21 de maio de 2026

Guerra Colonial: Memórias de Guerra - O Abraço dos Antigos Inimigos (8 de Março de 2008)



O presidente João Bernardo Vieira dispara uma rajada de boa disposição na direcção de Coutinho e Lima: “Devo dizer-lhe que bebi do seu uísque. Ainda me lembro da marca, Old Parr, era muito bom.” A sala do Hotel Palace Bissau irrompe numa gargalhada. Se há 35 anos o homem então conhecido como ‘Nino’ Vieira se tivesse deparado com o major Coutinho e Lima o mais certo seria um deles não sobreviver ao encontro.

Em 1973, ‘Nino’ liderou o ataque do PAIGC ao quartel de Guiledje, no Sul da Guiné. Ao fim de cinco dias de bombardeamentos, Coutinho e Lima decidiu retirar. Mais de 600 pessoas escaparam a pé, por um trilho de terra batida, conseguindo passar despercebidas ao PAIGC. A queda da guarnição significou o fim da ideia de que Portugal poderia evitar uma derrota militar na Guiné.

O Simpósio de Guiledje juntou na Guiné ex-combatentes guineenses, portugueses, cubanos e cabo-verdianos. Os antigos inimigos revisitaram os locais onde combateram e partilharam as várias versões de uma guerra – todos o admitem hoje – injusta e desnecessária.

O encontro trouxe algumas revelações surpreendentes. ‘Nino’ Vieira despiu a pele de presidente da República da Guiné-Bissau para contar a sua experiência como comandante do PAIGC na zona sul e responsável pelo ataque ao quartel português. Desde 1972 que as Forças Armadas Revolucionárias do Povo (FARP) – a face armada do PAIGC – planeavam o ataque a Guiledje. Amílcar Cabral estudou a ofensiva ao pormenor, mas decidiu adiá-la. Assassinado em Janeiro de 1973, não assistiu à concretização do plano. ‘Nino’ lembra que a morte de Cabral levou o conselho de guerra do PAIGC a pôr em prática “uma grande operação militar que desse um sinal aos nossos combatentes e ao povo guineense de que estávamos com força e de que não iríamos desistir”. O ataque a Guiledje implicou um demorado estudo topo-gráfico: “Só tínhamos um mapa à escala 1/500.000 m, o que comprometia a eficácia da artilharia. Homens como Osvaldo Vieira ou o comandante cubano Raúl Diaz Arguelles palmilharam o terreno e conseguiram elaborar um mapa à escala 1/50.000”, lembra ‘Nino’ Vieira.

Havia ainda um outro ensaio por fazer. A 25 de Março, o comandante manda fazer um ataque simulado a Guiledje. “O objectivo era fazer o inimigo chamar os meios aéreos.” Em menos de cinco minuto, o Fiat a jacto aparece nos céus. Era uma oportunidade única de experimentar o ‘Strella’, um míssil terra-ar cedido pela União Soviética aos independentistas. O tiro sai certeiro. O avião é atingido e despenha-se: “Ficámos tão eufóricos que nem demos conta de que o piloto se tinha ejectado. Com o ‘Strella’ acabava-se a superioridade do Exército colonial. Já podíamos atacar de dia”, lembra ‘Nino’.

Estava previsto que o ataque a Guiledje ocorresse em simultâneo com o que teve lugar em Guidaje, no Norte da Guiné, liderado por Luís Cabral, irmão do malogrado líder do PAIGC. ‘Nino’ explica que “o facto de eles terem sido detectados levou-os a anteciparem o ataque”. Ainda assim, a ofensiva no Norte obrigou o general Spínola, comandante militar e civil da colónia, a fazer deslocar para o Norte quase todo o dispositivo disponível.

Coutinho e Lima, comandante de Guiledje e do COP5 (Comando Operacional 5, que compreendia a região sul, junto à fronteira com a Guiné-Conacri), está entregue apenas aos seus 150 homens quando, a 18 de Maio, três corpos do Exército das FARP iniciam a ofensiva. Os morteiros de 120 mm começam a chover sobre o quartel, obrigando militares e civis a meterem-se nos abrigos. Os pedidos de reforços são recusados. No dia 19, Coutinho e Lima parte para Bissau, onde expõe a Spínola a gravidade da situação. Pede reforços, mas o general não só lhe recusa ajuda como o manda de volta a Guiledje com a informação de que vai ser destituído do comando nos próximos dias.

No dia 21, o major chega ao quartel. Ao inteirar-se da situação, assume que só há duas opções: “Percebi que era impossível obter uma vitória militar. Ou ficávamos ali à espera do novo comandante – que não trazia reforços – e arriscávamo-nos a um grande número de baixas civis e militares – ou abandonávamos o quartel.” Sem água e condições sanitárias e com um armamento muito inferior ao do inimigo, Coutinho resolve sair. “Nunca me arrependi dessa decisão”, diz o homem que esteve um ano preso por causa dela. Três dias depois o PAIGC entra em Guiledje. O corredor do povo – a zona por onde o PAIGC fazia entrar homens e abastecimentos vindos das bases na Guiné-Conacri e que os portugueses apelidavam de corredor da morte – estava livre de perigo. Afastada a aviação e garantida uma logística eficaz, o PAIGC tinha tudo para ganhar a guerra, mas foi preciso chegar o 25 de Abril de 1974 para que as armas se calassem de vez.

Nos últimos dias o corredor mudou outra vez de nome. Tornou-se no corredor da paz.

Debaixo do fogão de Adão, a enorme árvore onde os militantes da guerrilha paravam para comer quando vinham da Guiné-Conacri, os velhos inimigos abraçaram-se. Coutinho e Lima recebeu do régulo de Guiledje um grand bubu, o traje branco tradicional usado pelos mais velhos e sábios.

Ali, onde a selva é mais densa, os velhos inimigos enterraram de vez o machado de guerra.

PALAVRAS DE CABRAL IMPRESSIONAM FIDEL

Decorria o ano de 1966 quando Amílcar Cabral se deslocou a Havana para intervir na conferência Tricontinental. As suas palavras causaram um impacto tão forte em Fidel Castro que desde logo o comandante se disponibilizou para apoiar a “luta de libertação nacional” do PAIGC. Ainda no mesmo ano, parte para África o primeiro contingente, de 25 elementos. Ulisses Estrada tinha 33 anos e a experiência de ter combatido no Congo ao lado de ‘Che’ Guevara. “Tínhamos consciência de que vínhamos combater o neocolonialismo, como uma das etapas da luta anticapitalista”, recorda o ex-gerrilheiro.

Ulisses combateu ao lado dos “irmãos guineenses”, mas a doença provocada pela mosca tsé tsé obrigou-o a voltar meses depois ao país natal.

O seu compatriota Óscar Oramas assumiu nesse tempo o posto de embaixador de Cuba na Guiné-Conacri. Intensificou-se, desde então, o uso deste país como localização das bases logísticas da guerrilha. De acordo com as estimativas do ex-embaixador, durante oito anos terão passado pela Guiné-Bissau “mais de 500 combatentes soldados cubanos”.

UMA AFINADA MÁQUINA DE GUERRA

O cabo-verdiano ‘Manecas’ Soares é desde sempre uma das figuras mais carismáticas da luta do PAIGC. Foi ele o primeiro a aprender a manobrar os poderosos mísseis ‘Strella’ SAM 7, a arma que neutralizou a aviação portuguesa. Manuel foi à União Soviética aprender a disparar os mísseis e os primeiros resultados apareceram em 1973. Mas o antigo comandante explica que o êxito da luta vai muito para além das armas: “Amílcar Cabral era um homem muito acima de qualquer um de nós, tanto a nível político como militar. Todas as unidades das FARP foram formadas por ele. Era um estratega brilhante”, lembra. Apesar da esmagadora inferioridade numérica em relação às tropas portuguesas – sete para 40 mil – os combatentes das FARP sabiam como usar os seus recursos de modo a criarem o maior número de estragos com poucas baixas. Desde 1964 que começaram a ter zonas libertadas. Com grande mobilidade e rigor táctico e um armamento mais moderno e eficaz do que o Exército colonial, a guerrilha tornou-se imbatível, sobretudo a partir de 1973. O PAIGC contava com mulheres nas fileiras e não só para tratar da logística. Também combatiam e dormiam no mato.

GUINÉ NO CAMINHO DE ABRIL

Se o 25 de Abril tivesse falhado em Portugal, nós estávamos preparados para fazer uma acção armada na Guiné.” O coronel Carlos Matos Gomes foi ao Simpósio de Guiledje explicar como a guerra ajudou à revolução dos cravos.

“Em 1973 os portugueses perceberam que a guerra chegara ao fim. Tivemos a noção de que era impossível manter a integridade física do dispositivo e evitar baixas tão significativas que virassem a opinião pública contra a guerra”, diz Matos Gomes, comandante dos Comandos durante a guerra colonial.

“Há uma ruptura entre os militares e os políticos portugueses. Em termos económicos a Guiné não valia uma guerra. Só valia para contrariar o efeito de dominó que alastrasse a Angola e Moçambique”, disse.

Em Setembro de 1973 o PAIGC declara unilateralmente a independência, acto que é reconhecido pela esmagadora maioria dos países da ONU. “A guerra passou a ser vista como um acto ilegal, o que é muito difícil de aceitar para um militar”, considera Matos Gomes.

Pedro Lauret, capitão-de-mar-e-guerra da Marinha também esteve na Guiné e participou nas primeiras reuniões que haveriam de fazer nascer o Movimento das Forças Armadas. Acabou por participar no 25 de Abril já em Lisboa, mas foi na Guiné que percebeu que “o problema da guerra colonial só se poderia resolver com uma mudança de regime”.

GOVERNADOR CIVIL DESTITUÍDO

A 26 de Abril de 1974 um grupo de oficiais, entre os quais se encontrava o então capitão Matos Gomes, destitui o governador civil e comandante militar, Bettencourt Rodrigues, e assumiu a revolução na colónia. A guerra só terminou em Agosto desse mesmo ano.

RECORDAR ATÉ ÀS LÁGRIMAS

Não foram poucas as vezes que as lágrimas apareceram durante os debates que tiveram lugar em Bissau. Afinal, para muitos dos participante no Simpósio de Guiledje esta era a primeira vez que encaravam os inimigos, agora feitos irmãos.

Ao longo de sete dias – incluindo dois de viagem aos lugares da guerra no Sul da Guiné – duas centenas de participantes debateram o passado e o futuro da guerra colonial. Organizado pela organização não governamental Acção para o Desenvolvimento (AD), com o apoio de vários parceiros, o Simpósio tinha por objectivo fazer luz sobre os factos de uma guerra que terminou há 35 anos.

Houve polémicas e desencontro de ideias, mas o cruzamentos dos factos levou, na maior parte dos casos, a um saber acrescentado sobre a guerra. No final do Simpósio, Iva Cabral, filha do líder histórico do PAIGC, Amílcar Cabral, homem a quem todos quiseram prestar homenagem, dizia-se “muito feliz”.

E não era certamente a única.

'NINO' VIEIRA PEDE AJUDA A PORTUGAL

Durante o Simpósio Internacional sobre Guiledje, que inaugurou, ‘Nino’ Vieira lançou um repto ao Governo português: “É preciso que Portugal olhe mais para a Guiné-Bissau.” O presidente guineense concretizou o sentido das suas palavras com um exemplo: “Veja-se o caso dos professores. Havendo tantos desempregados em Portugal, seria muito importante que eles viesse para a Guiné, ao abrigo dos acordos de cooperação.” As palavras de ‘Nino’ Vieira coincidiram com a presença no território de João Gomes Cravinho, secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e Cooperação, e Carlos Costa Pina, secretário de Estado do Tesouro e Finanças. Os dois governantes assinaram em Bissau vários protocolos de cooperação que vão levar milhões de euros ao país africano. A Educação é uma das prioridades.

CRONOLOGIA

1959 - MASSACRE DO PIDJIGUITI

Um protesto dos estivadores do porto de Bissau é reprimido com grande violência. O episódio convence Amílcar Cabral a optar pela luta armada.

1963 - ATAQUE AO QUARTEL DE TITE

Primeira acção armada do PAIGC dá início à guerra na Guiné-Bissau. Portugal é obrigado a um grande reforço do dispositivo militar.

1964

Congresso de Amílcar Cabral reorganiza o aparelho militar e político do PAIGC e cria as Forças Armadas Revolucionárias do Povo. A guerrilha ganha eficácia.

1968 - SPÍNOLA SUBSTITUI SHULZ A 2 DE MAIO

O general Spínola é nomeado comandante militar e governador civil da Guiné. Usa a política como arma de conquista das populações.

1970 - 'OPERAÇÃO MAR VERDE'

Estratégia de larga escala de tropas portuguesas na Guiné-Conacri. Resultou numa tentativa (falhada) de assassinar Amílcar Cabral.

1973 - MORTE DE AMÍLCAR CABRAL A 20 DE JANEIRO

O líder histórico do PAIGC é assassinado em Conacri, num crime cujos contornos não são ainda totalmente conhecidos.

1973 - O PRIMEIRO AVIÃO É ABATIDO A 25 DE MARÇO

Um jacto Fiat G91 é alvejado. Outros casos se seguem. A aviação deixa de bombardear o inimigo com tanta regularidade.

1973 - GRANDE OFENSIVA A 8 DE MAIO

Começa um grande ataque do PAIGC no Norte, com o quartel de Guidaje como alvo. Segue-se Guiledje, a 18 de Maio. Cai passados cinco dias.

1973

Comunicado unilateral do PAIGC declara unilateralmente a independência em Madina do Boé. O país é reconhecido pela esmagadora maioria dos países da ONU.

1974 - CESSAR-FOGO APÓS O 25 DE BARIL

Dá-se início a negociações. O cessar-fogo é acordado em Junho. A 26 de Agosto do mesmo ano Portugal reconhece a independência.

EXUMAÇÃO DOS CORPOS

A Liga dos Combatentes de Portugal vai proceder à exumação, ainda este mês, dos corpos de dez militares portugueses sepultados em 1973 em Guidaje.

PREPARATIVOS DO ASSALTO

‘Nino’ Vieira antes do assalto ao quartel de Guiledje, a 18 de Maio de 1973, na grande ofensiva do PAIGC. O aquartelamento caiu passados cinco dias.

370 ATAQUES EM NOVE MESES

No aquartelamento de Gandembel as tropas portuguesas sofreram 370 ataques em apenas nove meses. Foi abandonado em Janeiro de 1969.

OS HOMENS DA GUERRA

‘Nino’ Vieira era há 35 anos o chefe das forças guerrilheiras no Sul e comandou o ataque a Guiledje. Coutinho e Lima era o oficial que chefiava o quartel.

PAIGC NASCE EM SETEMBRO DE 1959

Criada a sede do PAIGC, nascido na Guiné-Bissau a 19 de Setembro de 1959 por Amílcar Cabral, Aristides Pereira, Luís Cabral e Júlio de Almeida, entre outros.

148 MIL HOMENS NO FINAL DE 1973

A 31 de Dezembro de 1973, os efectivos militares nas três frentes de guerra totalizavam 148 mil homens. Angola 65 000, Moçambique 51 000 e Guiné 32000.

HOMENAGEM AOS COMBATENTES

Para homenagear os que combateram foi erguido no Forte do Bom Sucesso (Lisboa), em 1994, o Monumento Nacional aos Combatentes do Ultramar.

1240 MORRERAM EM COMBATE

A grande maioria dos militares que morreu caiu em combate: Moçambique (1481), Angola (1306) e Guiné (1240). De notar, contudo, as enormes diferenças nas dimensões territoriais. Angola tem 1 246 700 km2, Moçambique 799 380 km2 e Guiné 36 125 km2.

8290 é o número de mortes ocorridas durante os 13 anos de Guerra Colonial nas três frentes de combate: Angola 3250; Moçambique 2962 e Guiné 2070.
 
José Carlos Marques, enviado especial (Guiledje)
Correio da Manhã - 08 Março 2008

17 de maio de 2026

República de Moçambique: PRM Detém e PGR Solta, as Duas Instituições não se Entendem (Ano 2008)


Está instalado o conflito entre estes dois sectores de justiça na província de Manica

Chimoio (Canal de Moçambique) - Depois do instalado desentendimento entre a Procuradoria Geral da República na província de Manica e a PRM (Polícia da República de Moçambique) ao mesmo nível, o presidente da comissão da legalidade de Manica, Tomé Gabriel Matuca, acabou por há dias perante a imprensa, admitir que há este ambiente entre o Comando Provincial da PRM e da Procuradoria provincial. Ambas instituições, agora em rota de colisão na província que tem por capital a cidade de Chimoio, também compõem a referida comissão, e nos últimos dias sabe-se que o problema deriva de desavenças no que respeita a procedimentos operacionais. Uma detém outra solta.

O conflito surge na sequeência de “solturas ilegais” de vários indivíduos, feitas pela Procuradoria, que a PRM entende serem uma forma de desvalorização do “serviço árduo” que diz estar a fazer para extinguir o índice de criminalidade na província. Por outras palavras, não se entendem porque a PRM prende quem julga que cometeu algum crime, e a PGR solta porque entende não haver matéria.

Em contacto com Tomé Gabriel Matuca, presidente da comissão da legalidade em Manica, uma espécie de fórum em que intervém as duas instituições desavindas, este descreve os reboliços que se verificam entre a Polícia e a Procuradoria, como algo que leva a crer que de facto há graves anormalidades a acontecer entre estas duas instituições cuja missão é garantir a lei e ordem.

Questionado se a comissão tem promovido encontros visando analisar o desempenho das instituições, sobretudo, para apreciar se as regras estabelecidas estão ou não a ser observadas, Tomé Matuca respondeu que sim. Referiu que é mesmo porque o ambiente de fricção já está identificado que para além de outros já realizados consta da agenda, mais um encontro, tendo em vista a reformulação deste organismo criado para assegurar a observância de aspectos legais nas instituições de justiça e prisionais. Disse que esse novo encontro também será feito na sequência da chegada à província de um novo comandante provincial, que já se encontra a exercer as sua funções. Avançou que tal reunião será antecedida duma outra com a qual se pretende auscultar as duas partes ora em fase acusações mútuas, em dois casos que envolvem um jovem de nome Elvis César Juízo, tido como proxeneta e burlão.

JUIZ

Depois do conflito recentemente dado a conhecer pela imprensa em Manica, existente entre a PGR e a PRM na província, o juiz de instrução preparatória do caso, Dário Ossumane, recusou-se a legalizar a detenção de Elvis Juízo, embora fontes também ligadas ao assunto tenham confirmado à imprensa que já estava legalizada a sua detenção preventiva. O indivíduo em causa, é acusado de ter praticado dois crimes que no termos da lei se defende que são susceptíveis de admitir prisão. Um dos alegados crimes é de burla por defraudação, outro por alegadamente o indiciado ter aliciado uma rapariga menor a envolver-se com muitos homens, “maioritariamente estrangeiros”, sem no entanto lhe pagar pelos serviços prestados. Foi então, aparentemente a juiz que entendeu não haver razão para manter nos calabouços o tal indivíduo.

PROCURADOR E AMEAÇAS A JORNALISTAS

Depois de publicada a matéria que tinha a ver com o caso Elvis, o procurador chefe provincial, Tomas Zandamela, atirou farpas aos jornalistas desabafando toda a sua fúria: “todo o procurador tem o directo de soltar todos os individuos detidos ilegalmente e vejam se não pisam a linha porque todos nós estamos na mesma cidade e esta é pequena”, disse. Ficou registada a ameaça. Os jornalistas entendem que o assunto é notícia. Zandamela pelos vistos não é da mesma opinião. Preferir que se fizesse silêncio. Como as coisas não correram do seu agrado vai daí e toca de mandar recados ameaçadores aos jornalistas. Fica por resolver o essencial: o conflito aberto entre duas instituições da Justiça em Manica.

(José Jeco)
2008-10-28 05:31:00
www.canalmoz.com

República de Moçambique: Renamo Ameaça Jornalistas em Sofala (18 de Outubro de 2008)


O jornalista da Rádio Moçambique (RM) Moisés Saela foi quinta-feira apupado pelo chefe da bancada da Renamo-União Eleitoral (RUE) na Assembleia Municipal da Beira, José Cazonda, por alegadamente ter entrevistado o porta-voz da “perdiz” naquele órgão deliberativo, Moisés Machava, descrito como sendo apoiante da candidatura de Manuel Pereira.

Ainda na mesma data, os repórteres Francisco Raiva, da Soico Televisão (STV), e Edwin Honow, colaborador do semanário Zambeze, foram também ameaçados pelo ex-director  de Mercados e Feiras na edilidade, Arnaldo Tivane, sob alegação de estarem a favorecer a ala de Daviz Simango nos seus artigos jornalísticos.

No intervalo do último dia da XXIV Sessão Ordinária da Assembleia Municipal da Beira, o jornalista Moisés Saela entrevistou o porta-voz da bancada da Renamo-União Eleitoral, o brigadeiro Moisés Machava, para este se pronunciar sobre algumas posições contraditórias no seio da “perdiz”. Depois da conversa, surpreendentemente, o chefe daquela bancada, José Cazonda, insurgiu-se afirmando que Machava já não era porta-voz do grupo na Assembleia.

“Alô, o senhor entrevistou o Machava na qualidade de quem? O que ele disse? Por que o entrevistou? Alguma vez eu disse que Machava era porta-voz? São vocês que andam a arranjar confusão no seio da Renamo. Qual é o seu jornal mesmo? Digo-te desde  já: não entreviste mais esse Machava, chefe da bancada sou eu e mais ninguém” - disse, dirigindo-se num tom colérico, sob o olhar passivo  e bem atento tanto de Saela como de outros “homens da pena” que faziam a cobertura do evento.

Perante tais afirmações, o brigadeiro Moisés Machava disse aos jornalistas para desvalorizarem tais pronunciamentos, reiterando ser ele o porta-voz da bancada da Renamo.

“Não se preocupem meus senhores, eu continuo porta-voz da Renamo. Eu fui formado como porta-voz num encontro dirigido pelo senhor Fernando Mazanga, onde também esteve Geraldo Carvalho, pela delegação política da cidade, este  já cessou as funções, e Lucas Zabica, que é porta-voz da Renamo ao nível da província de Sofala. Digo mais uma vez, sou o porta-voz da bancada até que haja ordens contrárias do partido”.  

Enquanto isso, o jornalista da STV na Beira, Francisco Raiva, disse ao “Notícias” que está a sofrer ameaças verbais por parte do recém-destituído  director de Mercados e Feiras do Conselho Municipal, Arnaldo Tivane, que alega que a cobertura jornalística do visado está sendo tendenciosa, ou melhor, está a promover a imagem do senhor Daviz Simango.

“Foi um frente-a-frente com muitas palavras injuriosas. O senhor Tivane disse que a equipa da STV foi “comprada” pelo presidente Daviz Simango. Apesar de ser duro demais, nós não vamos nos deixar intimidar por isso, continuaremos a trabalhar normalmente, porque a nossa missão é informar ao povo, trazendo a verdade” - disse Raiva.

Já o jornalista e colaborador do semanário Zambeze Edwin Honou revelou que tem recebido ameaças telefónicas de Arnaldo Tivane, acusando-o, igualmente, de estar ao serviço de Daviz Simango”. Isto não é bom para a nossa liberdade de Imprensa” - reconheceu.

Maputo, Sábado, 18 de Outubro de 2008:: Notícias

13 de maio de 2026

Portugal: Canal História Estreia Série Sobre Lisboa Subterrânea (11 de Novembro de 2008)

 


O canal História vai assinalar o décimo aniversário em Novembro com uma renovação de imagem e a estreia de uma série de 12 episódios de produção própria – «Lisboa debaixo de terra» –, que vai para o ar no dia 10 de Novembro, pelas 21:00 horas, de acordo com o anunciado em conferência de imprensa esta terça-feira.

O programa, realizado por Inês Velho da Palma, vai mostrar os esconderijos, as criptas, as fortalezas e os mistérios que se escondem por baixo da capital, encerrando histórias da História.

«Este ano o canal História comemora 10 anos de emissão. Foram dez anos de compromisso, o que nos levou a aumentar a aposta na produção nacional», afirmou Mercedes Rico, directora de programação. «A História está viva, constrói-se dia a dia», acrescentou.

O presidente da Câmara de Lisboa manifestou a sua gratidão relativamente ao novo programa do canal. «É uma grande oportunidade quando uma instituição da envergadura do canal História, presente em vários países, dedica 12 episódios a histórias locais», declarou o presidente António Costa, que destacou o papel pedagógico do canal. «Só conhecendo aprendemos a respeitar e a conservar», comentou.

No primeiro episódio, o programa vai visitar o Pátio dos Quintalinhos, cuja entrada se situa na Rua das Escolas Gerais. Trata-se de um local de grande importância histórica, já que foi ali que D. Dinis fundou a primeira universidade de Lisboa – «Estúdio Geral» –, em 1290.

Posteriormente, o programa visitará outros lugares como o Refúgio da Patriarcal, as Ruínas do Teatro Romano, os Fornos de El-Rei, o Forte do Alto do Duque, o Antigo Convento de Corpus Christi, o Palacete Rústico de Meados do séc. XIX, o Bairro Estrela D´Ouro, o Padrão dos Távoras e as Galerias Romanas.

O canal História também assinala o seu aniversário com a reformulação da sua imagem, a partir de 4 de Novembro.

O logótipo vai ser alterado e a temática dos conteúdos vai ser mais abrangente, com a introdução de programas que vão abordar a arqueologia, a cultura pop, a astronomia, entre outros.

Aos sábados e domingos, o canal emitirá especiais de programação com os 15 documentários mais aplaudidos pelo público.

Em Novembro, o canal estreará ainda o programa «Luta no Jurássico», que pretende recriar, à luz de investigações e descobertas recentes, os duros combates que tiveram lugar neste período.

Pedro Resendes
Diário Digital 2008-10-21

República de Moçambique: Mortos na guerra colonial resgatados 42 anos depois (21/11/2008)



S. Miguel do Outeiro enterra restos mortais de dois soldados que lutaram em África

 
Dois soldados de S. Miguel do Outeiro mortos em combate, em 1966, vão ser finalmente trasladados dos cemitérios de Mueda e Nova Freixo, em Moçambique, para a terra natal. Serão sepultados no dia 14 de Dezembro.

As famílias do 1º Cabo Aníbal Rodrigues dos Santos e do Soldado Ernesto Correia Dias, nascidos e criados em S. Miguel do Outeiro, concelho de Tondela, nem querem acreditar que o "nó" que lhes "aperta" o coração há 42 anos está prestes a "desatar-se".

"Trazer os restos mortais do meu irmão para casa, para a terra onde nasceu, é um sonho que está à beira de concretizar-se. Só é pena que os meus queridos pais já não estejam entre nós para um derradeiro adeus. Morreram com aquele filho, que nunca mais viram, atravessado no peito", diz Franklin Santos, irmão do 1º Cabo Aníbal, com a voz entrecortada pela emoção.

O mesmo sentimento é partilhado por Armando Dias, irmão do Soldado Ernesto Dias, que conta os dias e as horas que faltam para a mãe de ambos, hoje com 87 anos, poder finalmente despedir-se do filho que um dia viu partir para a guerra colonial.

"Éramos cinco. Mas nenhum de nós conseguiu apagar o sofrimento e a saudade dos nossos pais pelo filho que morreu em Moçambique. Agora vamos ter um sítio para pôr flores de saudade", desabafou.

Cerca de três mil militares que morreram em combate ficaram sepultados nas antigas colónias. Trazer os seus corpos para a terra natal, era um gesto só ao alcance dos ricos. "Até 1968 pediam 13 contos, na moeda antiga, para transladar os restos mortais. Uma fortuna que as famílias mais humildes não podiam suportar", explica Moreira Marques, presidente da Junta de Freguesia de S. Miguel de Outeiro.

A liderar o processo de trasladação, a pedido dos familiares, o autarca admite que essa tarefa custará muitos milhares de euros. Despesa que será assumida pelas famílias, com a ajuda de particulares, Junta de Freguesia, Câmara de Tondela e outras entidades.

Moreira Marques parte para Moçambique a 30 de Novembro. Regressa a 13 de Dezembro com as ossadas dos dois militares, em caixões de chumbo, que serão enterradas pelas 11 horas do dia seguinte, no talhão dos combatentes, no cemitério de S. Miguel do Outeiro.

Teresa Cardoso
Jornal de Notícias 2008-11-21

Portugal: Guerra Colonial - Ao Sabor do Vento: Deixar Para Trás (9 de Abril de 2008)

 


Aqueles que combateram nas guerras coloniais fizeram-no ao serviço do seu País. Não podem ser abandonados à sua sorte.
 
Sou de uma geração que já não viveu a Guerra Colonial. Não tenho, por um lado, experiências traumáticas de familiares que por terras de África tivessem perecido nem, por outro lado, à minha volta se viveram radicalismos ideológicos de qualquer cor, na discussão sobre as razões de ser desse tempo. Talvez por isso, beneficio – creio – de alguma distância crítica em relação ao tema dos ex-combatentes e, porventura, um olhar desapaixonado que permite maior objectividade.

E que se vê desse posto de observação? Acima de tudo, descobre-se esquecimento que é das formas mais duras da injustiça. Emerge, então, uma sensação de desconforto pela forma como, enquanto comunidade e País, nos portámos em relação a estes homens. Chega mesmo a tocar a vergonha.

Muitos dos ex-combatentes e suas famílias pagam ainda hoje uma factura muito elevada, no corpo e na mente, em consequência dessa experiência difícil. Os fantasmas da guerra não os deixam descansar. E enquanto sofrem o peso dessa herança, não sentem dos seus compatriotas e do Estado que serviram um reconhecimento suficientemente condigno, sem aproveitamento ideológico, com o respeito que merecem.

E onde radica parte dessa falta de respeito? Em grande medida, na confusão lamentável entre o julgamento ideológico de um regime político e a condenação ao esquecimento dos que, sem dolo, serviram debaixo de uma bandeira. Não há erro maior.

Quem combateu nas ex-colónias portuguesas – na sua esmagadora maioria – não o fez de livre vontade. À alternativa da deserção, muitos entenderam dizer não, por considerarem ser uma traição aos seus. Outros, mais prosaicamente, não conseguiram partir para o exílio a tempo. Restou-lhes então receber a guia de marcha e partir para o mato, passando a experimentar ‘aquele inferno de matar ou morrer’.

Aqueles que combateram nas guerras coloniais fizeram-no ao serviço do seu País, com maior ou menor convicção, executando uma política da qual não eram autores nem co-responsáveis. Não será necessário recordar que não vivíamos em democracia e a formulação da decisão política não resultava da voz do povo. Salvo eventuais autores de crimes de guerra, cometidos nesses anos, e que mereceriam o julgamento que a própria disciplina militar prevê, os ex-combatentes são, acima de tudo, cidadãos portugueses que obedeceram, com risco de vida, a um desígnio político do regime vigente. Foram servidores do País e assim devem ser tratados. Sem subterfúgios, nem equívocos.

O gesto de reconhecimento aos ex-combatentes não equivale, como alguns gostariam, a branquear os erros do regime anterior, a apelar a um saudosismo bacoco ou a ir mais longe para territórios racistas e neo-colonialistas. Nada disso. Trata-se somente de não abandonar os nossos homens, sobretudo depois do combate. De não os deixar desaparecer na névoa do esquecimento. Um povo digno não os deixaria para trás.

Rui Marques
Correio da Manhã - 09 Abril 2008