19 de novembro de 2010

A voz dos que não tinham onde falar (Jorge Rebelo)


A voz dos que não tinham onde falar

Porque é que, tantos anos após as suas mortes, Carlos Cardoso e Siba-Siba Macuácua continuam a ser recordados e evocados com tanta admiração, estima, respeito e mesmo carinho pela maioria da população moçambicana? É que eles eram homens íntegros, impolutos, verdadeiros patriotas. Porque amavam a sua pátria e recusaram o caminho fácil e seguro da aliança com os corruptos.

Digo corruptos e não corrupção que é um termo demasiado vago: porque a corrupção tem um rosto, quase sempre camuflado, mas cuja máscara aqueles dois patriotas procuravam desvendar nos casos em que se envolviam. Como jornalista, Carlos Cardoso aderiu nos primeiros tempos da independência aos ideais defendidos e praticados pela Frelimo. Identificava-se com eles e empenhou-se activamente na sua materialização.

Mas a sua “militância” rompeu-se quando constatou, a dada altura, que o novo poder estava a desviar-se do projecto inicial de servir os mais desfavorecidos e não uma elite dirigente. Ele poderia acomodar- se, mas a sua integridade e sentido de justiça não lhe permitiram pactuar com os desmandos a que assistia. O caminho que escolheu foi distanciarse do poder e criar instrumentos que lhe permitissem analisar esse poder, apontar-lhe os erros, na perspectiva de corrigilo e melhorá-lo. Era esse o seu objectivo, por ele várias vezes reiterado: corrigir, não destruir.

“Quando se encontra uma causa já nada mais importa”


“Quando se encontra uma causa já nada mais importa”

Nuno Cardoso, o irmão caçula de Carlos, abriu para @ VERDADE algumas páginas da vida do irmão que, segundo ele, morreu por querer contar a verdade aos moçambicanos. Aqui ficam os principais pontos da conversa.

Qual é a recordação mais longínqua que tens do teu irmão Carlos?

Nuno Cardoso (NC) - Lembro- me de quando ele estava a estudar na África do Sul, na Witbank High School, e vinha cá a Moçambique passar férias. Em 1972, lembrome de ir com ele e com toda a família a Portugal passar férias e de ele me ter levado ao estádio da Luz.

O livro “É Proibido pôr Algemas nas Palavras” refere que Carlos Cardoso terá tido uma infância austera. É verdade?

(NC) - O meu pai era duro, rigoroso, muito disciplinado. Aliás, quando os meus dois irmãos começaram a chumbar a algumas cadeiras o meu pai resolveu metêlos num colégio interno na África do Sul, em 1964. Comigo já não foi assim. Lembro- me que o meu irmão José Manuel tinha medo do meu pai. Já o Carlos não, e, muita vezes, enfrentava-o. Mas esta austeridade vem da avó Maria, mãe do meu pai, que tinha uma escola. O meu irmão mais velho conta que um dia estava na aula e pela porta viu a avó Maria passar com o Carlos pendurado pelas orelhas. Ele tinha ido à carteira da avó roubar o dinheiro todo para comprar sorvetes para a malta toda do bairro. Foi sorvete para o povo todo.

Em 1975, quando chega a independência, ele adere imediatamente aos ideais da Frelimo.

(NC) - É preciso que se diga que ele foi expulso da África do Sul pelas suas convicções políticas. Foi depois deportado para Portugal e voltou a Moçambique para assistir à independência, em Junho de 1975. Nessa altura engajou- se logo no marxismo/ leninismo ao qual a Frelimo tinha aderido.

Esse mergulho de alma e coração não causou choques familiares?

(NC) Não. O meu pai saiu aqui de Moçambique porque, como dizia, “já era velho demais para ser comunista”. Foi-se embora em finais de 1975, um bocado influenciado por toda aquela gente que estava em debandada. Mas, que eu saiba, nunca discutiram os ideais do Carlos. Não havia qualquer confronto entre eles. Encararam sempre a luta do meu irmão através do jornalismo como algo de positivo.

Mas o teu pai não era um homem de esquerda?

(NC) Não, não era. Ele dizia, com graça, que a política “era um filho de uma mãe solteira sem pai certo.” Política, para ele, não existia.

Algumas das reacções à morte de Carlos Cardoso


Algumas das reacções à morte de Carlos Cardoso

@ VERDADE reproduz aqui algumas das reacções à morte de Carlos Cardoso publicadas na edição do Metical nº 866 do dia 24 de Novembro de 2000.

Cardoso a Quente

Fiquei chocado quando ontem me perguntaram se conhecia anedotas do Carlos Cardoso, no rescaldo do horror tantas vezes antecipado em conversas restritas, inclusive com o próprio. Percebi e percebo agora que a recordação dos momentos mais desconcertantes na companhia do Cardoso têm sido para mim a melhor terapia para lidar com a situação. Passam-me pela mente, em “flashes” sucessivos, o “projecto berlindes por sementes de papaieira”, o “serviço de poesia via telex” e a pintura no forno de cozinha. Eu explico-me.

Na sua luta muito pessoal contra o repolho e o carapau dos anos 80’, o Cardoso resolveu utilizar as relações institucionais entre a agência noticiosa moçambicana e as suas congéneres estrangeiras para que fossem enviados berlindes para Maputo. Milhares de berlindes, que eram trocados por pés de papaieira, árvore de crescimento rápido e de frutos de reconhecido valor nutricional.

Ainda hoje estou a ver o formalíssimo director geral da ADN da RDA com um saco enorme de berlindes a desembarcar em Maputo. Meses depois coube a vez ao director da cooperação da então ANOP portuguesa. Neste folhetim, eu representava a parte conservadora, fazendo-lhe lembrar que era inaceitável misturar berlindes com cooperação inter-agências.

No assunto as poesias, o Cardoso, fascinado pelo matraquear dos telexes ao comando das fitas picotadas, era completamente surdo aos meus argumentos de inviabilidade económicocomercial. A “pintura do forno” tem a ver com genialidade e paixão. Ao guache, aguarela e graxa para sapatos, adicionou um toque de forno às suas telas. Era assim. O Cardoso era inimitável. Era igual a si próprio e talvez por isso, dado a frequentes cogitações de umbigo. Em todas as suas tendências, ele adicionava sempre um toque de talento - na viola, no canto (e daí o “nickname” de Cat via apelidado Stevens), no futebol, na dança (é verdade, este radical varria salões, na poesia (...os cheiros chamanculos invadindo a Friedrich Engels), nos afectos. E por isso, quando a paixão do jornalismo entrou em crise em 1989, dedicou-se à pintura.

No seu idealismo - com mesclas de ingenuidade - Cardoso acreditava que libertando-se de director, tinha finalmente espaço para escrever. O sistema, que já não era socialista mas mantinha intactos os estigmas autoritários, condimentado com um substituto burocrata e medíocre mataram-lhe extemporaneamente o sonho. O liberalismo não o deslumbrou.

Na revolução, quando os inveterados que nunca deixaram de estar presentes nas diversas direcções da ONJ/SNJ diziam ámen, Cardoso pediu eleições democráticas.

O último editorial do Mestre (Escrito por Carlos Cardoso, 22/11/2000)


O último editorial do Mestre

Escrito por Carlos Cardoso

A edição de “O Metical” nº 864, correspondente ao dia 22 de Novembro de 2000, foi a última que teve a participação do seu director, Carlos Cardoso, que seria brutalmente assassinado ao início da noite desse dia na Avenida Mártires da Machava, em Maputo. O jornal, que chegava aos leitores por fax, contava nesse dia com sete temas e o Editorial tinha como título: /Pressionando Morgado/ Ironias.

@ VERDADE reproduz, com a devida vénia, o último editorial de Carlos Cardoso.

Pressionando Morgado

Está quase a fazer um ano que Carlos Morgado foi nomeado ministro da Indústria e Comércio. Estamos em crer que chegou a altura de ele sofrer alguma pressão forte para se interessar pela revitalização da indústria do caju. Dele se conhece alguma preocupação - e trabalho - na questão das indemnizações aos trabalhadores despedidos. Ao abrigo do debate económico e fiscal anunciado pela ministra Luísa Diogo, falta, agora, pressioná- lo a sentar-se à mesa com os donos das fábricas fechadas pois tudo aponta para o imperativo do regresso à indústria. Vejamos.

Os preços ao apanhador estão pelas ruas da amargura. Assemelham- se aos preços dos anos 40. O FOB não chega aos 550. A qualidade da nossa castanha está péssima. Ano após ano a Índia diminui os volumes de castanha importada de Moçambique, pelo que há que perguntar: Para que serve o esforço de cura dos cajueiros e plantio de novas árvores? Para vender a quem?

Cardoso: eterno defensor da indústria do caju


Cardoso: eterno defensor da indústria do caju

Além de ter sido considerado o percursor do jornalismo de investigação em Moçambique, Carlos Cardoso também foi pioneiro na luta pela defesa da indústria do caju. O jornalista não concordava com as políticas das instituições de Bretton Woods (Banco Mundial e do FMI) de liberalizar o comércio daquele produto no país. Na altura em que o país começou a dar os primeiros passos no relançamento da economia de mercado e em que se procurava definir uma estratégia de recuperação do sector de caju, os defensores da indústria de descasque viram-se numa situação desconfortável.

Na sua maioria, não viam com bons olhos a ideia de que, em lugar de se tentar continuar a exportar a amêndoa, o país devia exportar castanha em bruto – medida esta sugerida por iniciativa do Banco Mundial que pretendia tornar Moçambique eterno exportador dessa matéria-prima. Aliás, aquela instituição financeira entendia que a privatização da indústria, só por si, não era suficiente para assegurar a viabilidade económica do investimento.

O Banco Mundial justificou a sua posição através de um diagnóstico, apontando a ineficiência do sistema produtivo, responsável pelo valor acrescentado negativo, gerado pela actividade de descasque; o baixo preço a que era remunerado o produtor, comparado com o preço de exportação, explicava a queda da produção de castanha; as receitas resultantes da exportação da amêndoa - assim, a decisão de exportar amêndoa em vez de castanha de modo a evitar-se perda de divisas -; e o balanço da campanha de 1993-94 permitiu concluir que o mercado do caju foi dominado por um escasso número de comerciantes grossistas.

As reacções dos agentes envolvidos no sector da castanha de caju começaram a fazer-se sentir. As autoridades nacionais responsáveis pela implementação das políticas económicas, divididas entre as imposições das instituições de Bretton Woods e os interesses da sociedade, mantiveram-se indiferentes diante da situação. Os industriais e os sindicatos moçambicanos viram os meios de comunicação social privados como uma espécie de aliado, os quais vieram a ser determinantes na denúncia pública da cumplicidade entre o Banco Mundial, o Governo e aproveitamento de alguns comerciantes.

É nesse momento em que Carlos Cardoso se destaca como o primeiro jornalista a insurgir-se contra desindustrialização do sector. Iniciara a sua luta pela protecção da indústria do caju no jornal Mediafax, onde trabalhava como editor, e depois no Metical.

7 de novembro de 2010

O May be man (Mia Couto)


O May be man

Existe o “Yes man”. Todos sabem quem é e o mal que causa. Mas existe o May be man. E poucos sabem quem é. Menos ainda sabem o impacto desta espécie na vida nacional. Apresento aqui essa criatura que todos, no final, reconhecerão como familiar.

O May be man vive do “talvez”. Em português, dever-se-ia chamar de “talvezeiro”. Devia tomar decisões. Não toma. Sim­plesmente, toma indecisões. A decisão é um risco. E obriga a agir. Um “talvez” não tem implicação nenhuma, é um híbrido entre o nada e o vazio.

A diferença entre o Yes man e o May be man não está apenas no “yes”. É que o “may be” é, ao mesmo tempo, um “may be not”. Enquanto o Yes man aposta na bajulação de um chefe, o May be man não aposta em nada nem em ninguém. Enquanto o primeiro suja a língua numa bota, o outro engraxa tudo que seja bota superior.

Sem chegar a ser chave para nada, o May be man ocupa lugares chave no Estado. Foi-lhe dito para ser do partido. Ele aceitou por conveniên­cia. Mas o May be man não é exactamente do partido no Poder. O seu partido é o Poder. Assim, ele veste e despe cores políticas conforme as marés. Porque o que ele é não vem da alma. Vem da aparência. A mesma mão que hoje levanta uma bandeira, levantará outra amanhã. E venderá as duas bandeiras, depois de amanhã. Afinal, a sua ideolo­gia tem um só nome: o negócio. Como não tem muito para negociar, como já se vendeu terra e ar, ele vende-se a si mesmo. E vende-se em parcelas. Cada parcela chama-se “comissão”. Há quem lhe chame de “luvas”. Os mais pequenos chamam-lhe de “gasosa”. Vivemos uma na­ção muito gaseificada.

27 de outubro de 2010

Hotel Serena Polana renasce como 5 estrelas "de prestígio mundial"


Hotel Serena Polana renasce como 5 estrelas "de prestígio mundial"


O Hotel Serena Polana, na capital moçambicana, Maputo, "está a viver a sua segunda vida", após um investimento de 25 milhões de dólares (cerca de 18,37 milhões de euros) para restituir "o esplendor, luxo e glamour dos seus tempos áureos" a este "ícone intemporal de todo o continente africano", que abriu as suas portas a 1 de Julho de 1922.

Parque da Gorongosa celebra 50º aniversário com programa “Yoga Safari”


Parque da Gorongosa celebra 50º aniversário com programa “Yoga Safari”

O Parque Nacional da Gorongosa, em Moçambique, que este ano comemora o 50º aniversário, está a promover o programa “retiro de yoga”, de 27 de Outubro a 1 de Novembro acompanhado pela “guru” de yoga Jenny Van Niekerk.
Durante o retiro, Jenny Van Niekerk oferecerá “momentos de recolhimento e meditação” no início e no fim de todos os dias do programa, informa o Parque em comunicado.
O preço por pessoa é 1.650 dólares (cerca de 1.235 euros) e inclui cinco noites em regime tudo incluído (TI), curso de yoga, safaris e entradas no parque, não estando incluído o transporte para o Parque Nacional da Gorogonsa.
O Parque ocupa uma área de cerca de quatro mil quilómetros quadrados, na zona limite Sul do Grande Vale do Rift Africano, tem a sua planície irrigada pelos rios que nascem na Serra da Gorongosa, a qual atinge 1.862 metros de altitude, e terras de pasto repletas de acácias, savana, floresta seca sobre areias, poças de água das chuvas sazonais e densos bosques de termiteiras.
Nos seus planaltos encontram-se matas de miombo, florestas de montanha e floresta tropical húmida na base de uma série de desfiladeiros ou “gargantas” de calcário.
Durante os safaris é possível avistar javalis africanos, diversas espécies de antílopes, macacos, crocodilos, centenas de espécies de pássaros, elefantes, leões, entre outros animais selvagens.

in: Presstur.com
24 Setembro 2010

LAM vai ter voo próprio Lisboa – Maputo a partir de Abril


terraÁfrica forma agentes no destino Moçambique

LAM vai ter voo próprio Lisboa – Maputo a partir de Abril

A companhia aérea moçambicana, LAM, que tem comercializado as ligações entre Lisboa e Maputo em voos da TAP, através de code-share, vai introduzir voos próprios a partir do próximo mês de Abril, com duas ligações por semana em avião Boeing B767-300 ER.
A novidade foi avançada ontem pelo delegado para a Europa das Linhas Aéreas de Moçambique (LAM), Cândido Munguambe, numa acção de formação para agentes de viagens organizada pela terraÁfrica, marca do operador Sonhando, que decorreu no Holiday Inn Continental Lisboa.
Cândido Munguambe avançou ao PressTUR que esta rota deverá potenciar viagens de negócios, com uma aposta na qualidade da classe executiva, beneficiando também o turismo de lazer no destino, quer à partida de Portugal quer de outros países europeus, utilizando Lisboa como centro de conexões.
A LAM oferece actualmente quatro voos por semana em code-share com a TAP.


24 de outubro de 2010

Morte de Machel em Mbuzini: Investigações encalhadas na PGR


Ainda a morte de Machel em Mbuzini

Investigações encalhadas na PGR

Dossier Mbuzini “é um processo bastante complexo” – afirma o Procurador Geral da República, Dr. Augusto Paulino, em declarações exclusivas ao Canalmoz e Canal de Moçambique

Maputo (Canalmoz) - Em Maio de 2008, a Presidência da República de Moçambique remeteu o dossier Mbuzini à Procuradoria-Geral da República “com vista a imprimir nova dinâmica às investigações” sobre a morte do fundador do Estado moçambicano, Samora Moisés Machel. De acordo com um comunicado divulgado a 18 de Outubro de 2008 pela Presidência da República de Moçambique, dando conta da diligência, “a descoberta da verdade sobre a morte do Presidente Samora Moisés Machel foi e continua a ser uma prioridade da Nação Moçambicana”.
Agora, mais de dois anos após a PGR ter constituído uma equipa dirigida pelo Dr. Augusto Paulino, passando então a trabalhar no dossier, ainda não se sabe como se encontram as investigações. Estas, segundo se deduz das declarações prestadas ao Canalmoz e ao Canal de Moçambique pelo Dr. Augusto Paulino, permanecem envoltas em secretismo.

17 de outubro de 2010

Moçambique – Raízes, Identidade, Unidade Nacional (Albino Magaia)


Familiares e amigos publicam obra do malogrado Albino Magaia

“Moçambique – Raízes, Identidade, Unidade Nacional” é o título da obra publicada ontem, pela editora Ndjira, com o patrocino da empresa de telefonia móvel, Moçambique Celular (MCel)

Maputo (Canalmoz) – Sete meses depois de um dos célebres escritores e jornalista moçambicano, Albino Magaia, encontrar a morte, familiares, amigos, admiradores, colegas de profissão e o público em geral, testemunharam, ontem, em Maputo, o lançamento da obra “Moçambique – Identidade, Unidade Nacional”, da autoria do malogrado.
A obra, cuja apresentação esteve ao cargo de Tomás Viera Mário, explora a questão da identidade dos moçambicanos ao abrigo de episódios decorridos no período anterior à Luta Armada de Libertação Nacional. Explora ainda questões inerentes aos “movimentos e primeiras manifestações de identidade e política nacionais, a influência árabe, portuguesa, inglesa e crioulas da costa de Moçambique na sua estrutura histórica e cultural”.
Magaia traz, em sua obra, uma discussão sobre “as questões da língua portuguesa versus nacionais”, como se refere na obra.

Portugal: "O Anjo Branco", o novo livro de José Rodrigues dos Santos


PORTUGAL - Novo livro de José Rodrigues dos Santos é lançado na próxima semana

O massacre de Wiriamu, na província de Tete, é um dos temas tratados no romance do jornalista luso

Maputo (Canalmoz) - Será lançado em Lisboa na próxima semana o livro, “O Anjo Branco”, de autoria do apresentador da RTP, José Rodrigues dos Santos. Trata-se de um romance que recorda a guerra colonial em Moçambique, incluindo o massacre de Wiriamu, perpetrado por uma unidade da 6ª Companhia de Comandos das Forças Armadas Portuguesas.
O autor, que é natural de Moçambique, faz referência ao trabalho que o pai levou a cabo em Tete como médico responsável pelo Serviço Médico Aéreo, prestando assistência às populações das zonas rurais daquela província. Foi na qualidade de médico que o pai de José Rodrigues dos Santos, o Dr. Paz, elaborou um relatório sobre o massacre de Wiriamu.
O massacre foi igualmente investigado por Jorge Jardim que se serviu da ocorrência para um ajuste de contas com o comandante da Zona Operacional de Tete (ZOT), Brigadeiro Armindo Videira, igualmente governador do então distrito de Tete. Videira viria a ser destituído do cargo, em virtude do teor do relatório de Jardim apresentado a Marcelo Caetano em Lisboa. Não obstante ter apurado as circunstâncias do massacre, pondo em cheque importantes sectores das Forças Armadas Portuguesas, Jardim accionaria meios para incriminar dois padres católicos que, numa igreja na cidade da Beira, haviam denunciado em homilia por ocasião do dia mundial da paz, atrocidades das tropas coloniais, por sinal também ocorridas em Tete, designadamente em Mucumbura. Este episódio ficou conhecido como o “Caso dos Padres do Macuti”. (Redacção)

2010-10-15

Moçambique: Frelimo força professores a serem membros do partido


Frelimo força professores a serem membros do partido

– denuncia grupo de docentes no Dia Nacional do Professor

Maputo (Canalmoz) – A direcção do partido Frelimo, a nível da província de Maputo, está a usar o facto de estar no poder para angariar mais membros na Função Pública. Um grupo de professores denunciou, durante as celebrações do Dia Nacional do Professor (12 de Outubro), que está a ser persuadido a adquirir cartão de membro do partido no poder e pagar quotas.
Estes docentes, sobretudo os recém admitidos e estagiários afectos em algumas escolas nos distritos, afirmam que num encontro realizado há dias para a definição de estratégias da realização de exames normais e extraordinários que se avizinham, foram pressionado a se filiarem ao partido no poder.
Os nossos interlocutores, sob anonimato, avançaram que desde os directores distritais, passando pelos directores das escolas, receberam orientações para persuadir todos os professores independentemente do regime (contratado ou efectivo) a serem membros do partido de “batuque e maçaroca” por formas a ganhar, de forma esmagadora, os próximos pleitos eleitorais.
“Quando acabávamos de entrar, foram-nos distribuídos impressos de modo a sermos membros do partido no poder. Preenchemos e recebemos os cartões. Às vezes, as direcções das escolas convocam reuniões com professores, com uma certa agenda, mas acabam falando de assuntos partidários”, contam.
Os professoram disseram ainda que, nos encontros nas escolas, sempre se mete um slogan político.
As fontes afirmam entretanto que faz falta discutirem-se assunto relacionados com a progressão nas carreiras profissionais e a falta transparência no processo de atribuição de bolsas.

(Cláudio Saúte)

2010-10-14

Nós descolonizamos o Land Rover (Albino Magaia)


Nós descolonizamos o Land Rover

Já não é carro cobrador de impostos
Nós descolonizámo-lo.
Já não é terror quando entra na povoação
Já não é Land-Rover do induna e do sipaio.
É velho e conhece todas as picadas que pisa.
É experiente este carro britânico
Seguro aliado do chicote explorador.
Mas nós descolonizámo-lo.
No matope e no areal
Sua tracção às quatro rodas
Garante chegada às machambas mais distantes
Às cooperativas dos camponeses.
Entra na aldeia e no centro piloto
Ruge militante nas mãos seguras do condutor
Obedece fiel a todas as manobras
Mesmo incompleto por falta de peças.
- Descolonizámos o Land-Rover
Com nossos produtos
Comprámos combustível que consome
Com nossa inteligência
Consertámos avarias que surgem
Com nossa luta
Transformámos em amigo este inimigo.
Nós, descolonizadores
Libertámos o Land-Rover
Porque também ficou independente, afinal
Transformaram-se os objectivos que servia
E hoje é militante mecânico
Um desviado reeducado
Uma prostituta reconvertida em nossa companheira.
Descolonizámo-la e com ela casámos
E não haverá divórcio.
De Tete a Cabo Delgado
Do Niassa a Gaza
Da sede provincial ao círculo
Este jeep saúda quando passa
O caterpillar, seu irmão
Outro descolonizado fazedor de estradas
E cruza-se com o Berliet atarefado
Ex-pisador de minas
Eles aprenderam com a G-3
Menina vanguardista na mudança de rumo
A primeira a saber e a gostar
A diferença antagónica
Entre a carícia libertadora das nossas mãos
e o aperto sufocante e opressor do inimigo que servia.
As mãos dos operários que o fabricam
são iguais às mãos dos operários da nossa terra.
Essas mãos inglesas que o criam
Um dia saberão que ajudaram a fazer a revolução
e vão levantar o punho fechado da solidariedade.
Ruge este militante nas picadas da Zambézia
Galga as difíceis estradas de Sofala
Passa pelos pomares de Manica
Pelo milho de Gaza
Pelas palmeiras de Inhambane
Na cidade do Maputo descansa.
Transporta pelo país os olhos dos estrangeiros amigos
que querem conhecer de perto a nossa Revolução
- Descolonizámos uma arma do inimigo
Descolonizámos o Land-Rover!
Aquelas quatro rodas de um motor potente
Aquela cabine dos mecanismos de comando
Aquelas linhas da carroçaria irmanadas ao medo
Já não afugentam o povo:
Homens, Mulheres e Crianças do campo
fazendo sinal ao condutor, pedem boleia.
Nós descolonizámos o Land-Rover
Por isso o povo já não foge.

Albino Magaia

9 de outubro de 2010

Bonga: Mulemba Xangola

Carlos Paião: Vinho do Porto

Mc Roger: Dança marrabenta

Bana: Mexe Mexe

Cesária Évora: Angola

Cesaria Evora: Besame Mucho