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17 de julho de 2012

Anedotas (João Pereira Coutinho)



Nos últimos dias, é impossível frequentar a internet: a quantidade de anedotas sobre a ‘licenciatura’ de Miguel Relvas é tão elevada que uma pessoa nem consegue trabalhar com o riso.

Só por isto o ministro Relvas merecia uma medalha: por animar um país em depressão com a sua ‘procura do conhecimento permanente e da verdade.’ Claro que, para lá das pilhérias (‘Dá licença?’ ‘Está licenciado.’), existe um problema político sério. Não para Relvas, que obviamente não vê problema algum; mas para o primeiro-ministro.

Por razões que a razão desconhece, Passos Coelho até pode ‘segurar’ o nosso doutor. Mas Relvas será, até ao fim, a anedota permanente deste governo e, pior, a lembrança viva de que a conversa dos ‘sacrifícios’ é um insulto aos portugueses. Sobretudo quando o governo tem na equipa um ministro que pairou acima de qualquer sacrifício para sacar uma reles licenciatura. Para ‘segurar’ Relvas, Passos arrisca-se a perder definitivamente o país.

Correio da Manhã, 15 de Julho de 2012

Por um canudo (João Pereira Coutinho)



Uma pessoa consulta alguns cursos e fica abismada. Animação Turística? Publicidade e Marketing? Restauração e Catering? Longe de mim duvidar da qualidade dos produtos.

Mas se estas coisas existem, por que não um canudo em Carreirismo Partidário, destinado a premiar os anos em que o político nativo rasteja pelas ‘jotas’, ascende aos órgãos directivos e chega a deputado/secretário/ministro? Por acaso os portugueses pensam que isto não dá trabalho?

Uma licenciatura em Carreirismo Partidário seria composta por disciplinas como: Técnicas de Colagem de Cartazes; Introdução ao Megafone; Oratória em Congressos; Jantares de Desagravo; e ‘Uma Lembrancinha para o Sr. Dr.’: Teoria e Prática. Num país decente, nenhum político carreirista teria que andar a mendigar licenciaturas fora da sua área de interesse. Por exemplos presentes e passados, uma universidade só para a espécie devia ser prioridade do dr. Crato.

Correio da Manhã, 13 de Julho de 2012

4 de dezembro de 2011

Feriados (João Pereira Coutinho)


Feriados

A Igreja cedeu dois feriados religiosos e o governo propôs os seus para abate: o 5 de Outubro e o 1º de Dezembro. Um ultraje, como se escreveu por aí? Duvidoso.

A beleza dos nossos feriados ‘históricos’ é que o país podia passar bem sem eles. Sim, o 25 de Abril marca o fim de uma ditadura; infelizmente, marca também o início de um período de loucura revolucionária que destruiu a economia e ameaçou a liberdade dos portugueses. Sim, Camões é o poeta da língua; mas o 10 de Junho é uma criação artificial que serviu a propaganda republicana, continuou a servir o Estado Novo – e sobreviveu misteriosamente em democracia. Do 5 de Outubro, nem vale a pena falar: pessoas sérias não festejam regimes de violência e terror. E sobre a Restauração, para quê celebrar a independência a 1 de Dezembro quando a pátria está novamente disponível para trocá-la por um cheque alemão?

Os nossos feriados ‘históricos’ oscilam entre o anacronismo, a ambiguidade e a farsa. Não fazem grande falta.

João Pereira Coutinho
Correio da Manhã, 04 de Dezembro de 2011