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19 de fevereiro de 2025

Moçambique: Hasteámos a Bandeira e Parámos de Discutir o Projecto de Nação (Paulina Chizane, 2008)


Hasteámos a bandeira e parámos de discutir o projecto de nação – Alerta Paulina Chiziane, que convida moçambicanos para um debate afogado... pelo tempo (14 de Maio de 2008)
 
Paulina Chiziane é, definitivamente, uma mulher sedutora. Sim! Do ponto de vista do que escreve. Porque, dentre várias qualidades que a sua escrita reúne, tem a habilidade de fazer do senso comum um aliciante. Assim foi em “O Sétimo Juramento”, em que desmistificou a forma como a feitiçaria é abordada pelos moçambicanos, e em “Niketche”, fazendo falar a poligamia.
 
Desta vez traz “O Alegre Canto da Perdiz”, que vai lançar brevemente no país, sob chancela da Ndjira. No novo romance, Paulina Chiziane faz cantar várias perdizes a partir de um canto especial de Moçambique, a cidade do Gurué, na Zambézia, para onde foi trabalhar há alguns anos.

A partir daquele ponto procurou o “eu” de Moçambique, num contexto em que se fala de uma independência de que se não desfruta integralmente. E dessa procura o que sai é um debate tão actual quanto necessário, porque – defende – a sociedade moçambicana é mestiça. Esta representa a confluência entre o colonialismo e a africanidade, esta que às vezes sai ofuscada. E é essa mestiçagem, nas formas em que se manifesta no Moçambique de hoje, que dá corpo ao novo canto de Paulina Chiziane.

É um romance que fala abertamente do que é ser preto e ser branco; da “vantagem” e da “desvantagem” de ser mulato. Aliás, mulatos somos todos, porque culturalmente somos daqueles híbridos que nem sequer sabem que o são... Eis alguns trechos de uma conversa que tivemos com a escritora, depois de percorrermos as páginas de um livro que chama a nação para um debate nacional. Um debate nacionalista, porque está mais do que na hora de inicia-lo de peito aberto! !

- Vai no seu quinto livro, o romance “O Alegre Canto da Perdiz”. O título traz alguma curiosidade: o que é que a perdiz tem a ver com a história que traz desta vez?

- A perdiz é um animal, como muitos animais que poderia citar. Para eu usa-la aqui é porque há muita mitologia à volta dela. O nome da cidade do Gurué, onde eu trabalhei nos últimos anos, vem do canto da perdiz. Gurué, gurué... é assim que ela canta. Então, àquela cidade, há os que chamam Gurue e outros Gurué, imitando o canto daquela ave. E à volta disso há também os mitos da criação do mundo segundo os lomué e macuas. Portanto, dizem algumas vozes muito idosas que o mundo inteiro foi criado tendo como centro os montes Namuli. Quando falam do mundo inteiro referem-se ao dos macuas e lómuès. E os montes Namuli – dizem – foram criados no ovo de uma perdiz. Então, é daí que achei formidável criar o título a partir desta mitologia e destas estórias de uma terra também formidável. Toda a história também anda à volta dos montes Namuli, à volta da cidade do Gurué e à volta da Zambézia.

- O romance é fruto da sua experiência de vida naquele pedaço do nosso país ou é, digamos, uma espécie de visão de Moçambique como um todo no que se refere ao tema que agora explora: a mestiçagem e as suas manifestações?

- Gurué não é apenas centro de produção. Eu vivi e convivi anos lá. Emergi e bebi muito daquela cultura, que é bem diferente da minha. Aprendi muito dela, reconheço-a e respeito-a, como o devem ser todas as culturas, independentemente de se são nossas ou não, se nos são próximas ou distantes. Com tudo isso tive a vontade de fazer um registo de muitas das coisas de que se fala mas que na verdade não se conhece. Por exemplo, falamos muito do matriarcado, falamos do sistema matriacal e dizemos que o país é nesse aspecto dividido em duas partes a saber ..

- ... a norte e a sul do rio Zambeze com influência matrilinear e patrilinear, respectivamente...

- Isso mesmo!... Mas como é que se manifesta o matriarcado de que se fala no dia a dia? Tive a ocasião de viver neste mundo e então achei que devia partilhar um pouco desta experiência e vivência com outras pessoas que eventualmente passarão ter essa curiosidade.

- Exactamente que experiências é que quis partilhar sobre essas vivências e sobre aquela terra?

- Uma coisa que eu achei bonita é a filosofia do matriarcado. Quando falo da filosofia refiro-me à visão do mundo que eles têm. Como é que o mundo foi criado entre os macuas, fazendo comparação com a visão que se tem em sociedades patriarcais. Na visão patriarcal primeiro nasceu o homem e depois a mulher. Na matriacal  primeiro foi a mulher e depois foi o homem. Vendo bem, este mito de origem é que determina comportamentos futuros, porque no matriarcado a mulher é o centro do mundo. É por isso que nos mitos de origem desse leito, nos contos à volta da fogueira, nós encontramos sempre a mulher brilhante, airosa, etc. Portanto, lá a imagem da mulher é muito mais forte que a imagem de um homem.

- Ao ler o livro deparamo-nos com uma história que não se refere só no Gurué, mas a uma esteira bem maior, que é Moçambique, e que algo lhe revolta na vivência do nosso país...

- Eu acho que são várias coisas e não apenas “um algo” a incomodar-me. Quando digo a nossa vivência e se me perguntarem exactamente o que é a nossa vivência como cidadã de um país eu não posso dizer, porque estou na lua, no ar... e não tenho um caminho nem uma norma. Nós como moçambicanos somos produtos daquilo que é a nossa tradição? De um sistema? De um contacto de culturas? Quem somos nós e aonde vamos? Como é que nos relacionamos uns com os outros? Então, estas são questões que não encontram respostas. Por vezes eu digo: houve ao longo do tempo, que a história conta, um período em que não tínhamos o colonialismo, depois veio o sistema colonial e houve muito debate, muita luta sobre várias coisas, incluindo a nossa identidade. Mas depois hasteia-se a bandeira da independência nacional e parece que tudo está bem. Nunca mais se voltou a discutir o projecto de nação. Como é que eu me relaciono com o meu antigo colonizador? Como é que eu me relaciono com o produto híbrido, que pode ser o próprio ex-colonizador que ficou por cá e pode ser até o próprio colonizado? Portanto, quem somos nós a partir de agora? A partir dessas questões fiquei com a vontade de usar a minha experiência da Zambézia para começar a falar da nação. Mas não é por acaso, porque a Zambézia, por aquilo que eu consegui constatar, foi uma região do país severamente afectada pelo colonialismo. Eu penso que a colonização naquela região foi muito mais violenta, pelos relatos que consegui ouvir, do que, se calhar, em algumas partes do país.

- Isso tem reflexo no comportamento e no perfil do zambeziano hoje, é isso que está a dizer?

- Sim, sim e sim! Eles são o que são por causa deste processo. Então, quando eu falo de indivíduo híbrido, estou a incluir aquele indivíduo que na sua aparência é autóctone mas que por dentro já não é; é uma mistura de tanta coisa, de violência, de colonialismo, de luta pela independência e de uma afirmação que nem sei se a independência lhes trouxe.

- Se tivesse que caracterizar o zambeziano, hoje, o que diria?

- É um povo muito sofrido, sei que outros povos que formam o povo moçambicano também sofreram, mas ali... É na sua terra onde o regime colonial português experimentou as suas grandes teorias de miscegenação, falando concretamente das teorias políticas de Gilberto Freire. É uma coisa que se sente, ou seja a pessoa entra naquela terra e sente que “aqui houve alguma coisa”. Eu colocava-me questões como “como foi possível, o que é que aconteceu, como é que se deu este processo?...” E foi com muita mágoa que eu percebi que a materialização destes grandes princípios políticos e filosóficos foi feito no corpo das mulheres. Portanto, é o sangue delas que, de certa maneira, esteve no prato da balança para a construção deste projecto de nação.

- E os homens? O seu corpo não deu alma nem construiu a nação? 

- A situação do homem era outra! O homem é preto, o homem usa a força de trabalho, o homem é morto, o homem é deportado, etc., mas a mulher recebeu um tratamento diferente. Com isso pude também constatar um aspecto que é uma análise de género da história de Moçambique. Eu não sei se isso já alguma vez foi feito mas penso que é interessante analisarmos como é que o colonialismo influenciou as mulheres e os homens em Moçambique. Qual é o impacto de tudo isso na nossa vida, no nosso modo de ser e de estar? Para mim, o comportamento das mulheres, hoje, tem a ver exactamente com tudo o que a sociedade e particularmente elas foram viveram no passado. Tem muito a ver com todas essas políticas que eram ditas de desenvolvimento. As teorias são no papel muito bonitas, mas quando vamos ver na prática, as mulheres falam do seu sofrimento. Há marcas ainda hoje que testemunham isso. Trinta e poucos anos de independência são ainda muito poucos para apagar isso.

- Quais são essas marcas?

- Por exemplo, as nossas relações humanas: a relação da mulher negra diante de um homem branco! Eu às vezes digo, na aparência, pelo menos naquele tempo, a relação não era de amor! Nem sei dizer se as mulheres nessa altura, portanto as mulheres negras, atingiam o orgasmo. Era uma relação de dor e de submissão de alguém que diz “pronto, se eu faço o meu filho preto vai ser morto, então vale a pena fazer um mulato, pelo menos esse viverá”. É mais ou menos isso. Neste livro volto a perguntar: será que essas inquietações do passado já passaram? Quem é que já fez um balanço para saber como é que estamos e para onde estamos a caminhar?

- Na sua opinião a relação preta-branco é mera questão de sobrevivência e não necessariamente de amor? Referiu-se ao tempo colonial. E essa relação de interesse ainda ocorre hoje com a mesma frequência?

- Claro que sim! São sequelas do colonialismo. A situação do negro hoje ainda continua a ser o terror e o medo semeados e desenvolvidos pelo colonialismo. Porque foram muitos anos de violência colonial. A dominação portuguesa naquilo que é o nosso país começou há anos, antes mesmo de Moçambique ser formalmente colónia de Portugal. O mais importante, para mim, é de vez em quando discutirmos essas questões. O que eu coloco no livro é exactamente isso. Por exemplo: o homem negro, durante centenas de anos teve medo do branco, viveu aterrorizado por ele. E não deixará de ter esse medo nas três décadas em que formalmente conquistou a independência política. E isso é visível ainda hoje! A mulher negra, por sua vez, sempre teve medo do homem negro e do homem branco. Então, entre o homem negro e o homem branco ela teme mais o homem branco. Existem relatos soltos por aí assim do tipo num restaurante há vários negros à espera de serem atendidos e aparece depois um branco e ele é o primeiro a ser servido. Isso existe, porque se trata de uma sequela da violência do colonizador, que foi passando de geração em geração. Obviamente de outros factores também. Infelizmente o branco ainda representa em todos os sentidos o poder perante os negros. E a submissão dos negros tem a sua razão de ser. Penso que temos que discutir mais vezes estas coisas. Têm razão os historiadores quando recorrem ao passado para nos ajudarem a perceber algumas coisas e a interpretar aquilo que pode ser o nosso futuro. Em algum momento, durante a guerra de libertação nacional, que no fundo lutou e conseguiu uma libertação política, se discutiu a nação moçambicana. Definimos quem era o inimigo e defendemos que as diferentes raças têm que viver juntas. Alcançámos a independência e parámos de discutir essas coisas. Porquê? Esse debate tem que continuar, porque hastear a bandeira não é tudo. A minha intenção é provocar esse debate no seio da nossa família, a moçambicana, porque mais do que actual, esse debate é necessário.

- Acha que estamos numa situação de auto-desconhecimento, no que toca puramente à identidade, ou somos meros complexados nas relações entre uns e outros com base num mero detalhe que é a tonalidade de pele?

- Esse é um factor psicológico grande e que ainda está em peso nas mentes de muitos de nós. Pretos e brancos. E como factor psicológico isso vai levar muito tempo e muito mais tempo. E coloco as coisas de uma outra maneira: o colonialismo hoje ainda existe dentro de nós. E já não é estrangeiro. Nós somos os nossos próprios colonos. Nós é que nos rejeitamos a nós mesmos: eu como mulher negra rejeito-me, acho que a minha pele não é suficientemente clara e por causa isso tenho que comprar um clareador, que o meu cabelo não é suficientemente cabelo e tenho que ir buscar o verdadeiro modelo de cabelo. Portanto, por um lado temos o homem ou o ser branco a simbolizar o que o colonialismo foi dentro de nós. Mas por outro temos o próprio colonialismo que mudou e fez dos moçambicanos colonialistas de si mesmos. Não sei se estou a ser suficientemente competente, mas li muito Frantz Fanon, sobretudo “Pele Negra, Máscaras Brancas”, Eduardo Mondlane em “Lutar Por Moçambique” e em outros autores como estes encontramos o que aqui me refiro. E acho que não estou a fazer nada de novo. Os outros fizeram o seu pensamento político, as suas filosofias e eu pequei nos mesmos elementos e fiz o romance. De certa maneira, ao mesmo tempo que fazia as minhas leituras ia descobrindo que o colonialismo propriamente dito ainda não foi escrito.

- Não há nada escrito sobre o colonialismo? Os cientistas sociais, a começar pelos historiadores, avaliaram o colonialismo nas suas mais variadas facetas. Tanto aqueles de países colonizados como os dos colonizadores. E escreveram cientifica e sentimentalmente...

- Sim, é verdade. Mas o que eu digo é que nós falámos do colonialismo naquela parte que nos doía na altura. Queríamos a independência e pronto, falámos do colonialismo e o denunciamos. E a vivência, porquê não tratámos dela? Eu sou híbrida, filha de uma terra-macho, mas quando vieram com as armas, com a cruz e com a espada, de tanto a maltratarem, tornaram a minha terra fêmea, porque puseram o povo de joelhos. E quando o meu país recupera o sexo, com a luta de libertação e com a independência o que fica na verdade é o produto às vezes meio hermafrodita que somos. Hoje um dia somos machos e noutro sentido somos fêmeas como povo. Falo disso porque quando surgem as grandes teorias de Gilberto Freire, por exemplo, fizeram da nossa terra uma fêmea, onde as mulheres podiam ser violadas e usadas de qualquer maneira. E ai do homem negro que dissesse “estamos numa era do lusotropicalismo e então eu quero ter uma branca”, ele era morto imediatamente. Então, há que reflectir: o que é que nos deixou o colonialismo, quem somos nós, será que ele foi-se mesmo, com a independência de que tanto falamos desde 1975? Eu, por exemplo, quem me dirige e quem me ensina faz-me entender que para ser bom e para ser considerada primeiro tenho que passar pela escola da Europa. Então cria-se pretos com alma branca. Frantz Fanon já falava disso. Então eu acho que... não sei...

- Nesse aspecto não somos, então, uma terra liberta. Moçambique e África. África e América Latina. E alguma Ásia...

- Não, não, não somos! E não o seremos tão cedo. Acho que a liberdade é um processo. Temos uma bandeira, mas a hasteamos e a fazemos flutuar sobre quê? Não sei quantos anos ou décadas serão necessários, mas nós precisamos de ser libertos. Intelectualmente, economicamente... ainda não atingimos esse estado.

- Essa falta de liberdade não tem a ver com a falta de uma agenda nossa, inteiramente feita por nós mesmos, para nos debatermos? Falamos muito de nós mas com referência nos outros...

- Acho interessante isso! Durante a luta armada, por aquilo que eu consegui ler, sobretudo na poesia de combate, que penso devia ser lida por todos, jovens e adultos, apanho ali uma poesia-macho, de indivíduos que lutam por um ideal. Eh, pa! Ficámos com a dita independência e de repente parece que parámos no tempo e na luta. E acho que a culpa não é de quem trouxe a independência. Temos instituições, públicas ou não e a Associação dos Escritores é uma delas, que deviam criar espaços para esse debate. Os escritores têm que lançar esse debate. Os académicos, os políticos, os homens simples que tanto deram do seu pensamento, ainda que não reconhecido, para alcançarmos algumas das poucas coisas que alcançámos.

- Os moçambicanos estão aparentemente a resgatar o sentido de algo de nobre que há muito não se ouvia no nosso país, a auto-estima e o próprio Presidente tem insistido muito nisso nos seus discursos. De que é que estávamos à espera?

- Andámos a dormir! Os moçambicanos adormeceram talvez por motivos justificáveis. Como a própria euforia da independência, que tinha que ser digerida. Mas já chega, vivemos essa euforia e agora é preciso acordar e dizer “sou eu, aqui estou. Sou produto de uma luta justa, porque a minha terra tinha sido transformada em fêmea e era preciso lutar para recuperar a sua masculinidade”. É momento de começarmos a debater estas questões. A Associação dos Escritores, por exemplo, serve definitivamente para isso. As instituições académicas, religiosas, governamentais, etc. Isso é uma agenda que deve pertencer a todos. A nossa auto-estima como cidadãos é muito baixa! Eu conheço o moçambicano. Quando vai a uma conferência fora do país numa sala cheia de brancos enche o peito de ar ou empina o rabo e diz “eu sou assimilado” e não tem a coragem de dizer “eu sou negro e venho de Moçambique”. Já vi isso várias vezes. Algumas vezes até criticam-me dizendo “tu és muito tradicionalista...” Lembro-me agora que estive na feira internacional de Frankfurt com algumas pessoas que não eram de Moçambique mas dos países de expressão portuguesa, que foram muito preocupadas em falar o seu melhor português. Olhei para aquilo e fiquei assustada. E disse-me a mim mesma: “eu vou falar na língua da minha terra” e disse-lhes tranquilamente “esta língua que eu falo é aquela que os escravos falavam nas plantações de algodão”. E disse-lhes que falo essa língua e o português porque é outra língua que me deixaram. E fui a mais aplaudida!

18 de fevereiro de 2025

Moçambique: “Clic’s” de Rangel no pincel de José Pádua (Francisco Manjate, 2008)


Ricardo Rangel é muito mais do que um fotógrafo que nos oferece a imagem através de clic’s únicos e instantâneos. Ricardo Rangel é a essência das coisas porque a sua fotografia transporta consigo a dimensão cultural, política e social. Ricardo Rangel é a celebração da vida em si. Vida feita de imagens e histórias. Histórias de Homens e lugares. Uns góticos outros comuns, mas sempre carregados de essência.

A fotografia de Ricardo Rangel celebra a vida, e a sua essência é para lá do tempo e do universo moçambicano, para se situar numa dimensão da humanidade e de todos os tempos.

Mas esta fotografia é, sobretudo, a súmula da nossa história. Da História de Moçambique. História cultural e política, social e também económica.

Ricardo Rangel é um dos mais importantes fotojornalistas de África, e porque não do mundo? E com a sua máquina fotográfica registou memórias inesquecíveis do nosso passado, do presente e que, a partir delas, nos fazem compreender o que será o nosso futuro, porque ele teve, de alguma forma, um “olho visionário”. De lince. Olho que viu e continuar a ver para além do comum, do simples e do fútil.

Na sua escola – Centro de Formação Fotográfica – Ricardo Rangel não só ensina, diariamente, aos seus alunos, a arte de fotografar através da máquina fotográfica, mas é muito mais do que isso. Ele ensina a arte de registar imagens para a posteridade. Ensina que a imagem fotográfica é antes de tudo, a alma daquele que retrata a história, não somente a figura humana, mas a sua história, o seu mundo, o seu envolvimento.

Ricardo Rangel transmite a confiança, a história, a cultura de um povo, a compreensão dos fenómenos que se pretende registar. Os clics são muito mais do que pegar numa máquina fotográfica e “disparar” para ter fotos. É transmitir a energia existente, tal como as batidas fortes do Jazz e do Blues, do Swing e do Smooth, vertentes musicais que o decano da nossa fotografia abraçou e continua a amá-las como ama a fotografia, a paz e a liberdade.

E se ele ama a paz e a liberdade, concordamos então com a vice-ministra da Educação e Cultura, Antónia Xavier, quando afirmou, no dia do lançamento do livro “Ricardo Rangel: Homenagem de Amigos”, que mais do que dizer que Ricardo Rangel é um excelente fotógrafo, o que há muito se sabe, falar de Ricardo Rangel é falar de um homem que sempre pautou por ideais de humildade e honestidade e que na sua nobre missão denuncia as injustiças e as atrocidades deste mundo.

Falar de Ricardo Rangel é também “falar daquele que eterniza momentos chaves da vida através da imagem, com um significado que exige a interpretação do receptor para a sua compreensão, e que influenciam bastante a formação da crítica e auto-crítica do cidadão, sobre os assuntos cruciais do nosso quotidiano”, este é o sentimento da vice-ministra.

Por isso, a fotografia, tal como toda a arte contemporânea, é uma ferramenta de percepção para a transformação e abertura de novos horizontes da construção da nossa moçambicanidade.

E os amigos decidiram obsequiar-lhe com um livro onde José Pádua, seu amigo de longa data – conheceram-se na década de 1950 na cidade da Beira – pegou nas suas fotografias, particularmente aquelas em que Rangel retrata as crianças e “clicou-as” com pincéis, tinta e na tela.

José Pádua pintou vários quadros a partir de fotografias de Ricardo Rangel, e a escolha por imagens sobre crianças é que ambos – Rangel e Pádua – sempre gostaram de fotografar e pintar as crianças. Sempre tiveram uma grande ternura por crianças, daí Pádua ter sugerido a Rangel que lhe permitisse pintar, a partir das suas fotografias, vários trabalhos. Mais tarde surgiu a ideia de imortalizar tudo isso em livro, sendo que o mesmo ainda apresenta textos escritos por várias personalidades do cenário social e cultural moçambicano.

Vai daí que, o decano da nossa fotografia diga que dedica o livro ao seu amigo e companheiro de trincheiras José Pádua. E que o mesmo é mais de Pádua do que dele propriamente.  

Escola com nome de Rangel

Mas porquê discursos na obra de Ricardo Rangel, se a sua obra por si só é superior a todos os discursos que se pretendem enunciar e tal como o seu autor, ela sabe situar-se por cima de todas as coisas fúteis, com engenho e arte. Ela não necessita de discursos e, muito menos ainda, de justificações. Ela, antes de tudo fala por si mesma, traduzindo o sentimento e a reflexão crítica em torno de questões sociais, ambientais e educacionais.

“Permitam-me sublinhar as palavras sábias do nosso Decano da Fotografia Moçambicana, por ele pronunciadas aquando da exposição sobre os 100 anos da Beira, passo a citar ‘O Mundo andará melhor se houver mais fotógrafos’ existirem melhor andará este mundo porque esta classe reporta com fidelidade qualquer realidade deste Planeta”, disse Antónia Xavier.

Aquela governante deu a conhecer ainda que o Governo, juntamente com os seus parceiros, estão a equacionar a possibilidade de construir uma escola secundária que ostente o nome de Ricardo Rangel, como uma das formas de imortalizar a sua vida e obras.

Quanto à editora Ndjira, que chancela a obra, esta, na voz do seu gestor, Fernando Couto, sente-se feliz pela edição de um livro que beneficia da especial característica da junção das actividades artísticas de dois vultos de relevo nas artes fotográfica e pictórica – Ricardo Rangel e José Pádua – e da circunstância de os seus autores serem amigos de longa data.

A Ndjira também se sente orgulhosa, porque esta obra constitui a sincera homenagem prestada por alguns admiradores ao incontornável fotojornalista que é Ricardo Rangel, autor de uma obra que tem vindo a plasmar o retrato inconfundível – inconfundível pelo seu carisma humanístico e pelo seu mérito expressionista – deste povo nas suas vivências e nas mais diversas faces.

17 de junho de 2018

1 de outubro de 2013

Os Marimbeiros de Zavala (1965)


Podem ser considerados com um nível de capacidade artística muito mais elevado que o da maioria dos músicos africanos na parte meridional do continente.

Os famosos «Marimbeiros» de Zavala pertencem ao povo chope, grupo étnico fixado no Sul do Save, entre Inhambane e João Belo e que foi o primeiro a tomar contacto com os portugueses vindos da Europa e o primeiro também a ser cristianizado. É, pois, secular a sua integração no conjunto de povos que forma a Nação Portuguesa.

A música das orquestras de timbilas dos chopes é sobejamente conhecida entre os maios que se dedicam ao estudo da vida musical africana. O musicólogo Hugh Tracey tem dedicado a ela especial atenção, sendo de opinião que «… a arte musical chope está longe de ser simples e primitiva. A notável fecundidade artística dos compositores e o elaborado dos bailados não permitem considerar estas manifestações da sua música na categoria de danças regionais. Colocam-nas, sim, num nível de capacidade artística muito mais elevado que o da maioria dos músicos africanos na parte meridional do Continente.

Estas actividades revelam carácter acentuadamente social, constituindo um factor de relevo para a manutenção da unidade tribal e para afirmação da comum lealdade dos seus membros ao respectivo chefe. As canções mostram desenvolvida intuição poética, quinda que a necessidade de combinar as letras com o acompanhamento musical e com os bailados ponha de parte a improvisação e a criação espontânea, características fundamentais e comuns da música folclórica africana. Por outro lado, os bailarinos necessitam de uma estrutura musical e vocal exacta para que possam sincronizar com ela os passos que acompanham por pancadas em perfeito uníssono dos escudos e das lanças ou machadinhas. Assim, necessita o verso de estrofes regulares e pré-estabelecidos, abolindo-se os caprichos dos executantes. Por todos estes motivos, torna-se indispensável a regência de um condutor que dê forma e que discipline o conjunto. O que não quer dizer que as letras, as músicas e a coreografia se petrifiquem.» Pelo contrário, Travey, após a sua viagem de estudo por grande parte do continente africano realizada em 1949-50, não deixou de frisar que, entre os chopes de Zavala, em todas essas facetas tinha havido renovação completa durante os quatro anos que mediaram entre as suas duas últimas visitas.

Esses poemas desempenham entre os chopes uma interessante missão de regularização e de condicionamento da conduta individual em conformidade com os respectivos valores culturais, missão em que só são igualados pelos aforismos. Reflectem as condições sociais, verberam as injustiças, criticam os que não cumprem os seus deveres ou os que abusam do seu poder, ridicularizam a vaidade, a preguiça e outros defeitos e comentam acontecimentos quotidianos.

Fonte: Arquivo Pessoal

16 de setembro de 2011

Maputo: O cinema construiu imagem da nova nação (Ruy Guerra)


O cinema construiu imagem da nova nação

Ruy Guerra , autor do filme “Mueda, Memória Massacre” é homenageado hoje, em Maputo. Uma homenagem merecida, daquele que é considerado o percursor do cinema nacional, agora a residir no Brasil, país que elegeu como sua segunda pátria, desde 1958. A iniciativa de homenageá-lo é da Universidade Técnica de Mocambique (UDM), em parceria com o DOCKANEMA, e este foi um pretexto para uma longa e interessante conversa com o autor.

Porque abandonou Moçambique?

Naquela época havia aqueles movimentos da juventude contra o salazarismo, nomeadamente o movimento de unidade democrática, quando a Polícia Internacional de Defesa do Estado (PIDE) foi instalada aqui em Moçambique nós fomos perseguidos porque nós escrevíamos, era um grupo que escrevia e que faziam parte Rui Knopfli, João Mendes, Noémia de Sousa, era um grupo com forte expressão cultural e que era alvo de perseguições enquadradas numa lei sobre qualquer coisa como segurança nacional. O caso mais grave é que nós éramos menores pouco podiam fazer contra nós. Lembro-me que João Mendes foi deportado na época para Angola e depois para a Ilha do Sal, ele era maior tinha entre 27 e 28 anos e nós tínhamos entre 17 e 18 anos.

Consta-me que apesar de ser menor foi preso na sequência dessas perseguições que eram alvos da PIDE. Confirma?

Não chegamos a ficar presos, éramos menores, estudantes do liceu. Também havia aquele estatuto colonial e havia contradições porque o próprio do governo da época não queria que a PIDE se instala-se aqui. Portanto, eles não agiam com muita força, foi um passo gradual que eles estavam usando sobre o aspecto da repreensão. Então a gente era detida e volta e meia lá no liceu escrevíamos um artigo e ia lá alguém prender um de nós. O reitor nunca deixava o jeep da PIDE entrar na escola e assim conseguíamos fugir. Nunca fiquei preso mesmo.

7 de maio de 2010

Conjunto 1º de Maio: 30 anos de uma banda com história de hoje


Conjunto 1º de Maio: Trinta anos de uma banda com história de hoje

Há 30 anos atrás, um grupo de jovens integrando trabalhadores e estudantes, amantes da cultura, e, principalmente, da música, resolveu se juntar e fundar um grupo musical. A ideia foi amadurecida, e no dia 1º de Maio de 1980, na Cidade Zambeziana de Quelimane, foi fundado o conjunto musical que foi baptizado pelo nome de 1º de Maio, em homenagem aos trabalhadores de todo o mundo, que, a cada 1º de Maio, comemoram o dia de luta por melhores condições de trabalho, melhores salários, segurança social, entre outras.

Este grupo, cedo revelou-se como uma sensação nacional, pela qualidade da música que tocava e o conteúdo das suas mensagens. E os espectáculos que realizava em cada canto deste país, cativava o público, que sentia as suas aspirações, sonhos e ambições reflectidos nas letras das suas músicas.

1 de março de 2010

Chonguiça figura no documentário “Mamã África”


Chonguiça figura no documentário “Mamã África”

Diversidade cultural dos países africanos trazida para o cinema.

Não precisei ir às Américas ou à Europa para me fazer conhecer. Em África, sinto-me bem... Hoje, sou o que sou e os meus galardões dedico a Moçambique".

O saxofonista moçambicano Moreira Chonguiça é uma das figuras que vai integrar a equipa de actores escolhidos para participar na segunda etapa de documentários sobre as diversidades culturais e riquezas dos países africanos. Chonguiça, que através da sua arte fez sucesso e hoje é um ícone da cultura africana contemporânea, tem no documentário a missão de contar sua história.

“Mamã África” é designação do filme que mostra a real diversidade etno-cultural de África, em que as expressões culturais provam que o nosso continente é rico em culturas promovidas pelos seus respectivos povos.

25 de fevereiro de 2010

Moçambique: VI Festival Nacional da Cultura


VI Festival Nacional da Cultura: Expondo a riqueza da diversidade

O País vive desde o último domingo, uma grande movimentação artístico-cultural, no quadro da realização do VI Festival Nacional da Cultura, promovido pelo Governo com o objectivo de preservar, desenvolver as artes, a cultura e as tradições das diferentes comunidades. Trata-se de um momento impar de interacção e intercâmbio, mas também de divulgação do rico e diversificado património cultural do país.


A fase final do festival vai decorrer em Chimoio, capital provincial de Manica, entre os dias 27 Julho e 01 Agosto próximos, onde além de espectáculos públicos de teatro, música, dança, cinema, serão realizadas exposições/feiras de venda de produtos culturais, nomeadamente livro, disco, fotografia, arte e artesanato, vídeo-documentários, filmes, culinária e roupa/vestimentas moçambicanas.


 
São cerca de 880 participantes entre artistas e oficiais acompanhantes, idos de todas as províncias do país que vão corporizar a fase final do festival.

Para a materialização do evento, o Governo mobilizou cerca de vinte milhões de meticais.

1 de fevereiro de 2010

Moçambique: Instrumentos musicais





Moçambique: Instrumentos musicais

São vários os instrumentos utilizados pelos músicos em Moçambique. Os mais conhecidos são a timbilia, tambores de percursão, guizos feitos das massalas e as Chigovias, tipo maracas também confeccionadas com o mesmo material. Mas há outros. Na Mozart, no centro de formação de jovens Maneto Tefula faz orgulhosamente vários instrumentos musicais.

24 de janeiro de 2010

Xigubo - Dança tradicional moçambicana


Xigubo - Dança tradicional moçambicana

Xigubo é uma dança tradicional moçambicana e que representa a resistência colonial do país sobretudo na região sul. Maioritariamente praticada nas regiões interiores de Gaza e Maputo, a dança tem poucos praticantes ao nível das cidades.

É tendo em conta este facto que a Associação Cultural Ucheni, localizada na Cidade de Maputo, está a desenvolver um programa que visa ensinar os passos do xigubo a crianças.

2 de outubro de 2009

Moçambique: Cantora cabo-verdiana, Lura, actua hoje em Maputo


Música - Cabo-Verdiana Lura actua hoje em Maputo A cantora cabo-verdiana, Lura, está em Maputo para um concerto de apresentação do novo disco intitulado “Eclipse”. O disco é constituído por 13 temas e integra trabalhos de vários compositores na sua grande maioria cabo-verdianos como Michel, B. Leza, Mário Lúcio Toy Vieira, do falecido Orlando Pantera, Alfredo Gomes Monteiro ou o italiano Giacomo Pedicini, entre outros. Em relação aos estilos musicais Lura adianta: “São diferentes ritmos de Cabo Verde diluídos em ritmos que foram sendo criados à medida que o trabalho no estúdio se foi desenvolvendo. Mas temos morna – há aliás um encontro da morna com o fado tocado pela guitarra de Pedro Castro – funaná, coladera, tango, funkie. É uma grande mistura.” Lura não tem dúvidas que a sua grande fonte de inspiração “é a vida, dia-a-dia, as pequenas e grandes coisas da vida e sobretudo Cabo Verde. Estou a fazer um percurso de regresso às minhas origens, cantando coisas que têm a ver com a minha cultura, com a história dos meus pais, dos meus avós, essa é a minha grande inspiração.” De Moçambique confessou que “é sempre um prazer regressar e ver que as pessoas conhecem as minhas músicas. Sinto-me em casa. É uma honra cantar para vocês”, rematou. Recorde-se que este novo trabalho de Lura – é o quarto álbum – foi gravado em estúdios de Lisboa, Cidade da Praia, Bruxelas, Paris e Nápoles (Itália), surgindo três anos após "M'bem di Fora", disco que a consagrou como uma das novas e mais bem sucedidas cantoras de Cabo Verde. A cantora actua hoje, às 21,45, na sala da Centro Cultural Universitário da EUM, em Maputo. Cristóvão Araújo SAPO MZ, 02 de Outubro de 2009

24 de setembro de 2009

Moçambique: Três artistas repartem prémio da “bienal” da TDM


Três artistas repartem prémio da “bienal” da TDM Os artistas plásticos Domingos William Comiche, Faizal Omar Ussumane e Titos Moisés Pelembe são os grandes vencedores da 10ª Bienal de Artes Plásticas das Telecomunicações de Moçambique (TDM), cuja cerimónia de premiacao teve lugar na passada terça-feira no Museu Nacional de Arte, em Maputo. Foi a primeira vez que a distinção foi feita, independentemente das modalidades em que os artistas participaram, por forma a “acabar com a discriminação ou hierarquização das categorias participantes”, segundo referiu o presidente do Conselho de Administração da TDM, Joaquim de Carvalho. Os prémios dos vencedores desta 10ª mostra de Artes Plásticas, que se realizou sob o lema "Espaços de Hoje: Desafios e Limites" que variam entre 150 mil meticais para o 1º lugar, 100 mil meticais para o 2º lugar e 50 mil para o 3º lugar - foram entregues numa cerimónia que marcou a abertura da exposição constituída por 77 obras seleccionadas de 49 artistas participantes. Maputo, Quinta-Feira, 24 de Setembro de 2009:: Notícias

12 de agosto de 2009

Ritmos cruzados na Ilha de Moçambique

Ritmos cruzados na Ilha de Moçambique Teve início ontem e irá terminar no próximo dia 15 o acampamento “Glomus 2009”, um evento que está a trazer à Ilha de Moçambique música de vários continentes. O projecto, intitulado “redes de música”, é uma iniciativa da Academia Real de Música de Aarhus da Dinamarca e da Academia de Música Sibelius da Finlândia e conta também com a cooperação com a Universidade Eduardo Mondlane. A GLOMUS network que reúne Instituições de Ensino Superior de música Nórdicas e as suas parceiras Africanas e do Médio Oriente. O objectivo deste acampamento é fortalecer o intercâmbio académico entre estudantes e professores bem como facilitar a criação de projectos comuns na área de educação musical. Deste modo, músicos da Dinamarca, Finlândia, Noruega, Suécia, Mali, Senegal, Gana, África de Sul e Síria vão actuar em conjunto e explorar novas sonoridades. No dia 12 o evento contará com a presença de Marcelino dos Santos que apadrinhou o projecto musical de troca de experiências desde a primeira hora. A logística está a cargo da Universidade do Unilúrio. O seu grupo musical fez mesmo as honras da casa ao participar na cerimónia de abertura. Para o seu Reitor, o Doutor Ferrão, o intercâmbio foi tão grande que “os alunos tornam-se dançadores de tufo, e as dançadoras alunas universitárias.” Segundo o Reitor este projecto Musical faz parte de uma intenção da Unilúrio de formar “não só técnicos de saúde, mas pessoas educadas e capazes de vencer os desafios”. O programa de actividades termina com um concerto no dia 14 de Agosto, em que estarão presentes não só os participantes do acampamento como grupos musicais da ilha. No entanto Maputo pode contar com um pouco da atmosfera da Ilha: Jimo Mendes, um dos organizadores, prometeu aparecer na Associação de Músicos de Maputo com alguns dos participantes no sábado, dia 15 de Agosto. “Espero que Maputo sinta um pouco da “Música global” que na Ilha de Moçambique se viveu durante a semana do Glomus2009”, referiu Jimo. Cristóvão Araújo Sapo MZ, 11 de Agosto de 2009

11 de agosto de 2009

Maputo: Companhia Nacional da Canto e Dança (CNCD) promove curso de dança


Trigésimo aniversário: A CNCD promove curso de dança Maputo (Canalmoz) - A Companhia Nacional da Canto e Dança (CNCD) promove a partir do próximo dia 15 do corrente mês de Agosto, em Maputo, um curso de dança, destinado a todos os amantes desta modalidade. O evento, enquadra-se nas celebrações dos 30 anos da sua existência, que vem decorrendo deste o fim de Julho e que junta, no cine-áfrica, vários grupos culturais desde a dança, canto, música, teatro, poesia, humor, na saudação daqueles que são a maior manifestação cultural da país. O curso de dança irá iniciar a 15 de Agosto, com duração de duas semanas. Com ele espera-se transmitir a todos os interessados a experiência adquirida pela companhia ao longo desses anos. Para que a CNCD possa acolher um maior número de participantes, irá contar com o apoio das casas de cultura de Maputo, como o Teatro Avenida, Centro Cultural Brasil Moçambique, Centro Cultural Franco-Moçambique, Casa da Cultura do Alto Maé, entre outras casas de cultura de Maputo. “Sentimos que há muitos interessados em participar neste curso de dança, por isso decidimos dividir em duas fases de modo a abrir espaço para que todos possam participar, porque afinal de contas, eles também merecem saudar a companhia, e nos nossos eventos queremos que todos participem e possam dar o seu contributo para que a CNCD cresça ainda mais e represente Moçambique nas melhores competições mundiais”, disse-nos Virgílio Sintole. Ele acrescentou que é preciso reconhecer que a companhia só é o que é hoje, graças ao esforço empreendido por cada um dos moçambicanos. Este espaço serve para dar oportunidade a todos para se expressarem culturalmente e junto da CNCD podermos mostrar o que somos capazes a nível da cultura, prosseguiu. Afirmou ainda que “isso nos engrandece, porque a CNCD, é esta diversidade cultural e pretendemos, sempre que pudermos, nos unir para troca de experiencia e selecção de novos talentos”. De referir que pela celebrações dos 30 anos da sua existência, a Companhia de Canto e Dança (CNCD), já realizou, no Cine-África dois espectáculos evolvendo mais de 70 grupos culturais de quase todas as modalidades do país. Por outro lado informaram-nos que delegações culturais de todas as províncias moçambicanas vão organizar, até ao final deste mês, várias manifestações culturais em reconhecimento do papel que esta tem vindo a desempenhar dentro e fora de Moçambique, a nível da cultura, e que coloca o País num lugar de destaque no continente africano e nas competições internacionais. (Sandra Sigauque) 2009-08-11

10 de julho de 2009

Maputo: Reggae anima discoteca Coconuts


Reggae anima Coconuts A discoteca Coconuts, em Maputo, não encheu – aliás esteve bem longe disso – para escutar os ritmos jamaicanos do Reggae na noite de ontem. O espectáculo, intitulado “Duas Mentes”, teve o palco dividido entre o moçambicano Ras Tony, líder da banda Maputo Land, e o famoso intérprete jamaicano Trevor Hall, conhecido por Ras Trevor. Aliás, foi esta partilha que serviu de inspiração para o título. “Duas Mentes é uma iniciativa de troca de experiências entre dois artistas que se conheceram há mais de 20 anos, num concerto na Suazilândia”, recordou Ras Tony. Uma das finalidades do concerto de ontem era aproximar o conhecimento do Reggae que se faz em Moçambique do que se faz na Jamaica, terra onde nasceu este estilo de música que tem como ícone o jamaicano Bob Marley. O momento alto da noite foi a actuação de Trevor Hall que, apesar da idade, mostrou estar em grande forma, mexendo-se em palco como poucos. Depois de saudar em português a plateia, Hall mostrou-se extremamente satisfeito por actuar novamente em Moçambique – já o havia feito há 20 anos – afirmando que o Reggae moçambicano tinha feito muitos progressos nas últimas duas décadas. Hall lembrou ainda que o Reggae, embora tenha despontado na América, teve origem em África “levado pelos escravos negros como uma forma de protesto.” Hall, sempre acompanhado por uma curta bengala e por um colorido boné de lã, cumpriu a promessa: o público, com a sua actuação, ficou a conhecer a essência do Reggae. Cristóvão Araújo Sapo MZ, 10 de Julho de 2009

9 de julho de 2009

Maputo: Marrabenta amanhã no Centro Cultural Franco-Moçambicano


Marrabenta amanhã no Franco-Moçambicano O Centro Cultural Franco-Moçambicano, em Maputo, acolhe amanhã, dia 10 de Julho de 2009, às 20,30 Horas, um concerto de gravação de duas figuras conceituadas da música Marrabenta: Dilon Djinji e a Orquestra Djambu. Este evento, realizado no âmbito do Festival Marrabenta, surge com o objectivo de contribuir para a preservação e promoção da cultura moçambicana, através da assunção de atitudes, prática de composição, performance, programação de eventos musicais, debates, formações de artistas e promotores de artista, técnicos e público em geral. Um dos compromissos do Festival de Marrabenta com os vários artistas e músicos conceituados que irão actuar é a gravação, em concerto, de um DVD e áudio de dois músicos ou agrupamento como forma de promoção da auto-sustentabilidade da arte e dos trabalhos realizados pelos músicos. Neste contexto foi criado a Rádio Marrabenta, um espaço de promoção e divulgação dos trabalhos passados em revista no festival. Recorde-se que esta a primeira gravação que é feita no âmbito do projecto Festival Marrabenta envolvendo estes dois artistas: Dilon Djinji e a Orquestra Djambu. Dilon Djinji Nasceu a 14 de Agosto de 1927, na Província de Maputo, distrito de Marracuene, tendo iniciado a sua carreira musical em 1939, com apenas12 anos de idade. Em 1960 criou o grupo Estrela de Marracuene e a sua primeira actuação foi em 1964 na rádio, na estação Voz Africana. A partir de 2001 é membro do grupo Mabulu com o qual tem feito digressões internacionais. As suas músicas surgem de factos sociais do dia-a-dia e de relatos bíblicos. As notas das suas músicas têm influência da Igreja Missão Suíça, onde foi pastor. Dilon recria-as em forma de notas musicais, acabando por ser um músico que, acima de tudo, busca o ensinamento nas suas composições. Entre os seus sucessos destacam-se: “Maria Teresa, Angelina, Achintlanwana, Maria Rosa e Podina”. O seu primeiro álbum foi gravado em 1973 através da casa discográfica “Produces 1001” e em 2002 gravou o seu primeiro trabalho internacionalmente a solo pela editora Riverboat, intitulado Dilon. Orquestra Djambu Quando foi criada, na década de 50, era formada por alguns membros do Centro Associativo dos Negros da Colónia de Moçambique denominada Ntyndia. Dela faziam parte: Moisés Ribeiro da Conceição (viola), Domingos Mabombo (piano), Tiago Bila (trombone), José Mondlane (bateria), Manuel Hassane (trompete) e Orlando (saxofone). Mais tarde, por exigência dos associados do centro, a Orquestra adoptou o nome Djambu. Nessa época, interpretava temas de grande êxito internacional com uma diversidade de estilos musicais que ia do Jazz, ao Swing, passando pelo Samba. Na década de 60, com o aparecimento na arena musical de alguns países africanos, passaram a preocupar-se em trabalhar mais em ritmos africanos e moçambicanos e todos se lembram das famosas canções “Elisa we” e “Ni Tawa”. Actualmente conta com cerca de 16 elementos, interpretando ritmos moçambicanos como a Marrabenta, Xiparatuana, Xingombela, Xingomana, Xigubo, Mfena, Hlame. Sapo MZ, 9 de Julho de 2009

8 de junho de 2009

O artista plástico e escultor moçambicano, Malangatana, completou, este sábado, 73 anos




73º aniversário de Malangatana O artista plástico e escultor moçambicano, Malangatana, completou, este sábado, 73 anos. A data foi marcada por um jantar surpresa, organizado pela família, amigos e admiradores do artista, no restaurante Ibo em Lisboa. Do evento constou uma parte cultural com a actuação do Grupo Teatral Xipane pane, música do intérprete e saxofonista Otis. Contou também com a presença do Embaixador de Moçambique em Portugal, Miguel Nkaima e sua esposa Glória Nkaima, assim como personalidades do mundo da arte e política. "Achei estranho quando a minha filha sugeriu que jantássemos no restaurante do Pedrosa (proprietário do Ibo que foi o reponsável pelo jantar). Mas, quando cheguei, vi que estavam cá todos os meus amigos", Ffisou Malangatana. Malangatana encontra-se em Portugal a convite de José Henrique e da Câmara Munincipal do Barreiro (CMB), a trabalhar numa escultura de pedra mármore que será colocada na Praça da Amizade, junto a uma das entradas do Fórum Barreiro. O restaurante Ibo foi pequeno para a quantidade de gente que esteve presente para dar os parabéns a este que é o rei da arte moçambicana. Foi um jantar tipicamente moçambicano, que teve como prato principal caril de frango. "Estou doido de contente e e meu telemóvel não pára de tocar", acrescentou o artista. Sílvia Panguane SAPO MZ, 08 de Junho de 2009

3 de junho de 2009

Manuela Soeiro, tem 64 anos e é directora do grupo de teatro Mutumbela Gogo

Conta-me a tua infância: Manuela Soeiro, tem 64 anos e é directora do grupo de teatro Mutumbela Gogo “Nasci no Ibo, uma ilha na província de Cabo Delgado, a 24 de Janeiro de 1945. O meu pai era carpinteiro, natural bambém desta ilha. E na juventude veio para Lourenço Marques porque queria ser padre. Era mestiço. Tinha sangue branco, indiano e negro. No seminário não o aceitaram, por ele não ser puro. Ser misturado era pecado. Da parte da minha mãe tínhamos sangue judeu, grego e negro. A minha família adquiriu o nome português quando o governador do Ibo era um Abílio Lobão Soeiro. A minha avó pediu para ele ser padrinho de baptismo do meu pai e naquela altura era costume dar-se às crianças os nomes completos dos padrinhos. Apadrinhar era isso mesmo. O meu pai era um excelente contador de histórias. À noite ficavam todos a ouvi-lo. Cantava também aquelas cantigas medievais de escárnio e maldizer. À noite juntava as shas (as mulheres mais velhas) a quem ele também contava histórias. Por vezes ia mesmo a casa das pessoas. Aquilo fascinava-me muito. As histórias eram fábulas de animais, a grande maioria era para crianças. Sabia também muitas histórias do Ibo. Estas histórias despertaram-me o bichinho do teatro, porque afinal o teatro também é contar histórias. Aliás, o meu pai também fazia teatro. A minha família não tinha recursos – éramos seis filhos todos a depender do meu pai – por isso vim estudar para um colégio de órfãos salesianas na Namaacha . Passado pouco tempo o meu pai morreu. No colégio, lembro-me de contar muitas histórias às colegas mas elas ouviam-nas sempre agarradas umas às outras porque essas histórias metiam algum medo. O colégio tinha uma boa biblioteca e eu, às escondidas, roubava livros sem as freiras saberem. Sorrateiramente lia durante a noite. Uma vez acendi uma lamparina às escondidas e ia queimando o colchão. Como castigo fiquei muito tempo sem ler. A dada altura uma freira brasileira, que sabia o valor que eu dava à leitura, passava-me livros, sem ninguém saber. Eu tinha uma sôfrega vontade de brincar e de fazer coisas que as outras tinham medo. Lembro-me de jogar basebol – havia qualquer ligação do colégio aos EUA – saltar ao eixo, fazer corridas. Nas férias, como era do extremo norte, ficava no colégio sem ir a casa, por isso ficava sedenta de coisas. Lembro-me que o prémio para o primeiro lugar nas corridas era uma barrita de chocolate e por isso eu corria mais do que os outros. Durante os anos que estive no colégio nunca fui de férias ao Ibo, mas a minha mãe veio duas vezes visitar-me ao colégio. Foi no colégio que o teatro começou a entrar mais a sério na minha vida. Lembro-me que a primeira peça em que entrei era o ‘Quo Vadis’, mas era escrito para ser representado exclusivamente por raparigas, porque aquilo era um colégio só de meninas. As personagens masculinas eram faladas mas não havia intérpretes. Eu fazia de escrava.” Cristóvão Araújo Sapo MZ, 01 de Junho de 2009

30 de abril de 2009

Arte do Batike nas ruas de Maputo


Arte do Batike nas ruas de Maputo Orlando é um artista empreendedor. A sua banca de rua, no centro de Maputo dá cor à estrada enchendo de alegria os olhos de quem passa. É um verdadeiro estendal de arte. Pinta há dez anos e foi na escola de artes visuais situada também naquela cidade que aprendeu a fazer batikes - uma obra de arte em pano. Explica que o primeiro passo para fazer um batike é comprar o tecido e saber cortar os panos no tamanho certo. "Nunca se faz apenas um. No mesmo processo podemos conseguir dez diferentes", explica. Depois faz os desenhos, a seguir leva cera para isolar e depois deste processo é a altura de mergulhar o pano na cor mais fraca que é o amarelo. "Sempre do mais claro para o mais escuro até ao preto", explica. Um trabalho que dá muito trabalho. Após a aplicação das cores, vem de novo a colocação da cera e mais tarde os panos são colocados em papel de manteiga ou Kaki e passam-se a ferro. "Fazer um batike pode demorar três dias", contabiliza. Um dos problemas é o preço dos materiais, Orlando explica que um dos componentes que lhe falta é o fixador para manter as tintas caso chova. "Quando começa a chover temos de tirar todos os batiques para não se estragarem". Orlando também pinta a óleo. E garante que consegue ganhar a vida com esta arte, dizendo que são os turistas que lhe garantem a sua subsistência. "Os locais nem conhecem o que é um batike. Os visitantes perguntam e veêm que é algo tipicamente africano. A nossa cultura, como por exemplo as mulheres a pilarem..." Teresa Cotrim SAPO MZ, 30 de Abril de 2009