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22 de janeiro de 2014

Uma burla criminosa (José Goulão)


Quem escutar os dirigentes políticos europeus e os seus megafones mediáticos há-de julgar que a crise é passado e o futuro promete ser brilhante com base num presente de alívio em que finalmente os indicadores económicos, essas bulas emitidas pelos sacerdotes do mercado, dão sinais de que todos vamos pelo bom caminho.

A mensagem dos indicadores económicos resume-se numa penada: a economia da União Europeia, mesmo dos países sob protectorado, começou a recuperar, o desemprego tende a diminuir, afinal a austeridade tardou mas começou a dar resultados, não estava errada como até alguns dos seus executores disseram. A propaganda amplia os registos com trombetas histéricas, uma bíblia das publicações financeiras do espaço europeu ousa até falar em “milagre económico” e logo no caso de Portugal, imagine-se. Alguém deveria ter alertado o escriba de que a mesma expressão foi usada no caso do Chile de Pinochet para saudar a devastação económica e social assente em dezenas de milhares de mortos, muitos mais presos políticos, pragas de miséria e desemprego, extinção da segurança social – caos de que o país não recuperou passados 40 anos.

O mundo tem uma larga experiência de que os indicadores económicos não dão emprego nem de comer a ninguém, estão nas tintas para as desigualdades sociais, borrifam na substituição de empregos estáveis por trabalho precário, podem até ser tanto mais fantásticos quanto maior o número de cidadãos que se aproximam da condição de escravos. Os tão prometedores indicadores económicos que todos os dias são apregoados pelos arautos da propaganda assentam em estruturas económicas arrasadas, em direitos laborais e sociais esmigalhados, em direitos humanos extintos. Os indicadores sobem, a tragédia humana continua a ampliar-se. Os indicadores evoluem, a sociedade apodrece sem recuperação no horizonte.

Olhemos de relance para a União Europeia: 26 milhões de desempregados, quase seis milhões de jovens sem trabalho, milhões na miséria ou à beira da pobreza e da exclusão social, quase um terço das crianças pobres e socialmente excluídas, mais de nove por cento dos cidadãos europeus submetidos a uma situação de privação material severa, quase um milhão de pessoas sem abrigo, enquanto continua a crescer o número de famílias que perdem a habitação para os bancos.

Este é o retrato real da Europa, aquele que as pessoas sentem em carne viva enquanto o regime canta indicadores como quem anuncia prémios de lotaria viciada onde a taluda continua a sair aos milionários, cada vez mais numerosos – e também generosos e gratos para com os carrascos que aplicam a austeridade.

Atente-se no caso de Durão Barroso, o foragido primeiro-ministro de Portugal que se transformou em presidente da Comissão Europeia depois de ter contribuído para lançar uma guerra assassina que devastou o Iraque e que agora deixa a União Europeia neste estado. Acaba de receber o prémio Carlos V, destinado aos que se distinguiram “no desenvolvimento da Europa” e que lhe vai nutrir a conta bancária em mais 45 mil euros.

A União Europeia é uma criminosa burla a descoberto.

Jornal de Angola, 21 de Janeiro de 2014

7 de janeiro de 2014

Tudo dentro do consenso (José Goulão)



A palavra “consenso”, nas suas múltiplas traduções, arrisca-se a ser a mais utilizada em 2014 no espaço da União Europeia, de acordo com o exercício de propaganda iniciado em 2013

Continuado nas conversas em família dos chefes nacionais em exercício por ocasião do Natal e do Ano Novo, imposto, sem alternativa, para substituir a palavra “crise”.

Não se arriscando nenhum alto dirigente a dizer que a crise acabou, dão como certo que a economia “está a recuperar” e para que tudo assim continue no bom caminho há que aplicar agora o consenso, a concordância a que nenhum cidadão pode fugir sob pena de ser um extremista, um marginal, um militante da crise – sujeitando-se às respectivas consequências. Em ano de eleições europeias, não há que pensar noutra coisa: consenso sobre a salvação do euro à moda da Alemanha, sobre a austeridade como solução para acabar de vez com a crise, sobre a supressão de direitos humanos e sociais para que os mercados e a alta finança possam respirar e confiscar em liberdade, sobre a amputação de salários, reformas e pensões.

No espaço europeu, o consenso económico foi estabelecido e funciona a todo o vapor: é o processo de transferir o dinheiro de todos para os bolsos de meia dúzia, de prosseguir a domesticação e aniquilação dos aparelhos de Estado até que fiquem reduzidos a muletas dos bancos predadores, das grandes indústrias, incluindo a da morte, dos casinos bolsistas, dos paquidermes químicos e farmacêuticos, dos monstros da actividade seguradora, das trituradoras que distribuem o trabalho temporário, dos formadores de carne para canhão, de preferência com a benesse do cheque ensino.

Este processo tem o seu correspondente político em fase de afinação prática e ideológica: o consenso. O consenso governou Portugal entre 1926 e Abril de 1974. O consenso governa o directório europeu – na Alemanha através da comunhão entre a direita e os sociais democratas, em França pelas mãos de Hollande que poderia chamar-se Sarkozy e vice-versa. Em Espanha não faltam consensos na camada que se instituiu como governante, em Inglaterra Blair poderia chamar-se Thatcher da mesma maneira que Cameron se vê ao espelho como Brown. Tudo uma grande família governante e consensual, com as suas questiúnculas como em qualquer grande família, sobretudo em matéria de interesses - pessoais ou de casta.

Em Portugal o consenso não estará tão afinado como desejariam Cavaco, Coelho e Portas, como recomendam Costa que governa o Banco de Portugal, ou Ulrich e Salgado, dos bancos do Portugal que dizem ser deles. O consenso existe, chama-se arco da governação, o problema a resolver é conseguir que ele funcione sem turbulência mesmo quando há eleições – chama-se “estabilidade política” – e de preferência a longo prazo, seja sob o comando do Coelho, do Seguro, do Sr. X ou Y – ao verdadeiro poder isso é o que menos interessa.

Quem prega o consenso, como Cavaco, invoca também a democracia e até o 25 de Abril, imaginem, dia em que os militares e o povo português e os das antigas colónias romperam com um longo tempo de consenso. Democracia, claro, para os que se submetem ao consenso porque aos outros, os que teimam em ter ideias, insistem em pensar pela própria cabeça, não desistem de propôr alternativas ao consenso, esses são perigosos inimigos desta democracia.A história oficial, e ficcionada, da União Europeia explica que tudo se iniciou na luta pela liberdade contra o sistema de partido único.

Sabemos que as verdadeiras razões eram bem outras, mas para o demonstrar nem é preciso procurar argumentos nos meandros do processo histórico. A União Europeia renega a própria origem oficial quando, como suporte de uma prática económica única, tendencialmente esclavagista, impõe um sistema político a que tanto faz chamar de consenso como de partido único.

Jornal de Angola, 7 de Janeiro de 2014