Estacionámos junto à Igreja, que os carros não chegam à casa. Fazemos o resto a pé, calcorreando o empedrado que leva a Rosália. Ainda perguntámos onde fica a um morador, que aponta a casa lá ao fundo. Dizemos-lhe que queremos falar com a ‘Rosália do pão’, mas podíamos dizer a ‘Rosália de Salazar’.
Em Favaios, freguesia transmontana conhecida pelo moscatel, Rosália recebe-nos com um sorriso. Ri sempre, ri muito e também chora ao falarmos do homem que sempre a tratou por "pequena". O homem que mandou no País durante quase quatro décadas e que Rosália serviu mais de cinco anos. Era uma menina de 13 anos quando entrou no austero palacete de São Bento, era ainda menina quando saiu, após a sua morte. Tinha 19 anos e estava ao lado de Salazar quando a enfermeira, em pânico, gritou para os médicos que ele não respirava. Que tinha morrido.
Quis a coincidência que ela nascesse a 28 de maio de 1951, quando se assinalavam os 25 anos da queda da Primeira República, que abriu as portas ao Estado Novo. Se começarmos pelo fim, Rosália confirma o que sabíamos. Nos últimos dois anos de vida, Salazar pensava que conservava o poder. O Presidente da República Américo Tomás mantinha a farsa e ia regularmente falar com o homem que já não era o Presidente do Conselho. Morreu a pensar que mandava em Portugal e nas colónias. E também Rosália, que mal saía do palacete, desconhecia que o ‘todo poderoso’ afinal já não o era.

















