22 de fevereiro de 2026

África do Sul: Orania, a cidade sul-africana só para brancos


Orania, a cidade sul-africana só para brancos

Fundada em 1991, a cidade de Orania, no deserto de Karoo, na África do Sul, é um regresso ao passado. Aqui, o espírito do apartheid ainda existe e, assim sendo, só há lugar para brancos e as visitas de “pessoas de fora” têm de ser autorizadas.
 
Pumza Fihlani e Stanley Kwenda, jornalistas da BBC foram autorizados a passar alguns dias em Orania, sendo os únicos negros numa comunidade com cerca de 1000 pessoas.
 
Aqui só os “afrikaner” são aceites, ou seja, os descendentes de franceses, alemães e holandeses que chegaram à África do sul no século XVII.
 
Carel Boshoff Jr., líder desta comunidade e filho de um dos fundadores da cidade, explicou à BBC que Orania “foi a solução encontrada para não dominar os outros e não ser dominado por outros”. A comunidade branca, explica, foi obrigada a repensar o seu futuro, em 1994, altura em que o primeiro governo negro foi eleito no país. Orania surgiu então como resposta aos descendentes de europeus que viviam na África do Sul e que, na sequência dos acontecimentos, se começaram a sentir estrangeiros na sua terra natal.
 
Boshoff insiste que Orania é mal compreendida: “Nós não somos contra os negros, somos a favor de nós mesmos”.

Esta cidade, que tem lojas, salões de beleza, uma biblioteca, um posto de correios, um hotel, escolas e várias igrejas, existe como um reduto no interior da África do Sul: tem uma bandeira e moeda própria.
 
É o medo da violência crescente no país, que regista uma das maiores taxas de homicídio no mundo, e o confronto com o passado recente que leva muitos a abdicar dos trabalhos bem pagos na cidade e a viver em Orania.
 
“Não conseguimos empregos. É como se estivéssemos a ser punidos pelo passado”, conta um cliente de um bar local.
 
"Os níveis de criminalidade na África do Sul incentivam as pessoas a vir para Orania. Muitas delas foram vítimas de crimes”, diz Boshoff Jr.
 
Esta cidade, que começou como sendo uma companhia registada pelo pai de Carel Boshoff Jr., está legalmente protegida pela Constituição da África do Sul, onde existe uma cláusula que assegura o direito à autodeterminação, explica o artigo da BBC.
 
O futuro de Orania, um reduto branco no continente africano, num mundo cada vez mais interligado, é uma questão que fica por responder, mas, segundo um residente da cidade: “Ser um afrikaner em Orania é algo que estamos dispostos a defender com as nossas próprias vidas”.
 
Orania não é consensual, é sobretudo uma parte do reflexo de um país que ainda luta com o seu passado e, ao mesmo tempo, trabalha para construir um futuro diferente.
 
Fonte: Sapo MZ, 07 de Outubro de 2014