29 de janeiro de 2009
Pirão (gastronomia angolana)
Moamba (gastronomia angolana)
Moamba
Carnes
Ingrediente Principal: Dendém
Ingredientes
1 kg de Dendém fresco ou óleo de palma extraído deste fruto
5/6 colheres de óleo de palma
Um fio de azeite de mesa
Uma colher de chá de banha
Um frango (ou galinha) cortado aos bocados
Sal q.b., gindungo, quiabos, lossakas, 1 ou 2 tomates maduros, 1 cebola grande e 1 dente de alho.
Preparação
Uma hora antes, tempera-se o frango partido com sal e alho esmagado no almofariz.
Numa panela pica-se a cebola grande e um ou dois tomates maduros. Mistura-se o azeite e a banha e deixa-se refogar ligeiramente.
Junta-se então o frango e deixa-se refogar mais um pouco.
Entretanto numa panela à parte (panela de pressão) ponha cerca de 1 litro de água e o dendém fresco. Deixe cozer 20 minutos com a panela fechada. Depois deite fora a água e pise o dendém na própria panela onde o cozeu.Deite-lhe por cima 1 litro de água fria e mexa com uma colher de pau.
Com as mãos, retire os caroços e as cascas e as fibras do dendém.
Coe esta água com um passador e junte ao frango. Prove de sal e acrescente um pouco se for necessário.
Junte ao frango as 5/6 colheres de óleo de palma.
Deixe apurar mais um pouco e acompanhe com funge, pirão ou arroz branco.
Escritora moçambicana Paulina Chiziane, lança hoje em Maputo o seu mais recente livro, "As Andorinhas"
Paulina Chiziane voa com “As Andorinhas”
A escritora Paulina Chiziane lança hoje em Maputo o seu mais recente livro, “As Andorinhas”, uma trilogia de três contos em que evoca o percurso de Ngungunhane, Eduardo Mondlane e Lurdes Mutola, relevando o seu papel inspirador para a actual e futuras gerações dos moçambicanos. A obra, chancelada pela Índico, é a sexta desta autora, que é a mulher moçambicana que mais livros publicou.
Paulina Chiziane casou algumas lendas e a história de vida destas três personalidades para “ajudar a compreender o Moçambique de hoje, em parte por influência do que aconteceu no passado”.
Paulina Chiziane escreveu os contos que agora publica em “As Andorinhas” há vários meses, depois de reler um dos livros que ela considera “um dos mais marcantes” da literatura moçambicana: “Chitlango, o Filho do Chefe”, de Eduardo Mondlane. Também inspirou-se em lendas à volta da figura do último rei do Estado de Gaza, contadas no seio dos chopes, etnia de que faz parte.
“É conhecida a aversão que Ngungunhane tinha aos chopes. Pertenço a este grupo e fui ouvindo no meu meio muitas histórias à volta dele. O seu poderio era por todos conhecido e respeitado. Conta-se que uma certa vez ele ordenou silêncio e umas pequenas criaturas, as andorinhas, perturbaram, do cimo de uma árvore, o seu descanso. Uma delas defecou lá de cima para a cabeça do rei. Na fúria que lhe era característico, o imperador chamou os seus homens e ordenou-os que caçassem todas as andorinhas. E o resultado dessa determinação é que eles saíram à caça das andorinhas, porque o rei as queria vivas junto de si para as castigar e pelo caminho acabaram por confrontar-se com os portugueses. O fim é o que todos já sabemos: o império chegou ao fim, o imperador foi preso e o seu poder acabou, por causa de uma andorinha”, explicou, em recente entrevista ao “Notícias”, esta escritora que se considera “contadora de histórias”.
O conto inspirado na vida e postura de Ngungunhane, ironicamente intitulado “Quem Manda Aqui?”, precede àquela que parece ser a estória central do novo livro de Paulina Chiziane. Eduardo Mondlane é para esta escritora um herói cuja importância ultrapassa os limites da luta pela autodeterminação dos moçambicanos. “Eduardo Mondlane carrega em si uma postura que devia servir de inspiração para todos nós, porque a sua importância ultrapassa também o que os nossos manuais de História dizem. Os moçambicanos devem olhar para ele e para aqueles que o educaram. A mim impressiona muito a sua simplicidade, que infelizmente não é característica de muitos de nós”, conta a escritora.
“Mondlane é uma pessoa poderosa, mas simples, ensinadora e cativante. Para além disso, as pessoas que o rodearam, nomeadamente as duas mulheres que o educaram (mãe viúva e avó) também são de grande mérito, porque, pobres, fizeram de uma criança também pobre um grande homem. Um homem que inspirou um povo num momento particular da nossa caminhada, mas em quem todos se deviam inspirar nos dias que correm. As mulheres que o educaram também são pessoas em quem nós devíamos olhar para educarmos os nossos filhos”.
O conto em Paulina Chiziane viaja em torno de Mondlane intitula-se “Maundlane, o Criador” e prenuncia um outro, “Mutola, a Ungida”, sobre aquela que os moçambicanos têm como a menina de ouro. “Ela é muito mais do que uma mulher dourada. A história dela faz lembrar a de Eduardo Mondlane, é uma história de luta, de humildade, de contágio, que faz um povo jubilar. É assim que eu a vejo”.
Ao publicar este conjunto de textos Paulina Chiziane pretende-nos chamar para aquilo a que ela chama “uma necessidade urgente” no nosso país: “há muito que nós não produzimos personalidades fortes, do tamanho e envergadura de um Eduardo Mondlane, por exemplo. Sinceramente, a única que nós produzimos foi precisamente a Lurdes. Onde mais, para além da geração da luta de libertação nacional irão os nossos jovens e crianças buscar inspiração?”.
Maputo, Quinta-Feira, 29 de Janeiro de 2009:: Notícias
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Paulina Chiziane
28 de janeiro de 2009
Angolanos querem comprar semanário português (Sol)
Angolanos querem comprar semanário português
Maputo (Canal de Moçambique) - A «Newshold» está a pretender adquirir 51% do capital da empresa editora do semanário português, Sol, que se publica em Lisboa. Ainda segundo o AMI, a Newsold tem ligações consideradas “notórias” ao círculo do presidente angolano, engenheiro José Eduardo dos Santos.
António Maurício, identificado como representante da «Newshold» neste negócio, é vice-presidente executivo da FESA – Fundação Eduardo dos Santos, com funções concentradas na gestão da carteira de interesses da mesma, acrescenta o «Africa Monitor Intelligence», de que é editor o luso-angolano, Xavier de Figueiredo.
“Outros supostos sócios da «Newshold» têm a mesma conotação”, acrescenta a publicação. Aponta ainda que a «Construtora Tâmega» é também apontada como tendo interesses societários da «Newshold» e ter como parceira angolana a SODIMO – considerado “braço económico” da FESA.
António Maurício é o irmão mais velho de Amadeu Maurício, governador do Banco Nacional de Angola, este dado como muito próximo de Ismael Silva, Director Geral da FESA.
Ismael Silva, segundo o AMI, é dado como “figura que goza da confiança e amizade” do presidente José Eduardo dos Santos e “aparenta ter recuperado de um mau momento ao longo do qual circularam rumores acerca da sua substituição por Coutinho Miguel, actual administrador executivo do Banco SOL – entre cujos donos figura indirectamente o MPLA”, partido no poder em Angola”.
(Redacção/AMI)
2009-01-28
27 de janeiro de 2009
26 de janeiro de 2009
Cooperação: Portugal vai formar professores moçambicanos em diversas áreas
Portugal vai formar professores moçambicanos
Especialistas portugueses, em número ainda não definido, virão ao nosso país para formar professores moçambicanos em diversas áreas, com destaque para agricultura e processamento.
O governo moçambicano e português acordaram, recentemente, o envio de especialistas para formarem professores para o Ensino Técnico-Profissional, bem como universitário, entre outros níveis de ensino. Esta informação foi avançada sábado, em Maputo, pelo Ministro da Educação e Cultura, Aires Ali, num “briefing” com a Imprensa, no seu regresso de Portugal, onde esteve durante uma semana para passar em revista a cooperação bilateral no domínio da educação, bem como reforçar as relações também na área cultural.
Maputo, Segunda-Feira, 26 de Janeiro de 2009:: Notícias
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23 de janeiro de 2009
O Edifício Sede dos CFM: Um Pouco de História (Paulino Sicavele)
O EDIFÍCIO SEDE DOS CFM: UM POUCO DE HISTÓRIA
A construção da estação central dos Caminhos de Ferro de Lourenço Marques (Maputo), hoje totalmente encoberta pela imponente fachada que depois se lhe acrescentou encimada pela magnífica cúpula em cobre com a esfera armilar, havia sido começada no ano de 1908. Veio substituir a antiga - de madeira e zinco, construida pela companhia concessionária, que existia do outro lado da avenida 18 de Maio, defronte do actual Posto médico dos CFM.
Fachada principal da Estação Central dos CFM - Maputo Tendo sido dada por concluida, ela foi solenemente inaugurada no dia 19 de Março de 1910. Tratava-se de um melhoramento importante que se ficava a dever ao engenheiro Lisboa de Lima, autor do projecto.
Freire de Andrade, então Governador geral, solicitara ao Ministro e Secretário do Estado da Marinha e do Ultramar que fossem enviados «dois escudos de Armas Reais portuguesas, lavrados em mármore, para serem afixados nos pórticos». Mas elas só chegariam em 1911, depois de proclamada a República, e as armas tiveram que ser alteradas. Mesmo assim, jamais lá seriam colocadas por incúria dos que sucederam a Freire de Andrade:
Para o pórtico da estação, por iniciativa, do Governador geral, Freire de Andrade fora requisitada de Lisboa um Escudo Nacional em mármore lavrado, o qual tendo chegado a Lourenço Marques (Maputo) em 1911 a bordo do paquete «Beira», depois se perdeu.
Por fim recuperado nos nossos dias, foi solenemente colocado no seu lugar em Julho de 1970 por iniciativa do Gabinete de História dos Caminhos de Ferro de Moçambique - CFM. O Escudo Nacional, trabalhado em pedra de liós, é uma obra de arte de muita valia, tendo sido executado em Lisboa nas oficinas de Germano José de Salles & Filhos.
Ao acto solene da inauguração da nova estação, mesmo sem o escudo das Armas Reais, fez-se nesse dia aos 19 de Março de 1911, com a saida dos dois primeiros comboios para S. José de Lhanguene, onde se celebrava a festa de S. José, padroeiro daquela missão, presidiu o Governador geral Freire de Andrade. sete meses depois deste acontecimento proclamava-se a República.
Uma vez implantado o novo regime, passado o período de entusiasmo pela vitória da revolução, inicia-se o da fúria demagógica na perseguição movida pelos «carbonários» de Lourenço Marques, que se intitulavam de «vigilantes da República», contra Freire de Andrade e certos directores e chefes de serviços públicos tidos por desafectos à República e por «reaccionários e traidores ao novo regime». Exige-se a demissão imediata de tais entidades e a sua expulsão de Moçambique, o que por fim veio a verificar-se em 8 de Abril de 1911. Era então nomeado Governador geral da Província (Moçambique), o capitão-tenente Freitas Ribeiro.
O engenheiro Lisboa de Lima, vítima também dessa desconcertante incompreensão popular fomentado pelos «carbonários», demite-se do cargo de director de porto e do Caminho de Ferro de Lourenço Marques. É substituido pelo engenheiro Lopes Galvão. Este, por sua vez, é substituido em 1912 pelo engenheiro João Henrique Von Haffe.
Porém, a confusão política, com reflexos na administração pública da Província, continua. Em 14 de Março de 1912 regressam a Lourenço Marques os cidadãos que em 2 e 5 de Julho de 1911 haviam sido, pelo Alto Comissário Azevedo e Silva, mandados desterrar para diferentes pontos da Província, como «carbonários».
As grandes figuras republicanas da época julgam então ter chegado a altura de submeter ao Ministro das Colónias uma representação-protesto reclamando melhoramentos imediatos para Moçambique. Em sessão magna reuniram-se os dirigentes da Associação dos Proprietários, dos Empregados de Comércio e da Indústria, dos Lojistas e da Cámara de Comércio.
Os Seviços dos Caminhos de Ferro de Moçambique, estiveram sempre em mãos de engenheiros distintos, com sobejas provas da sua capacidade e a eles coube solucionar diversos e intricados problemas do pôs-guerra, num ambiente de ligeira trégua política.
Assim, deu-se por concluido o majestoso edifício sede dos CFM, um dos mais belos de Lourenço Marques (Maputo - Moçambique) e não só; construiram-se em Ressano Garcia 4 casas de alvenaria para a moradia de 10 famílias de empregados dos CFM; construção de uma nova ponte metálica de 80 metros de vão sobre o Rio Matola; construção de 3 novos hangares para o serviço dos armazéns gerais; nova gare de triagem ao quilómetro 3; assentamento de novas feixes de linhas para o serviço da carvoeira; ampliação das linhas da estação de Ressano Garcia para se adequarem ao novo serviço de carvão; construção de 2 reservatórios de cimento armado de 200 metros quadrados de capacidade; instalação de um aparelho central de manobra e encravamento de agulhas e sinais na estação de Lourenço marques; instalação de agulhas automáticas nas estações de Moamba e Incomáti; construção de triângulos de inversão em Lourenço marques, Moamba e Ressano Garcia [...].
A entrada de Portugal na guerra resultara, a despeito de todos os sacrfícios impostos à nação, de certo modo benéfica, pois deste modo se salvou a integridade do Ultramar, de modo especial de Moçambique e de Angola.
Paulino Sicavele (editor)
22 de Janeiro de 2009
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Gare da Estação Ferroviária de Maputo (CFM), considerada a sétima mais bela do mundo
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Roberto Carlos: 50 anos de uma carreira que não pára de cintilar
ROBERTO CARLOS: 50 anos de uma carreira que não pára de cintilar
Em 1959, Roberto Carlos estava numa sinuca de bico. Saíra meio desgostoso do conjunto The Sputniks, no qual dividia a liderança com Tim Maia. Muitas editoras diziam-lhe não sem cerimónia: fora recusado pela Chantecler, pela RCA, pela Philips, pela Odeon. Tinha então 18 anos e teve de recorrer a um primo, que era gerente da boate Plaza, em Copacabana, no Rio de Janeiro, para conseguir um contrato como cantor da noite daquela cidade brasileira.
Assinou para trabalhar como “crooner” da casa nocturna. Ali ele ganharia o seu primeiro salário profissional, e foi nesse momento, o do primeiro pagamento, que ele considera o início da sua carreira consagrada de cantor (embora já tivesse uma década de experiência musical).
Por conta dessa data-chave, Roberto (que faz 68 anos em Abril) inicia agora em Fevereiro - no mar, cantando para 2.682 pessoas no navio brasileiro Costa Mágica – as comemorações dos seus 50 anos de carreira, que começou naquele trabalho na Boate Plaza. Logo depois, em Julho do mesmo ano, Roberto Carlos seria aceite pela Polydor, após uma audição com Roberto Corte Real, e gravaria um compacto em 78 rotações com as canções “Fora do Tom” e “João e Maria”, ambas de Carlos Imperial.
No mesmo ano, Roberto Carlos ainda gravaria outro disco de 78 rotações com “Brotinho Sem Juízo” e “Canção do Amor Nenhum” (Carlos Imperial).
Ricardo Pugialli, autor do livro “Almanaque da Jovem Guarda”, acredita que Fevereiro de 1959 foi o mês em que Roberto Carlos iniciou a sua primeira temporada como cantor profissional. “A data precisa é muito difícil de se afirmar. Não existem mais documentos sobre o período.
Provavelmente Roberto pode ter os originais. Nada mais existe da antiga boate ou mesmo do hotel Plaza.
Temos hoje um novo hotel no local, com o mesmo nome, mas tudo foi modificado. Não há fotos, documentos, cartazes, nada”, conta o autor.
Segundo o escritor e pesquisador, autor de um livro que Roberto Carlos elogia, o cantor parece preferir a data como marco inicial da sua carreira (em vez da gravação do compacto em 78 RPM) por um motivo especial.
“Cantando na mesma casa onde João Gilberto se apresentou, onde os cobras da bossa nova (Baden Powell, Johnny Alf, João Donato, Milton Banana, entre outros) davam canjas quase todas as noites, é com certeza o motivo pelo qual ele guarda com carinho a data. Já o disco não é um trabalho que eu acredito que ele tenha gostado tanto. Não estava em seu estilo, era uma emulação de João Gilberto e ele foi muito criticado na época pelos músicos e simpatizantes da bossa nova.”
O próprio Roberto Carlos, numa entrevista, em 2005, foi sucinto a respeito da data. “Eu tinha uns 16 ou 17 anos e só ouvia rock’n’roll, quando um dia, no rádio do carro, escutei João Gilberto. Mudei tudo e só quis cantar bossa nova”, contou. “Por isso, o meu primeiro trabalho como cantor foi na Boate Plaza.”
Outra novidade prevista para este ano para festejar o cinquentenário da sua carreira seria uma grande tournée de Roberto Carlos pela América Latina, passando pela Argentina, Chile e México.
22 de Janeiro de 2009
Quando a Pátria é Nossa (Armando Artur)
QUANDO A PÁTRIA É NOSSA
É assim esgravatada e repilhada
Até aos limites do seu interior
Por gente nossa e despudorada
Quando a pátria que é nossa
É assim regateada ao preço da gula
E ganância, por gente que jurou
Defendê-la com bravura e valentia
Quando a pátria que é nossa
É assim extorquida e ameaçada
Por gente sem dó e auto-esconjurada
Que não olha a meios senão a fins
Quando a pátria que é nossa
É assim leiloada em praças obscuras
À taxa diária do sangue, suor e lágrimas
De milhões de braços, e uma só força
Por gente ilustre e de colarinho branco
Quando a pátria que é nossa
É assim assaltada pelos flancos da sua
Beleza e contornos da sua geografia
Por gente forasteira de si própria
Quando a pátria que é nossa
É assim deixada à deriva e ao relento
E à mercê dos párias do nosso maior
Descontentamento colectivo
Quando a pátria que é nossa
É assim atraiçoada por essa gente sem
Nome, que se aliança com mercadores
De insónias e arautos do caos e do mal
Em troca do fútil e do asco
Todo silêncio e todo exílio serão
Sempre iguais a pátria que é nossa!
Armando Artur
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Poesia
21 de janeiro de 2009
Karingana ua Karingana (Luiz Eduardo Rodrigues Amaro)
Karingana ua Karingana
Karingana ua Karingana, poesia de 13 versos, divididos em duas estrofes de seis e um verso isolado (título da poesia – enfático), possui características singulares a um poeta que busca a sua redenção ao beber nas fontes inexauríveis de uma cultura rica e em questionamento.
Esta poesia é mais do que um protesto: é a definição de um fazer-poético em simbiose com a cultura popular.
Observe a primeira estrofe:
“Este jeito
de contar as nossas coisas
à maneira simples das profecias (1)
é que faz o poeta sentir-se
gente”. (2)
Uma maneira de contar as coisas? À maneira simples das profecias? O que é isto a não ser a cultura, o folclore, as tradições de uma nação em busca da própria identidade? É exatamente tal busca que traz a cidadania às pessoas, ou seja, faz o poeta – como contador de histórias – sentir-se gente, sentir-se humano, íntegro e actante na sociedade em que se insere.
Percebamos a linguagem fluente, quotidiana, descomplicada. Premonitória até, como se identifica nos versos:
“E nem
de outra forma se inventa
o que é propriedade dos poetas
nem em plena vida se transforma
a visão do que parece impossível
em sonho do que vai ser
_ Karingana!”
A estrutura paralelística existente na segunda estrofe reforça a idéia de que o poeta deve cantar a transformação, o sonho. A conjunção (nem) une as duas concepções: o que é propriedade do poeta (contar as nossas histórias à maneira das profecias) e a visão premonitória (que faz o poeta – e todo homem - ser gente). Em outras palavras, em um processo anafórico, a estrofe subseqüente reforça, enfatiza a anterior. Karingana! Desta forma termina a poesia e desta forma devemos aprender a vislumbrar um futuro libertário!
A poesia que segue chama-se Guerra. Duas estrofes de três versos cada. O leitor desatento pode não valorizar um texto tão simples, porém, o leitor crítico sabe valorizar a magnífica capacidade de síntese do poeta, assim como a soberba metáfora que se instaura neste poema, como a chave de ouro do soneto, que nos faz pensar a respeito do potencial semântico das palavras, quando são bem empregadas. Analisemos a primeira parte:
“Aos que ficam
resta o recurso
de se vestirem de luto”.
O que faz estes versos possuírem esta densidade dramática, este apelo ao leitor? Existe um repertório, um conhecimento de mundo pré-existente, emanado pelo vocábulo-título que contamina a estrofe, liberando os sentimentos à leitura.
“Aos que ficam”, àqueles que sobreviveram à guerra, resta a perda dos entes queridos e outras modalidades de ausência, “o luto”. De uma forma, vencedores por atingirem o objetivo; por outro lado, perdedores, uma vez que as lembranças e as dores do passado guerrilheiro voltam como sombras a perseguir, incessante e implacavelmente, o eu lírico que extravasa esta mesma memória na estrofe seguinte:
“Ah, Cidades!
Favos de pedra (1)
macios amortecedores de bombas”. (2)
Uma mistura de memória e nostalgia instaura-se nesta interjeição. As cidades, emaranhados de prédios (concreto, pedra, sem vida), pulsando com as milhares de pessoas que a dão motivo de existir, que imprimem ao concreto, vida.
(1) “Favos de pedra”: os favos fazem referência às colméias (moradias das abelhas) que, como os homens, vivem em sociedade. Faz alusão às janelas onde estão o mel (alimento), assim como as inúmeras janelas dos prédios, possível aproximação pelo adjunto restritivo “de pedra”, onde as pessoas vivem, trabalham, amam, alimentam-se, constituem família.
(2) “macios amortecedores de bombas”: esta metáfora é fortíssima. Percebemos a tensão provocada por uma antítese implícita que contrasta “macio” com “bombas”, uma vez que as bombas não tornam nada macio, ao contrário, o contato destes artefatos com o solo destroem as mais resistentes estruturas, de pedra ou de carne.
Observe que o eu lírico joga com as imagens, são simples e diretas, porém fortes e bem elaboradas. É nesta simplicidade, nesta extraordinária capacidade sintética que a tensão se instaura na poesia.
Aqui está uma breve análise de algumas poesias do escritor africano Craveirinha. Há, sem sombra de dúvidas, uma vasta gama de poesias deste escritor que merece análises mais apuradas.
Luiz Eduardo Rodrigues Amaro
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