Um rio onde as águas se separam
Venenos de Deus, Remédios do Diabo:
Mais do que palavras, Mia Couto é um escritor que nos transporta ao avesso, ao sonho, ao fantástico, ao extraordinário. Na sua incursão por “Venenos de Deus, Remédios do Diabo”, navegamos também por esse mundo do surreal, que, segundo André Breton, “ é o automatismo psíquico puro pelo qual se propõe expressar, verbalmente, por escrito, ou de qualquer outra maneira, o funcionamento real do pensamento. O pensamento é ditado com ausência de qualquer outro exercício da razão, à margem de toda a preocupação com estética ou moral. Ou melhor: existe outra realidade, tão real e lógica como a exterior, que é a dos sonhos, da fantasia, dos jogos espontâneos do inconsciente que se desenvolve à margem de toda a função filosófica, estética ou moral”. Com Mia, mais do que sonharmos em noites do interplanetário, viajamos em naus por terras intransponíveis.
- Cure-me de sonhar, Doutor.
- Sonhar é uma cura.
- Um sonhadeiro anda por aí, por lonjuras e aventuras, sei lá fazendo o quê e com quem... Não haverá um remédio que me anule o sonho?
- Todos elogiam o sonho, que é o compensar da vida. Mas é o contrário, Doutor. A gente precisa do viver para descansar dos sonhos.
- Sonhar só o faz ficar mais vivo.
- Para quê? Estou cansado de ficar vivo. Ficar vivo não é viver, Doutor.
- É que o senhor entra neste quarto malcheiroso e eu o vejo mais como coveiro do que meu salvador. Aqui, neste leito, eu já vou no meu próprio desfile fúnebre. Págs. (16-17)