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17 de maio de 2026

República de Moçambique: Renamo Ameaça Jornalistas em Sofala (18 de Outubro de 2008)


O jornalista da Rádio Moçambique (RM) Moisés Saela foi quinta-feira apupado pelo chefe da bancada da Renamo-União Eleitoral (RUE) na Assembleia Municipal da Beira, José Cazonda, por alegadamente ter entrevistado o porta-voz da “perdiz” naquele órgão deliberativo, Moisés Machava, descrito como sendo apoiante da candidatura de Manuel Pereira.

Ainda na mesma data, os repórteres Francisco Raiva, da Soico Televisão (STV), e Edwin Honow, colaborador do semanário Zambeze, foram também ameaçados pelo ex-director  de Mercados e Feiras na edilidade, Arnaldo Tivane, sob alegação de estarem a favorecer a ala de Daviz Simango nos seus artigos jornalísticos.

No intervalo do último dia da XXIV Sessão Ordinária da Assembleia Municipal da Beira, o jornalista Moisés Saela entrevistou o porta-voz da bancada da Renamo-União Eleitoral, o brigadeiro Moisés Machava, para este se pronunciar sobre algumas posições contraditórias no seio da “perdiz”. Depois da conversa, surpreendentemente, o chefe daquela bancada, José Cazonda, insurgiu-se afirmando que Machava já não era porta-voz do grupo na Assembleia.

“Alô, o senhor entrevistou o Machava na qualidade de quem? O que ele disse? Por que o entrevistou? Alguma vez eu disse que Machava era porta-voz? São vocês que andam a arranjar confusão no seio da Renamo. Qual é o seu jornal mesmo? Digo-te desde  já: não entreviste mais esse Machava, chefe da bancada sou eu e mais ninguém” - disse, dirigindo-se num tom colérico, sob o olhar passivo  e bem atento tanto de Saela como de outros “homens da pena” que faziam a cobertura do evento.

Perante tais afirmações, o brigadeiro Moisés Machava disse aos jornalistas para desvalorizarem tais pronunciamentos, reiterando ser ele o porta-voz da bancada da Renamo.

“Não se preocupem meus senhores, eu continuo porta-voz da Renamo. Eu fui formado como porta-voz num encontro dirigido pelo senhor Fernando Mazanga, onde também esteve Geraldo Carvalho, pela delegação política da cidade, este  já cessou as funções, e Lucas Zabica, que é porta-voz da Renamo ao nível da província de Sofala. Digo mais uma vez, sou o porta-voz da bancada até que haja ordens contrárias do partido”.  

Enquanto isso, o jornalista da STV na Beira, Francisco Raiva, disse ao “Notícias” que está a sofrer ameaças verbais por parte do recém-destituído  director de Mercados e Feiras do Conselho Municipal, Arnaldo Tivane, que alega que a cobertura jornalística do visado está sendo tendenciosa, ou melhor, está a promover a imagem do senhor Daviz Simango.

“Foi um frente-a-frente com muitas palavras injuriosas. O senhor Tivane disse que a equipa da STV foi “comprada” pelo presidente Daviz Simango. Apesar de ser duro demais, nós não vamos nos deixar intimidar por isso, continuaremos a trabalhar normalmente, porque a nossa missão é informar ao povo, trazendo a verdade” - disse Raiva.

Já o jornalista e colaborador do semanário Zambeze Edwin Honou revelou que tem recebido ameaças telefónicas de Arnaldo Tivane, acusando-o, igualmente, de estar ao serviço de Daviz Simango”. Isto não é bom para a nossa liberdade de Imprensa” - reconheceu.

Maputo, Sábado, 18 de Outubro de 2008:: Notícias

19 de dezembro de 2025

Moçambique: A Ilha de Moçambique - Memórias do Património e do Seu Povo


A Ilha de Moçambique: Memórias do património e do seu povo

O significado e a influência cultural do património de origem portuguesa disperso pelo mundo, em grande parte resultado das grandes viagens dos Descobrimentos que proporcionaram o contacto entre diferentes povos e culturas, são hoje legitimamente reconhecidos pela comunidade internacional.

Actualmente, tanto a língua portuguesa, que conta com cerca de 200 milhões de falantes em todo o mundo, como a própria lista do património Mundial instituída pela Unesco, que possui mais de duas dezenas de locais de origem portuguesa, repartidos por 15 países e 3 continentes, revelam o valor e a especificidade do conjunto de bens naturais e culturais de expressão portuguesa, que constituem alguns dos traços característicos dos espaços onde a cultura portuguesa interagiu, se transformou e deixou um legado de influências entrecruzadas. São, portanto, espaços que, ultrapassando a dimensão do tradicional espaço geográfico e os limites da lusofonia, contêm em si diferentes culturas, convivem com diversas línguas e tradições e partilham múltiplos saberes.

Como se sabe, em 1991, a Ilha de Moçambique foi inscrita e aceite na referida lista do património Mundial. Merecidamente, diga-se, pois se existem lugares e monumentos que guardam uma memória política e cultural muito forte, a Fortaleza de S. Sebastião, o Palácio do Governador e o conjunto de edificações das designadas «cidade de pedra e cal» e «cidade de macúti», na Ilha de Moçambique, são certamente alguns deles. Durante séculos, o centro do poder político, militar e religioso de Moçambique esteve ligado a esses notáveis edifícios que, ainda hoje, evocam um certo estilo da presença ultramarina portuguesa.

O problema é que a necessidade de preservação e de protecção deste património, e a convivência entre culturas diferentes não fazem parte, infelizmente, do código genético da natureza humana. São, antes de mais, um exigente resultado do conhecimento e da educação da sensibilidade e da inteligência. E, como se sabe, a história de Moçambique e da sua capital colonial é relativamente mal conhecida, especialmente no que respeita aos aspectos relacionados com a presença muçulmana na região, antes da chegada dos portugueses.

Simultaneamente, defender a Ilha de Moçambique como parte integrante do importante património mundial é preocupar-nos com o destino e as vicissitudes dos seus habitantes, em particular com as suas condições de vida e de subsistência.

Os espectaculares trabalhos de arqueologia subaquática, realizados junto à Ilha de Moçambique, e os longos e árduos anos de investigação histórica dos artefactos aí encontrados, vão brevemente ser divulgados ao grande público televisivo. Sem tanto encanto, nem tanta mestria, tentamos agora, em termos muito sucintos, renovar o interesse pela história colonial da Ilha de Moçambique.

A Fortaleza de S. Sebastião

Percorrendo as fortalezas portuguesas espalhadas pelos vários cantos do mundo, de Mazagão a Goa, de Ormuz ao Brasil, verificamos que um dos aspectos que quase sempre andou a par com o processo de expansão ultramarina foi a capacidade de adaptação dos portugueses ao meio.

Em 1507, no início da presença portuguesa na ilha de Moçambique, os portugueses construíram, onde é hoje a capela do palácio dos Governadores, uma pequena fortificação junto à torre de S. Gabriel, «que tinha 15 homens a proteger a feitoria nela instalada». Passado cerca de meio século, o provisório forte de S. Gabriel encontravase naturalmente ultrapassado, dada a evolução do poder de fogo e de destruição da artilharia inimiga, não cumprindo cabalmente o papel de defesa da ilha, que, entretanto, se tinha tornado escala quase obrigatória da carreira da Índia e dos crescentes interesses comerciais privados e da Coroa

Apesar da urgência na construção da fortaleza, as obras só principiaram em 1558. Segundo Margarida Valla, teria sido Francisco Pires - o engenheiro-militar que, em 1546, dirigiu a reformulação da fortaleza de Diu, e introduziu o «novo sistema dos baluartes em triângulo correspondendo à nova tecnologia do ‘fogo cruzado’, ensinado nos tratados de fortificação renascentista» -, o responsável pela elaboração de um projecto de forte para a Ilha de Moçambique. No entanto, Manuel Lobato afirma, baseado em informações de frei João dos Santos, que teria sido um sobrinho do dominicano frei Bartolomeu dos Mártires o arquitecto encarregado de dar início ao projecto que Miguel de Arruda desenhou, de acordo com um plano detalhado que D. João de Castro dirigiu a D. João III, em 1545.

Sem nos perdermos com estas pequenas discrepâncias históricas, importa salientar que a construção da Fortaleza de S. Sebastião foi evoluindo, lentamente, em perfeita harmonia com a topografia da ponta norte da ilha. De acordo com o meio ambiente, tal como o peixe-pedra, que se acomoda e disfarça entre as rochas para melhor se defender de um ataque iminente, também a Fortaleza de S. Sebastião - ainda antes de estar concluída, em 1620 - foi capaz de resistir aos cercos holandeses da primeira década do século XVII, e, mais tarde, aos ataques dos árabes de Mascate, em 1669 e 1704, e dos franceses, no final do século XVIII.

Não há dúvida que o valor estratégico da maior fortaleza de África austral, e a segunda maior em todo o império Português, depois de Diu, foi desde sempre, um dos aspectos que mereceu uma especial atenção. No primeiro quartel do século XIX, o carmelita frei Bartolomeu dos Mártires, observava que «os navios são obrigados a passar muito perto, e quase junto à Fortaleza de S. Sebastião, que pela sua bem escolhida posição local na entrada, e boca do porto, o põem a coberto de qualquer insulto hostil».

Em meados do século XVI, a Fortaleza de S. Sebastião fazia parte de uma vasta rede de fortalezas estrategicamente dispostas ao longo da rota da Índia. O que é curioso é que a distribuição e a localização das fortificações quinhentistas mantiveram, pelo menos até há bem pouco tempo, uma grande actualidade. Segundo Modelski, se compararmos um mapa de 1550 relativo à distribuição global das fortalezas portuguesas, verificaremos que ele é muito semelhante a um mapa que revela a rede de bases militares dos Estados Unidos no estrangeiro. 

Tendo em consideração o perigo que as comparações anacrónicas comportam, a verdade é que esta analogia permite reflectir sobre as estratégias desenvolvidas pelos dois impérios que, em diferentes épocas, tentaram exercer a supremacia no mundo.

Passados 500 anos, a Fortaleza de S. Sebastião encontra-se, de novo, com obras de recuperação. Lentas, é certo, em parte devido a problemas idênticos aos do passado, nomeadamente os que se prendem com a falta de mão-de-obra qualificada e a gestão dos donativos e financiamentos, privados e públicos. Aconteceu o mesmo no século XVII, quando, à tradicional carência de artífices experientes, acresciam as doenças tropicais que vitimavam muitos pedreiros, quase todos indianos.

O Palácio dos Governadores

Se nos restringirmos aos aspectos plásticos da obra arquitectónica, o denominado palácio dos Governadores nada tem de excepcionalmente interessante, para além da sua relativa imponência e localização na Ilha. O edifício provoca, no entanto, alguma curiosidade quando se conhece um pouco da sua evolução histórica. Na verdade, o edifício construído em 1618-1620, sobre as ruínas da Torre Velha e da sua cerca fortificada, não nasceu para se tornar um palácio do poder político, mas antes para albergar um colégio jesuíta. Só em 1766, sete anos após a expulsão dos jesuítas de Moçambique, o colégio de S. Francisco Xavier seria convertido em residência e sede do governo. A reutilização do edifício deveu-se, em grande parte, à enorme carência de casas de habitação que fossem compatíveis com o estatuto do mais alto cargo da colónia e que possuíssem o mínimo de dignidade para receber visitas privadas ou oficiais, nomeadamente para hospedar os Vice-Reis que seguissem para a Índia.

Sabemos que o governador Pereira do Lago (1765-1779) mandou construir quatro casas de raiz junto ao convento, e procedeu à remodelação de muitas outras divisões do imóvel, que serviram de residência dos governadores e das suas famílias e para instalação das secretarias do governo. A ampliação do colégio de S. Francisco praticamente duplicou a sua fachada e foi feita à custa da demolição de casas situadas junto do edifício e que também pertenciam aos jesuítas. As obras custaram 6.500 cruzados, uma quantia que Pereira do Lago afirmava não ir sobrecarregar o erário régio, pelo facto de esta soma ser uma pequena parcela proveniente da valorização das patacas que pertenciam à Fazenda Real. Tudo o mais foi construído com a ajuda de moradores de Moçambique, que colocaram os seus escravos e mestres de ofício ao serviço da Coroa, e ainda pagaram do seu bolso as despesas com o transporte das madeiras.

Os acrescentos e as alterações realizadas no interior do primitivo colégio conservaram as formas geométricas simples e as linhas sóbrias da fachada, em conformidade com um certo espírito de austeridade e humildade monástica, mas, paradoxalmente, também tornaram o edifício mais aparatoso e imponente, como se este procurasse ganhar a dignidade e a distinção inerentes à residência da autoridade máxima em Moçambique.

O palácio dos Governadores vive paredes-meias com a igreja de S. Paulo, e fica defronte do antigo porto. O edifício de dois pisos, construído em quatro panos unidos pelas extremidades que formavam um quadrado, tinha no seu interior um pátio ajardinado que era utilizado nos momentos de lazer dos padres. O acesso à ala nordeste fazia-se por uma escadaria de dois lanços que ia dar a um amplo patamar sob o qual está uma pequena gruta artificial. Contíguo, no lado sudoeste, fica a igreja de S. Paulo, que conferiu o nome ao edifício. Do lado de nordeste, separada por um quintal que chegou a possuir árvores de fruto, existia uma Hospedaria que anteriormente servia de albergue para peregrinos.

Aparentemente, tanto a fortaleza como o palácio podem parecer mausoléus, corpos sem alma e sem capacidade de ter futuro. Nada de mais enganoso, na medida em que ambos os espaços são culturalmente fruídos, como aconteceu com o festival «Verão amarelo», ocorrido no início de Outubro passado, na fortaleza e na praia vizinha, cujo objectivo principal foi o relançamento das potencialidades culturais e turísticas da ilha, ou com a transformação do palácio em museu, a fim de preservar o seu rico património indoportuguês.

A cidade branca e a cidade negra: a pedra e o macúti

Os especialistas em arquitectura costumam assinalar que a notável unidade arquitectónica da Ilha deriva, em grande parte, de uma certa coerência e continuidade no uso de algumas técnicas de construção, na utilização de materiais tradicionais de edificação e na aplicação dos mesmos princípios e elementos decorativos. No entanto, essa unidade arquitectónica não significa, evidentemente, que a organização dos espaços e dos ambientes não obedeça a uma clara divisão social existente na Ilha. Isto é, a Ilha encontra-se historicamente dividida em duas zonas perfeitamente distintas, que interiormente evidenciam um grau elevado de homogeneidade.

No extremo norte, fica a Fortaleza e o campo de S. Gabriel, um espaço verde que antigamente era usado como espaço de treino militar e área onde eram produzidas as «amarras, viradeiras e cordas de cairo», essenciais à vida marítima.

Na continuação do campo de S. Gabriel, entramos propriamente na chamada «cidade de pedra e cal», zona de grande concentração de edifícios administrativos e de habitação, boa parte deles de origem seiscentista e setecentista. Ao longo da costa ocidental, entre a praia que fica defronte da fortaleza e o palácio dos Governadores, encontramos uma linha de casas, construídas de forma compacta, que nos surge como uma sequência ininterrupta de fachadas, como se se tratasse de um único pano de parede que se prolonga de um extremo ao outro da rua. Muitas destas habitações teriam pertencido a comerciantes indianos, vulgarmente conhecidos por baneanes, e funcionavam como feitorias por estarem em contacto directo, de um lado, com os navios e com as manobras de carga e descarga, e, do lado oposto, com a rua e com a freguesia que procurava adquirir todo o género de fazendas. Em algumas dessas casas-feitorias, o piso térreo servia de armazém para recolha de marfim e tecidos indianos e a casa chegava mesmo a dispor «de um pequeno ancoradouro privativo por onde os escravos eram conduzidos directamente» para os navios.

Até ao Hospital e o seu parque, quarteirão que faz fronteira com a «cidade de macúti», podemos ver, entre muitos outros edifícios, o antigo porto, a alfândega, o bazar, o pelourinho, os celeiros e algumas das casas mais antigas, outrora pertencentes aos moradores mais ricos.

Muitas destas residências apresentavam portas e janelas de madeira africana, dura, algumas exuberantemente ornamentadas em talha ao estilo indiano. Nas traseiras existiam pequenas hortas e jardins com árvores de fruto e palmeiras que conferiram ao conjunto habitacional e monumental da Ilha a harmonia e a traça semelhantes às das cidades portuguesas do Estado da Índia e, mesmo, das cidades indianas do Golfo de Cambaia. A cobertura destas casas, em forma de terraço, servia para recolher a água das chuvas, que depois eram encaminhadas para cisternas de uso doméstico.

A passagem da «cidade de pedra» para a «cidade de macúti» ocorre abruptamente, devido ao desnível do terreno e às características particulares das duas zonas.

Para Sul, ficava a povoação indígena pobre e desordenada, geralmente conhecida por cidade de macúti, pelo tipo de materiais e pelo modo como as casas eram construídas.

As casas de macúti eram construções de paredes feitas com uma trama de bambus rebocados com uma argamassa de cal e com tectos feitos de forma semelhante mas cobertos de folhas de coqueiro. Estas casas de macúti para escravos, negros forros e mestiços de tez mais ou menos escura, começaram por se desenvolver de forma um pouco dispersa ao longo da contracosta. Porém, à medida que caminhamos em direcção à ponta meridional da Ilha a povoação indígena tornou-se um pouco mais compacta.

Para lá dos poços da Marangonha, «de que todo Povo se serve não só para beber, mas para os mais uzos cotidianos», e dos Tanques dos Mainatos, cuja água salobra apenas servia para lavagens e para os indígenas se servirem por não terem outra que beber, tudo o mais «era logradouro privativo dos negros gentios e vedado a brancos que lá não fossem em grupos armados». Aos olhos europeus era um local assustador, especialmente quando caía a noite e havia lugar às festas indígenas à luz de fogueiras, com danças e cantares ao som estrepitante de batuques, com muita bebida alcoólica e muito fumo de seruma que, por vezes, davam origem a brigas e mortes.

O extremo da ilha, onde hoje fica a zona dos cemitérios e o crematório dos hindus baneanes, construídos a partir de meados do século XIX, era antigamente um local praticamente desabitado.

Como facilmente se depreende, a população da Ilha de Moçambique era relativamente pequena e muito heterogénea. Fixou-se em áreas bem determinadas, de acordo com a sua riqueza, estatuto social e origem religiosa. Podemos, no entanto, afirmar que a Ilha e as aldeias que ficavam defronte, no continente, eram mestiças. Até meados do século XIX, os dados disponíveis sobre a população das povoações moçambicanas são muito incompletos. O censo elaborado pela Câmara, em 1766, sobre os ofícios e a forma viviam os habitantes da Ilha de Moçambique e das Terras Firmes, indica que cerca de 61% dos residentes eram goeses cristãos ou «filhos de Moçambique», os filhos de reinóis e de goeses com nativas moçambicanas.

A maioria das famílias brancas originárias do Reino concentrava-se no núcleo urbanode pedra e cal da Ilha, mas muitas destas famílias também possuíam quintas rurais no Mossuril e na Cabaceira Grande, onde permaneciam com seus escravos e dependentes, durante longas temporadas de repouso. Segundo Gerhard Liesegang, uma estimativa baseada em censos parciais de 1806 e 1831, calcula que a população da ilha de Moçambique não excedesse as 4000 almas, a maior parte escrava.

Os baneanes hindus oriundos do Guzerate viviam quase todos na Ilha, geralmente em casas alugadas aos jesuítas ou a outra ordem religiosa, de preferência junto à alfândega ou junto à costa, em contacto directo com a carga e descarga de navios. Os muçulmanos asiáticos viviam maioritariamente na contracosta, desde o terreiro de S. Gabriel onde produziam as cordas de cairo, essenciais à vida marítima.

Os negros autóctones, escravos livres, mulatos e alguns muçulmanos autóctones viviam em palhotas a sul do convento-hospital de S. João de Deus e dos poços da Marangonha. A Ilha de Moçambique, lugar de encontro de diferentes culturas, povos e religiões, encontra precisamente nessa dimensão da diferença a sua marca identitária mais forte. Esta questão da pluralidade, a que acresce a necessidade de protecção, reabilitação e preservação do seu património, confere à Ilha de Moçambique um estatuto importante no panorama histórico e cultural da humanidade e convida os cientistas sociais a debruçarem-se sobre uma história que reconhece a todos os sujeitos em presença um papel activo e enriquecedor, especialmente se esses sujeitos têm origens tão distintas quanto as que se encontram no Índico africano.

25 de agosto de 2025

Moçambique: Ordem dos Advogados Assume Reabilitação do Edifício "Vila Algarve"




Ordem dos Advogados vai assumir “Vila Algarve” - garante o novo Bastonário, Gilberto Correia

O edifício Vila Algarve, na cidade de Maputo, vai funcionar como sede da Ordem dos Advogados de Moçambique ainda no decurso do presente mandato de cinco anos, iniciado na última segunda-feira com a tomada de posse dos novos corpos sociais da agremiação. Por enquanto, segundo Gilberto Correia, o novo Bastonário da Ordem, a missão de base é restituir a credibilidade do órgão junto dos associados e da sociedade em geral como pressuposto para o desenvolvimento de parcerias necessárias para a implementação dos projectos previstos no seu manifesto eleitoral.

Segundo Gilberto Correia, neste momento a Ordem não dispõe de fundos próprios, especialmente destinados à reabilitação da Vila Algarve, razão por que se vai impor um trabalho de mobilização de dinheiro junto de potenciais parceiros da agremiação. “Vamos criar uma comissão com um mandato específico para lidar com o assunto, que assumimos desde já que é algo delicado. O edifício será a nossa “jóia da coroa”, mas não será coisa imediata. Na verdade não teremos sede da Ordem a funcionar no edifício Vila Algarve dentro dos próximos dois anos, mas a nossa meta é fazer com que isso aconteça dentro do presente mandato. Vamos trabalhar para isso, como vamos procurar cumprir com tudo aquilo que consta do nosso manifesto”, disse Correia.

Na óptica do Bastonário da Ordem dos Advogados de Moçambique, uma vez instalados os corpos sociais, o passo seguinte é iniciar os contactos para persuadir potenciais parceiros e entidades diversas a colaborar. “Tal como temos vindo a dizer, estamos dispostos a enfrentar todas as dificuldades que nos surgirem pela frente, porque não somos de recuar nos nossos compromissos. Precisamos é de tempo para trabalhar, e isso implica planificação, mobilização de apoios e outros procedimentos”, disse.

Sabe-se que o Estado disponibilizará 10 por cento dos 600 mil dólares necessários para a reabilitação do edifício.

“Reabilitado, o edifício pode ser rentabilizado. E nós acreditamos que é possível encontrar parcerias para avançar. É fundamental, para uma Justiça credível, que a Ordem seja também credível, que a advocacia contribua com toda a sua pujança. É preciso que a Ordem tenha um rosto que faça por merecer a confiança necessária”, disse Correia.

O anterior elenco directivo da Ordem chegou a estar muito perto de conseguir um acordo de financiamento com a União Europeia e Portugal para a reabilitação do edifício, facto que acabaria por não acontecer devido a atrasos no encaminhamento do processo.

Os novos corpos sociais da Ordem dos Advogados tomaram posse semana passada em Maputo.

Maputo, Terça-Feira, 6 de Maio de 2008:: Notícias

28 de junho de 2024

14 de agosto de 2023

Moçambique: Entrevista feita por Allen Isaacman ao Presidente Samora Machel - Maio de 1979



Entrevista feita por Allen Isaacman ao Presidente Samora Machel - Maio de 1979, Moçambique

SAMORA MACHEL, GRANDE ENTREVISTA, Maio de 1979

Allen Isaacman: Moçambique condenou o ataque da China contraVietname. Isto representa uma mudança da política da FRELIMO em relação a divisão Sino-Soviética no movimento comunista internacional?    

Samora Machel: já que fala ai no mundo queremos responder. Não são vocês [que estão preocupados]; são os outros que estão preocupados “há mudanças em Moçambique.” O Partido FRELIMO defendeu e defende a unidade do movimento comunista e operário internacional. Agiremos sempre em favor desta unidade. Em diferentes situações podemos ter divergências com partidos irmãos e até mesmo termos posições opostas. Abstemo-nos por princípio de fazermos debates públicos sobre essas divergências e contradições. Muito embora em privado não hesitemos em apresentar os nossos pontos de vista quando para isto solicitados. Temos como principio sistematicamente distinguir os erros dos amigos por graves que sejam da acção do inimigo. Esta distinção leva-nos a dar um tratamento diferente as situações. Igualmente por grave que sejam os erros dos amigos nunca esquecemos o seu apoio nas horas difíceis e a contribuição dada ao movimento revolucionário noutros momentos. Entendem? Os princípios do respeito das fronteiras e da inviabilidade do território nacional, do regulamento [resolução] pacifico nos diferendos entre estados, do não recurso à força nas relações internacionais são princípios básicos e elementares que garantem a paz e segurança internacionais, são princípios cuja defesa compete a todos os estados. A República Popular da China é um estado amigo que ao agredir o Vietname violou estes princípios básicos. Calarmos é aceitarmos tacitamente uma grande violação das normas que regulam as relações internacionais. A violação feriu-nos tanto mais que tratava-se de um estado socialista atacando outro estado socialista. Nossa amizade com a República Popular da China mantem-se inalterável tal como permanece inalterável a alta apreciação que temos pelo apoio que nos foi prestado nas horas dificeis e pela contribuição histórica da revolução chinesa para o desenvolvimento do processo revolucionário mundial. Apoiamos a ajuda fraternal prestada pela República Socialista do Vietname ao Campuchea. Da mesma maneira como apoiamos a ajuda fraternal da República Unida da Tanzânia ao Uganda. O Vietname como a Tanzânia foram atacados diversas vezes por regimes despóticos e expansionistas no quadro da legitima defesa tinham o direito de neutralizar os agressores. No quadro do dever internacionalista de solidariedade apoiaram as insurreições contra regimes despóticos. Importa-nos sempre sabermos contra quem estão viradas as armas. Se contra o povo ou se contra a tirania. Hoje no sudoeste asiático entre o Vietname, Laos e Campuchea, surgem laços fortes de amizade e solidariedade que constituem factor fundamental para o triunfo da causa do socialismo na zona. E permitem a consolidação da paz e segurança internacionais em toda a região. Entre a Tanzânia e o Uganda gere-se um clima de paz e cooperação que contribuirá para a estabilidade e progresso da África Oriental e para o reforço da luta de libertação na África Austral. Felicitamo-nos pelo recomeço das negociações entre o Vietname e a China e desejamos ardentemente que elas tenham sucessos de modo a restaurar a tradicional amizade revolucionária entre os povos e estados da região e a refazer a frente anti-imperialista. É esta nossa posição.

5 de novembro de 2021

Da folia do Entrudo na Avenida de Angola (por Aldino Muianga, 01/11/2021)



Enquanto o Pablo entretinha-se a esmurrar fantasmas aproximava-se a época do carnaval. Era um momento por que a maioria dos habitantes da cidade e dos subúrbios ansiava. Organizavam-se bailes nos grandes clubes da capital, como nos pavilhões do Sporting e da Malhangalene, sem falar noutras agremiações de não menor estatuto, como o Clube dos Engraxadores, o Centro Associativo, a Casa do Porto, a Associação de Auxílios Mútuos Gazense e a Casa dos Funcionários. Era, enfim, mais um pretexto para novos convívios e outras confraternizações.

Outros não iriam aos clubes, mas aglomerar-se-iam nos passeios da Avenida de Angola que, nessa época, se engalanava para receber forasteiros provenientes doutros bairros.

Os passeios e os terrenos adjacentes à Avenida de Angola ainda acusavam a severidade das chuvas recém-caídas. O chão acusava aqui e ali algumas poças de água que o calor de um sol tímido procurava secar.

O baile da pinhata no pavilhão do Sporting foi o toque de chamada ao início das festividades.

Naquele sábado de carnaval era só ver cortejos de gente, compactos  e alegremente ruidosos a despontarem de todos os caminhos em direcção ao bairro Indígena que, curiosamente, se transformara no epicentro das celebrações. Era a sacristia onde muitos iriam tributar a sua homenagem à amizade, onde iriam iniciar-se novos relacionamentos. Foliões trajados de coloridas vestimentas passeavam a sua classe nas pistas do areal. Uns vestiam-se palhaços, de almirantes-marinheiros a navegar em docas secas; piratas de espadachins de madeira e chapéus caprichosos a dar tréguas aos marinheiros de mar alto;  de diabos que desceram à  terra  em missão de justiça. Outros tinham os rostos ocultos por máscaras; eram Zorros elegantes e corajosos, Mandrakes prestidigitadores de varinha mágica e cartola para transformar o destino dos mortais; outros ainda coloriam as peles com aguarelas multicores, arco-íris  ambulantes a colorir a tarde de festa. Outros mais, sem as mesmas porque já nada tinham para esconder ou imitar. Todos; porém, presentes na roda partilha da alegria comum dum tagarelar descontraído, de trocar historietas do quotidiano, ao encontro dalgum elo de unidade entre os residentes dos diferentes bairros. Camiões  cedidos à borla pelos cantineiros _o tempo era de generosidade, e também o orgulho do seu bairro em competição com os demais_ carregavam grupos de foliões, bandas musicais de ocasião muito ruidosos, e cantores de vozes sofrivelmente timbradas, mas nem por isso menos alegres, espalhavam notas de canções ensaiadas durante meses para abrilhantar a festa. Sobre a bagageira do camião cedido pelo cantineiro Suzarte, a rolar lento no asfalto, o grupo da Mafalala, do qual se destacavam o vocalista  “Bode” Mordicai que, com aquela voz de caprino muito característica, alucinava as multidões; o Antoninho “Gaita” na harmónica de boca, o Habibo “Gargalhada” no tamborete, o Hassane “Esqueleto Humano” no pandeiro, o Gulamo “Coiote” no violão e, finalmente, o guitarrista-mor Salimo “Makhôfu”, executava o sempre presente hino dos carnavais:

20 de julho de 2021

Trilogia da Contestação: Bispo de Quelimane Dom Manuel Vieira Pinto (Por Jorge Ferrão 04 de Maio 2020)


Dom Manuel Viera Pinto foi alguém que nos habitou às múltiplas despedidas, tantas foram as vezes que partiu e regressou. Quando recebi a notícia do final da sua missão, ainda consternado, tratei de ligar ao Padre Filipe Couto e, acto continuo, conversamos sobre um sem número de facetas e episódios. 

Uma trilogia de memórias me vem à cabeça, sempre que falamos no Bispo Dom Manuel Viera Pinto, que nos deixa uma saudade e o sentido de que a sua missão está distante do final.

Primeiro, quando foi expulso de Nampula, ali no aeroporto, bem próximo de sua residência, em 1974, afirmando para os microfones da rádio “…saiu pela porta grande e com as minhas malas, todavia, quem me expulsou, sairia pela janela e sem nada em suas mãos…”. Não foi apenas uma saga, pois, meses depois se confirmava o que antes parecia sonho.

A minha geração ainda teve o privilégio de escutar muitas das homilias. Falava com sentido de oportunidade e de forma convincente. Repetia, bem alto e em bom tom, que gostaria de morrer em Nampula e de ser sepultado à entrada da Sé Catedral, para continuar próximo de seus fiéis. 

Em segundo lugar, me recordo da famosa carta dele e dos sacerdotes da sua diocese, sob o título "Imperativo de Consciência", que eu nunca cheguei a ler, aparentemente redigida pelos padres Combonianos, um documento demasiado famoso para ser ignorado, em contexto moçambicano. Aliás, essa carta não agradou ao Governo de Marcelo Caetano, ao exigir uma resposta corajosa aos problemas graves do povo moçambicano. 

Finalmente, a carta que Dom Manuel Viera Pinto escreveu a Samora Machel, em Setembro de 1986, um mês antes do factício acidente que o roubou do nosso convívio. Esta carta, aliás, merece uma releitura.  Samora e Vieira Pinto conversavam e debatiam este país com profundidade e respeito. Assim, com a devida vénia, transcrevo à carta. Oxalá, um dia o seu maior desejo em vida, seja satisfeito e regresse à sua cidade de coração, Nampula. 

O povo não sabe onde pôr o coração

A confiança que Vossa Excelência nos merece, como Presidente da Frelimo e da República Popular de Moçambique, leva-nos a falar, mais uma vez, das violências que não cessam de humilhar e destruir o nosso povo. A guerra continua e com ela a violência, a humilhação, os abusos, os excessos, as atrocidades e os crimes. Permita-nos, Senhor Presidente, que falemos, concretamente, das violências que, neste momento, mais humilham e esmagam o nosso Povo, mais destroem o país e o encobrem de vergonha e de sangue: os massacres, as execuções sumárias, os assassinatos, as n.... e as torturas.

“D. Manuel Vieira Pinto Arcebispo de Nampula – Cristianismo: Política e Mística” (Guilherme d’Oliveira Martins)

 



O livro de Anselmo Borges (Edições Asa, 1992) é uma obra que espelha a ação de uma das maiores figuras da Igreja portuguesa contemporânea, com uma extraordinária coerência entre a palavra, o espírito e a ação.

CUIDAR DE UM MUNDO MELHOR

Muitos de nós começámos a ouvir falar do Padre Vieira Pinto a propósito dos encontros do Movimento por um Mundo Melhor (MMM) e da sua capacidade de mobilizar os cristãos portugueses, desejosos de verem horizontes abertos. Era o espírito do Concílio que estava a germinar e o carisma do Padre Manuel era capaz de tornar os sinais dos tempos marcas efetivas de mudança… Nascido em Amarante em 1923 foi ordenado presbítero no Porto em 1949, tendo sido assistente da Ação Católica, diretor espiritual do Seminário Diocesano no Porto, além de ter desempenhado funções nas paróquias de Campanhã e Cedofeita. Envolvido no MMM, visita Roma em 1960 e na sequência do Concílio Vaticano II, participa com o Padre Vítor Feytor Pinto num conjunto de ações no sentido da renovação da Igreja. A renovação da vida cristã, a leitura dos sinais dos tempos, o lançamento de estratégias que favorecessem a mudança e a conversão, bem como a promoção da justiça social, a paz e a reconciliação entre os povos e nações constituíram prioridades defendidas pelo Padre Riccardo Lombardi, S.J., fundador em 1952 do Movimento. A teologia do Concílio constituiu um corolário lógico desse espírito e um exigente desafio em que o então jovem sacerdote se envolveu com muito entusiasmo e com uma especial preocupação teológica e pastoral. E assim impulsionou em Portugal esse movimento e essa motivação. E muitos recordam a sua grande capacidade mobilizadora no sentido de uma Evangelização renovada e aprofundada, na linha da “Gaudium et Spes” e da “Lumen Gentium” – em iniciativas que ficaram na memória de todos no Pavilhão dos Desportos em Lisboa e no Palácio de Cristal no Porto. O Povo de Deus não era uma abstração, era um apelo concreto, para tornar o mundo melhor, com mais atenção e cuidado, mais justiça e paz. Em abril de 1967, o Papa Paulo VI nomeou-o Bispo da nova Diocese de Nampula, tendo recebido a ordenação episcopal no dia 29 de junho desse ano, festividade de S. Pedro.

Moçambique: A Carta de D. Manuel Vieira Pinto que Samora Machel não leu

 


Samora Machel e Manuel Vieira Pinto fazem parte da História de Moçambique. O primeiro foi o líder incontestável líder que conduziu o país à independência tornando-se no primeiro presidente durante 11 anos. O segundo foi o único bispo português que se insurgiu pública e abertamente contra a dominação colonial, pronunciando-se, em coerência, pela autodeterminação do povo moçambicano o que lhe custou a expulsão, dias antes do 25 de Abril. Nos 11 anos de independência, as relações entre o Estado e a Igreja estiveram longe de ser as melhores. Apesar disso, Vieira Pinto e Samora Machel nutriam uma sincera admiração e respeito um pelo outro. Eles procuravam manter encontros pessoais. Em 25 de Setembro de 1986, Manuel Vieira Pinto escreveu a carta que não chegaria ao destinatário, em virtude deste morrer (19 de Outubro) antes de a receber, num encontro a dois. Era um inventário frontal das inúmeras situações provocadas pela guerra provocadas pelos dois lados e do apontar dos caminhos julgados mais eficazes para a obtenção da paz.

Eis o conteúdo da carta:

O Povo não sabe onde pôr o coração.

A confiança que Vossa Excelência nos merece, como Presidente da Frelimo e da República Popular de Moçambique, leva-nos a falar, mais uma vez, das violências que não cessam de humilhar e destruir o nosso povo. A guerra continua e com ela a violência, a humilhação, os abusos, os excessos, as atrocidades e os crimes. Permita-nos, Senhor Presidente, que falemos, concretamente, das violências que, neste momento, mais humilham e esmagam o nosso Povo, mais destroem o país e o encobre de vergonha e de sangue: os massacres, as execuções sumárias, os assassinatos, e as torturas.

Massacres:

As informações de que dispomos dizem-nos que os massacres, cometidos por uns e por outros, não são um boato ou uma pura invenção, mas, sim, uma triste e dolorosa realidade. Sabemos que ao longo destes anos de guerra, os massacres de pessoas e de populações inocentes e indefesas foram muitos, contando-se por milhares, o número de vítimas: homens, mulheres, velhos e crianças, jovens e adolescentes, mães lactantes e mães grávidas. O povo pergunta pelas razões destes crimes, destes actos executados, e pergunta igualmente por quem os comete ou manda cometer. Julgamos que não basta responder com a desculpa de que a guerra é guerra ou de que na guerra não há lei, nem há moral.

O povo entende que na guerra há uma inelutável irracionalidade congénita, o que necessariamente dá origem a abusos e a violências arbitrárias. O povo entende que a irresponsabilidade, a indisciplina, o descontrolo, o espírito de represália e de vingança podem tornar, num dado momento, os homens armados em homens ferozes, homens sem lei e sem um mínimo de respeito pela vida, pela dignidade da pessoa humana e pela segurança a que as populações têm inegável direito, mas, bastarão estas razões para explicar os numerosos massacres, cometidos contra pessoas inocentes, populações indefesas e contra o próprio Povo? Não haverá outras causas, além da lógica diabólica da guerra e da irresponsabilidade de quem os comete, permite ou manda cometer?

10 de junho de 2021

Moçambique: Mouzinho, herói em Chaimite

 


Mouzinho de Albuquerque escreveu uma página de ouro na história de Portugal. À frente de um punhado de soldados, penetrou no reduto da revolta anti-lusitana e capturou o imperador vátua, Gungunhana. Enquanto o “Leão de Gaza” era levado preso para Lisboa, o herói concluía a pacificação de Moçambique.

Apesar da cedência do Governo ao humilhante Ultimato britânico de 1890, que impusera a retirada do nosso país dos territórios entre Angola e Moçambique incluídos no chamado Mapa Cor-de-Rosa, os ingleses continuaram a manobrar contra a presença portuguesa na África Oriental.

Em 1894-1895, agentes britânicos baseados na África do Sul incentivaram – e financiaram – a revolta dos vátuas, indígenas do sul de Moçambique, que chegara a ameaçar a própria capital, Lourenço Marques.

As tropas portuguesas, comandadas pelo comissário régio António Enes, contra-atacaram, conseguindo, em Novembro de 1895, conquistar Manjacaze, a principal praça-forte do imperador vátua, Gungunhana, que retirou para Chaimite, no território moçambicano de Gaza. António Enes pediu a Lisboa reforços para concluir a pacificação de Moçambique – e, na falta de uma resposta satisfatória, apresentou a demissão.

Sucedeu-lhe no comando das operações o então capitão Mouzinho de Albuquerque, nomeado, a 10 de Dezembro, governador militar da província de Gaza. Mouzinho decidiu então dar um golpe de mão audacioso.

À frente de poucas dezenas de soldados de cavalaria e umas centenas de auxiliares africanos, internou-se no mato e, ao fim três dias de marcha, pôs cerco a Chaimite, a “capital” vátua, onde residia Gungunhana.

Às 7 da manhã do dia 28 de Dezembro, Mouzinho de Albuquerque entrou no povoado através de um pequena abertura na paliçada, à frente dos militares portugueses. Os cerca de 300 vátuas que compunham a elite guerreira dos insurrectos – armados de espingardas fornecidas pelos ingleses – fugiram sem disparar um tiro.

28 de julho de 2020

Moçambique: A “diligência” confidencial de Maputo para libertar reféns dos EUA no Irão


A eventual “diligência” de Moçambique no início da crise entre os EUA, Irão e os possíveis apelos de Maputo no sentido da libertação dos reféns norte-americanos são referidos confidencialmente pela embaixada de Portugal em Dezembro de 1979.

“O embaixador de Espanha disse-me ontem [04 de Dezembro de 1979] que o embaixador dos Estados Unidos lhe confidenciara estar muito satisfeito com diligência que teria sido entretanto feita, pela República Popular de Moçambique, junto de dirigentes iranianos no sentido da libertação dos cidadãos norte-americanos sequestrados em Teerão”, transmite a embaixada de Portugal, às 19:30 de 05 de Dezembro de 1979.

O mesmo documento sublinha que o embaixador norte-americano não quis acrescentar mais detalhes - “por enquanto” - por se tratar de material confidencial.

A crise dos reféns prolongou-se durante 444 dias, entre 04 de Novembro de 1979 e o dia 20 de Janeiro de 1981.

Os 52 norte-americanos, a maior parte diplomatas, foram feitos reféns pelos estudantes da Revolução iraniana que acabava de derrubar o regime do Xá Reza Pahlevi, entretanto exilado.

A referência à eventual diligência entre Maputo e Teerão terá acontecido no início do longo processo que só termina em Janeiro de 1981, no dia em que Ronald Reagan toma posse como presidente dos Estados Unidos, sucedendo a Jimmy Carter.

A crise dos reféns norte-americanos não volta a ser referida nas transmissões que se seguem até ao final do ano e em 1980 pela embaixada de Portugal, que no dia 05 de Dezembro de 1979 admite que o novo poder em Teerão possa ter sido permeável aos “apelos” de Samora Machel.

28 de junho de 2020

Branqueamento da história exclui lutadores pela independência de Moçambique, diz Daviz Simango


O presidente do MDM, Daviz Simango, considerou esta quinta-feira que o país cometeu “erros graves” com o branqueamento da sua história, reescrita segundo a agenda do Governo, e defendeu a “inclusão de heróis” com títulos “negados”.

Presidente do Movimento Democrático de Moçambique (MDM), terceira força parlamentar, Daviz Simango disse que a classificação de moçambicanos, como "reacionários, contra reacionários e traidores", excluiu muitos que lutaram pela independência do panteão de heróis nacionais, considerando tratar-se de “uma ação discriminatória que divide os moçambicanos”, que se torna num travão real aos esforços para a reconciliação.

“Se não reconhecermos a heroicidade e a moçambicanidade dos outros jamais haverá reconciliação”, precisou Daviz Simango, em nota alusiva aos 40 anos da independência de Moçambique, que hoje se celebram e divulgada na página do partido na rede social Facebook.

Simango disse ser obrigatório proceder a uma reflexão profunda sobre o trajeto percorrido para, defendeu: “sermos capazes de identificar quais são as causas dos atrasos que teimam em verificar-se na esfera social, política, económica, e cultural" de Moçambique.

“É tempo de aclararmos de forma aberta e inequívoca de que o projeto de construção de Moçambique forte, sólido, democrático, solidário e justo tem sofrido fortes revezes devido a uma série de causas”, declarou Daviz Simango, insistindo que a "postura de açambarcamento" do país por um grupo de moçambicanos e intolerância política retarda o desenvolvimento.

“Quando se procura encontrar as causas da discórdia que ameaça a paz e a estabilidade em Moçambique, chocamos sempre com a intolerância política como causa primeira”, disse, defendendo ser necessário “assumir que a independência foi fruto de sacrifícios consentidos por milhões de moçambicanos”.

O MDM, frisou, quer participar do processo político nacional trabalhando numa visão de descodificar a situação que cada vez mais ganha contornos preocupantes, em alusão à “reabilitação dos heróis dos outros” e a gestão da crise pós-eleitoral.

“A ofensiva mediática de entrevistas com personalidades nacionais que participaram na gesta independentista é importante mas peca por não trazer a opinião de outros moçambicanos que também participaram na luta pela independência nacional”, concluiu.

Lusa, 26 de Junho de 2015

Moçambique: Telegrama "confidencial" revela ataque da Frelimo contra católicos em 1978



Um telegrama "confidencial" da embaixada de Portugal em Maputo revela que Sérgio Vieira, dirigente da Frelimo, ameaçou directamente os bispos católicos em 1978.

A 18 de Dezembro de 1978, um telegrama “confidencial” relata o encontro entre as autoridades de Moçambique e os bispos católicos e que contou com a presença de todos os governadores provinciais.

Segundo o mesmo aerograma, Sérgio Vieira, chefe de gabinete de Samora Machel que desempenhava na altura funções de governador do Banco de Moçambique, presidiu à reunião, acusando directamente os católicos de terem desempenhado o papel de “arma do colonialismo” e apontando o carácter contra revolucionário da igreja face aos princípios políticos que norteavam a República Popular de Moçambique comunicando novas medidas.

“Todos os edifícios religiosos, incluindo respectivo recheio passariam a ser propriedade do Estado moçambicano; todos os actos de culto e catequese seriam doravante confinados ao interior dos templos; seria proibida a circulação de todo e qualquer documento eclesiástico sem aprovação prévia das autoridades moçambicanas", refere Sérgio Vieira, citado no telegrama.

O mesmo dirigente da Frelimo comunica também que "seria proibida a constituição ou manutenção pela igreja de qualquer espécie de associação ou organização, que seria proibida a realização de manifestações públicas, bem como reuniões fora dos templos, não devendo os sacerdotes ir ao encontro dos fiéis mas apenas recebe-los quando procurados por eles" e que "seria proibida a realização de ataques e críticas à doutrina marxista-leninista”, informa a embaixada na mesma transmissão a partir de Maputo.

Segundo o telegrama 1036/1978, a reação dos bispos teria sido de “estupefacção”, mas, apesar de tudo, a sensação que ficou entre os presentes foi que as medidas anunciadas por Sérgio Vieira nunca seriam publicadas “por óbvias razões de imagem política”, principalmente externa.

Em todo o caso, mesmo sem publicar as normas, os responsáveis religiosos, refere a embaixada, jamais poderiam invocar “ignorância” porque os governadores provinciais, presentes na reunião, poderiam exercer pressão junto dos sacerdotes.

“Informações que nos têm chegado indicam estarem muitos padres presos ou colocados sob residência fixa por motivos fúteis, prevalecendo a ideia de que o governo quer subjugar completamente a igreja católica”, vinca o telegrama da embaixada de Portugal sobre as relações entre a igreja e a FRELIMO três anos após a independência de Moçambique.

Da consulta dos telegramas da embaixada de Portugal referentes aos anos entre 1975 e 1980, e que constam dos arquivos do Ministério dos Negócios Estrangeiros, destacam-se em 1978 as perseguições contra sacerdotes, sobretudo portugueses, e nos anos anteriores as declarações do chefe de Estado, Samora Machel, contra Testemunhas de Jeová, podendo alguns deles ser consultados no "site" da Lusa sobre as independências. 


Lusa, 11 de Julho de 2015

Moçambique: Contributos para a História (José Milhazes, 2007)



“Rússia (URSS) nas guerras da segunda metade do séc. XX”. M., Triada-farm 2002. Pág. 402-407

Luta armada do povo de Moçambique pela liberdade e a independência (1965-1979)

(continuação)

"A fim de preparar quadros de comando e especialistas técnicos no período mais curto, foram criadas: a escola militar de Nampula, o centro de treinos de Nacala, o centro de instrução de tropas fronteiriças na Beira, a escola de condução do Maputo. Os primeiros finalistas da escola de Nampula estavam formados no início de 1982.

Em 1980, tinham sido instaladas quatro brigadas de tropas fronteiriças para guardar as fronteiras de Estado. Para isso conselheiros e especialistas soviéticos tiveram de realizar um grande trabalho. Eles ajudaram a realizar o reconhecimento dos locais, faziam propostas para a melhor instalação das unidades, batalhões e brigadas de guarda-fronteiras, organização de serviços de apoio técnico e manutenção.

Decorria com o mesmo êxito a formação de tropas terrestres. Até finais de 1980 foram criadas cinco brigadas de tropas regulares, embora não completas, mas com capacidade de combate. No início de 1982 foi dado início à formação de mais duas brigadas. Os conselheiros e especialistas soviéticos participaram directamente na sua formação, elaboraram estruturas de organização e comando, organizaram o treino militar, o serviço de manutenção. Os armamentos e equipamentos militares eram fornecidos pela URSS.

Os oficiais soviéticos realizaram um grande trabalho com vista à criação da defesa anti-aérea de Moçambique. Além das divisões de artilharia anti-aérea, eles ajudaram a organizar as divisões de mísseis e batalhões de radares, que garantiam a defesa anti-aérea da capital de Moçambique.

Os soviéticos trabalhavam abnegadamente: realizavam aulas, criaram a base de ensino e material, prestavam assistência técnica, (405) realizavam exercícios de treino debaixo do sol escaldante e das chuvas tropicais. As condições de vida, frequentemente, estavam longe de ser as melhores. Apenas se podia sonhar com aparelhos de ar condicionado em funcionamento, já era bom se nas casas havia regularmente luz e água, frigoríficos. Mas havia lugares onde era preciso dormir em tendas ou viver em compartimentos sem luz e canalização.

Moçambique e a União Soviética precisavam deste herói (José Milhazes, 2010)


Artigo sobre o meu livro: "Samora Machel-Atentado ou Acidente" publicado no suplemento Ipslon do Público:

"Samora Machel, o primeiro Presidente de Moçambique, tinha de morrer como um herói. Moscovo não podia admitir falhas no Tupolev-134 que caiu em 1986: a tese do atentado sul-africano era mais confortável. Um novo livro de Jose Milhazes, "Samora Machel - Atentado ou Acidente?", inclina-se conclusivamente para uma falha humana.

É de um episódio distante, e ao mesmo tempo muito presente, que trata o novo livro do historiador e jornalista José Milhazes, "Samora Machel - Atentado ou Acidente?" (Alêtheia). A morte de Samora Machel em 1986 é passado. Mas o mistério que sobre ela permanece é presente, e o acontecimento é olhado, hoje, à luz de uma nova realidade, e de novos e também trágicos episódios, como a morte do Presidente polaco Lech Kaczynski, na queda de um avião do mesmo tipo.

Em 1986, um Tupolev-134. Este ano, um Tupolev-154. Em ambos os casos, a tripulação era russa (em 1986 ainda se dizia soviética), e muito confiante. E é exactamente na Rússia que se centra a investigação de José Milhazes, ex-correspondente do PÚBLICO e actual correspondente da Agência Lusa em Moscovo, para quem o paralelo é inevitável.

Passado e presente ligados pelo mesmo tipo de acontecimento mas também pela leitura política que abre e fecha o livro: "Moscovo forneceu armas suficientes para que o MPLA (em Angola) e a FRELIMO (em Moçambique) continuem ainda hoje no poder", embora "com uma orientação ideológica oposta à defendida por eles até à queda da URSS em 1991".

Moçambique: Contributos para a História (José Milhazes, 2006)


Recentemente, o militar na reserva e jornalista russo, Alexei Sukonkin, publicou o livro “Campanha para a Pensão”, onde descreve o seguinte episódio das relações entre a União Soviética e Moçambique:

“Em 1976, um grupo de conselheiros militares soviéticos foi feito refém em Moçambique. A operação foi dura: foi liquidada praticamente toda a guarda, constituída de soldados moçambicanos.

Nessa altura, a URSS já há vários anos que ajudava activamente Moçambique independente na luta de libertação nacional contra as “artimanhas do imperialismo”. A ajuda era concedida sob a forma de fornecimento de armamentos e injecções financeiras ao partido comunista nacional Frelimo. Pelo seu lado, o Governo de Moçambique fornecia à URSS matéria-prima das suas minas de tântalo e jurava fidelidade e ajuda mútua.

Em 1976, quando o Presidente do país, Machel, reforçou definitivamente as suas posições, os fornecimentos de armamentos da União Soviéticaforam suspensos por não serem objectivamente necessários. O Comité Central do Partido Comunista da União Soviética (PCUS) considerou que a construção do socialismo em Moçambique estava garantida e que existiam condições para que Machel abrisse caminho para o futuro radioso “com as suas forças”, apoiando-se apenas no dinheiro ganho com o tântalo vendido.

Habituado à ajuda militar de Moscovo, Machel, de súbito, perdeu muito e, principalmente, a sensação de uma força de protecção atrás de si. Porque ele não podia, devido à ingerência dos “imperialistas”, estabelecer contactos com outros países para adquirir armas de qualidade. Tanto mais que ele planeava realizar uma série de razias nos estados limítrofes com vista exclusivamente ao enriquecimento pessoal. Tentou convencer, através de palavras e conversações, da necessidade do restabelecimento do fornecimento de armas, mas não conseguiu.

Moçambique: Samora Machel e a aviação militar soviética (José Milhazes, 2006)



Não me canso de ficar surpreendido com o que vou encontrando na Internet durante as buscas que os tempos livres permitem.

Desta vez, ao procurar documentos e "estórias" sobre Samora Machel, antigo Presidente da República, deparei com um artigo publicado no jornal "Slovo Kirguistan" (Palavra do Quirguistão) a 12 de Abril, dia da "Cosmonáutica Soviética". A 12 de Abril de 1961, Iúri Gagarine voou para o Espaço.

Ilkham Assadov, engenheiro e fotógrafo que trabalhou durante muitos anos no aeródromo militar soviético de Kant, no Quirguistão, recorda: "No Instituto de Aviação estudavam numerosos africanos, nomeadamente de Moçambique. Dois filhos do Presidente desse país estudavam em Kant. Quando Samora Machel veio visitar o Quirguistão, em Kant foram organizados para ele voos de exibição, incluindo a "volta de Nesterov", aquela a que o povo baptizou de "mortal".

Depois do show, o Presidente, admirado, perguntou: "Os aspirantes de Moçambique também voarão assim?"

O comandante da unidade, major-general Pavel Trofimovitch Ekhtov, era um grande brincalhão e respondeu: "Eles voariam se não passassem o tempo a olhar para as nossas moças". Então, o Presidente pediu para que o apresentasse à tripulação de pilotos extra-classe. Foi dada a ordem. O avião que mostrara figuras de alta pilotagem aterrou, deu umas voltas e dele saiu... um dos filhos de Samora Machel".


http://darussia.blogspot.com

26 de abril de 2020

Moçambique: Samora Machel Portou-se Como Estaline em Relação à População Branca Portuguesa (José Milhazes, 2009)



Samora Machel portou-se como Estaline em relação à população branca portuguesa


Diplomatas soviéticos que deram início às relações diplomáticas entre a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas e a República Popular de Moçambique criticam a política realizada por Samora Machel face à população portuguesa branca, sublinhando que, nesta área, o Presidente moçambicano se comportou de forma semelhante ao ditador soviético, José Estaline.

“De forma dura, como Estaline, Samora Machel tratou os portugueses que viviam em Moçambique. Muitos deles receberam com entusiasmo os combatentes pela independência quando entraram em Lourenço Marques e estavam prontos a cooperar de todas as formas com a Frelimo”, escreve Piotr Evsiukov, primeiro embaixador soviético em Moçambique, em “Memórias sobre o trabalho em Moçambique”.

“Não obstante, também aqui se revelou o extremismo de Samora Machel. Ele apresentou condições tais de cidadania e residência aos portugueses em Moçambique que eles foram obrigados, na sua esmagadora maioria, a abandonar o país... Com a fuga dos portugueses, a economia de Moçambique entrou em declínio”, recorda ele.

Piotr Evsiukov recorda que Machel era um convicto admirador de José Estaline.