República de Moçambique, Armando Emílio Guebuza, que lhe concedeu o título de “Heroína do Trabalho da República de Moçambique”. Mais de 200 pessoas presentes, entre membros do Governo, familiares, desportistas e amigos aplaudiriam euforicamente o gesto, afinal era o mais alto reconhecimento após 20 anos de carreira. O coroar de uma carreira repleta de brilho que encheu de satisfação milhões de moçambicanos que em frente dos ecrãs ou “in-loco” vibravam com as cavalgadas da Menina de Ouro que quase sempre terminavam em vitória. As vitórias nos Campeonatos do Mundo dos 800 metros e nos Jogos Olímpicos em Sidney-2000 foram seguramente o momento mais alto de uma caminhada cheia de êxitos. Mutola estreou-se ao mais alto nível nos Jogos Olímpicos de Seul/ Coreia, tendo ocupado a sétima posição. Na homenagem a Lurdes Mutola não houve quem não se rendesse à campeã dos 800 metros. Os elogios vieram de diferentes figuras do desporto moçambicano. Todos foram unânimes em dizer que a homenagem é inteiramente merecida. “Briosa homenagem à Pérola do Índico”. Maputo,Segunda feira: 24 de Novembro de 2008

Quissico (Mia Couto)

QUISSICO 1. Deixei o sol na praia de Quissico De bruços sobre o Verão eu deixei o Sol na extensão do tempo Molhando, quase líquido, o dia afundava nas fundas águas do Índico A terra se via estar nua lembrando, distante, seu parto de carne e lua 2. Não o pássaro: era o céu que voava O ombro da terra amparava o dia A luz tombava ferida pingando como um pulso suicida um minhas ocultas asas Mia Couto

Saudades (Mia Couto)

SAUDADES Magoa-me a saudade do sobressalto dos corpos ferindo-se de ternura sói-me a distante lembrança do teu vestido caindo aos nossos pés Magoa-me a saudade do tempo em que te habitava como o sal ocupa o mar como a luz recolhendo-se nas pupilas desatentas Seja eu de novo a tua sombra, teu desejo, tua noite sem remédio tua virtude, tua carência eu que longe de ti sou fraco eu que já fui água, seiva vegetal sou agora gota trémula, raiz exposta Traz de novo, meu amor, a transparência da água dá ocupação à minha ternura vadia mergulha os teus dedos no feitiço do meu peito e espanta na gruta funda de mim os animais que atormentam o meu sono Mia Couto